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    Na entrada da casa, Kaito e eu vestimos nossos casacos, ainda meio encharcados. A chuva ainda não tinha diminuído sua intensidade, mas mesmo assim, já era hora de eu ir para casa.

    — Corre rápido até o carro, pra não se molhar muito — ele disse apressadamente,  já se virando. 

    Acenei a cabeça, assentindo. Ele então girou a maçaneta, abrindo a porta de casa. No mesmo instante, o vento intenso e gelado entrou, esfriando rapidamente o ambiente.

    Meus ombros encolheram no mesmo instante, e, acabei virando a cabeça levemente, vendo Yuki parada no corredor com um olhar levemente mais sério do que o habitual, quase como se ela estivesse guardando algo.

    — Tchau, Shin! Boa noite e boas festas — ela finalmente disse, acenando com um pequeno sorriso no rosto.

    — Igualmente! — respondi, coçando a bochecha, com meu tom se suavizando mais levemente do que eu esperava. — E… obrigado por ter me deixado ficar.

    Ela sorriu ainda mais, balançando a cabeça como se dissesse algo como “Não há de quê.” 

    — Vamos — Kaito disse, já se preparando para correr para abrir o carro, e eu fiz o mesmo.

    Mas… assim que atravessei a porta, já quase correndo, senti a barra da minha camisa sendo puxada delicadamente, mas firme o suficiente para me fazer parar.

    “Hã?”

    Parei, sentindo uma mistura de confusão e curiosidade, e então me virei. 

    Yuki estava com a mão estendida, os dedos apertando o tecido, enquanto a outra mão segurava sua própria camisa. Sua cabeça estava levemente baixa, e os cabelos cobriam parcialmente o rosto… corado?

    — Hm… Yuki? — eu comecei, me perguntando o que ela estava fazendo ao me segurar.

    Ela se manteu em silêncio por alguns segundos tensos, quebrados apenas pelo som intenso da chuva do lado de fora. 

    E então… levantou a sua cabeça lentamente.

    — M-me desculpa novamente pelo o que aconteceu — ela respondeu, com a voz sendo quase difícil de escutar por causa do vento. — Mas obrigada por ter me acompanhado…

    Ver ela se desculpando, novamente, me deixou desconcertado. Yuki tinha realmente levado aquilo seriamente.

    Um pequeno sorriso bobo, que não pude evitar, surgiu no meu rosto.

    — Não foi nada, de verdade. 

    Ela então soltou um suspiro, e soltou levemente a barra da minha camisa. Achei então que tudo estivesse resolvido, e me virei novamente para a porta, pronto para começar a correr.

    — Eu… posso ser egoísta novamente? — a voz dela surgiu atrás de mim, baixa, mas firme o suficiente para me fazer parar.

    “Hm?”

    Novamente, virei-me para trás, mais confuso do que antes. Ela já tinha se desculpado, e agradecido por tudo o que aconteceu, o que restava então?

    — Ah, sim… — assenti, confuso, sentindo meu coração acelerar levemente.

    Ela então respirou fundo, parecendo reunir coragem para algo. O rosto dela era uma mistura clara de determinação… e nervosismo?

    — V-você… você vai estar livre no Ano Novo!? — ela disse, com sua voz mais alta do que o habitual.

    Meu corpo congelou no mesmo instante.

    No ano novo? Estar livre?

    Hã?

    Minha mente começou a correr com o motivo para isso. 

    Claro, o mais óbvio sendo… aquilo.

    “Sem chance!”

    Balancei a cabeça, sentindo meu rosto ficar vermelho só de pensar na possibilidade do que aquele pedido poderia significar.

    — Eu… sim. Eu vou! — respondi, gaguejando levemente, com a voz meio alta.

    Nós dois ficamos ali, nos encarando de longe. Meu coração acelerado, e o dela parecia estar no mesmo ritmo. Ela desviava os olhos para o chão, depois para mim, depois de volta para o chão.

    — Você… Você gostaria de ver os fogos de artifício daquele dia comigo?

    Hein?

    Era como se o mundo tivesse desacelerado. Como se o som da chuva intensa tivesse cessado.

    Minha garganta se fechou na hora, impossibilitando que eu dissesse algo.

    — Hã? — foi a única coisa que saiu, em meio ao choque e pânico que tomava conta de mim.

    — A-ah! — Ela balançou as mãos rapidamente, cortando meus pensamentos. — É, não se preocupe! Algumas pessoas da turma também vão estar lá, claro! Não seria… só a gente!

    — Ah, sim! — falei mais alto do que devia, sentindo uma pontada de decepção. — Entendi…

    Ainda assim, era um convite dela.

    — …Eu vou ir — respondi, ainda meio vergonhoso.

    Ela pareceu relaxar imediatamente. Um pequeno sorriso apareceu, claramente carregado de felicidade e alívio.

    — Combinado então! 

    — Combinado… — cocei a bochecha, tentando disfarçar a vergonha. — A gente se vê então…

    Ela assentiu, e acenou, ainda com aquele sorriso no rosto.

    Quando finalmente me virei para sair, Kaito estava parado ali na porta, e eu percebi que ele tinha observado tudo. 

    “Que vergonha…”

    — Vamos logo — ele disse, contendo o riso.

    Saímos correndo para dentro do carro, fugindo da chuva enquanto minha mente ainda tentava acompanhar o que tinha acabado de acontecer ali na porta da casa dela.


    Kaito dirigia em silêncio, com o trânsito lento sob a luz amarela dos postes, enquanto a chuva forte batia no vidro do carro.

    Eu estava olhando para as luzes refletidas no asfalto molhado, ainda pensando no que tinha acontecido minutos atrás

    Até que ele quebrou o silêncio com aquele comentário.

    — Então… você e a Yuki já estão namorando? 

    Eu me engasguei com a saliva no mesmo segundo. 

    — Hã!? O-o quê você tá falando!? — Eu balancei a cabeça rapidamente, levemente em pânico. — Não! Claro que não. Não somos namorados!

    O carro parou no semáforo, e a luz vermelha iluminou o carro… e também o rosto sério demais de Kaito quando ele virou lentamente a cabeça na minha direção.

    — Não minta para mim, garoto.

    Um arrepio percorreu minhas costas.

    “Que medo…”

    Desviei o olhar dele, indo para a janela repleta de gotas. Senti minhas bochechas queimarem com apenas aquela pergunta.

    — Eu não tô mentindo, somos apenas amigos — respondi, com a voz mais baixa do que o normal. — E… ela provavelmente nem me vê dessa forma.

    Dizer aquilo em voz alta… me fez sentir uma leve dor no peito.

    “…..”

    Kaito soltou um suspiro longo enquanto o sinal voltava ao verde. O carro voltou a se mover no meio da chuva.

    — Você é realmente idiota, Shin.

    — Hein? Por que isso do nada? — respondi, confuso.

    Primeiro, me pergunta se eu namorava a Yuki. Depois me chama de idiota.

    Sério, qual era o problema dele?

    — Ah, ah! Queria ser adolescente de novo e ter um romance bobinho desses também!

    — Romance bobinho desses? — perguntei, confuso e envergonhado pelas implicações dele. — O que você quer dizer com isso?

    Ele apenas suspirou, ignorando minhas perguntas, mas havia um sorriso pequeno e sincero em seu rosto.

    A viagem continuou em silêncio, apenas quebrado pelo som forte da chuva batendo nos vidros e as buzinas dos carros. 

    Eu tentava me concentrar em algo, qualquer coisa, mas aquela sensação de ter a barra da camisa puxada sempre voltava à minha mente.

    Depois o toque de nossas mãos.

    Aquele calor… o susto…

    Tudo voltava à minha mente com força.

    E quando percebi, o carro já estava parado na frente da minha casa.

    — Ah…

    Tirei o cinto e estendi a mão para abrir a porta do carro, mas fui interrompido pela voz mais séria dele.

    — Shin. 

    Eu parei e olhei para ele, confuso, enquanto minha mão tocava na porta.

    Ele me encarava com um olhar bem diferente daquele cheio de piadas e provocações. Era direto…?

    — Tenha coragem — ele disse, com um leve sorriso no canto da boca. — Encare seus sentimentos. Quem sabe o que a Yuki espera de você?

    O impacto daquilo foi… imediato.

    Eu fiquei ali, encarando a porta enquanto aquelas palavras ecoavam na minha cabeça.

    Coragem.

    Encarar meus sentimentos.

    Normalmente, eu diria algo como “Não sei do que você tá falando!” e sairia do carro, envergonhado e fugindo.

    Mas eu apenas assenti, com a voz um pouco presa na garganta.

    — Obrigado pela carona — eu disse, depois de abrir a porta.

    — Nada! Vê se aparece mais vezes para ajudar na cozinha! — ele respondeu com o típico sorriso de sempre, com o som quase abafado pela chuva.

    Fechei a porta e entrei em casa, sentindo o calor do aquecedor invadir meu corpo levemente molhado. Fui para o meu quarto e joguei o casaco na cadeira, depois de cumprimentar minha família na sala.

    As palavras de Kaito ficaram girando na minha cabeça, enquanto eu pegava o presente da Yuki no bolso.

    “Quem sabe o que a Yuki espera de você?”

    Eu encarei a caneta, pensando sobre tudo. 

    Sentimentos. Coragem. Confissão.

    Eu gostava de Yuki. 

    Não, eu amava ela.

    E já devia ser a hora de parar de fingir que a confusão e a vergonha eram apenas coisas normais entre amigos. Aquele convite para o Ano Novo era a minha chance de mudar tudo aquilo.

    Mas claro, falar era fácil.

    Abri a mão, que segurava o presente com força, e suspirei.

    Eu não podia agir precipitadamente. 

    Não devia confundir bondade com amor… não poderia cometer esse erro.

    Não novamente.

    Me joguei na cama, ainda com as roupas molhadas e encarei o teto. 

    Quando o momento certo chegasse, o que eu iria fazer?

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