O silêncio ao redor da carroça parecia sufocante. Eu observava a garota, tentando decifrá-la. Sua pele tinha um tom quente, contrastando com o metal frio das algemas que prendiam seus pulsos. As roupas estavam gastas, mas ainda assim tinham um ar peculiar: um tecido leve, de cortes e costuras diferentes do que eu estava acostumada a ver nas cidades do Reino da Água.

    “O que ela fez para estar ali?”

    Minha mente girava com possibilidades, mas antes que eu pudesse me aprofundar, meu pé encontrou algo que não deveria estar ali.

    Crack.

    O som ecoou como um trovão em meio ao silêncio, e o homem mais robusto parou sua discussão imediatamente. Seu olhar se virou para a mata, olhos semicerrados.

    — Tem alguém aí? — sua voz era dura, desconfiada.

     Ele puxou a faca da cintura e começou a caminhar na direção de onde estávamos escondidas. O outro, mais franzino, demorou um segundo, mas logo seguiu o exemplo, pegando uma pequena besta de madeira que estava apoiada na carroça.

    Meu coração disparou.

    Selene se aproximou ligeiramente de mim e sussurrou:

    — Algo está errado. Esses caras… eles não parecem guardas do Reino da Água.

    Eu travei a respiração. Então, se não eram guardas comuns… quem diabos eles eram?

    Antes que os passos dos homens pudessem nos alcançar, um som inesperado preencheu o silêncio da floresta.

    Uma voz suave e melodiosa cortou o ar, quase etérea, como o murmúrio do vento passando pelas folhas. A garota na cela cantava, sua voz carregando uma melancolia que fez um arrepio percorrer minha espinha.

    “Bandidos à espreita, sombras na estrada…
    Arrancaram-me à força, calaram-me a alma…
    Pés que correm, mãos que sangram,
    Para onde me leva a corrente gelada?”

    Suas palavras eram um lamento, mas havia algo de desafiador em seu tom, como se estivesse expondo sua história não apenas para si mesma, mas para qualquer um que ousasse escutá-la.

    O homem mais robusto cerrou os dentes e virou-se bruscamente para ela.

    — Cale a boca! — ele rosnou, batendo com força contra as grades da cela. — Não quero ouvir essa porcaria de cantoria!

     A garota apenas inclinou a cabeça, os olhos brilhando com uma calma inquietante. Foi o suficiente para Selene entender tudo. Antes que eu pudesse detê-la, ela se ergueu dos arbustos, surgindo diante dos homens como uma sombra impiedosa.

    — Parados. Agora. — Sua voz cortou o ar como uma lâmina afiada.

    Os dois homens saltaram para trás, surpresos com sua aparição repentina. O franzino levantou a besta de madeira, apontando-a diretamente para ela.

    — Quem diabos é você?! — ele perguntou, os olhos arregalados.

    Ainda escondida, puxei levemente a manga de Selene, sussurrando:

    — Ei, não seria melhor uma abordagem furtiva?

    Ela arqueou uma sobrancelha e deu de ombros.

    — Guerreiras de verdade não atacam pelas costas… — então, abriu um sorriso travesso e completou — a menos que você não seja uma guerreira.

    Revirei os olhos. Claro, ela tinha que ter tempo para uma provocação em meio à tensão.

    Os dois homens se entreolharam e, em seguida, voltaram a encará-la, agora em alerta máximo. As mãos apertaram as armas, os corpos ficaram rígidos.

    A brisa soprou entre nós, levando consigo a última nota da canção da prisioneira.

    Os dois homens, estavam com os olhos varrendo a floresta, como se esperassem que mais pessoas surgissem das sombras. O mais robusto foi o primeiro a tentar se recompor.

    — Isso não é da sua conta, mulher. Vá cuidar da sua vida.

    Selene cruzou os braços, inclinando a cabeça para o lado.

    — Oh, mas quando vejo dois sujeitos duvidosos transportando uma garota em uma jaula, minha curiosidade desperta — sua voz carregava um desdém afiado. — E, a julgar pelo nervosismo de vocês, acho que acertei na suspeita.

    O franzino resmungou algo entre os dentes, apertando mais a besta.

    — Essa garota é perigosa! Ela nos atacou primeiro, nós só estamos nos protegendo!

    Minha atenção voltou para a prisioneira. Ela permanecia quieta, mas um pequeno sorriso dançava no canto de seus lábios, como se a situação fosse uma peça de teatro ensaiada.

    “Isso é verdade?” questionei internamente, sentindo a dúvida se infiltrar nos meus pensamentos. Eu queria acreditar que ela era vítima nessa história, mas e se houvesse mais do que estávamos vendo?

    Selene também notou a hesitação em minha expressão e, sem desviar os olhos dos homens, sussurrou discretamente para mim:

    — Vá pela lateral da floresta. Rápida e silenciosa.

    Engoli em seco.

    — O quê?

    — Isso irá fazer parte do seu treinamento, eu os distraio, você solta a garota. — Ela abriu um leve sorriso. — Simples.

    Eu ainda não tinha certeza sobre a prisioneira, mas confiar em Selene era algo que eu já tinha aprendido a fazer.

    Respirei fundo e, mantendo-me abaixada, comecei a me esgueirar pela floresta, torcendo para que minha sorte fosse melhor desta vez e que nenhum outro galho estalasse debaixo dos meus pés.

    Enquanto me movia pelas sombras das árvores, mantive a respiração controlada, cada passo medido para não fazer barulho. O diálogo entre Selene e os supostos guardas continuava… preenchendo o silêncio da floresta com tensão.

    — E o que exatamente vocês pretendiam fazer com ela? — Selene perguntou, sua voz carregada de desconfiança.

    — Estamos levando-a para ser julgada. — O homem mais magro respondeu prontamente, segurando sua besta com firmeza.

    — Ah, claro. — O tom de Selene gotejava ironia. — Porque uma garota algemada dentro de uma jaula no meio da floresta certamente é uma ameaça terrível.

    O homem robusto bufou, impaciente.

    — Você não faz ideia do que ela é capaz!

     Minhas mãos apertaram o tronco de uma árvore enquanto eu observava a carroça de perto. Eu queria confiar em Selene, mas a dúvida se remexia dentro de mim. Se esses homens estavam mentindo, por que pareciam tão convictos? E se a garota era mesmo perigosa?

     Afastei esses pensamentos e continuei avançando, sentindo a textura áspera das folhas contra minha pele e o cheiro terroso da floresta preenchendo meus sentidos. A carroça estava bem ali. Agora, eu podia ver melhor os detalhes: a madeira escura estava arranhada em vários pontos, como se algo ou alguém tivesse tentado escapar antes. As barras de ferro da jaula refletiam fragmentos da luz do sol que filtravam pelas copas das árvores.

    E então, os olhos dela encontraram os meus.

    A garota não se mexeu, apenas manteve seu olhar fixo em mim, analisando-me com uma serenidade que me fez hesitar. Seus cabelos emolduravam seu rosto, seus lábios se curvaram num sorriso leve, quase imperceptível.

    — Então você é a pessoa que os pequeninos falaram?

    Sua voz era suave, melodiosa, quase como se estivesse cantando. Um arrepio percorreu minha espinha.

    Por um instante, hesitei. O olhar daquela garota carregava uma serenidade desconcertante, como se estivesse no controle da situação, apesar das algemas e da cela ao seu redor.

    Abaixei um pouco o corpo, mantendo-me próxima à carroça, e sussurrei:

    — Eu não sei quem você é. Nem por que está presa aqui. Mas que pequeninos são esses?

    — São meus amigos da floresta… eles disseram que uma garota boa estava viajando por essa floresta com uma mulher de cabelos cor de fogo.

    — Os Homúnculos da Floresta? Mesmo que sejam seus amigos, como posso confiar totalmente no que diz?

    Ela sorriu, um sorriso pequeno, quase nostálgico.

    — Não estou surpresa. — Seus olhos se voltaram para o nada por um instante, como se buscassem um ponto no passado. — Eu estava acampando na floresta… fazia uma longa viagem e precisava descansar. O fogo da fogueira mal havia se apagado quando ouvi passos ao redor do meu acampamento. Eram vários.

    Ela suspirou, o tom de sua voz permanecendo melódico, mas com um leve peso que indicava frustração.

    — Um grupo de bêbados desajeitados. Vieram tropeçando até meu acampamento, fazendo perguntas estranhas. Coisas sem sentido. Um deles chegou perto demais. Eu o afastei. Ele não gostou.

    A garota abaixou os olhos por um momento, como se sentisse o gosto amargo da lembrança.

    — O próximo movimento foi uma adaga apontada para mim. Mas depois disso… — ela fechou os olhos, franzindo o cenho levemente — …só me lembro de acordar aqui.

    Eu apertei os lábios, analisando suas palavras. Não havia hesitação, nenhuma tentativa óbvia de manipulação. Mas aquilo não fazia sentido… como ela foi capturada se não se lembrava do que aconteceu?

    Minha mente se dividia entre confiar nela e manter a cautela. Mas, no fundo, algo em seus olhos me dizia que ela estava dizendo a verdade… Decidi agir.

    Sem mais tempo para hesitação, puxei minha adaga e posicionei a lâmina contra o cadeado da cela. Fiz força, tentando forçá-lo a ceder. O metal resistiu por um instante, mas então, com um estalo seco e alto, ele quebrou.

    Alto demais.

    A discussão entre Selene e os bandidos cessou abruptamente.

    — Mas que bela abordagem furtiva. — A voz de Selene soou sarcástica e divertida ao mesmo tempo. — Talvez se fizesse um pouco mais de barulho fosse perfeita.

    Os bandidos viraram-se em minha direção, arregalando os olhos ao perceberem o que eu estava fazendo.

    — Ei! — Um deles gritou, puxando a besta com pressa. — Não solte essa garota!

    Antes que eu pudesse reagir, um disparo foi feito.

    Meu corpo congelou. Tudo aconteceu rápido demais. A flecha disparou em minha direção, e por um momento, achei que seria atingida. Mas então…O chão se ergueu.

    Uma grossa raiz brotou do solo em um instante, interceptando o projétil antes que ele me atingisse. A flecha ficou cravada na madeira viva, tremendo com o impacto.

    Eu arregalei os olhos, ofegante, antes de ouvir a voz suave atrás de mim:

    — Cuidado, essas coisas podem te machucar… e presa aqui, não posso te ajudar além disso.

    Virei-me para encará-la. A garota sorria, um brilho misterioso nos olhos, como se tudo aquilo fosse apenas uma brincadeira leve para ela.

    Respirei fundo. Por mais dúvidas que eu ainda tivesse, algo me dizia que libertá-la era a coisa certa a fazer.

    Com um pouco mais de esforço, cortei as amarras de suas algemas.

    Assim que a garota saiu da cela, vi seus dedos percorrerem os pulsos marcados pelas algemas. Ela respirou fundo, como se estivesse absorvendo o ar da liberdade pela primeira vez em muito tempo.

    — Obrigada por me libertar — disse ela, sua voz suave e melodiosa, como uma brisa noturna.

    Um rosnado irrompeu no ar. O bandido mais robusto se lançou contra Selene, sua investida desesperada rompendo o silêncio.

    — Cuida dessas crianças! — ele berrou para seu parceiro.

    O bandido, tremia enquanto tentava encaixar outro dardo na besta. O suor escorria pelo rosto dele, seus dedos vacilantes tropeçando no mecanismo da arma. Meus músculos se retesaram. Eu precisava agir rápido.

    Mas a garota ao meu lado não parecia ter pressa. Ela deu um passo à frente, o encarando com um olhar carregado de desagrado.

    — Já estou ficando irritada com esse tratamento — disse ela, sua voz ainda calma, mas agora tingida de frustração. — Eu não fiz nada para merecer isso, foram vocês que começaram.

    O homem hesitou por um instante, depois estreitou os olhos e rosnou.

    — Nada? Aquilo tudo foi nada?! Você é um monstro!

    As palavras ecoaram no ar. Vi a expressão da garota vacilar, como se algo dentro dela tivesse se partido. Um arrepio gelado subiu por minha espinha. Então, diante dos meus olhos, algo começou a mudar.

    O verde vibrante de seus cabelos começou a escurecer, como folhas murchando. A cor se espalhou, raízes enegrecendo conforme tomavam um tom roxo ametista. O ar ao redor pareceu mudar junto com ela, a sensação de que a floresta prendia a respiração se tornando quase palpável.

    Engoli em seco. “O que estava acontecendo?”

    A garota ergueu o rosto devagar, e quando seus olhos encontraram os dos bandidos novamente, não havia mais doçura neles.

    — Monstro, é? — Sua voz saiu diferente, carregada de desdém e fúria contida. — Vocês são uns vermes imundos, e ainda têm coragem de me julgar?

    O chão tremeu sob nossos pés. O ar ficou denso, carregado de algo cruel.

    Os bandidos hesitaram, mas já era tarde…

    A garota ergueu a mão, espinhos brotaram do solo como serpentes famintas.

    — Vou mostrar a vocês… o que um monstro de verdade pode fazer…

    Fim do Capítulo 19 – Uma Flor em Nosso Jardim.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota