Capítulo 03 — Pescador

A areia da margem é clara, o ar é fresco e o som… não. Não são só pássaros. Piranhas saltam na superfície, quebrando o reflexo. Amontoadas num círculo de água ligeiramente turva, como se algo pesado tivesse afundado ali.
Não há disputa, não há frenesi. Só rastros.
Por um momento, duas presas curvadas, grandes demais para qualquer peixe comum, boiam e giram devagar… até afundarem de novo.
Sim, até o rio é ligeiramente assassino por aqui. Que lugar adorável, não?!
Heragon chega à margem, se espreguiça e, de relance, nota uma presença. Sobre uma pedra na beira d’água, um homem grisalho pesca calmamente.
Um balde cheio de peixes ao lado. Uma vara translúcida firme nas mãos. Postura relaxada. Quieto demais para ser só um pescador comum.
Heragon se aproxima, curioso:
— Oi! Nunca te vi por aqui. Quem é você?
— Ora, ora… cadê seus modos? — responde o homem, sem desviar os olhos da água. — Apresente-se primeiro. Depois eu decido se me apresento ou não.
— Ah… foi mal! — Heragon coça a nuca. — Eu me chamo Heragon!
— Entendo… então é você — murmura o pescador, baixo.
— Hm? Disse alguma coisa?
— Nada importante — ele responde, num tom leve. — Sou só um velho pescando antes do trabalho.
Heragon se senta ao lado dele, curioso.
Eu sei, eu sei, não é a coisa mais segura do mundo. Mas crianças curiosas movem o Multiverso, então… deixemos assim!
O rio continua agitado, como se estivesse sempre à beira de engolir alguém. A luz do sol dança nas ondas, e o reflexo dos dois, o garoto e o pescador, parece mais uma pintura do que uma cena real.
— O senhor é bom nisso — comenta Heragon. — Sempre puxa o peixe na hora certa. É bem legal.
— Ora, ora… — O pescador sorri de canto. — São muitos anos de prática… Quando se gosta do que faz, até o trabalho mais difícil vira brincadeira.
Ele lança um olhar rápido para o garoto.

— E você? Tem algo de que goste ou que queira fazer no futuro?
Heragon infla o peito.
— Tenho, sim! — os olhos brilham. — Quero entrar para a Guilda e me tornar um aventureiro de Rank S! Deve ser muito legal!
O pescador solta uma risada tranquila, daquelas que carregam história demais.
— Hahaha… sonho grande. Quer ir direto para a elite, hein?
— Não precisa rir tanto… — resmunga Heragon, cruzando os braços.
— Não estou zombando — o homem responde, sério, mas ainda com um sorriso. — É admirável. Se for para sonhar, que seja grande.
Ele arremessa novamente a linha. O anzol fura o espelho da água com uma precisão quase irritante.
— Meu avô me conta um monte de histórias. As que eu mais gosto são as da Guilda!
— Ah, a Guilda… — o pescador fala com nostalgia. — Ela surgiu depois da Guerra-Verso. As dimensões estavam feridas, cheias de desconfiança. Então, um dos cinco heróis de guerra criou a Academia Guilda para unir os mundos de novo.
— Eu achava que era só um lugar para pegar missão e sair lutando por aí.
— Também é. — Ele ri. — Mas hoje ela é dividida: Academia e Guilda. Uma ensina, a outra dá as missões.
— Tipo… escola e aventuras. Legal demais.
— Algo assim. Jovens de várias dimensões treinam juntos, criam laços… e aprendem a não morrer tão cedo.
— Quero muito ir para lá! — diz Heragon, empolgado.
“Ele sabe muita coisa para um pescador… é isso que chamam de história de pescador?” — pensa o jovem, por um momento.
— Quer se tornar mais forte para isso, não é?
— Sim!
— Então… quer aprender uma técnica?
Heragon quase pula em cima do homem.
— Quero!! Vai me ensinar mesmo?!
— Sabe o que é uma onda?
— Sei… o rio mexe alto.
— Algo assim. Quando você está dentro d’água, prefere nadar com muitas ou poucas ondas?
— Poucas. É mais fácil de nadar.
— Mas e se um monstro na água estiver atrás de você?
— É… deixa eu pensar… muitas?
— Haha. Sim. Você precisa aprender quando criar poucas ondas, para se mover com facilidade, e quando criar muitas a seu favor.
Heragon aponta a mão para o rio, aperta os olhos e… se vira, indignado, para o pescador.
— Nada aconteceu!
— Hahaha… não é desse tipo de onda que estou falando. Dentro do peito de todos nós existe um núcleo. — Ele encosta o dedo no peito do jovem, ao lado do coração. — Nele armazenamos Eco. Ele circula pelo nosso corpo em diferentes comprimentos, em ondas.
— Entendi…
— Muito bem.
— Foi nada.
— Sério?
— Sério.
— Melhor: vamos para a prática. Feche os olhos — diz o pescador, num tom mais sério. — Limpe a mente e imagine uma onda se movendo.
Heragon obedece.
— Estou vendo… mais ou menos. Tem um monte, umas rápidas e outras lentas.
— Tente deixá-las mais calmas possível.
— É difícil…
— Hm. — Ele cruza os braços. — Continue tentando.
Heragon continua, mais e mais. Suas ondas se acalmam… mas, desta vez, quem está pescando é ele. Com os olhos, é claro!
O tempo passa devagar. O céu começa a pintar o rio de laranja. O pescador trabalha em silêncio, cada peixe fisgado como se seguisse o ritmo certo de uma música.
Babando, Heragon acorda assustado. Limpa a boca com o punho e olha, sonolento, para os lados.
— O quê? Eu dormi?
— Ora, ora! Acho que você acalmou demais suas ondas, hahaha.
— Eita! Já está quase escurecendo! Tenho que tomar banho antes do jantar!
O pescador sorri.
— Então eu já vou indo também. Treine o que eu lhe ensinei e não se esqueça: com o Eco mais calmo, seu corpo e sua respiração ficam mais leves. Só o agite se precisar de poder.
— Pode deixar! Foi muito legal conhecer o senhor — Heragon se levanta. — Espero treinar com o senhor de novo!
Ao se virar, uma piranha salta do rio rumo a Heragon. Mas, antes que ele pudesse notar, um vulto a pega em pleno ar.
A vara de pesca se desmancha em luz e desaparece. O pescador coloca a piranha no balde, junto dos outros peixes, se levanta segurando a alça, faz um leve aceno e segue em direção à floresta.
Então, de repente, salta.
O salto é absurdo, muito acima de qualquer pessoa comum. Ele pousa em um galho alto, onde uma jovem o espera, braços cruzados.
— Mestre! — ela reclama. — Temos um trabalho para fazer! Não era hora de pescar!
Ah, até ele tem discípula… tsc. Vou ter que arrumar um também!
— Eu gosto de uma boa pescaria. Ao ver rio, não resisti — responde o homem, com aquele ar calmo que irrita qualquer inimigo.
— Está levando isso com desdém! Essa missão é importante!
— Tente relaxar, Ária. — Ele suspira. — Eu só queria me acalmar antes de reencontrar um velho amigo.
Eeee, aí tem coisa. O que acontece em seguida? Não sei… ou será que não? Hehe!


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