O vento cortava meu rosto enquanto eu pairava acima do vilarejo, o calor das chamas em minhas costas contrastando com o frio da manhã. Lá de cima, tudo parecia menor. As casas de pedra e madeira, as ruas estreitas de terra batida, as plantações mortas que se estendiam como um tapete acinzentado. Nada além de um pedaço esquecido do mundo, agarrando-se à vida do jeito que podia.

     Eu trinquei os dentes e apertei um pouco mais a sacola de moedas contra meu corpo. Não esperava aquilo. Não esperava que aqueles camponeses reunissem tudo o que tinham e simplesmente me entregassem, me implorando para ajudá-los. Pessoas assim… elas não costumam confiar tão facilmente em quem é de fora. Mas talvez, depois de tudo o que aconteceu com eles, fosse a única opção que restava…

    Acelerando o voo, deixei o vilarejo para trás.

    Ashley ainda devia estar me observando. Eu quase podia ouvir sua voz na minha cabeça, insistindo para que eu a deixasse ir junto. Ela ainda não consegue carregar fardos de terceiros. Mas naquela luta…

    Naquela luta, ela brilhou.

    Não foi só aquele lampejo azul ofuscante que encheu seus olhos. O jeito como ela segurou a espada, o olhar determinado, a forma como se moveu. Foi como se, por um instante, ela tivesse esquecido o medo. Por um instante… ela brilhou de verdade.

    Eu vi o risco. Eu vi que, se algo tivesse dado errado, ela poderia ter sido devorada viva. Mas ela venceu. Ela conseguiu superar seus limites quando foi necessário!

    Apertei os lábios.

    — Vai ser interessante ver até onde ela pode chegar.

    O céu começou a clarear, e à frente, os muros de Rivendrias surgiram no horizonte. A cidade ainda estava de pé. Isso já era um bom sinal.

    Inclinei o corpo para frente e deixei a gravidade me puxar, reduzindo a velocidade conforme me aproximava dos telhados. O mercado ficava no centro, e dali eu poderia ter mais sucesso em obter o que procurava.

    Pousei silenciosamente, dobrando as asas até que as chamas desaparecessem por completo.

     O mercado de Rivendrias fervilhava de gente. Do alto do telhado onde pousei, dava para ver as bancas sendo reconstruídas, os comerciantes organizando o que restou e o cheiro de tortas recém-assadas se misturando ao aroma da madeira cortada. Os martelos ecoavam pelo ar, enquanto as pessoas trabalhavam para recuperar o que perderam. Essa cidade era teimosa, de um jeito que eu respeitava.

     Saltei para o chão, ajustando a sacola e sacudindo um pouco das cinzas que ficaram grudadas na minha roupa. Meus olhos percorreram a multidão e para o meu agrado, encontraram Sienna, que falava com alguns comerciantes como se os coordenasse na reconstrução. Ela parecia ocupada, mas isso nunca me impediu antes.

    Caminhei até ela, desviando de trabalhadores carregando barris e sacos de trigo. Assim que me viu, Sienna arqueou uma sobrancelha.

    — Selene? Você voltou rápido. Onde está Ashley?

    — Ficou no vilarejo onde paramos — respondi, sem rodeios. — Ela está ajudando os moradores de lá.

    Os olhos dela estreitaram levemente.

    — Aconteceu alguma coisa?

     Desviei o olhar por um instante. Contar para Sienna agora não parecia a melhor ideia. Se soubesse que enfrentamos um demônio, provavelmente ficaria louca da vida… e sinceramente, não tinha paciência para lidar com isso no momento.

    — Nada que precise se preocupar tanto — respondi, mantendo um tom casual. — Mas o vilarejo está mal. As plantações morreram, e eles mal têm como se sustentar. Vim em busca de suprimentos.

    Sienna me encarou por um segundo a mais do que eu gostaria, como se tentasse decifrar algo que eu não queria dizer, mas no fim apenas soltou um suspiro.

    — Certo. Vamos ver o que conseguimos.

     Com a ajuda dela, reunir suprimentos foi bem mais fácil do que imaginei. Os comerciantes estavam ocupados reconstruindo suas bancas, mas ainda tinham um olhar determinado quando nos entregavam os mantimentos. Alguns agradeciam por termos ajudado a salvar Rivendrias, outros apenas assentiam com a cabeça, como se não precisassem dizer nada.

    — Isso vai nos ajudar a seguir em frente. Obrigado.

    — Vocês passaram por muita coisa. Isso é o mínimo que podemos fazer.

    Nunca fui do tipo que sabia responder a agradecimentos. Apenas acenei, prendendo os sacos de suprimentos com correias firmes no meu cinto. Quando terminei, olhei para Sienna.

    — Acho que isso basta.

    — Tem certeza de que não precisa de mais nada?

    Sorri de canto.

    — Se precisar, volto quebrando outra porta.

    Ela revirou os olhos, cruzando os braços.

    — Só tenta não causar mais confusão, por favor.

    Ri baixo e me afastei alguns passos.

    — Não prometo nada.

     Chamas dançaram ao meu redor quando invoquei minhas asas de fogo. O calor preencheu o ar enquanto as bati e me impulsionei para cima, deixando a praça para trás. O vento cortava meu rosto enquanto me afastava de Rivendrias, carregando comigo o peso das esperanças daqueles moradores.

                                             ***

     O tempo parecia se arrastar enquanto eu esperava por notícias da mãe do garoto. Observei o homem enquanto ele trabalhava, suas mãos ágeis esmagando algumas folhas com precisão. Ele sabia exatamente o que estava fazendo, cada gesto carregava um propósito.

    — O que você faz é impressionante — comentei, quebrando o silêncio. — Ter tanto conhecimento assim para curar as pessoas… isso não é fácil.

    O curandeiro ergueu os olhos para mim por um instante antes de voltar ao que fazia, soltando um suspiro pesado.

    — Existem muitas limitações para o que um desbotado pode fazer… — Sua voz era firme, mas carregava um tom amargo, como alguém que já havia aceitado uma verdade cruel há muito tempo.

    Franzi o cenho.

    — Eu sempre quis ser útil para minha família — ele continuou, sem me encarar diretamente. — Mas quando não despertei cor alguma, fui jogado aos lobos. O que me restou além do desespero naquela época foi o desejo que eu tinha de ajudar as pessoas.

    Ele fez uma pausa, o olhar perdido em algum ponto distante. Suas mãos, porém, não paravam de se mover, misturando ingredientes com precisão.

    — Após muitos anos estudando ervas medicinais e testando seus efeitos, acabei me tornando um curandeiro. Mas ainda me pergunto… do que eu seria capaz se tivesse corescido?

    Sua voz carregava uma frustração silenciosa, uma dúvida que parecia assombrá-lo há muito tempo.

    Eu cruzei os braços, deixando escapar um pequeno suspiro antes de responder.

    — Eu acho que você conseguiu fazer exatamente o que tanto desejava a vida toda.

    Ele finalmente olhou para mim, uma sobrancelha arqueada em questionamento.

    — Mesmo sem corescer, você encontrou um jeito de ajudar as pessoas — continuei. — E isso não é algo que qualquer um conseguiria.

    Me aproximei um pouco, apoiando a mão no balcão de madeira.

    — Você pode não ver, mas dentro de você há uma das cores mais bonitas que já existiram — disse, deixando um sorriso escapar. — E mesmo que seus olhos não a alcancem, ela ilumina aqueles ao seu redor.

    O curandeiro piscou algumas vezes, claramente pego de surpresa pelas minhas palavras. Sua expressão endurecida relaxou um pouco, e por um breve momento, ele pareceu considerar o que eu disse.

    Ele soltou um pequeno riso, quase imperceptível, antes de voltar a mexer na mistura.

    — Você tem um jeito estranho de ver as coisas, garota.

    Sorri de leve.

    — Sempre tive, eu acho.

    O silêncio voltou a se instalar entre nós, mas dessa vez parecia menos pesado. Algo me dizia que, mesmo que ele nunca admitisse, aquelas palavras ficaram com ele.

    — William.

    — O que disse? — perguntei, voltando minha atenção para ele.

    Ele me lançou um olhar rápido antes de voltar ao que fazia.

    — Meu nome, garota. Pode me chamar de William.

    Um sorriso se formou no meu rosto.

    — É um prazer conhecê-lo, William. Eu me chamo Ashley.

     Ele soltou um riso curto, e eu o acompanhei. Era sutil, mas senti que aquele momento significava algo para ele. Enquanto William terminava os curativos, um burburinho começou a crescer do lado de fora. Primeiro, eram apenas vozes dispersas, mas logo se transformaram em um som que lembrava uma multidão em festa.

    Me levantei e fui até a porta. Assim que pisei do lado de fora, meus olhos se arregalaram com a cena diante de mim.

     No céu, Selene descia com uma graça quase irreal, como se pertencesse às alturas. As asas de fogo que antes brilhavam em suas costas começaram a sumir, mas o impacto de sua presença permanecia. Em suas mãos, ela segurava um enorme pano cheio de suprimentos, estendido como um manto celestial carregado de esperança.

     Os moradores a observavam em êxtase, alguns sussurrando preces de gratidão, outros simplesmente sem palavras. Naquele momento, Selene parecia uma figura saída de uma lenda… uma salvadora que havia caído dos céus trazendo consigo a promessa de dias melhores.

    O silêncio durou apenas um instante antes que a comoção tomasse conta do vilarejo. Crianças correram para perto, mãos trêmulas ergueram-se em reverência, e olhos marejados refletiram o brilho de um futuro que, até então, parecia distante. Selene não disse nada: não precisava. Seu gesto já havia falado por si. E enquanto a poeira assentava sob seus pés, ficou claro para todos ali: a salvação nem sempre vem em luz divina… às vezes, ela desce dos céus envolta em chamas.

    Fim do Capítulo 17 – Sob as Asas da Esperança.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (2 votos)

    Nota