Índice de Capítulo

    A cozinha de Ruffus estava diferente naquela manhã. A tensão do amanhecer havia sido substituída por um calor confortável, não apenas o da fornalha acesa, mas o de uma rotina simples que parecia existir ali há décadas.

    O cheiro de pão tostado e algo levemente picante pairava no ar. A mesa onde Ruffus estava preparando algumas coisas era robusta, marcada por cortes antigos, e estava coberta por pratos de cerâmica rústica. O sol entrava pela janela, iluminando partículas de poeira que dançavam lentamente.

    Após o banho eu ainda sentia um leve peso nos músculos por causa da luta, mas estava inteira graças a Rose.

    Nos reunimos para comer o que Ruffus havia preparado, por algum motivo ele parecia especialmente animado enquanto falava de boca cheia.

    — Quando Selene passou pela prova de fogo dela — ele começou, mordendo um pedaço de pão com naturalidade — ela já era impressionante para uma jovem daquela idade.

    Selene revirou os olhos, mas havia um sorriso contido ali.

    — Ele exagera — murmurou.

    — Não exagero, não. — Ruffus apontou para ela com o pedaço de pão. — Você era rápida, feroz… e tinha uma convicção nos olhos. Não hesitou nem uma vez.

    Senti um leve calor subir ao meu rosto, lembrando do momento em que parei meu golpe.

    Ruffus então voltou o olhar para mim.

    — Você não é tão habilidosa quanto ela era — disse, direto como sempre. — Nem tão forte.

    Rose fez menção de retrucar, mas eu permaneci em silêncio.

    — Mas — ele continuou — você tem bons reflexos. E pensa. Usa a cabeça no meio do caos. Aquilo com a luz do sol… foi inteligente.

    Eu não esperava ouvir aquilo de um senhor com uma aparência tão ranzinza.

    — Se continuar treinando — ele completou — pode melhorar muito.

    As palavras ficaram pairando no ar como algo que eu precisava guardar com cuidado.

    Selene apoiou o cotovelo na mesa e olhou para mim.

    — Quando conheci a Ashley — disse ela, com um tom mais sério olhando para Ruffus e para mim — tive um pressentimento estranho. Como se ela estivesse destinada a algo maior do que a cidade onde cresceu poderia oferecer.

    Meu coração deu um pequeno salto.

    — E você sabia disso — Selene acrescentou, encarando-me com firmeza. — Eu vi nos seus olhos.

    Desviei o olhar por um instante. Talvez ela estivesse certa. Talvez aquela inquietação que sempre senti não fosse apenas insatisfação… mas um chamado ou qualquer outra besteira de destino. Talvez eu não teria conhecido todas as pessoas incríveis se não tivesse encontrado com a Selene.

    Terminamos o café da manhã com uma leveza inesperada. Quando nos levantamos para seguir viagem, Ruffus trouxe um pequeno saco de pano.

    — Para a caminhada — disse, entregando-o a Selene.

    Dentro havia pequenas frutas de casca fina, em tons vibrantes de vermelho. Peguei uma por curiosidade e mordi.

    O gosto era azedo de imediato, quase fazendo meus olhos fecharem, mas logo vinha uma sensação refrescante que parecia percorrer o corpo inteiro, dissipando o cansaço residual da luta.

    — Elas ajudam a manter a energia — explicou Ruffus. — Podem ser úteis para se manterem hidratadas nas estradas daqui.

    Nos despedimos do velho espadachim com um aperto de mão firme e poucas palavras. Ele não era homem de discursos longos, mas aprendi bastante com suas ações.

    Quando deixamos a fazenda e pisamos novamente na estrada do Reino do Fogo, o sol já estava alto, e a terra avermelhada parecia vibrar sob sua luz.

    A estrada seguia longa e aberta diante de nós. O Reino do Fogo não era apenas repleto de brasas e chamas como muitos imaginavam. Havia colinas de terra avermelhada, campos de vegetação resistente que dançavam sob o vento quente e árvores de copas amplas que projetavam sombras quase negras contra o chão claro.

    O calor subia do solo em ondas sutis, fazendo o horizonte vibrar. Foi então que meus olhos se prenderam a algo ao longe.

    Sob a copa de uma árvore grande, afastada da estrada principal, havia duas formas. À distância pareciam apenas vultos, mas conforme caminhávamos e o ângulo mudava, consegui distinguir contornos mais definidos.

    Eram duas figuras humanas. Abraçadas.

    Meu passo diminuiu sem que eu percebesse. Quando focalizei melhor, o brilho opaco da superfície não deixava dúvidas: pedra.

    Senti um aperto no peito… a corrupção de cores. Pessoas transformadas em estátuas de maneira irreversível.

    Aquelas duas figuras não pareciam estar fugindo. Não havia postura de desespero. Apenas… amor. Como se o último instante delas tivesse sido de consolo. Quantas dessas existiriam espalhadas pelos reinos? Escondidas sob árvores, à margem de estradas, no interior de vilas… ignoradas por viajantes que não olhavam duas vezes?

    Talvez o problema fosse maior do que eu imagináva. Talvez fosse silencioso demais para causar alarde um imediato nas vidas que quem não sofreu com isso… e, exatamente por isso, é perigoso.

    — Ashley.

    A voz de Rose me puxou de volta. Percebi que ela e Selene estavam paradas alguns passos à frente, olhando para o lado oposto da estrada.

    Segui seus olhares. Pouco antes de uma ponte estreita de pedra, havia uma carroça parada atrás de alguns arbustos. Não estava tombada nem danificada. Apenas… imóvel.

    Os cavalos não estavam à vista e não havia movimento aparente.

    Selene não disse nada. Apenas levou a mão ao cabo da espada e a desembainhou com um som seco e controlado.

    O ar pareceu mudar de densidade. Aproximei-me logo atrás dela, com Rose ao meu lado. Meus dedos tocaram o punho do florete instintivamente. Cada passo era medido. Quando finalmente nos aproximamos o suficiente para ver melhor o interior da carroça, notei algo se mover.

    Um homem idoso estava escondido lá dentro, parcialmente agachado, segurando uma luneta. Ele a mantinha apontada para algum ponto além da ponte, completamente concentrado no que observava.

    Ele ainda não havia percebido nossa presença. Selene ergueu ligeiramente a lâmina.

    — Ei você — chamou, firme, mas sem agressividade. — O que está fazendo aí?

    O homem deu um pequeno sobressalto, quase deixando a luneta cair, virou-se bruscamente quando ouviu a voz de Selene e seus olhos se arregalaram ao nos ver.

    — Não… malditas ladras! Como me perceberam aqui?!

    Selene deu um passo à frente, a lâmina refletindo o brilho do sol.

    — Ladras? — a voz dela saiu baixa e perigosa. — Quem exatamente você está chamando de ladra?

    O homem encolheu os ombros e ergueu as mãos, a luneta quase escapando de seus dedos trêmulos.

    — E-eu pensei que fossem parte deles! — balbuciou. — Do grupo que está assombrando a região! Eu… eu achei que tivessem vindo me cercar!

    Rose franziu a testa.

    — Grupo? — Perguntou.

    — Bandidos! — ele sussurrou com urgência. — Agora, se não estão com eles, abaixem-se! Se eles olharem para cá, vão perceber o movimento!

    Selene hesitou apenas por um segundo antes de fazer um gesto rápido para que nos agachássemos ao lado da carroça. As tábuas quentes contra meu ombro pareciam pulsar com o calor acumulado do dia.

    — Explique — disse Selene, controlando a irritação.

    O homem apontou com cuidado para além da ponte estreita de pedra.

    — Eu estava observando o outro lado — murmurou. — Vi algumas figuras mascaradas se movendo entre os arbustos e nas copas mais baixas das árvores. Não estão na estrada… mas estão escondidos. Esperando.

    Um arrepio percorreu minha espinha. Uma emboscada.

    Selene estendeu a mão.

    — A luneta!

    Ele entregou o objeto sem protestar. Selene se inclinou ligeiramente, ajustou o foco e permaneceu em silêncio por alguns segundos que pareceram longos demais.

    Eu observei o rosto dela com atenção. Seus olhos se estreitaram e então ela respirou fundo.

    — Há de fato uma movimentação — confirmou, devolvendo a luneta ao homem. — E certamente não é o vento.

    O idoso engoliu em seco.

    — Eu disse que era perigoso. Estou parado aqui desde cedo. Se estiverem esperando uma carroça ou algo atravessar a ponte…

    Ele não precisou terminar a frase. Selene se levantou devagar, guardando a espada por um instante apenas para ajustar a postura.

    — Nós vamos com você — declarou.

    — O quê?! — o homem quase perdeu o equilíbrio ao se erguer também. — Isso é loucura! Eles podem ser muitos!

    Selene assumiu uma pose confiante, quase despretensiosa, mas havia algo firme em seu olhar.

    — Não precisa se preocupar.

    Rose trocou um olhar comigo. Meu coração batia mais rápido, mas não por medo, era outra coisa. Expectativa talvez.

    Do outro lado da ponte, escondido entre folhas e sombras, algo nos aguardava.

    O vento soprou sobre a estrutura de pedra da ponte, carregando o cheiro seco da vegetação aquecida e algo que logo descobriríamos.

    Fim do Capítulo 73: À Sombra da Ponte.

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