Capítulo 18: Raízes do Amadurecimento.
O sol já estava alto quando nos preparamos para partir. A mãe do garoto, agora consciente e bem mais forte, nos agradeceu com uma reverência sincera. Seu olhar carregava um peso que palavras não poderiam descrever.
— Eu não sei como agradecer…, se não fossem vocês, não sei o que teria acontecido comigo ou com meu filho. — Sua voz tremia, mas não de fraqueza, e sim de emoção.
O menino se escondeu atrás dela por um momento antes de criar coragem e correr até mim, segurando minha mão com força.
— Obrigado, moça! — Ele sorriu, e havia algo genuíno naquele olhar. Não era só gratidão, era admiração.
Eu sorri de volta e baguncei os cabelos dele.
— Se cuide, certo? E cuide da sua mãe também.
Ele assentiu, e Selene, ao meu lado, suspirou.
— Vamos, antes que fiquemos presas nesse ciclo emocional.
Nos despedimos dos outros moradores, que ainda expressavam sua gratidão. Então, retomamos a estrada, deixando para trás o vilarejo que, há poucas horas, parecia um cenário de pesadelo. Os pequenos movimentos entre as árvores e o som de pequenos passos, me fizeram lembrar do meu salvador, sentia que enquanto estivéssemos nessa floresta teríamos pequenos anjos da guarda olhando por nós… os pequenos e corajosos Homúnculos da Floresta.
Um sorriso quase que involuntário se formou em meus lábios conforme partíamos.
O silêncio entre mim e Selene durou pouco.
— Então, o que acha que vem a seguir? — perguntei, tentando dissipar os pensamentos que ainda martelavam minha mente.
— Mais problemas, provavelmente — respondeu ela, rindo de leve.
Balancei a cabeça, mas por dentro, minha mente não conseguia ignorar o que havia acontecido na noite passada. O demônio da gula, a sensação sufocante de estar diante de algo tão amedrontador… Minha coragem sendo drenada… Eu tinha tentado lutar, mas, no fim, fui apenas um fardo. Mesmo agora, depois de tudo, a única coisa que ecoava na minha mente era a verdade cruel: eu ainda era fraca demais para cuidar de mim mesma.
— Ei, está me ouvindo? — Selene me cutucou com o cotovelo.
Pisquei algumas vezes, voltando à realidade.
— Hã? Desculpa, o que disse?
— Eu disse que assim que chegarmos a algum lugar decente, vou te obrigar a tomar um banho. Você está fedendo e sua roupa está uma desgraça.
Revirei os olhos.
— Olha só quem fala.
Selene riu, e o som leve de sua voz fez com que um peso saísse dos meus ombros, ainda que por um instante.
Estava prestes a responder quando Selene parou abruptamente, os olhos arregalados.
— Mas que diabos…?!
— O que foi? — perguntei, sentindo meu coração disparar.
Ela me encarou com uma expressão confusa antes de apontar para mim.
— Seu cabelo…seus olhos… estão perdendo a cor!
Meu corpo gelou. Instintivamente, levei as mãos aos fios que caíam sobre meus ombros. Não podia ver, mas…
Não…, peguei uma mecha e a estendi diante dos olhos. Onde antes havia reflexos azulados vibrantes, agora só restava a escuridão profunda. Meu cabelo havia voltado à sua cor original.
Minha respiração ficou instável.
— Mas… como? — murmurei.
Selene franziu a testa, me observando como se eu fosse um experimento prestes a explodir.
— Você sente alguma coisa diferente? Ainda consegue usar sua magia?
Tentei, fechei os olhos e busquei aquela familiar sensação da água correndo pelos meus dedos. Mas tudo o que senti foi o vazio.
Era a segunda vez que isso acontecia. A primeira foi em Rivendrias, quando o fogo dançava nas minhas mãos… só para desaparecer logo depois. E agora, o azul vibrante se apagava novamente, tão rápido quanto surgiu. Como eu não percebi antes? Talvez tenha sido a adrenalina da luta, a urgência de salvar aquela mulher…, mas agora tudo fazia sentido. Meus poderes não eram meus. Eram uma ilusão temporária, algo que aparecia e sumia sem explicação.
Minha garganta apertou. O que isso significava? Que tipo de brincadeira cruel era essa? Eu sabia que não era normal. Pessoas não simplesmente coresciam do nada para desbotar logo em seguida. Se eu não podia confiar no meu próprio poder, então… no que eu podia confiar?
Eu senti a mesma impotência sufocante da última vez. A mesma sensação de ter algo arrancado de mim sem aviso, sem misericórdia. Mas, dessa vez, algo dentro de mim se recusava a aceitar isso.
William…
Me lembrei de suas palavras, do jeito amargo como ele contou sua história, de como o desprezaram por ser um desbotado. Mas ele não deixou que isso o definisse. Encontrou outro caminho. Ele se fez útil, não pelo poder, mas pela determinação.
Eu não podia me permitir depender desses poderes ocasionais para sobreviver. Isso não era poder de verdade. Eu precisava ser forte, não porque a sorte decidiu me dar poderes ilusórios, mas porque eu era capaz de lutar.
Minhas mãos se fecharam em punhos.
— Selene…
Ela ainda me olhava, esperando uma resposta. Quando percebeu a seriedade na minha voz, sua expressão mudou.
— O que foi?
Eu levantei o rosto e a encarei, determinada.
— Me treine!
Ela piscou, surpresa, e abriu a boca para responder, mas eu continuei antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.
— Eu não quero depender de algo que eu nem entendo. Não quero continuar assim, fraca e vulnerável, esperando que um milagre me salve. Eu quero aprender a lutar, a sobreviver, com ou sem poderes.
A surpresa nos olhos de Selene se transformou em algo diferente. Um sorriso pequeno surgiu em seu rosto. Mas não era um sorriso debochado ou arrogante. Era um sorriso empolgado.
— Finalmente — ela disse, cruzando os braços. — Achei que nunca ia pedir.
Ela deu um passo à frente e bateu de leve no meu ombro.
— Tudo bem, garota. Eu vou treinar você. Mas se está esperando moleza, é melhor desistir agora.
Eu segui o olhar dela e, pela primeira vez em muito tempo, senti algo além da incerteza.
— Não importa o quão difícil seja — minha voz saiu firme. — Eu vou aguentar.
Selene riu de leve e virou-se para continuar a caminhada.
— Vamos ver se vai manter essa pose depois do primeiro dia.
Respirei fundo e a segui. Dessa vez, não como uma garota perdida que tentava entender o próprio poder. Mas como alguém que havia tomado uma decisão.
Eu iria mudar… Não importa quão difícil seja o caminho a frente.
Selene estalou os dedos e um brilho animado cruzou seus olhos.
— Bom, já que você está tão decidida, vamos começar agora.
Eu pisquei, surpresa.
— Agora? Mas a gente acabou de sair do vilarejo…
— E daí? — Ela sorriu, inclinando a cabeça de lado. — Se quer aprender a lutar, vai ter que aprender a lidar com o cansaço também. Não há momento melhor para começar.
Eu engoli em seco. Pelo jeito, ela não estava brincando.
— Seu treinamento vai acontecer em etapas — continuou Selene, cruzando os braços. — Não vou te ensinar tudo de uma vez, porque isso só faria você fracassar. Vamos construir sua força e resistência antes de entrar em técnicas de combate.
Ela apontou para mim.
— Você só passa para a próxima etapa quando eu disser que está pronta.
Um arrepio percorreu minha espinha. A expressão de Selene me dizia que aquilo não seria nada fácil.
— Todos os dias, começamos pela manhã. Treino físico primeiro. À tarde, seguimos viagem. À noite, acampamos. E repetimos isso até você ser capaz de se defender sem precisar da minha ajuda.
— Entendido — murmurei, tentando absorver a nova rotina.
— Ótimo. Então, largue essa mochila. Agora mesmo.
— O quê?
— Agora, Ashley.
Eu suspirei, mas obedeci, soltando minha mochila no chão. Selene fez o mesmo com a dela e estalou os dedos.
— Primeiro, vamos testar sua resistência. Comece correndo.
— Correndo? Para onde?
— Para frente — ela respondeu, apontando para a estrada aberta. — Sem parar. E se diminuir o ritmo, eu te faço correr duas vezes mais.
Meu estômago revirou. Eu tinha pedido por isso, não tinha? Então, sem mais desculpas. Respirei fundo e disparei pela estrada, sentindo o vento chicotear meu rosto. O treinamento havia começado…
Acreditava que após todo aquele trabalho no mercado eu tivesse uma resistência um pouco melhor, mas na realidade eu estava enganada…
Os dias que se seguiram foram brutais. Cada manhã começava com corridas intermináveis, saltos, flexões e exercícios que eu nem sabia que existiam. Meu corpo gritava de dor, meus pulmões imploravam por ar, e às vezes eu achava que ia desmaiar a qualquer momento. Mas, conforme os dias passavam, algo mudava. Meus passos ficavam mais firmes, meus músculos já não doíam tanto, e aquela exaustão esmagadora começou a se transformar em uma resistência que eu não estava acostumada.
No fim da manhã seguinte, depois de mais um treino puxado, Selene me levou até uma clareira onde uma pequena lagoa cintilava sob a luz do sol. Sem pensar duas vezes, me joguei na água fria, sentindo um alívio imediato percorrer meu corpo cansado.
— Você tá começando a ganhar alguns músculos, hein — comentou Selene, jogando água no rosto e me encarando com um sorriso travesso.
Ergui uma sobrancelha.
— Jura? Porque eu só sinto dor.
Ela riu.
— Não, sério. Olha esses braços, já não parecem gravetos. Daqui a pouco vai estar me desafiando para uma briga.
Bufei.
— Até lá, ainda preciso de pelo menos mais uns… dez anos de treino?
— Se continuar no ritmo que estou te forçando…, talvez uns oito.
— Nossa, que generosa.
Ela riu e se espreguiçou na água. Eu fechei os olhos por um instante, aproveitando o silêncio e a sensação de flutuar sem peso. Depois de tantos dias de suor e dor, finalmente tinha um momento de descanso.
Até que um barulho vindo da floresta quebrou a tranquilidade…
Abri os olhos no mesmo instante.
— Você ouviu isso? — perguntei, franzindo a testa.
Selene já estava alerta.
— Sim.
Nos entreolhamos, então saímos da água o mais silenciosamente possível. Pegamos nossas roupas e botas, nos vestindo às pressas enquanto nossos sentidos aguçavam ao redor.
O som veio de novo. Era um farfalhar entre as árvores, algo se movendo. Então, vozes surgiram, abafadas, mas claramente discutindo sobre algo.
Selene olhou para mim e fez um sinal discreto para avançarmos. Mantendo os passos leves, nos aproximamos da origem do som, à medida que a discussão ficou mais clara.
Nos mantemos escondidas entre as árvores. Entre as folhagens, a cena diante de nós começou a se formar com mais clareza. À beira de um caminho de terra, uma carroça robusta estava parada, uma de suas rodas destruída em meio a raízes grossas que se projetavam do solo. Dois homens estavam ao lado da carroça, envolvidos em uma discussão acalorada.
— Eu te disse para prestar atenção na estrada! — rosnou um deles, um sujeito robusto de barba espessa e expressão irritada.
— E eu te disse que não vi essas malditas raízes! — rebateu o outro, um pouco mais magro, coçando a cabeça com frustração. — Se você viu, por que não avisou antes?!
Selene suspirou baixo ao meu lado.
— Dois gênios — murmurou com ironia.
Minha atenção, no entanto, não estava nos dois homens. Meus olhos foram atraídos para a carroça em si. Era um modelo reforçado, de madeira escura e estrutura resistente. O mais incomum, no entanto, era a enorme cela de metal acoplada à traseira. Um transporte de prisioneiros.
Dentro da cela, sentada contra as grades de ferro, estava uma jovem.
Ela parecia ter minha idade, talvez um pouco mais velha. Seus olhos estavam baixos, os pulsos algemados descansando sobre as pernas cruzadas. Mas o que mais chamou minha atenção foram seus cabelos. Longos, cacheados, caindo por seus ombros como uma cascata de folhas escuras. Um tom profundo de verde que parecia absorver a pouca luz que passava pelas árvores.
Havia algo nela… algo que me fez prender a respiração por um instante.
Selene também a notou e franziu a testa.
— Não esperava ver uma prisioneira tão jovem… — murmurou Selene, estreitando os olhos.
Não sabíamos quem ela era, nem o que havia feito para ser escoltada daquela forma. Mas uma coisa era certa: aquela garota não era uma prisioneira comum.
Selene e eu trocamos um olhar.
— O que uma garota tão jovem estava fazendo presa ali?
Antes que pudéssemos sequer considerar essa pergunta, um dos homens chutou a roda quebrada da carroça com frustração.
— Ótimo! E agora? Vamos arrastar isso até a cidade?!
— Não temos escolha. Não podemos deixar a prisioneira aqui sozinha.
O som metálico de correntes se moveu no ar. A prisioneira ergueu a cabeça, os pulsos algemados refletindo a luz filtrada pelas árvores. Seus olhos, de um tom profundo e insondável, deslizaram preguiçosamente pelos dois homens que discutiam diante da carroça. Mas não havia medo ali. Nenhuma súplica. Nenhuma raiva. Apenas uma paciência perigosa, como se soubesse que sua situação era temporária.
Então, como se já estivesse ciente de nossa presença há muito mais tempo do que imaginávamos, ela virou levemente o rosto, e seus olhos se fixaram diretamente nos meus.
Um frio percorreu minha espinha. Ela nos viu.
E então, lenta e deliberadamente, ela sorriu.
Foi um sorriso pequeno, quase imperceptível. Mas havia algo nele… algo que me fez sentir que, naquele instante, a situação havia mudado.
Não éramos nós que estávamos observando aquela garota…
Era como se, de alguma forma, ela já soubesse que acabaríamos aqui.
Fim do Capítulo 18 – Raízes do Amadurecimento.
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