Índice de Capítulo

    Selene nos conduziu até o quarto onde passaríamos a noite. O espaço era simples, mas confortável, com duas camas de madeira maciça cobertas por mantas grossas em tons avermelhados e alaranjados. As paredes de pedra conservavam o calor do dia, e pequenas lanternas presas aos suportes iluminavam o ambiente com uma luz suave, tremeluzente. Havia uma janela estreita por onde entrava o ar quente do Reino do Fogo, carregado de um cheiro seco, quase mineral. Tudo ali parecia feito para resistir ao tempo.

    — Tentem descansar — Selene disse, antes de sair. — Preciso conversar algumas coisas com o Ruffus.

    A porta se fechou atrás dela, e o silêncio tomou conta do quarto momentaneamente. Rose se sentou na cama, esticando os braços, ainda observando o ambiente com curiosidade.

    — É tudo tão diferente… — comentou. — Mesmo à noite, parece que o lugar nunca esfria de verdade.

    — É — respondi, deitando-me, mas sem conseguir relaxar por completo. — O Reino do Fogo parece sempre… quente. Mas não nesse sentido sabe? — ri um pouquinho.

    Conversamos por um momento sobre o que esperávamos daquela estadia, sobre o que Selene poderia estar planejando para o meu treinamento e sobre como tudo parecia mais intenso, desde que havíamos cruzado a fronteira. Mas, mesmo enquanto falava, minha mente insistia em voltar para as palavras de Ruffus. “Me encontre ao amanhecer.”

    Aquilo não saía da minha cabeça.

    — Rose… — chamei, após um momento de silêncio. — Você consegue ouvir… a outra Rose? A voz dela?

    Ela me olhou, surpresa, e balançou a cabeça.

    — Não. Imagino que seja porque, enquanto uma está acordada, a outra deve estar dormindo. Talvez funcione assim.

    Assenti, tentando me convencer de que fazia sentido. Ainda assim, a inquietação não foi embora. Virei de um lado para o outro por um bom tempo, até que, em algum momento, o cansaço venceu, mas tive um sono raso, fragmentado.

    Acordei antes mesmo de ouvir qualquer barulho na casa. A primeira coisa que notei foi a luz do sol começando a invadir o quarto, pintando as paredes de dourado e vermelho. O calor parecia mais intenso àquela hora. Levantei-me devagar, calcei as botas e saí do quarto, descendo as escadas com passos cautelosos.

    Quando estava prestes a alcançar a porta da frente, uma voz grave me interrompeu.

    — Onde está a sua espada?

    Ruffus estava ali, parado como uma sombra sólida no meio do caminho. Seu olhar caiu sobre mim com um peso difícil de ignorar.

    — No quarto… — respondi, confusa.

    — Vá buscá-la.

    Não houve espaço para questionamentos. Subi novamente, peguei meu florete e voltei. Ao sair da casa, encontrei Ruffus de costas, observando o nascer do sol no horizonte. O céu do Reino do Fogo era impressionante àquela hora, tomado por tons de laranja, vermelho profundo e dourado incandescente.

    — Bonito, não é? — ele disse, sem se virar. — O nascer do sol.

    Assenti em silêncio.

    — O sol é uma das maiores fontes de energia do fogo — continuou. — Seu brilho é capaz de cobrir todo o nosso continente em um piscar de olhos. Para muitos de nós… a princesa é como o sol.

    Meu coração acelerou ao perceber de quem ele falava.

    — Essa luz atrai — ele disse, finalmente se virando para mim. — Mas nem todos a merecem.

    Ruffus sacou a espada com um movimento firme e direto. O metal refletiu a luz do amanhecer enquanto ele assumia posição diante de mim.

    — Quero ver com meus próprios olhos — declarou — se essa tal discípula merece caminhar sob essa luz… ou se deve chafurdar nas sombras.

    O ar ao meu redor pareceu pesar, e, naquele instante, eu soube que aquele amanhecer não seria apenas o início de um novo dia. Então Ruffus ergueu a espada e apontou a lâmina diretamente para mim.

    — Prepare-se.

    Antes que eu tivesse tempo de formular qualquer pergunta ou sequer entender o que aquilo significava, ele avançou.

    — Vamos, garota. Saque sua espada!

    O golpe veio rápido demais. Instintivamente, me movi para o lado, sentindo o vento cortado pela lâmina passar perigosamente perto do meu rosto. Meu coração disparou.

    — Espere! — tentei dizer, recuando. — Eu não…

    Outro ataque. Mais forte. Mais próximo que o anterior.

    Meu corpo reagia antes da mente. Eu desviava, tropeçava, recuava, sentindo o chão irregular sob meus pés enquanto tentava ganhar distância. Ruffus não diminuía o ritmo. Pelo contrário. Cada golpe parecia mais pesado que o anterior.

    — Se continuar fugindo assim, vai morrer — ele disse, com uma frieza que me gelou por dentro.

    Eu sentia que ele não estava brincando. O medo começou a se misturar com outra coisa… urgência. Não era um treino. Não daquele jeito. Se eu não fizesse algo, aquele seria meu fim.

    Respirei fundo, puxei o florete da bainha e quase perdi o equilíbrio ao fazer isso. A lâmina reluziu sob a luz do amanhecer no exato momento em que Ruffus voltou a atacar.

    Consegui aparar o golpe por pouco. O impacto reverberou pelo meu braço inteiro, fazendo meus dedos formigarem.

    — Sua guarda está muito aberta — ele comentou, já girando o corpo para um novo ataque. — Seus pés estão errados.

    Eu mal tive tempo de processar aquilo antes de ter que recuar novamente. Cada tentativa minha de contra-ataque era facilmente desviada. Eu sentia meu corpo ficando pesado, meus movimentos desorganizados.

    — Por que você está fazendo isso?! — gritei, ofegante.

    — Como discípula da princesa do fogo, você deve estar à altura das expectativas — respondeu, sem hesitar. — E pelo que estou vendo aqui, você não está.

    Outro golpe. Mais um. Eu bloqueava como podia, às vezes errando o tempo, às vezes sentindo a lâmina dele raspar perigosamente perto do meu ombro ou da minha perna.

    — Segure a espada como se ela fosse parte do seu corpo — ele disse, num tom quase casual, mesmo enquanto atacava. — Não como se estivesse pedindo desculpas por usá-la.

    Eu cerrei os dentes, tentando ajustar a empunhadura, mas minha mente estava em caos. Eu não queria lutar. Só queria que aquilo acabasse.

    — Você não quer vencer — ele continuou, avançando mais uma vez. — E é exatamente por isso que está perdendo.

    O som metálico das lâminas ressoava ao nosso redor. Meu corpo já ardia de cansaço, os braços tremiam, e cada respiração parecia curta demais. Ainda assim, eu me mantinha de pé por pouco.

    ***

    Em algum momento, ouvi um barulho vindo de fora da casa. Abri a janela do quarto apenas para me deparar com a visão de Ashley esgotada no que parecia uma luta de vida ou morte contra aquele senhor.

    — Ashley?! — a minha voz soou carregada de pânico.

    Eu estava na janela, com os olhos arregalados ao ver Ashley tentando sobreviver aos ataques de Ruffus. Eu não consegui olhar para ela por mais que um segundo.

    Abri a porta do quarto e desci em passos apressados.

    — O que está acontecendo?! — gritei, correndo em direção à saída.

    Antes que eu pudesse cruzar o limiar da porta, Selene surgiu e segurou meu braço com firmeza.

    — Não se meta — disse, em um tom baixo, mas absoluto.

    — Selene, ele vai machucá-la!

    — Não precisa se preocupar — Selene respondeu, sem tirar os olhos de mim. — Ela tem que passar por isso.

    Eu não consegui entender o que estava acontecendo, mas vendo como Selene apenas assistia não consegui conter o meu descontentamento.

    — Você não está vendo o que está acontecendo, se essa luta continuar ela não vai resistir. — Não consegui esconder a preocupação.

    — Ela tem que resistir — Selene respondeu em um tom seco, mas que escondia algo.

    Naquele momento notei que ela apertava o punho ao ponto dos nós dos dedos ficarem brancos, ela claramente estava preocupada, mas se mantinha firme assistindo a luta… ao ver aquilo não consegui dizer mais nada, finalmente entendi do que se tratava tudo aquilo e só me restou torcer pelo melhor.

    ***

    — Endireite as costas — ele disse, após mais um bloqueio malfeito da minha parte. — Você luta como alguém que já aceitou a derrota.

    Essas palavras me atingiram mais forte do que qualquer golpe.

    Por um instante, meus pés pararam de recuar.

    Mas eu ainda não entendia o que ele estava tentando me ensinar. Eu só sabia que, se baixasse a guarda por um segundo… não teria outra chance.

    As palavras de Ruffus começaram a ecoar com mais força do que o medo. Eu passei a ouvir, de verdade o que ele tinha dito até agora. Ajustei os pés, firmei melhor o corpo, senti o peso do florete de um jeito diferente em minhas mãos. Não como um fardo… mas como uma extensão de mim.

    Ruffus pareceu notar. Um meio sorriso se formou em seus lábios enquanto ele avançava novamente.

    — Melhor — disse. — Agora seja mais rápida. Mais precisa.

    Os golpes continuaram vindo, mas, dessa vez, eu não apenas recuava. Eu desviava com intenção. Aparava com mais segurança. Cada ataque dele parecia me empurrar para o lugar certo, mesmo quando eu ainda não entendia como.

    — Pense, mas não pense demais — ele disse, girando a lâmina em um arco baixo. — O corpo precisa agir antes das dúvidas.

    Ganhei um pouco de confiança e tentei atacar. Meu florete avançou com mais firmeza, mas Ruffus respondeu de imediato. Senti uma ardência súbita no braço, seguida por um corte. O sangue escorreu quente pela pele.

    — Se pensar no ataque antes da defesa — ele falou, sem piedade — vai morrer rápido em uma batalha de verdade.

    Ele não me deu tempo para reagir. A pressão voltou, ainda mais intensa. Meus braços começavam a pesar, a respiração falhava, e cada movimento parecia exigir o dobro do esforço. A espada em minhas mãos parecia mais pesada a cada segundo.

    Eu precisava de uma solução, caso contrário iria acabar ainda mais ferida ou pior.

    Foi então que pensei no que sempre esteve ao meu lado quando precisei… e agora não estava. Em quase todas as lutas que enfrentei, eu tive o poder. As cores. Algo além de mim mesma.

    Mas ali, naquele momento, ele não vinha. O que sobra de mim quando esse poder não me responde?

    Enquanto desviava de mais um golpe e erguia o florete para aparar outro, vi a luz do sol refletir na lâmina. Um brilho intenso, quase cegante.

    E então, eu tive uma ideia.

    — Isso pode funcionar…

    Na investida seguinte de Ruffus, defendi com mais firmeza e ajustei meu posicionamento. Quando percebi o ângulo correto, girei o pulso de forma precisa, fazendo com que a luz do sol refletisse diretamente na direção dele.

    O brilho o atingiu em cheio. Ruffus levou a mão aos olhos por um instante, surpreso. Aquela era a minha chance.

    Avancei. Preparei uma estocada. Meu corpo estava pronto… mas quando a espada estava na metade do caminho, minha mente hesitou. A lâmina parou a poucos centímetros do peito dele.

    Eu não consegui seguir adiante.

    Ruffus abaixou o braço e me encarou.

    — Em uma luta real — disse, sério — você não pode demonstrar piedade ou hesitar depois de conseguir uma boa abertura.

    Engoli em seco.

    — Eu… tive receio de te machucar — confessei.

    Ele soltou um suspiro curto.

    — Aquilo? — disse. — Eu teria aparado aquele golpe desleixado e sem intenção até de olhos fechados.

    Guardou a espada e virou-se de costas.

    — Seus ataques precisam ter intenção, se não serão apenas ataques vazios… mas você ainda é jovem, tem tempo para aprender essas coisas. Bem, estou cansado. — Ele passou a mão pelo pescoço. — Estou velho demais para esse tipo de exercício tão cedo. Vou tomar um banho… e comer alguma coisa.

    Fiquei ali, parada por alguns segundos absorvendo o que tinha acontecido, até que minhas pernas cederam. Caí deitada sobre a grama alaranjada, os braços abertos, respirando fundo enquanto o céu do Reino do Fogo parecia girar lentamente acima de mim.

    O cansaço era absoluto.

    — Ashley… você está bem? — ouvi a voz de Rose se aproximando.

    — Só… extremamente cansada — respondi, sem forças para me levantar.

    Ela se ajoelhou ao meu lado e notou o ferimento em meu braço. Sem dizer nada, colocou as mãos sobre ele. Uma luz esverdeada suave envolveu suas palmas, e senti o ardor desaparecer quase que imediatamente.

    — Obrigada — murmurei, aliviada.

    Enquanto ainda conversávamos, Selene se aproximou, os braços cruzados e um sorriso discreto no rosto.

    — Parabéns — disse ela. — Você passou na sua prova de fogo.

    Fechei os olhos por um instante entendendo aos poucos o que tinha me acontecido.

    Apesar de tudo aquela manhã tinha me mostrado algo importante.

    Mesmo sem o poder… eu ainda podia lutar.

    Fim do Capítulo 72: Sob a Brilho do Sol.

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