Capítulo 04 — Duas Frentes

Heragon está deitado no chão, desmaiado. A Salamandra, de bote armado, já quase consegue sentir o delicioso sabor da carne de Dragão. Mas, antes que as presas se cravem na pele do garoto…
Uma bota pisa em sua cabeça, travando-a contra o solo queimado.
— Tsc. O que aquele velhote estava pensando ao mandar o neto para cá sem avisar?
O recém-chegado, dono das botas que heroicamente impedem a história de terminar ali, sente o Eco ao redor.
— Essa assinatura de Eco… foi a velhota. Aquela irresponsável.
A criatura tenta reagir, mas o homem, sem rodeios, a esmaga como quem pisa em um inseto. Depois, observa o corpo da Salamandra e leva a mão ao queixo.
— Até que é impressionante… o garoto conseguiu ferir uma Salamandra de Fogo usando fogo. — Passa a mão pelos cabelos castanhos. — Não esperava menos do neto dele.
Quando a escuridão da noite cede lugar à luz da manhã, Heragon desperta ainda dolorido. Vira o rosto e quase salta de susto ao dar de cara com uma cabeça triangular, um chifre no centro e escamas que variam do marrom-claro ao escuro.
— Aaaaah! — grita por instinto.
Sem pensar, sai correndo, cambaleando, meio desengonçado. A enorme cobra o persegue, serpenteando rapidamente atrás dele. Quando o alcança, prepara o bote com as enormes presas. Heragon cruza os braços por puro reflexo enquanto cai de bunda no chão… mas o ataque para a poucos centímetros de sua cabeça.
— Aquele velhote não te treinou direito. Você nem consegue ressoar o próprio Eco conscientemente.
— O quê?! Você fala?!
— Mas é claro que falo. Enfim…
A cobra começa a se retrair, tomando a forma de um homem jovem, de aparência sábia, cabelos castanhos e olhar ranzinza.
— E aí, garoto. Vejo que cresceu bastante.
— Tio Ouroboros! O vovô…
— Já imagino o que aconteceu. Mas, antes de qualquer coisa, vamos comer algo. Aquela Salamandra vai render um bom cozido.
Eles seguem entre árvores, cachoeiras e córregos, até chegarem a uma caverna aconchegante, ainda que rústica.
Ouroboros, que não é exatamente parente de Heragon, está mais para um velho amigo de Fiogon, daqueles que apareciam de vez em quando. Enquanto cozinha a Salamandra e prepara para os dois um café da manhã reforçado, observa Heragon tentando se levantar.
— Heragon. Agora vá descansar.
— Não tenho tempo para isso, tio. Preciso encontrar o vovô.
— Haah… cabeça dura. Do jeito que está, você vai morrer antes de chegar lá. Fique e treine um pouco.
— Mas…
— Nada de “mas”. Conhecendo o velho Fiogon, ele ainda está bem. Agora, passe esta pomada nos ferimentos e se enfaixe. Amanhã, vou te levar a um lugar.
Heragon resmunga, apertando os punhos com força, mas, dada a própria situação, relaxa e… obedece.
No dia seguinte…
Ouroboros conduz Heragon até uma cachoeira barulhenta ao lado de um pântano. Próximo à margem do rio que corta a paisagem pantanosa, uma criatura de couraça grossa repousa, deitada com a boca aberta, aproveitando o calor do dia.
— Derrote aquele bicho. Se conseguir, te levo até o seu avô.
— Sério?! É uma promessa? — Empolgado, ele estende o dedo mindinho para o homem.
— É. Se tiver sorte de sobreviver. — Revirando os olhos, Ouroboros retribui o gesto.
Heragon observa o ambiente, amarra cipós, prepara uma armadilha e se posiciona. Lentamente, aproxima-se da criatura. Assim que ela o nota, um olhar carregado de sede de sangue o paralisa.
“Se mova… eu preciso me mover!”
Mas, antes que consiga reagir, uma sensação sufocante toma conta dele. Uma imagem de pura morte invade sua mente. As pernas tremem de forma descontrolada, até ele sentir a própria roupa se molhar. Ouroboros surge à frente de Heragon, e a fera, ao perceber que alguém mais forte chegou, foge correndo para dentro da água.
O jovem cai sentado, ofegante.
— Entendeu agora? Para salvar Fiogon, você vai ter que invadir a casa dos Predadores. O mais fraco dos inimigos que terá de enfrentar… tem a mesma presença que essa criatura.
— Então eu… ainda sou fraco demais. — Ele abaixa a cabeça. — Mas posso ficar forte o suficiente se treinar com você?
— Digamos que será um bom começo.
Heragon olha por entre as pernas e vê a virilha molhada. A vergonha bate. A realidade martela. A decisão é tomada.
“Não tenho escolha, vovô. Espere só mais um pouco. Vou ficar mais forte e te salvar.”
Enquanto isso, em outro lugar, nada amigável. Em um castelo feito de incontáveis ossos, os caçadores começam a se mover.
Uma neblina engole a visão. A savana ao redor está estranhamente quieta. Ele caminha com calma, enquanto pequenos roedores roem um osso ainda coberto por vestígios de carne. Ao menor sinal de presença, disparam, abandonando a refeição para trás.
Os passos no solo úmido, aos poucos, são substituídos por pedra talhada. O ar branco, leve e insistente, revela casas rústicas surgindo uma a uma, com cabeças de animais empalhados no topo, exibidas como troféus que vigiam quem se aproxima.
Sem muros, sem bloqueios, uma grande estrutura se impõe. Paredes erguidas com ossos de bestas gigantescas. No lugar de pinturas, peles de animais cobrem tudo, como um aviso de que a própria história daquele povo foi escrita em carne, caça e inverno.
Ele atravessa um corredor largo e chega a um portão. Entra. O chão cede sob o tapete de couro. À frente, um trono feito de incontáveis ossos, empilhados com a paciência cruel de quem nunca esquece uma vitória.
Hugo se ajoelha diante de uma figura com um olhar mais afiado que mil lâminas. Diana, sentada com conforto em um trono feito de morte.

— Grande Predadora.
— Sabia? A tradição diz que cada novo Grande Predador deve cravar um osso nesse trono.
— Sim, eu sei. Afinal, já me sentei nesse trono.
— E, mesmo assim, deixou o garoto escapar com o Medalhão Rodens e empatou com um Dragão velho, datado de antes da Era Pós-Noite. — Ela eleva o tom, e cada palavra bate como um golpe.
— Ele pediu ajuda para aquela mulher. Os rastros foram apagados depois que o garoto foi levado… e Fiogon, mesmo sendo velho…
— Sem desculpas. Hércules unificou nossa raça. Depois que ele foi embora, seu meio-irmão, meu pai, assumiu. Depois de morrer… por muito tempo me foi negado o trono.
Hugo permanece em silêncio.
Ela se levanta do trono, desce com passos firmes e caminha até ele. Pousa a mão em seu ombro e fala perto de seu ouvido, como quem faz questão de que a humilhação tenha endereço certo.
— Você é uma decepção, igual ao seu filho traidor. Os outros Ômegas e seus subordinados ficaram encarregados de rastrear o garoto.
— Sim, Predadora. — Ele serra os punhos e pensa, irritado: “Essa pirralha… é isso que dá colocar uma coroa em alguém tão jovem.”
Ainda assim, se mantém centrado, sem sair do lugar.
Ela deixa a sala do trono e segue por um corredor silencioso, comprido demais para parecer normal. No fim, uma porta entalhada com a cabeça de um touro a encara com um olhar vazio… ou talvez nem tanto.
Ao abri-la, um ar frio e pesado escapa, trazendo consigo um cheiro metálico, antigo… quase vivo. Ela desce uma escadaria que parece não ter fim. As tochas nas paredes queimam com chamas azuladas, tremendo como se temessem o que guardam ali embaixo.
O chão muda. As pedras ganham rachaduras, e o som dos passos ecoa de um jeito estranho, como se alguém, ou algo, respondesse a cada pisada.
Os corredores abaixo são estreitos, úmidos e cobertos por uma névoa densa. Às margens, celas de barras grossas se estendem por todos os lados. Nenhuma delas tem fechadura, mas, curiosamente, parecem seguras o bastante para convencer qualquer um a não sair.
Há algo naquele lugar… um instinto, uma presença que faz o corpo hesitar e o coração acelerar.
No centro, um portão colossal de ferro negro. Três fechaduras o selam, desenhando runas num brilho fraco e azulado. Atrás dele, correntes de Prata Lunar se entrelaçam, conduzindo até as algemas que prendem Fiogon, imóvel, mas com um leve sorriso. Sereno. Quase orgulhoso.
— Meu neto… — diz ele, a voz ecoando em um sussurro que o lugar inteiro escuta. — Sua jornada acabou de começar. Siga o seu próprio caminho… e não se esqueça de aproveitar a vista.
O portão se abre.
Diana entra com um sorriso de canto, como quem já conhece o gosto da vitória antes mesmo de servir o prato. A luz recorta sua silhueta por um instante, e o ar parece ficar menor, só para caber sua presença.
— Hora do interrogatório — diz, mordendo de leve o canto da boca.
Saindo daquele ar tenebroso de Floressi, voltamos para Jurassic que, mesmo habitada por grandes dinossauros e presas enormes, no momento se mostra mais amigável a Heragon, que dá início ao treinamento.
Antes de qualquer prática, tenta medir o quanto o garoto realmente sabe sobre Eco e Ressonância. A resposta, como esperado, vem torta, simplificada demais e quase infantil. Para o jovem, aquilo ainda era só um “poder legal de luta”. Ouroboros, com a paciência curta de sempre, corrige logo de início: Eco é a energia residual deixada pelo Luar depois de passar pela Cúpula, e pode ser reposta por meio da respiração correta e de uma boa alimentação.
— O Eco vibra em frequências diferentes o tempo todo — explica o mestre. — Para usar a Ressonância, você precisa alinhar essa vibração em uma única frequência. Um canal.
Heragon cruza os braços e franze a testa, tentando acompanhar.
— Certo… certo… entendi.
O mestre arqueia uma sobrancelha.
— Entendeu mesmo?
O garoto fica em silêncio por um instante, então suspira.
— Não entendi foi nada.
— Moleque.
Ouroboros lhe dá um cascudo e continua, agora de forma mais direta. Compara os canais a trilhas: correr já é difícil; tentar correr em todas ao mesmo tempo só faz alguém tropeçar no próprio pé.
Contando com uma paciência bem curta, ele resume os principais caminhos da Ressonância. Fala de Elemen, o canal da elementalização. Depois enumera os demais: Mater, Forti, Modi, Invo, Mani e Adap, este último servindo como ponte entre canais.
Heragon pisca algumas vezes, tentando acompanhar tudo aquilo.
— Tá… então cada raça puxa mais para um desses?
— Exato. — Ouroboros aponta para ele. — Dragões usam Elemen. É isso que permite criar e manipular elementos com base no atributo da própria espécie.
Ainda preso na parte mais abstrata da explicação, Heragon insiste na dúvida sobre frequência. O ranzinza então resolve mostrar em vez de falar. Na mão esquerda, faz surgir uma névoa verde. Na direita, uma chama da mesma cor, firme, com aparência viva. Quando pergunta a diferença entre as duas, o jovem responde da pior forma possível.
— Uma cai e a outra sobe.
— Não. Palhaço.
Segurando a vontade de lhe dar outro cascudo, Ouroboros explica que, na esquerda, usa apenas Elemen em toxina, o elemento da sua espécie de Dragão: Wyrm. Na direita, interliga Elemen com Adap e alinha o Eco com Modi, apenas para dar à toxina uma aparência de chama. Com mais experiência, ainda poderia somar Mater e tornar aquela forma ainda mais realista.
Heragon observa, empolgado. Mas a animação logo dá lugar a uma dúvida mais pessoal.
— Legal… Eu achava que era um Drake igual ao vovô, mas… se eu usei fogo, então sou um Ignivern?
O venenoso se cala por alguns segundos, como se estivesse avaliando até onde Fiogon tinha ido nos ensinamentos.
— Pelo menos ele te ensinou alguma coisa sobre os Dragões.
Heragon conta, quase com orgulho, que o avô lhe falava bastante sobre a raça quando não estavam treinando, e que gostava especialmente dos livros sobre aventureiros e Dragões. Ouroboros deixa o comentário passar. Não queria perder o foco.
Sem rodeios, leva a conversa para a prática. Explica que, para usar Ressonância, vai lhe ensinar o Sinal, e que a maioria das raças tem mais afinidade com a faixa imagética por ser a mais intuitiva. Pede então que ele tente criar uma chama na própria mão, pensando no Eco, na forma desejada e no resultado daquilo. O garoto tenta. Nada acontece.
O mestre pede que imagine a chama em sequência: primeiro surgindo, depois se movendo, depois causando seu efeito, como se passasse quadros em série dentro da mente. Heragon aperta os olhos de novo. Faíscas pipocam na mão. A pequena chama nasce… e apaga. Nasce… e apaga.
O ranzinza estala a língua.
— Desse jeito, não vamos a lugar nenhum. Tem uma Ressonância padrão da nossa raça que é mais fácil de visualizar. Vamos começar por ela.
Os dias seguintes deixam de ter muita diferença entre si.
Heragon acorda cedo, treina até os braços pesarem, erra, recomeça, escuta bronca, tenta de novo. Às vezes, sente que está prestes a entender. Em outras, parece que voltou à estaca zero. O corpo dói, a cabeça cansa, a paciência vai embora rapidinho… mas ele continua.
Teimoso como só ele.
Em alguns momentos, a Ressonância quase responde. Um brilho breve. Uma vibração curta. Um movimento pequeno demais para ser chamado de sucesso, mas suficiente para não deixá-lo desistir. Ouroboros não elogia. Só manda repetir. De novo. E de novo. E de novo.
Até que, depois de vários dias naquele ritmo exaustivo, o velho o chama para conversar.
— Heragon, tenho um desafio para você. Vá até uma caverna próxima e traga uma fruta que cresce numa plantinha.
O garoto pisca, confuso.
— Uma fruta?
— É fácil. Mas vai ser bom para o seu crescimento.
A resposta é simples, quase seca, mas basta para acender algo dentro dele. Heragon parte determinado. E também empolgado, como se a simples chance de sair em missão já fosse uma recompensa.
No caminho, a floresta parece maior do que de costume. Ele evita confrontos com criaturas enormes, escolhe trilhas estreitas, passa por ossadas antigas e troncos marcados por garras profundas. A cada passo, a sensação de estar sozinho numa pequena aventura só aumenta.
Quando chega perto de uma cachoeira, atravessa um arbusto e bate a mão na roupa para tirar as folhas presas no tecido.
Então percebe que não foi o único a sair dali.
De outro arbusto, um pouco mais à frente, surge um garoto de manto longo, cabelos azul-claros e olhar curioso.
Os dois param.
Se encaram.
“Quem é esse?”, pensam ao mesmo tempo. de quem ameaça. É o riso de quem lembra.


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