Capítulo 4: O Poder que Incendeia o Destino.
Por um instante, o mundo ao meu redor pareceu suspenso em um vazio silencioso. Meu corpo vibrava com uma energia desconhecida, cada célula pulsando como se tivesse acabado de despertar de um longo sono revigorante. Minha respiração era acelerada, mas não por medo: havia algo diferente dentro de mim, algo quente, selvagem e indomável.
— Meu cabelo…, está azul. — Murmurei, incapaz de acreditar no que via.
Os fios, antes de um tom comum e sem vida, agora brilhavam sob a luz instável das chamas ao meu redor. O calor em minhas mãos não era apenas uma sensação: ele era visível, um brilho pulsante que dançava como fogo líquido, azul e intenso.
A criatura à minha frente hesitou, seus movimentos ondulantes desacelerando, como se pudesse sentir a mudança que ocorria em mim. Pela primeira vez, o terror que ela causava não me paralisava: pelo contrário, ele alimentava a determinação crescente dentro de mim. O desespero e a raiva misturavam-se, fundindo-se em algo novo e feroz. A tia Sienna estava ferida. E eu não deixaria essa coisa tocá-la novamente.
Um rugido ecoou quando a criatura se lançou contra nós, seus tentáculos de água chicoteando o ar, cada golpe trazendo consigo a força de uma correnteza mortal. Meu corpo reagiu antes que minha mente pudesse compreender. Instintivamente, ergui as mãos e, num único instante, uma explosão de calor irrompeu ao meu redor. Uma barreira de fogo azul emergiu, colidindo com a investida da criatura. O impacto foi violento. A água evaporou no mesmo instante, emitindo um som agudo ao encontrar as chamas, envolvendo tudo em uma névoa densa e quente.
Por um momento, só havia o som do vapor se dissipando e o eco do meu próprio coração batendo freneticamente. Meu peito subia e descia, tomada por uma adrenalina que nunca antes havia sentido. Olhei para minhas mãos trêmulas, ainda brilhando, ainda vibrando com poder.
— Isso é incrível! — Minha voz saiu carregada de espanto e excitação. — Então esse é o sentimento…?
Mas não havia tempo para deslumbrar. Virei-me para Sienna, seu corpo frágil apoiado contra mim, sua respiração rasa e irregular. A urgência me atingiu como um choque de realidade. Se eu quisesse salvá-la, precisava encontrar uma maneira de sair dali. Precisava entender esse novo poder que queimava dentro de mim. E, acima de tudo, precisava vencer essa luta.
Fechei os olhos por um instante, inspirando profundamente, enquanto sentia a energia correr como um rio incandescente dentro de mim. Era uma sensação estranha e poderosa, como se uma força há muito adormecida finalmente tivesse despertado. Quando abri os olhos novamente, a hesitação havia sumido, tudo que restava era a certeza absoluta de que eu podia fazer isso.
A criatura rugiu, furiosa, e ergueu um de seus braços disformes antes de disparar um jato de água em minha direção. A torrente avançava veloz, densa como uma muralha líquida, e eu sabia que não havia espaço para esquivas enquanto carregava a tia Sienna. Meu coração deu um salto, mas, antes que o pânico tomasse conta, reagi.
Com um movimento rápido, direcionei a energia que fervilhava dentro de mim. O calor se acumulou em minhas mãos, subindo pelos braços até envolver todo o meu corpo. O ar ao redor começou a tremular, ondulando como se dançasse ao ritmo de uma corrente invisível. Então, num único instante, as chamas irromperam de mim. Um turbilhão azul reluzente consumiu o espaço entre nós, evaporando as poças no chão e elevando a temperatura ao nosso redor.
O choque entre os elementos foi devastador. Assim que o fogo encontrou a água, o impacto gerou uma explosão violenta de vapor. A névoa quente e densa se espalhou como um véu espesso, engolindo tudo ao nosso redor.
Minha mente trabalhou rápido. Aquela era a chance. Precisava agir agora. Sem hesitar, corri em direção à tia Sienna, guiada mais pelo instinto do que pela visão. A névoa ao meu redor era diferente do vapor comum, ela não queimava, não sufocava. Pelo contrário, havia algo de acolhedor nela, como um calor familiar que envolvia minha pele sem a machucar.
— Ashley… — a voz fraca da minha tia se fez ouvir, e meu peito se apertou ao vê-la ainda tão debilitada.
— Eu vou te tirar daqui! — Garanti, erguendo-a com cuidado, sentindo seu corpo tremer contra o meu.
Mas então, algo inesperado me fez parar por um breve segundo. Conforme atravessávamos a névoa, vi os ferimentos dela… fechando-se. Rápido demais. Como se alguma força invisível estivesse restaurando suas forças, dissipando sua dor. Um alívio tomou conta de mim, embora minha mente gritasse por respostas. O tempo não nos permitia pausas.
A névoa começava a se dispersar e, no instante em que um fragmento da criatura se fez visível através da bruma, soube que ela estava prestes a atacar novamente. O chão tremeu sob meus pés, e o som da água cortando o ar ecoou como um trovão. A névoa começou lentamente a se dissipar em pequenas gotas de água. O clima ao redor começou a cair rapidamente, a criatura estava tramando algo. Mas desta vez, eu não me deixaria ser pega desprevenida.
Girei nos calcanhares, me coloquei entre Sienna e a ameaça que emergia da névoa. Minhas mãos ainda ardiam, com o calor pulsante do poder recém-despertado. Eu não entendia o que estava acontecendo comigo, mas havia uma coisa da qual eu tinha certeza absoluta.
— Fique atrás de mim! — Ordenei, minha voz firme e determinada.
Se aquele monstro queria mais uma luta, eu daria isso a ele. Com um movimento firme, ergui as mãos e invoquei uma barreira de chamas azuis. O fogo surgiu do chão em uma parede incandescente, crepitando com uma intensidade selvagem, mas estranhamente controlada. O calor ondulava no ar, distorcendo a paisagem ao redor, senti seu poder fluindo através de mim como se sempre tivesse estado ali, esperando para ser despertado. Mas, ao contrário do que eu esperava, não havia medo, nenhuma dúvida. Pela primeira vez, eu estava no controle.
Do outro lado, a criatura hesitou. Seus tentáculos de água, antes ameaçadores, pairavam no ar, tremulando como se buscassem uma brecha, um caminho seguro para atacar. Mas a verdade era clara: o calor a enfraquecia. Ela recuou, instintivamente temendo o fogo que eu conjurava.
Ao meu lado, Sienna finalmente conseguiu se erguer, embora ainda com dificuldade. Seus olhos fixaram-se em mim, arregalados, brilhando com um misto de espanto e incredulidade. Sua respiração era entrecortada quando sussurrou.
— Como… como você está fazendo isso?
Não desviei os olhos da criatura. A resposta pairava no ar, mas eu mesma não conseguia compreendê-la por completo.
— Eu não sei… — admiti, sentindo o pulsar das chamas correndo em minhas veias. — Mas sinto que posso mais.
Cada segundo que passava, alimentava a certeza dentro de mim. O medo desapareceu, substituído por uma confiança crescente. Eu podia sentir a criatura vacilar, e sabia que deixar que ela se recuperasse seria um erro.
Com um gesto decidido, empurrei a barreira de fogo para frente. As chamas se projetaram como uma onda viva, avançando contra o inimigo. Assim que o fogo tocou sua pele líquida, um grito agudo e distorcido ecoou pelo ar. A criatura se contorceu em desespero, ondulando em movimentos frenéticos, sua forma distorcendo-se, instável. Eu podia sentir… ela estava vulnerável.
Aquele era o momento de acabar com aquilo. Fechei os punhos, canalizando toda a energia dentro de mim. O calor se concentrou em minhas mãos, crescendo, fervilhando como um sol prestes a nascer. Aos poucos, uma esfera flamejante começou a se formar, girando velozmente, cada giro parecia carregar mais força, as chamas oscilavam com um brilho intenso. A praça inteira tremulava com a onda de calor que emanava dela, fazendo o ar vibrar.
A criatura começou a se mover, lutando para se recompor, para fugir. Mas desta vez, eu não daria tempo.
— Isso acaba agora… — murmurei, meu olhar fixo no alvo.
Com um último impulso, joguei a esfera flamejante com toda a força do meu ser. Ela cortou o ar como um relâmpago azul, expandindo-se no trajeto até atingir a criatura com um impacto ensurdecedor. A explosão foi instantânea. Uma onda de luz e calor varreu a praça, iluminando cada canto como se o próprio sol tivesse descido à terra.
E então… o silêncio.
Por um momento, tudo ficou imóvel. O fogo se dissipou lentamente, as cinzas dançando no ar. Minha respiração estava pesada, meus músculos tensos. Meus olhos procuraram pela criatura, pelo que restava dela.
Mantive as mãos erguidas, os pulmões queimando com cada respiração ofegante. O ar ainda vibrava com o calor residual da explosão, e a névoa, densa como um véu espectral, começou a se dissipar. Por um breve instante, a calma se instalou, e a ilusão de que tudo havia terminado quase me convenceu.
Mas então, um som abafado me alertou: água fluindo…
Meus olhos percorreram os escombros e, para meu horror, a criatura começou a se erguer por entre as pedras do chão. Sua forma, antes dilacerada, tremulava de maneira disforme, gotejando como se estivesse sendo recomposta. Gotas de água escorriam de seu corpo retorcido, evaporando ao tocar o chão ainda quente pelas chamas.
Minha respiração vacilou. Eu havia colocado tudo naquele último ataque… e, no entanto, a criatura ainda estava ali, absorvendo a umidade ao redor, regenerando-se mais rápido do que antes. Seus olhos: duas fendas geladas e inumanas. Encontraram os meus, um calafrio percorreu minha espinha. A energia que fluía de mim instantes atrás agora se dissipava, como se nunca tivesse estado ali.
A criatura rugiu, um som que ressoou como um trovão furioso. Eu tentei, desesperadamente, conjurar outra barreira, sentindo o desespero latejar em minha pele. Mas nada veio. Nenhuma centelha, nenhum calor. Minhas mãos estavam vazias… frias.
Atrás de mim, a voz de Sienna rompeu o caos, trêmula e incrédula.
— Ashley… seu cabelo… o que aconteceu?
Não tive tempo para entender.
— Eu também fiquei surpresa, mas agora não temos tempo para isso!
— Não, Ashley… — sua voz se tornou um sussurro aterrorizado. — Seu cabelo voltou ao que era!
As palavras dela soavam distantes, como se o tempo tivesse desacelerado ao meu redor. Minha mente girava, incapaz de compreender como, em questão de segundos, eu perdi a cor que acabei de alcançar. Sem me dar tempo algum para que pudesse processar o que tinha acontecido, a criatura avançou novamente.
Seus tentáculos de água se ergueram como lâminas vivas, cortando o ar com precisão mortal. Estávamos encurraladas. Eu não conseguia me mover. O pânico se instalava, esmagando qualquer resquício de lógica. O que aconteceu com meus poderes? Por que eles haviam desaparecido no pior momento possível? Seria algum tipo de piada cruel do destino?
O inevitável estava diante de mim.
Minha mente, já rendida, começou a vagar por pensamentos absurdos. “Nem cheguei a comer os pães de maçã…” A ironia me atingiu com tanta força que quase ri. No fim das contas, era nisso que eu pensava? Chega a ser cômico, quase ridículo. O cheiro doce parecia tão real que até podia jurar que…
Espere. O cheiro parecia real demais…
Um som cortante rasgou o ar, seguido pelo impacto da água espirrando ao redor. Uma voz firme ecoou logo depois.
— Vocês estão bem?
Abri os olhos assustada e lá estava ela. Entre nós e a criatura, com uma lâmina fina cintilando em sua mão.
— Selene!
Ela embainhou a espada com um movimento preciso, os olhos avaliando toda a situação com uma calma desconcertante.
— Desculpe o atraso, garota. Tive que tomar um pequeno desvio no caminho. Mas vocês estão bem?
Minha mente ainda girava com tudo o que havia acontecido, mas de alguma forma, consegui responder.
— Sim… de alguma forma conseguimos evitar o pior.
Selene me lançou um olhar intenso, seus lábios curvando- se levemente em um sorriso sutil.
— Você fez bem em resistir até agora. Eu sabia que havia algo diferente em você.
O cenário ao meu redor parecia algo saído de um pesadelo. A praça, antes movimentada e repleta de vida, agora lembrava campos de batalha que apenas vi em ilustrações. O solo estava marcado por fissuras, vapor subia das poças espalhadas pelo chão, as estruturas ao redor haviam sido castigadas pelo confronto. Meu olhar pousou na padaria, ou melhor, no que restava dela. As mesmas paredes que abrigaram o aroma aconchegante dos pães de maçã agora estavam em ruínas, reduzidas a destroços carbonizados.
— Houve uma luta intensa aqui… — murmurou Selene, analisando as marcas pelo chão. Ela se abaixou, tocando o solo com a ponta dos dedos. — Pelas evidências, parece obra de um chromago do fogo.
Seus olhos se voltaram para Sienna, ainda meio debilitada ao meu lado.
— Essa senhora foi a responsável? Ela não me parece em condições de algo assim.
A resposta parecia travada na minha garganta.
— Eu… eu não sei bem como explicar, mas… fui eu.
Selene arqueou uma sobrancelha, a incredulidade estampada em seu rosto.
— O quê!? Não sei se é hora para brincadeiras, mas se estiver falando sério, quero ouvir os detalhes depois.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, a criatura, como se compreendesse o perigo iminente, começou a recuar. A água ao redor tremulava conforme ela se afastava, seu corpo amorfo se contorcendo para escapar.
Selene sorriu, seus olhos vermelhos faiscando com entusiasmo.
— Já está de saída? E justo agora que o clima estava começando a esquentar?
Sem hesitação, ela avançou contra a criatura. Com um movimento ágil, disparou pequenas esferas de fogo, que explodiram ao atingi-la, retardando seus movimentos. Mas logo o monstro absorveu a umidade ao redor, regenerando- se quase instantaneamente.
— Não deixe que ela se regenere! Ataques menores só vão atrasá-la! — gritei, sentindo a urgência tomar conta de mim.
Selene suspirou dramaticamente.
— Ah, que saco… então eu vou ter que usar mais poder de fogo contra algo tão fraco? Nossa compatibilidade não é das melhores…
Ela então se lançou contra o inimigo, desviando dos tentáculos de água com uma destreza absurda. Seus movimentos eram fluidos, calculados. Mas algo não fazia sentido para mim: por que se aproximar tanto? Seus ataques de fogo pareciam muito mais eficazes à distância.
E então, ela desembainhou a espada. Meu coração disparou. O que ela pretendia fazer com uma lâmina contra algo que era feito de água?
Com um movimento veloz e preciso, Selene cravou a espada no centro da criatura. Por um instante, o monstro congelou, como se o tempo tivesse parado ao seu redor. E então, senti.
Uma aura colossal emanou de Selene, um calor sufocante que parecia consumir tudo ao redor. Não era apenas fogo… era algo além disso. Algo avassalador. Seus olhos brilharam com uma intensidade feroz.
— Esse será o último brilho que seus olhos irão ver.
A energia ao seu redor convergiu para a lâmina, e a espada começou a brilhar com uma luz escarlate, pulsando como o coração de um vulcão prestes a entrar em erupção.
— Inferno Carmesim!
Com um único golpe ascendente, Selene cortou a criatura ao meio. E então o chão se iluminou.
Antes que uma única gota de água tocasse o solo, um pilar de chamas irrompeu da terra, consumindo a criatura por completo. A luz era tão intensa que precisei cobrir os olhos. O calor, tão esmagador, me fez recuar. Ondas de energia pulsavam pelo ar, como uma maré ardente, empurrando tudo ao redor. O fogo subiu em direção ao céu, rugindo como uma tempestade de brasas.
O monstro evaporou instantaneamente, sem a menor chance de se recuperar.
Quando as chamas finalmente se dissiparam, o céu, antes iluminado pela luz incandescente, foi tomado por nuvens pesadas. Um silêncio quase solene caiu sobre o ambiente. E então, as primeiras gotas de chuva começaram a cair.
Selene embainhou a espada, caminhando tranquilamente até nós.
— Parece que exagerei…, espero que não leve uma bronca por causar uma mudança climática — disse ela, soltando um leve riso.
Eu ainda estava imóvel, o espanto dominando cada parte do meu ser. “Como alguém pode realizar um ataque desses?” Minha mente tentava encontrar alguma explicação, mas, no fundo, uma sensação diferente começou a preencher meu coração.
O alívio. Eu havia protegido minha tia. “Eu consegui!”
Selene estendeu a mão para me ajudar a levantar, e quando tentei me erguer, um zumbido preencheu meus ouvidos. Meu corpo vacilou. Minha visão começou a se desfazer em sombras, tudo ao meu redor girando sem controle. Senti-me caindo em direção ao vazio…
— Ashley!?
Fim do capítulo 4 – O Poder que Incendeia o Destino.
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