A floresta está em silêncio. No ar gélido da noite, não é apenas a lareira que aquece o interior da cabana, mas também o O Eco no ar vibra, quase fervendo, a ponto de distorcer a visão ao redor. Então, um clarão rasga a selva. O impacto derruba árvores. O chão treme. O silêncio da noite, já deformado pelo caos, é rompido por duas vozes poderosas.

    — Fase Cheia…

    De dentro da cabana, dois gigantes irrompem, rasgando madeira e terra em meio aos destroços. Por um instante, uma nuvem espessa encobre tudo, girando num tufão de poeira e Eco.

    Ao redor de Hugo, forma-se um colosso translúcido: um fantasma gigantesco, coberto por um manto escuro que parece feito de fumaça, vento e energia fria. O rosto é um crânio exposto, como se um caçador retornasse dos mortos em fúria. No centro do peito, Hugo flutua dentro daquela figura aterradora. Seus olhos brilham intensamente, fixos sobre a presa.

    Fiogon assume sua verdadeira forma.

    O corpo se alonga, e escamas violetas se espalham por cada centímetro de sua pele. Dois chifres curvados despontam da testa, parecidos com obsidianas recém-moldadas. O espaço ao redor se distorce visivelmente enquanto ele serpenteia pelo ar, sinuoso e imponente, com os olhos emitindo um brilho roxo assustador. Um verdadeiro Drake. Um Dragão.

    A selva acorda.

    O ar vibra.

    As nuvens se afastam.

    Hugo faz surgir um arco de energia na mão do colosso. A outra se move em gestos rápidos, disparando uma sequência de flechas de luz na direção do alvo, cada uma cortando o ar como nota de uma orquestra mortal.

    Fiogon ergue uma das garras, e múltiplos portais se abrem em círculos pelo ar, engolindo toda a saraivada luminosa. A quilômetros dali, o horizonte explode em clarões, erguendo cogumelos de poeira e energia. Nem mesmo as árvores mais grossas resistem ao impacto.

    — Sabia que você ia usar isso. — Hugo sorri.

    Ele ergue a mão livre para o céu, braço reto, palma aberta. O Eco ao redor de seu corpo ferve. Uma lança gigantesca, de ponta curva, se forma em pleno ar e dispara em linha reta, cortando as nuvens pelo caminho, que logo se desfazem ao vento.

    Fiogon gira o corpo no ar, serpenteando ao redor da lança e raspando algumas escamas na extensão daquela haste colossal. O espaço à sua volta se dobra. Então ele abre a boca, já preenchida de energia, enquanto uma luz lilás se acumula em sua garganta.

    Num movimento brusco de cima para baixo, dispara um feixe colossal de puro elemento espacial, rasgando a selva em linha reta. Um portal se abre diante do raio. Outros surgem em seguida, multiplicando o ataque e redirecionando-o contra o Predador.

    Em resposta, Hugo mostra que não está indefeso diante daquela força. Os braços do colosso se cruzam, formando grossas camadas de energia. Um escudo após o outro é destruído em sequência, e novas barreiras se erguem quase no mesmo instante, resistindo ao impacto absurdo. O chão se fissura. A floresta se curva sob a força dos dois.

    De longe, Heragon assiste, paralisado. Os olhos brilham com medo e admiração, tudo misturado em silêncio.

    Entre os arbustos, uma silhueta toma forma e se move pela penumbra com passos curtos e sorrateiros. É a discípula de Hugo. Num avanço certeiro, ela parte na direção de Heragon, braços erguidos para agarrá-lo. Mas, antes que o alcance, um rugido corta o ar.

    Fiogon vira a cabeça.

    O som que sai de sua garganta não é apenas um rugido, mas uma onda de Eco que distorce o espaço e se espalha pelo campo de batalha. Por um instante, tudo para. O mundo inteiro parece imóvel. O avo se move até o neto serpenteando no ar. Por trás da forma monstruosa, há um olhar suave e breve, visível apenas para Heragon. O enorme Dragão tira o medalhão do próprio pescoço e o coloca na mão do garoto.

    — Guarde e proteja. Passo o vínculo desse medalhão para você, meu neto. Vou te enviar para um lugar seguro.

    — Espera… e o senhor?

    — Eu vou segurá-los. Assim, não vão conseguir te rastrear. Chegou a hora.

    — Não! Vovô!

    Heragon tenta avançar, mas a pressão no ar o empurra de volta. Ele aperta o medalhão com força e, por um instante, a pedra avermelhada incrustada na peça brilha, reconhecendo o novo vínculo. Fiogon ergue os olhos para o céu e fala com o vazio, como se soubesse que alguém observava tudo desde o começo.

    — Ei, velha gagá, abre um portal. Não quero que rastreiem Heragon pela minha assinatura de Eco.

    Uma bela voz invade sua mente no mesmo instante, indignada com a falta de elegância do pedido.

    ‘Velha gagá? Que falta de modos. É assim que pretende me pedir um favor?’

    — Só abre logo!

    ‘Só porque é necessário. Não porque você mandou.’

    Sem mais demora, a voz obedece. Um portal se abre atrás de Heragon, retorcendo o espaço em uma espiral de brilho dourado. Fiogon ergue uma das garras e empurra o neto com cuidado em direção à abertura.

    — Vá, meu neto. Chegou a hora… de andar com as próprias pernas.

    Heragon tenta resistir. Os dedos arranham o chão, o coração dispara, e o mundo parece gritar sem som. Por um segundo, ele encara o avô e entende que insistir ali é condenar os dois. No instante seguinte, é engolido pelo portal, que se fecha logo atrás dele. O espaço volta a fluir normalmente. Ária corre em passos largos e salta sobre o ombro do colosso de Hugo. Começa a falar…

    — Aconteceu como o senhor…

    — Esconda seus pensamentos, Ária — diz Hugo, sem desviar os olhos do Dragão. — Foi esperto pedir ajuda à nossa velha amiga, Fiogon. Vai ser bem mais difícil rastreá-lo agora.

    — Hohoho… não nasci ontem. Mas não acha injusto? Dois contra um velho indefeso? — Fiogon sorri.

    — Ora, ora… chamar de indefeso um enorme Dragão, da raça que já foi a mais temida de todo o Multiverso, é muita cara de pau. Até para você.

    O olhar de Fiogon se afia. Um sorriso de canto surge, e os dentes quase brilham.

    — Então… vamos parar de brincar? Sua espécie de Predator não é de conversa.

    — Finalmente. De fato, nós, Venators, gostamos de caçar de frente. Ter que me segurar é um saco.

    Hugo fecha os punhos, e o colosso se desfaz em fumaça. Fiogon estreita os olhos e retrai o corpo alongado até voltar à forma humanoide. A pressão dos dois se intensifica.

    O chão racha sob seus pés em estalos contínuos. As folhas são lançadas em todas as direções pelo vento violento gerado pela presença de ambos. As árvores que ainda se mantinham de pé se dobram, trincam e cedem.

    Os dois falam ao mesmo tempo:

    — Fase Minguante…

    Nos olhos de Hugo, as pupilas se rasgam em três marcas diagonais, como garras talhadas na íris. Um longo sobretudo negro se ajusta ao corpo, enquanto uma capa ampla e pesada escorre de seus ombros em tiras de sombra. Nas costas do manto, uma roleta se forma em filetes sombrios. O ponteiro gira entre símbolos de armas e para sobre um arco de seis pontas, que se materializa em sua mão.

    Quando ele puxa a corda, não surge apenas um fio, mas três, formando a mesma quantidade de flechas com pontas circulares, hastes finas e penas assimétricas. O ar sibila no instante em que são disparadas. Giram sobre o próprio eixo, assoviando enquanto ganham velocidade a cada metro percorrido.

    Os olhos de Fiogon brilham com ainda mais força, e as pupilas se estreitam em fendas verticais. Em sua forma híbrida, o corpo humanoide se cobre de escamas roxas e violetas, espalhadas do tronco aos braços, pernas e cauda. Ele firma o corpo. As escamas brilham num reflexo roxo e ressoam como espelhos vivos. Ao atingi-lo, as flechas não rasgam carne nem arrancam sangue: desaparecem ao tocar sua superfície, engolidas pela própria ressonância.

    Fiogon leva as mãos à frente, fecha os dedos e aponta dois para o alvo. As pernas se abrem, uma à frente, outra atrás, enquanto os pés terminados em garras negras se cravam no chão. No instante seguinte, as flechas retornam, agora mais translúcidas, disparadas de volta contra Hugo.

    — É por isso que eu não gosto de lutar contra quem usa esse tipo de Ressonância — Hugo resmunga por trás da máscara de caveira.

    Ele se desvia por pouco, em movimentos rápidos e evasivos. Então abre os braços. A barra do manto se ergue ao vento enquanto ele abaixa o centro de gravidade. O capuz se levanta um pouco, e, no instante seguinte, Hugo vira um rastro, colando em Fiogon quase sem deixar sombra de movimento. Já perto o bastante, puxa novas flechas e dispara à queima-roupa.

    Fiogon segura duas no reflexo. A terceira raspa a escama de seu peito, tentando perfurá-la. Por instinto, o Dragão se solta do chão para não ser atravessado, mas a força do impacto ainda o lança para o alto. Ele atravessa as nuvens, corta o céu como um projétil e desaba no meio de um mar de areia, afundando numa explosão dourada.

    — Continua forte como sempre… só ele mesmo para me arremessar em outro continente. — Fiogon se levanta, sacudindo grãos de areia das escamas. — Mas tinha que ser logo na Garra Âmbar.

    O Caçador chega logo depois, voando em alta velocidade, com as tiras sombrias da capa abertas às costas. Pousa à frente de Fiogon. O Dragão ergue levemente os chifres entre os cabelos espetados de roxo intenso, abre um sorriso de canto e o encara como quem diz, sem precisar falar: venha.

    Não há pausa.

    Rápidos demais para olhos comuns, os dois trocam golpes de punho que levantam tempestades de areia. Cada defesa empurra o mundo ao redor e molda as dunas como se fossem ondas.

    Hugo acerta um soco que parece uma martelada. O ar distorce. O chão cede. Fiogon é lançado para trás e, no mesmo instante, abre um portal no espaço, uma fenda curta, quase uma piscada. Ele agarra o braço de Hugo, gira o corpo e o arremessa para dentro.

    A luta reaparece na Garra Central, uma vasta savana povoada por animais e bestas que, apesar de serem os maiores perigos daquela natureza, disparam em pânico, fugindo em manadas que não ousam olhar para trás.

    Os dois travam os dedos numa disputa bruta de força. O capim alto se deita sob o ranger do Eco no ar. A pressão aumenta. O espaço rasga de novo.

    Outro portal encurta a distância.

    Desta vez, vão parar em um desfiladeiro rochoso, na Garra Cinzenta. O vento uiva entre as fendas, carregando poeira de pedra, enquanto Fiogon desfere socos imprevisíveis através de pequenos portais.

    Hugo responde de frente. Os punhos avançam rápidos, quase invisíveis. Cada choque arranca um estalo seco. Ele luta no ritmo do boxe: jabs e cruzados curtos, precisos, mudando de ângulo no último instante. Quando erra por pouco, o punho raspa a rocha, arranca lascas e levanta poeira. Quando acerta, o impacto faz o chão vibrar sob as botas.

    Fiogon devolve sem recuar. Desvia, contra-ataca, encaixa palmas secas, cotoveladas curtas e passos que não afastam o corpo, apenas encurtam a distância.

    Num estalo mudo, o espaço se comprime.

    O golpe de Hugo encontra uma resistência invisível, e a vibração corre pela pedra, soltando pedrinhas pelo chão. Então os dois travam as mãos, força contra força. O Eco vibra no ar, distorcendo a luz entre os dedos. As fendas uivam mais alto. A poeira gira ao redor dos pés.

    De repente, o espaço rasga de novo e lança os dois para outro ponto do desfiladeiro. O som do impacto fica para trás. Hugo agarra a cabeça de Fiogon e o arrasta pelo paredão. A rocha se parte em lascas, e o atrito arranca faíscas da pedra.

    Fiogon não deixa barato. Agarra o manto de Hugo, gira o corpo como um eixo e o arremessa com violência. Nem o vento consegue desacelerá-lo. O Caçador risca o céu em um arco, girando no ar enquanto tenta recuperar a postura.

    No último instante, corrige o corpo antes de despencar sobre a grossa camada de neve da Garra Boreal, onde até o ar parece queimar de tão frio.

    Hugo se ergue da neve com os braços cruzados, irritado.

    — Me jogou logo na Garra que eu menos gosto de visitar. — Sacode a neve do ombro. — Odeio frio.

    Fiogon surge sem aviso e desfere um chute devastador, arremessando Hugo para o alto. Portais se abrem ao redor do Caçador. De dentro deles disparam as mesmas flechas que haviam desaparecido antes, engolidas pelas escamas do Dragão. Não deveriam estar ali.

    Por um instante, Hugo se surpreende. No outro, entende o que Fiogon fez e sorri de canto. Ainda no ar, gira o corpo, e o ponteiro da roleta acompanha o movimento até parar sobre uma lâmina serrilhada, que se materializa em sua mão.

    Ele golpeia com precisão.

    A lâmina se alonga no meio do corte, raspa as escamas do peito de Fiogon em um rastro de faíscas e segue até atingir o chifre esquerdo. O impacto o parte num estalo seco. O fragmento voa para longe e cai meio enterrado na neve, ainda fumegando com energia.

    Mas, no instante seguinte, as flechas alcançam Hugo e explodem sobre ele numa chuva de luz. Os dois despencam na neve, ofegantes, respirando com dificuldade.

    — Ora, ora… sua raposa astuta… — Hugo ri, limpando o sangue do canto da boca. — As flechas que você me devolveu e eu desviei eram só imagens residuais. As verdadeiras, você mandou para um espaço separado e guardou até o momento certo.

    — Hohoho… claro. — Fiogon toca o lugar do chifre perdido e solta um suspiro divertido. — Eu não iria te enfrentar sem um plano. Mas esse chifre… vai demorar para crescer de novo. Estou velho.

    — Nós dois, meu caro amigo. — Hugo se levanta um pouco torto. — Vamos acabar logo com isso. Quero sair desse frio.

    — Hohoho! Eu até gosto do frio. Não me importaria de lutar mais um pouco contra você.

    Os dois sorriem. Mais empolgados agora do que antes da luta começar.

    A roleta de Hugo brilha. Um segundo ponteiro surge sobre ela, aumentando a chance de cair na arma desejada, mas à custa de um longo tempo de recarga. Placas de energia se formam ao redor de cada punho, como manoplas pesadas. Entre as frestas, a energia vaza em vibrações intensas.

    — Dei azar. Vou ter que me virar com essa — comenta o caçador, ainda otimista.

    Fiogon esvazia os pulmões. As escamas brilham intensamente por todo o corpo, liberando energia no ar. Então ele puxa o fôlego de volta, e o Eco espalhado pelo ambiente acompanha o ar para dentro de seus pulmões, condensando-se no próprio peito.

    Os dois avançam no mesmo instante. Os golpes se encontram no meio do caminho. A explosão é ensurdecedora. A luz engole a visão. Avalanches se formam. A neve ao redor derrete em vapor. Árvores se dobram. O chão racha como vidro.

    Ao redor deles, nasce um desastre.

    Quando a claridade enfim cede, os dois estão caídos lado a lado, rindo em meio à dor do impacto.

    — Ainda vivo? — Hugo pergunta, encarando o céu.

    — Sim… e você? Tudo no lugar?

    — Acho que sim. Você é duro na queda.

    — Digo o mesmo, velho amigo.

    O silêncio volta pesado. A luta termina sem vencedor. Por alguns instantes, não existem heróis nem monstros, apenas dois velhos cansados que bateram demais um no outro.

    Então o Eco que fervia no ar abaixa de repente. Não some. Apenas se aquieta. Quieto demais.

    Um estalo seco corta o vento. Não vem de árvore. Não vem do gelo. Vem do próprio ar, como se alguma coisa tivesse acabado de chegar.

    Não correndo.

    Não ofegantes.

    Só… presentes.

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