Capítulo 62: Vitórias Incompletas.
Lembrei do objetivo da luta. Três acertos. Era minha chance. Avancei, tentando acertar Eren antes que ele se recuperasse. Ele desviou por pouco, tropeçando, e correu para recuperar a espada.
— Você me surpreendeu… — disse, ofegante, pegando a arma de volta. — Mas não vai me pegar nesse truque sujo de novo.
Mantive o florete firme nas mãos, sentindo meu coração acelerar. Dessa vez, não ia deixar que ele escapasse tão fácil.
Armei-me de novo enquanto ele se reerguia, sentindo o cabo do florete escorregar levemente na minha mão contra a minha pele suada. O coração martelava na garganta, cada batida uma contagem silenciosa calma. Observei Eren nos olhos e recuei só o suficiente para medir a distância.
Ele avançou com pressa, sua espada de madeira cortando o ar. Eu aparava, desviava, deixava que o florete fizesse o trabalho fino redirecionando a maioria dos seus golpes. Os pedaços de madeira se chocando geravam faíscas de som que ecoavam como estalos no tecido do chão. Em algum lugar da plateia alguém buzinou em aprovação. Eu senti o ritmo dele: mais rápido, mais forte, mais preciso.
Quando Eren se expôs demais para recuperar o fôlego meu corpo respondeu antes da mente: um passo para dentro e um corte lateral limpo. A lâmina de madeira do meu florete o atingiu no ombro, Eren vacilou, caiu de joelhos. A voz da atendente chamou a minha atenção.
— Ponto para Ashley!
O anúncio da contagem me trouxe de volta ao salão: aplausos, vozes. Por um instante absorvi aquelas palavras como se fosse calor na pele; olhei para a plateia buscando Selene e Rose. Foi o erro. Não tive tempo de recolher o florete antes que Eren, com um olhar carregado de raiva, me acertasse com uma estocada curta e rápida, o suficiente para raspar meu braço. Senti uma dor que me fez ter um arrependimento instantâneo.
— Não tire os olhos do inimigo até ter plena certeza de que venceu! — ouvi Selene rosnar por cima do barulho.
As palavras foram como sal sobre a ferida. Endireitei as costas, sacudi a tontura e respirei fundo. Errei, mas ainda estava viva e ainda tinha mais dois golpes pela frente.
Recuperei o foco. Ele veio novamente, mais cuidadoso, tentando compensar a queda de antes. Eu estava mais rápida, menos pesada. A torre, de algum jeito, havia gravado seus ensinamentos em meus músculos e reflexos. Acertei o segundo ponto com um golpe por cima do ombro que o fez recuar, a madeira batendo contra Eren gerava um som diferente. Minhas mãos tremiam, mas dessa vez controlei o tremor. Faltava só mais um golpe.
Eren, apanhando o ar, engoliu a humilhação. Pareceu que algo nele quebrou: não a coragem, mas a vaidade talvez. Antes que eu pudesse fechar o espaço e terminar o duelo, ele murmurou alguma coisa e vi em suas mãos ele começar a canalizar energia. Uma esfera de água se formou em seu punho, girando como um olho líquido. Prendi a respiração, a regra era clara, mas o olhar dele estava falando que não se importava com regras.
Quando a água veio em minha direção, ergui o florete em uma tentativa de me defender, mas antes que pudesse ser atingida vi uma palma atravessar o ar e tocar a esfera. A água se dispersou sob um tapa seco. Virei a cabeça e vi Aqua, os olhos duros como aço, encarando Eren com um desprezo que queimava o ambiente.
— Você, que se julga tão nobre, não entende etiqueta e regras básicas de um duelo? — ela cuspiu cada palavra com uma voz aguda de reprovação.
O garoto gaguejou um “mas…” sem força. Aqua interrompeu com um corte perfeito:
— Mas nada. Vá para casa e pense direito no que fez hoje.
Eren abaixou a cabeça, vermelho de vergonha, e saiu em passos rápidos. O silêncio desagradável que ficou foi rompido rapidamente pela atendente.
— Vitória de Ashley! — anunciou ela, e o salão explodiu num clamor que me fez corar e rir ao mesmo tempo.
A plateia veio em minha direção em ondas de gritos e tapas nas costas. Selene sorriu de canto, orgulhosa. Rose me puxou para um abraço que me deixou tonta. Respirei o som de uma vitória, tão agridoce, mas… vitória. Ainda assim, no fundo, senti algo novo: a certeza de que cada teste era mais uma porta em direção a algo maior.
O barulho da vitória ainda ecoava pela sala quando percebi Aqua se aproximando. Sua postura era firme como sempre, mas havia uma sombra de suavidade em seu olhar.
— Peço desculpas pelo comportamento do meu irmão — disse, com calma.
Meu corpo inteiro congelou.
— Irmão? — repeti, sem disfarçar a surpresa.
Ela assentiu levemente, os cabelos azulados balançando com o movimento.
— Ele ainda é jovem demais… e não vive na melhor das companhias. Por isso age daquela forma. Mas não é desculpa — seus olhos endureceram de novo, como se falasse tanto comigo quanto consigo mesma.
Eu ia responder, mas uma voz ecoou pelos corredores da guilda, a mesma ressonância que havia nos atingido no dia em que a torre do abismo se revelou. O silêncio tomou conta de todos, os ecos reverberando pelas paredes.
— Atenção. A Torre do Abismo foi oficialmente fechada. Como prometido, o rei Enrico Marines entregará pessoalmente a recompensa aos aventureiros responsáveis por esse feito. O rei fará um evento ao fim da tarde para tais finalidades.
Meu coração acelerou. A recompensa. Mas mais que isso, a lembrança da torre, do que havíamos enfrentado ali, voltou como uma onda pesada. Fechei a mão em torno do florete de madeira, sentindo a respiração presa no peito.
Esse homem, ele incentivou várias pessoas a perderem suas vidas naquele lugar, se acha que algumas moedas de ouro são suficientes para resolver esse problema… Temo que esteja enganado. O olhar desconfortável no rosto de Aqua comfirmava ainda mais o que eu acreditava.
Aqua nos reuniu no salão principal da guilda, sua postura ereta diante da mesa de madeira reforçada dava ares de solenidade ao momento. O burburinho entre os aventureiros cessou assim que ela começou a falar.
— Quero agradecer a todos pelo empenho nesses últimos dias — disse, sua voz clara ecoando pelo salão. — Mas a convocação de hoje é específica: apenas os que estiveram na Torre do Abismo deverão comparecer ao evento que ocorrerá ao entardecer. Não é obrigatório, mas é importante. O rei irá nos receber.
Por um instante, o silêncio se alongou. Vi alguns aventureiros trocarem olhares incertos, outros cruzarem os braços como se meditassem sobre a decisão. Aqua não prolongou o discurso.
— O resto do dia é de vocês. Descansem, façam o que acharem necessário. Estão dispensados.
Ela saiu do salão com a mesma feição com que entrou, deixando-nos com a sensação de que algo nos aguardava. Eu, no entanto, tinha outra preocupação. Resolvi voltar à sala de treinamento para assistir ao duelo de Rose.
Apressei o passo pelos corredores da guilda, o som do couro das minhas botas batendo contra o chão de pedra. Já imaginava Rose em combate, cada golpe carregando aquela mistura de elegância e calma que só ela parecia ter. Mas, ao entrar na sala, fui surpreendida pela voz da atendente:
— Vitória de Rose!
Parei no meio do caminho, confusa. Olhei em volta, esperando ainda ver as espadas se chocando no ar, mas o duelo já havia terminado. Rose estava de pé, sua respiração pesada, suor escorrendo pela testa.
— Rose! — chamei, caminhando até ela. — Parabéns pela vitória.
Ela ergueu os olhos para mim, mas seu semblante estava distante, perturbado. Não havia brilho de triunfo, apenas um desconforto difícil de esconder.
— Não sei se devo aceitar esses parabéns… — respondeu com a voz baixa, quase um sussurro.
Franzi o cenho.
— O que quer dizer com isso?
Ela desviou o olhar, como se tivesse medo das próprias palavras.
— Durante a luta… senti como se tivesse apagado em alguns momentos. Não lembro direito do que aconteceu. Só… só me vi no fim, com a vitória nas minhas mãos. Mas não sei como.
As palavras dela fizeram minha mente voltar à cena do duelo anterior, aquele instante fugaz em que vi os olhos de Rose brilharem em um tom profundo de ametista.
Toquei seu ombro, tentando transmitir firmeza.
— Rose… eu vi algo nos seus olhos. E pelo visto não foi imaginação minha. Precisamos conversar sobre isso depois.
Ela me lançou um olhar confuso, mas o que mais me intrigava era pensar que nem mesmo a própria Rose se conhecia.
Fim do Capítulo 62: Vitórias Incompletas.

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