Capítulo 03 — Presságio

Não vieram correndo. Não vieram ajudar. Vieram do jeito que o predador chega quando a presa já cansou: no tempo deles. A neve afunda um pouco mais a cada passo. E o luar, por algum motivo, parece menos gentil. O estrago no chão ainda guarda calor. Mas o que chegou agora é outra coisa.
Ômegas…
Dispensam apresentações. São o ponto mais alto da cadeia alimentar. Uma jovem vai à frente. Tem estatura pequena, cabelo curto de um vermelho vivo e olhos castanhos. O rosto sorridente está voltado para Fiogon.
— Irú… e aí, Fiogon. Há quanto tempo.
— Curupira… — Fiogon a olha de cima a baixo. — Continua fofa como sempre.
— Poxa vida! — ela faz bico, emburrada. — Já sou uma adulta.
Um homem de aparência nobre, vestindo uma armadura pesada de aço prateado e cabelo branco, lança apenas uma breve olhada para Fiogon.
— Essa luta causou estrago demais. Típico de Dragão.
O Dragão caído apenas sorri de volta.
Outro deles já carrega carisma e provocação na postura. Cabelos castanhos bagunçados, sorriso torto, expressão cheia de energia. Sem perder tempo, ele cutuca São Jorge.
— Por que está reclamando? Se quisesse menos estrago, podia ter vindo no lugar do Hugo… ou o famoso caçador de dragões ficou com medinho?
São Jorge vira o rosto devagar. O brilho do luar toca a armadura e se parte em reflexos limpos. Até o vento parece pensar duas vezes antes de encostar nele.
— Medo? Odin, um Perfidus como você, que prefere a noite e a sombra… quanta hipocrisia. Atacar pelas costas virou bravura agora, foi?
Odin dá um passo. A luz ao redor dele não reflete, parece afundar. As sombras se juntam no chão como cães treinados, e o ar afina, frio, com cheiro de caçada começando.
— Hã. Bonito discurso. Lenda… famoso caçador de dragões… qual dragão dizem que você matou mesmo? Ah, lembrei. — Ele sorri, malicioso. — He…
São Jorge libera uma presença que pesa o ar e espalha um sobressalto pela noite. Os dois avançam até ficarem testa com testa. Uma figura passa entre eles e os empurra para o lado sem esforço.
— Já chega!
Armadura escura com detalhes metálicos, longos cabelos negros, olhar âmbar afiado e um sorriso confiante. Ela para diante de Fiogon.
— Fiogon… como vai ser?
Ele solta o ar, vencido mais pela matemática do que pela dor.
— Diana… desisto. Com tantas feras e uma predadora, não tenho energia nem para fugir… — Ele vira o rosto, resmungando. — Mas não vou dizer onde está meu neto.
Diana inclina levemente a cabeça.
— Sem problemas. — Passa a língua nos lábios, devagar, sem pressa. — Vai ser mais divertido caçá-lo.

Correntes de Prata brilhante se fecham ao redor de Fiogon. Ele é arrastado até uma jaula puxada por tigres-dente-de-sabre, presos a coleiras de energia.
— Levem-no para a masmorra subterrânea — ordena Diana.
São Jorge olha para Hugo, que apenas faz um leve aceno. Fiogon é levado sem oferecer resistência.
— Ué… não vem, Hugo? — indaga Curupira.
— Depois alcanço vocês. Por enquanto, vou ficar deitado enquanto o chão ainda está quente.
Ele respira fundo, encarando o céu estrelado. O rastro de uma estrela se reflete em seus olhos. Mas, acima daquele brilho, a cúpula já se encontra escurecida por algo. A luz prateada do Luar brilha mais fraca. Uma névoa cobre a dimensão, assim como todo o solo rochoso do Nimpo. As estrelas não são astros de energia, mas criaturas brilhantes que nadam naquele ambiente gasoso.
Sem sol, com apenas uma Lua iluminando tudo
A cada doze horas, enormes gêiseres expelem uma densa névoa que cobre tudo, trazendo a noite às dimensões. Em uma grande fenda, um rasgo no Nimpo leva a um lugar de trevas, a origem da névoa que esconde seres aterrorizantes.
Lá, onde a luz se desfaz e o tempo esquece o próprio nome, uma ilha solitária flutua dentro daquele mar enevoado. No topo da ilha esquecida, um castelo em ruínas desafia o silêncio. Torres partidas, muralhas corroídas, janelas cobertas por um brilho escuro.
Dentro dele, passos ecoam. Lentos. Certos. Fortes. A cada passo, o chão se curva um pouco. Uma presença surge. Um homem alto e muito musculoso, de cabelos longos e negros, barba volumosa e olhar intenso de tom violeta.
Ele se senta em um trono de ferro retorcido.
Do solo rachado, seres se erguem da neblina que emana dali. Criaturas distorcidas, com cristais cravados nos corpos, surgem daquela névoa pesada: Tritsers. Garras, bocas, olhos que não fazem sentido, escamas e barbatanas… todos se curvando diante do trono. O homem ergue o olhar. Sua voz é grave, arrastada, como se tivesse atravessado eras demais.
— O selo… está quase quebrado.
O ar vibra. O castelo range, longamente. Das sombras à frente, outra presença toma forma: uma figura encapuzada, de máscara negra e postura curvada em respeito.
— Meu senhor… — diz, em voz neutra. — Sua expressão mudou. Aconteceu algo?
O ser no trono apoia o queixo na mão.
— O tempo… vacila.
Ele respira, e o ar ao redor se comprime.
— Vi algo que nunca tinha visto antes.
— Uma visão…?
— Não. Um presságio. — Ele se inclina um pouco à frente. — Vi uma fera alada com três sombras. Longos cabelos. Um manto. Um olhar que o tempo não reconhece. Algo que ainda não existia.
O mascarado hesita.
— E… o que isso significa, meu senhor?
O trono estala.
— Significa… — A voz dele se enche de ódio e satisfação. — Que o último ciclo começou.
Os Tritsers urram, como se celebrassem e temessem ao mesmo tempo.
— Por incontáveis eras, eu fui arrastado de volta ao início — ele continua. — Sempre que me aproximava do fim… o tempo me puxava de volta. Mas agora… o fluxo não vai recuar.
O mascarado permanece em silêncio. Até ele sente: algo mudou.
— A profecia está se mexendo. — O ser no trono continua. — Aquela Celestial insolente deve ter sentido. Mas não importa. Desta vez… o ciclo não vai se repetir.
Ele se levanta do trono e caminha até a sacada. Os punhos se fecham lentamente.
— Meus outros Aspectos logo vão despertar. Quando isso acontecer, o Multiverso vai se curvar diante de meus irmãos.
Relâmpagos escarlates rasgam as trevas. O castelo treme. Ele apenas sorri. Um sorriso calmo, quase satisfeito.
— Desta vez… nada será capaz de me deter.
O riso que se segue não é alto, mas parece atravessar mundos. Não é o riso de quem ameaça. É o riso de quem lembra.
E, em outro ponto do Multiverso, a água nasce entre pedras úmidas.
No topo de uma montanha, primeiro é só um fio fino, escorrendo devagar. Logo, outros fios se juntam, formando um pequeno riacho que começa a descer.
Ele serpenteia entre plantas gigantes, raízes grossas e folhas largas que brilham sob a luz dos astros. Dinossauros bebem em suas margens, e o chão treme a cada passo pesado que dão.
Mais adiante, o rio despenca em uma imensa cachoeira, rugindo alto e espalhando névoa por todo o vale. Lá embaixo, a água cai em um lago calmo, cercado por pedras e samambaias enormes.
À margem do lago, com o rosto enfiado na grama, um jovem repousa silenciosamente. Em Jurassic, um descuido desses é um erro.

Pequenos répteis andam em grupos, farejando qualquer coisa que pareça comida. Um deles se aproxima, curioso, e arrisca uma mordida exploratória.
— Aiii! Minha bunda!
Heragon salta, esfregando o local da mordida. Olha ao redor, tentando entender onde está. O ambiente é tropical, úmido, desconhecido. Então nota o medalhão em sua mão, aperta-o com força e se lembra do que aconteceu. Dobra o braço, com um olhar determinado.
“Tenho que achar o vovô.”
Acostumado à natureza, ele se orienta com facilidade. Cruza um córrego, salta por cima de folhas enormes e abre caminho entre cipós. Ao puxar um galho volumoso, dá de cara com algo nada simpático: olhos grandes, pele negra porosa com manchas amareladas e uma cabeça achatada apoiada num tronco comprido.
— Esse padrão de cor… é problema.
Heragon solta o galho, que volta como um chicote e acerta o focinho da criatura. Ele não espera para conferir: corre. Corre como se a vida dependesse disso e, bom… depende mesmo.
Furiosa, a fera dispara atrás dele, com o corpo longo e flexível deslizando pelo solo. Das manchas luminosas, bolas de fogo são disparadas em sua direção, cortando a escuridão.
— Era só o que me faltava!
Ele desvia como pode, rodeando árvores que logo são incendiadas, escapando de galhos e grandes samambaias. A perseguição se estende até alcançarem um pequeno desfiladeiro. Heragon salta com tudo. Por um triz, agarra a parede de pedra do outro lado. A criatura freia na borda e o encara.
Com um sorriso de vitória, agarrado na beirada com uma mão, mostra a língua para o bicho, provocando-o. Heragon acha que escapou. A fera, no entanto, olha para baixo, vê o rio… e simplesmente se atira, caindo de peito na água. Logo reaparece, nadando em sua direção e escalando a parede como se não fosse nada.
— Ferrou.
O jovem sobe o mais rápido que consegue. A criatura volta a persegui-lo. Até que se deparam com a base de uma montanha, íngreme demais para ser escalada, enquanto a selva se fecha nas laterais. Encurralado, ele não tem escolha.
Avança para cima da fera.
Heragon desvia das bolas de fogo e tenta golpear, mas o soco escorrega pela pele úmida da criatura. Ele perde o equilíbrio e recebe a chicotada da cauda. O impacto o arremessa contra a pedra. Caído, ferido e exausto, vê a besta incandescer o próprio corpo e canalizar o fogo na boca.
— Ah! Estou no meu limite. — Aperta o olhar. — Vovô!
Com a visão turva, ele fecha os olhos, e o avô lhe vem à mente numa lembrança de dois anos atrás.
Heragon treinava artes marciais. Movimentos desengonçados, sem técnica, sem experiência. Fiogon desviava dos golpes do neto com facilidade, em movimentos leves e precisos. Quando um soco passa direto no ar, o jovem tropeça e cai. Fica no chão, ofegante, com o peito queimando de exaustão.
— Vovô… eu estou… muito cansado…
— Hoho. Já chegou no limite? Levante-se. Mais uma sequência.
— Eu não… consigo…
— Esse não é seu limite. Esse seu “não consigo” é porque você não sabe respirar.
— Claro que sei! Eu estou respirando!
— Respirar para viver e respirar para sobreviver são coisas diferentes.
Heragon se apoia, sentando no chão. Encara o avô enquanto coça a cabeça.
— Levante. Vou te ensinar a respirar direito.
De volta ao momento presente, o jovem se levanta com dificuldade, apoiando-se na parede de pedra. A criatura se prepara para atacar, e as chamas se movem intensamente enquanto são sugadas para a boca.
“Retire todo o ar dos pulmões.”
Ele obedece, esvaziando o peito de uma só vez. Relaxa os ombros, que caem, deixando os braços soltos. O monstro dispara um jato de fogo, iluminando o caminho rumo a Heragon.
“Inspire lentamente o máximo que conseguir.”
Abrindo os braços para os lados, ele puxa o ar devagar. O Eco ao seu redor começa a pontilhar, brilhando em prateado, como vagalumes na beira de um rio.
O fogo é puxado para dentro de seus pulmões à medida que é lançado, até o ataque cessar. O branco toma seus cabelos por inteiro, brilhando sob o reflexo do luar.
A criatura o fita com olhar confuso. Sem pensar muito, prepara outro ataque, focada em sua presa. A lembrança de outra lição vem a Heragon, não do avô. De outro que por breve momento… foi um mentor:
“Com o Eco mais calmo, seu corpo e sua respiração ficam mais leves. Só o agite se precisar de poder.”
No silêncio absoluto de sua mente, as ondas variam de tamanho violentamente, oscilando sem controle. Pensando no que precisa, ele escolhe:
“Poder.”
O Eco se condensa junto às chamas em seus pulmões, formando um grande círculo de puro ardor.
“Por alguns segundos, prenda a respiração… e expire como um último sopro de vida. É assim, meu neto, que você… deve respirar.”
O inimigo lança um novo ataque rumo ao garoto…
As narinas de Heragon se iluminam, sua garganta brilha em vermelho, e faíscas contornam seus lábios. O sopro sai como um mar de chamas, queimando o solo, árvores e plantas pelo caminho. As rajadas se chocam num clarão, mas o fogo do jovem vence o da criatura, engolindo-a por completo.
Sua energia se esgota. Sem Eco, ele desmaia. Seus cabelos permanecem no tom branco, como cicatrizes deixadas por um trauma… ou por outra coisa. Algo sobre o jovem Dragão que, algum dia, será revelado.
A salamandra, por outro lado, se levanta, queimada, mas viva. Avança ferozmente, tentando saborear a teimosa caça. Salivando, abre a boca, mirando a cabeça do jovem, pronta para o bote final.

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