Capítulo 71: Caminhando Sobre as Brasas.
O calor foi a primeira coisa que me deu as boas vindas quando pusemos os pés em terra firme. Não era sufocante, mas certamente era envolvente, diferente do abraço frio e constante do Reino da Água. O ar parecia mais seco, carregado de um cheiro terroso e um pouco metálico, como se o próprio chão respirasse a energia do fogo. Ainda assim, meu pensamento não estava totalmente ali. A voz que surgiu dentro da minha cabeça durante a travessia não saía dos meus pensamentos.
Eu continuava ouvindo ecos dela, mesmo em silêncio.
Selene, por outro lado, parecia em casa. Havia algo na postura dela — o jeito como respirava fundo, como seus ombros relaxavam — que denunciava o quanto aquele lugar lhe era familiar. Ela caminhava à frente com um meio sorriso tranquilo, como alguém que retorna a um lugar que nunca deixou de chamar de lar.
Rose percebeu meu silêncio rápido demais. Ela se aproximou, andando ao meu lado, e tocou meu braço com cuidado.
— Ashley… você tá bem? — perguntou, em voz baixa.
Pisquei algumas vezes antes de responder. A voz já não estava lá. Pelo menos, não naquele momento.
— Acho que sim — respondi, tentando soar mais convincente do que me sentia. — Deve ter sido só cansaço. A viagem foi longa… acho que minha cabeça só pregou uma peça em mim.
Rose não pareceu totalmente convencida, mas assentiu mesmo assim, respeitando meu espaço. O silêncio que se seguiu foi quebrado pela própria Selene, que desacelerou o passo até ficar ao nosso lado.
— O caminho até a minha casa ainda é um pouco longo — disse ela, olhando o horizonte avermelhado, onde o sol começava a se esconder. — Eu poderia levar vocês voando… mas isso tiraria toda a graça.
Levantei o olhar para ela, curiosa.
— A graça?
— Claro — Selene sorriu de lado. — Você está conhecendo um Reino diferente pela primeira vez, Ashley. Se simplesmente sobrevoarmos tudo, vocês não vão ver nada direito. Não vão sentir o lugar. Além disso… — ela fez uma breve pausa — eu queria passar em um lugar antes, para ver um velho amigo.
A medida que avançávamos céu já começava a se tingir de tons mais escuros, e as sombras se alongavam pelo terreno irregular. Selene então apontou para a frente, onde uma cerca simples mal podia ser vista entre as ondulações do solo.
— Perto daqui tem uma pequena fazenda — explicou. — Nada luxuoso, mas é segura. Podemos passar a noite lá e, amanhã cedo, alugar uma carroça. Assim seguimos viagem com calma.
Assenti. Parte de mim queria continuar andando até o cansaço me derrubar, talvez para não pensar naquela voz. Mas outra parte sabia que parar era o mais sensato. E, naquele momento, confiar em Selene parecia tão natural quanto respirar.
Enquanto o céu do Reino do Fogo escurecia acima de nós, tive a estranha sensação de que aquela terra guardava respostas… mesmo que eu ainda não estivesse pronta para ouvi-las.
Conforme seguiamos, o Reino do Fogo começava a se revelar diante de nós de um jeito que eu nunca tinha visto antes. A natureza ali não era suave nem contida como no Reino da Água. Ela parecia viva demais, quase pulsante. As folhas tinham tons quentes, variando entre vermelho queimado e laranja intenso, e algumas flores brilhavam como brasas recém-acesas. Até o ar parecia cintilar.
Pequenas criaturas feitas de fogo cruzavam nosso caminho em saltos rápidos, deixando rastros de faíscas que se apagavam no ar segundos depois. Eu me peguei observando tudo com atenção, tentando absorver cada detalhe. Era estranho… e ao mesmo tempo, fascinante. Borboletas rubras tingiam a noite com suas cores não imaginava que o Reino do Fogo ficasse tão lindo a noite.
Quando a noite caiu de vez, avistamos uma construção simples à frente, cercada por uma cerca de madeira escurecida pelo tempo e pelo calor constante. Uma placa pendia torta próximo ao portão, iluminada por uma lanterna de luz avermelhada. Recanto dos Escaldrons.
Mal demos alguns passos para dentro da propriedade e ouvi um rosnado grave. Dois cães surgiram da lateral da casa. Eram grandes, de pelagem incandescente, como se brasas vivas corressem sob seus pelos. O calor que emanava deles fez meu coração disparar. Rose deu um passo para trás instintivamente, e eu senti meu corpo enrijecer. Os cães avançaram em nossa direção com rapidez, e por um momento achei que seríamos atacadas.
Mas então, para minha completa surpresa, eles passaram direto por mim.
— Meus lindos! — Selene exclamou, a voz repentinamente suave, quase manhosa.
Os cães começaram a saltar ao redor dela, abanando caudas flamejantes, soltando sons animados. Selene se abaixou sem medo algum, passando a mão por suas cabeças incandescentes como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Vocês sentiram minha falta, não foi? — disse ela, rindo. — Calma, calma… sem derrubar.
Eu e Rose nos entreolhamos, ainda tentando entender o que estava acontecendo.
Foi então que a porta da casa se abriu.
— Que barulheira é essa?
Um senhor de idade avançada saiu, apoiando-se em um cajado por um breve instante antes de endireitar a postura. Seus cabelos eram de um tom quente de laranja, e havia marcas de batalhas antigas em seu rosto. Assim que seus olhos pousaram sobre Selene, eles se arregalaram.
— Então resolveu aparecer de novo, hein? — disse ele, abrindo um sorriso largo.
Selene se levantou em um salto e foi ao encontro dele, claramente feliz.
— Eu disse que voltaria velhote, não disse? — respondeu, em um tom leve.
Mas, num piscar de olhos, o clima mudou.
O homem sacou uma espada com um movimento rápido demais para alguém da sua idade e golpeou na direção de Selene sem aviso algum. Meu coração quase saiu pela boca.
— Selene! — exclamei, dando um passo à frente.
Ela reagiu por puro reflexo. A espada dela pareceu surgir em sua mão no mesmo instante, e o som metálico do choque ressoou pelo terreno. Faíscas voaram para todos os lados enquanto eles trocavam golpes rápidos e precisos.
Eu e Rose ficamos paralisadas, observando aquela dança mortal. O homem era incrivelmente habilidoso. Cada movimento era calculado, firme, como se sua idade não significasse absolutamente nada. Selene acompanhava o ritmo sem hesitar, bloqueando e contra-atacando com uma confiança inabalável.
Por um momento, não consegui entender por que eles estavam lutando, mas nas feições deles não parecia ter nenhum resquicio de rancor ou algo parecido.
Então, com um golpe forte, Selene o empurrou alguns metros para trás. O homem deslizou pelo chão, mas manteve o equilíbrio. Ele abaixou a espada… e começou a rir.
— Vejo que não pegou leve no treino esses últimos anos que esteve fora sem a minha supervisão — disse, ainda rindo enquanto alisava a barba.
Selene relaxou os ombros, guardou a espada e sorriu de volta.
— Na verdade Ruffus — respondeu, estendendo a mão para ele — eu só fiquei ainda mais forte desde a última vez que trocamos golpes.
Ele segurou a mão dela com firmeza, apertando-a como um velho companheiro faria.
Os dois riram juntos antes de entrarem na casa, como se nada de anormal tivesse acontecido.
Eu e Rose demoramos alguns segundos a mais para reagir, mas, pouco a pouco, a tensão foi se dissipando. Só então começamos a entender: aquilo não era uma luta real… era um reencontro.
Um reencontro entre mestre e aluna.
A casa de Ruffus era simples, mas carregava uma sensação de calor que ia além do fogo aceso na lareira. As paredes eram feitas de pedra escura, marcadas pelo tempo, e adornadas com armas antigas, escudos gastos e troféus que denunciavam uma vida inteira dedicada ao combate. Havia marcas de lâminas nas vigas de madeira e pequenos entalhes rúnicos próximos às portas, provavelmente feitos mais por hábito do que por alguma necessidade. Tudo ali parecia sólido, firme… resistente.
Fomos recebidas com uma hospitalidade direta, sem cerimônias exageradas. Ruffus logo tratou de preparar o jantar, enquanto Rose, sempre gentil, se ofereceu para ajudá-lo na cozinha. Vi os dois trocando algumas palavras enquanto ela aprendia a lidar com ingredientes típicos do Reino do Fogo, rindo maravilhada quando uma pequena chama escapava de uma panela.
Eu permaneci sentada à mesa com Selene, observando o ambiente com curiosidade.
— Então… — comecei, quebrando o silêncio — este é o Reino onde você cresceu de verdade, não é?
Selene assentiu, olhando ao redor com um leve sorriso nostálgico.
— É… apesar que viajei bastante entre os Reinos, acredito que fazem mais ou menos dois anos que não volto pra casa. Assumo que senti muita falta do toque caloroso que sinto aqui. — Ela então desviou o olhar para mim. — E é por isso que quero que aproveite a sua estadia aqui e aproveite o maior número de experiências possíveis.
Hesitei por um instante antes de perguntar:
— Por falar em experiência eu vou… treinar espada com o senhor Ruffus?
Ela soltou uma risada baixa e balançou a cabeça.
— Não, não. Ele é um espadachim excepcional, mas não seria o mentor ideal para você.
Franzi o cenho.
— Por quê?
— Bem… na esgrima, cada um desenvolve suas habilidades de certas formas… e pelo que eu vi… e ouvi sobre você — disse ela, com um tom mais sério — seu estilo não combina com o dele. Ruffus ensina o caminho da espada através da força, postura e domínio absoluto da lâmina. Você precisa de algo diferente disso, algo que combine com o estilo de esgrima que você tem por instinto.
Meu coração acelerou um pouco.
— Meu estilo… você já tem alguém em mente? — perguntei.
Selene sorriu de lado.
— Tenho. Conheço alguém perfeito para você.
Aquilo despertou minha curiosidade de imediato, mas decidi não insistir. Havia algo no jeito como ela falou que me dizia que esse encontro viria no momento certo e que eu não deveria me antecipar.
Pouco depois, Rose voltou da cozinha, e o jantar foi servido.
A comida era farta e aromática: carnes assadas lentamente com especiarias picantes, legumes grelhados que mantinham tons avermelhados mesmo depois de cozidos, pães rústicos ainda quentes e uma sopa espessa que aquecia o corpo inteiro com apenas uma colher. O sabor era intenso, mas reconfortante, como se cada prato carregasse a essência do Reino do Fogo.
Enquanto comíamos, Selene e Ruffus começaram a trocar histórias antigas. Falavam de batalhas passadas, de treinamentos brutais e de erros que quase custaram vidas em missões. Eu escutava em silêncio, absorvendo cada palavra.
Em dado momento, Ruffus apoiou os cotovelos na mesa e olhou diretamente para Selene.
— E então… o que veio fazer aqui dessa vez? — perguntou. — Não me diga que voltou só para matar a saudade, eu disse da última vez que já te ensinei o que eu sabia.
Selene sorriu.
— Estou em uma pequena aventura — respondeu. — Com minha nova discípula.
O olhar dele se voltou primeiro para Rose.
— Nunca imaginei que a princesa do fogo fosse até o Reino da Terra em busca de uma discípula — comentou, com um meio sorriso enquanto dava outra garfada.
Selene arqueou a sobrancelha.
— Você se enganou, velho.
Ele então voltou o olhar para mim, claramente confuso.
— Hm… — murmurou, me analisando por alguns segundos. — Selene, você anda ficando irresponsável com a idade. Dar falsas esperanças a uma jovem assim não é algo que combina com você.
Senti um aperto estranho no peito, mas antes que eu pudesse reagir, Selene começou a rir.
— Falsas esperanças? — disse ela. — Não poderia existir uma discípula melhor do que a Ashley.
Ruffus me olhou outra vez, dessa vez com mais atenção. Não disse nada por alguns segundos, apenas suspirou.
— Se você diz… — respondeu por fim. — Então vou confiar no seu julgamento… eu acho.
A forma como ele reagiu me deixou um pouco abalada, para ser sincera nem eu mesma acreditaria nessa história se estivesse no lugar dele, mas mantive a cabeça erguida.
Após o jantar, Selene comentou que gostaria de mostrar o Reino do Fogo para mim e para Rose nos próximos dias e pediu a Ruffus uma carroça e alguns cavalos para seguirmos viagem.
Ele coçou a barba, pensativo.
— Eu até gostaria de ajudar — disse — mas há um problema. Um grupo de bandidos está atacando carroças nas estradas. Estão roubando mercadorias e suprimentos até em plena luz do dia. Por isso, várias rotas foram interditadas enquanto investigam o que está acontecendo.
O clima na mesa mudou sutilmente.
— Bandidos? — indagou Selene com um olhar indiferente. — Velhote eu não acho que eu precise ter medo de alguns bandidos.
— A questão não é tão simples assim, eu até forneceria uma carroça com tranquilidade, mas não sei se notou quando chegou aqui… — Ruffus coçou a nuca por um instante — meu estábulo está vazio, alguns oficiais vieram uns dois dias atrás e requisitaram meus cavalos para puxarem uma carroça de volta com as mercadorias roubadas, mas até agora nem mercadorias, nem cavalos.
Fitei Selene brevemente apenas para me deparar com uma feição de confusão e descontentamento.
— Um tempinho que passo forá já foi o suficiente para um grupo de vagabundos crescerem as asas? — Selene levantou de súbito batendo as palmas da mão na mesa. — Não precisa se preocupar velho, eu mesma resolverei esse problema.
Parecia que, mais uma vez, a estrada à frente não seria tão simples quanto eu esperava.
— Acalme essas chamas garota… eu acredito que a viajem de voçês foi longa, descansem por hoje, mostre os quartos a elas Selene.
Selene assentiu com a cabeça e subiu as escadas na frente, Rose foi logo atrás com um suspiro que demonstrava seu contentamento com finalmente poder descansar depois de se empanturrar na janta. Antes que eu conseguisse colocar um pé no primeiro degrau da escada, Ruffus me parou.
— Discípula da princesa né? Sei que pode ser muito desse velho pedir isso, mas ao amanhecer poderia me encontrar na frente da casa? — Naquele momento seus olhos brilharam com um fogo intenso — preciso confirmar algo.
As palavras daquele senhor me deram um frio na barriga, eu não fazia ideia do que esperar daquele pedido, mas algo me dizia que eu não poderia recusá-lo.
Fim do Capítulo 71: Caminhando Sobre as Brasas.
Nota do Autor: É… as férias de fim de ano acabaram se alongando mais do que o esperado, em meio a viagens e ter que estudar para concursos, a novel ficou parada mais tempo do que eu planejava e mais do que eu queria, mas é com grande prazer que eu anuncio com esse capítulo o inicio do segundo volume (ou temporada chamem como quiserem) de Reinos de Cores Ilusórias.

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