Capítulo 04 — Invasor

O céu está pintado de vermelho e dourado. A floresta cheira a madeira, folhas e… comida. Heragon volta correndo, ainda com o cabelo pingando.
Ao abrir a porta, a cena é quase sagrada. Quase. A mesa está lotada de comida, e o avô termina os detalhes com elegância zero e fartura máxima!
— Strogonoff! Minha comida favorita! Muito legal! — Heragon praticamente berra.
— Mas é claro! — Fiogon ri. — Hoje é um dia especial. O décimo sexto aniversário é o mais importante para a nossa raça.
— Finalmente sou um adulto. Vamos, me ensina ressonâncias legais!
— Hohoho… paciência, meu neto. Tudo ao seu tempo.
— Estou empolgado! Vou me tornar o mais forte de todos!
— Hoooo! Assim como as plantas e os animais absorvem o Eco, o segredo para ter bastante Eco é…
— Muito obrigado! Quero mais!
— O quêêê?! Já?! Hohoho! Esse é o meu neto! Eu ia dizer que é comer bastante, mas vejo que nem preciso dizer.
Comem, conversam, riem. O fogo da lareira dança e, por alguns minutos, parece que nada neste mundo pode interromper aquele momento.
Se eu fosse mais sensível, até diria que é uma cena bonita!
Mas, conhecendo esse velho… calmaria é só o intervalo antes da tempestade!
Depois do jantar, Heragon lava os pratos. Fiogon prepara um chá com ervas que flutuam na água quente. Sim, flutuam. Acostume-se!
Então o ar muda.
O velhote leva a mão até o medalhão e suspira.
A floresta fica em silêncio. Nem inseto canta. O vento para. O chão parece segurar a respiração.
Um estalo seco.
Do teto, um homem de vestes negras cai, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar. Ele puxa uma cadeira, senta-se à mesa, completamente à vontade. Fiogon nem se assusta: apenas enche outra xícara e a empurra na direção do visitante.
— Depois de velho, esqueceu como funciona uma porta, Hugo?
Ah, essa dupla… finalmente!
O homem ri e ergue a cabeça. A luz da lareira revela um rosto experiente, cabelos e barba grisalhos, e um olhar afiado, que denuncia muito mais tempo de vida do que a idade aparente.
— Ora, ora… qual seria a graça de entrar pela porta, Fiogon? — ele provoca. — E que inveja… você continua com essa cara jovem. Mas ainda é irritantemente calmo, mesmo sendo um maníaco por batalhas.
— Hohoho… vantagens de cuidar bem da pele. — Fiogon sorri de canto. — Além de ser o mais forte aqui, é claro.
E essa confiança não é à toa. Ele é conhecido como o Guardião do Santuário.
Raça: Dragão; Canal: Elemen; Espécie: Drake; São capazes de se transformar em enormes seres escamosos. Essa espécie controla o espaço.
À frente dele, Hugo, o Caçador Fantasma.
Raça: Hunter; Canal: Mater; Espécie: Venator. São capazes de materializar energia, já essa espécie, não enrolam, batem de frente com a presa.
Velhos amigos, rivais e heróis de guerra.
Não me peça para escolher lado. Eu ficaria linda em qualquer um dos dois!
— Foi difícil te encontrar. — Hugo apoia os cotovelos na mesa. — Floressi, o lar dos Hunters… ótima escolha para se esconder.
— Hohoho… o melhor lugar para se esconder é sempre o mais óbvio. — Fiogon toma um gole de chá. — Sempre é o último lugar onde procuram. Mas diga… por que essa visita repentina?
— Você sabe por que eu vim. — A voz de Hugo fica firme, fria. — Vai ser do jeito fácil… ou do jeito difícil?
— E qual seria a graça do jeito fácil?
Ambos sorriem. Dois velhos monstros, tomando chá como se estivessem prestes a jogar cartas, não a destruir uma floresta inteira.
As presenças que ambos emanam se chocam; o ar fica pesado, e Heragon é tomado por uma pressão que o arrasta para o chão. Sentado, ele não entende o que está acontecendo… mas sente, na pele, que aquilo é grande demais para ele.
Fiogon olha para Heragon e dá uma piscada.
Num piscar de olhos, Heragon sente a grama por entre os dedos e uma leve brisa. Agora, ainda mais confuso do que antes, percebe que está a certa distância da cabana.
A selva é intensamente iluminada pelo brilho do luar que paira sobre ela. Apesar da riqueza e da brutalidade da natureza desse lugar, nenhum único animal ousa dar um pio. O silêncio da noite é quebrado por duas vozes poderosas.
— Fase Cheia…
O Eco vibra, quase fervendo no ar, a ponto de distorcer a visão ao redor.
— Fantasma Vingador!
— Dragão Drake!
Um clarão ilumina a selva; o impacto derruba árvores, o chão treme.
De dentro da cabana, dois gigantes irrompem, rasgando destroços de madeira e terra. Por um momento, uma nuvem de poeira cobre tudo o que antes foi o lar de avô e neto.
Ao redor de Hugo, forma-se um colosso translúcido: um fantasma gigantesco, como se um caçador retornasse dos mortos, em fúria. No centro do peito, Hugo flutua, como se estivesse dentro de uma armadura viva. Seus olhos brilham intensamente, encarando sua presa.
Fiogon assume sua verdadeira forma.
O corpo se alonga; escamas violetas cobrem cada centímetro de pele; dois chifres curvados despontam de sua testa, e o espaço à volta se distorce visivelmente.
Um dragão serpentino, sinuoso, poderoso, com olhos assustadores emitindo um brilho roxo.

A selva acorda.
O ar vibra. As nuvens se afastam.
Hugo faz surgir um arco de energia na mão do colosso. A outra mão se move em gestos rápidos.
— Chuva de Flechas!
Diversas flechas de luz são conjuradas e lançadas rumo ao alvo, cantando no ar como uma orquestra mortal.
Fiogon ergue uma garra, mostrando do que é capaz.
— Portalis!
Múltiplos portais se abrem diante das flechas e as engolem antes que o ataque o atinja. A quilômetros dali, o horizonte explode em clarões. Nem mesmo a árvore mais grossa aguenta tamanho poder destrutivo.
Hugo sorri.
— Sabia que você ia usar isso.
Ele ergue a mão livre para o céu. O Eco ao redor do seu corpo ferve.
— Lança de Garra!
Uma lança gigantesca, com a ponta curvada, é disparada em linha reta, cortando nuvens como se fossem papel fino. Fiogon gira o corpo no ar, serpenteando, e desvia por pouco. O espaço ao redor dele se distorce como água agitada.
Fiogon abre a boca, e uma luz lilás se acumula em sua garganta.
— Raio Dimensional!
Um feixe colossal sai disparado, rasgando a selva em linha reta. Portais se abrem atrás dele e redirecionam o raio, que passa a cruzar o campo em várias direções, como se o próprio espaço estivesse sendo partido.
Em resposta, Hugo mostra que não é indefeso diante daquele ataque capaz de desintegrar qualquer matéria.
— Escudo Cruzado!
Os braços do colosso se cruzam, formando camadas grossas de energia. A cada escudo destruído, outro se forma no lugar, imediatamente. O impacto é absurdo. O chão se fissura, e a floresta se dobra sob a força dos dois.
De longe, Heragon assiste, paralisado.
Os olhos dele brilham: medo, admiração… tudo misturado.
Uma sombra salta pelos galhos.
A discípula de Hugo aparece e parte na direção de Heragon.
Ela tenta agarrar o garoto, mas um rugido corta o ar.
Fiogon vira a cabeça. O som que sai de sua garganta não é só rugido: é uma onda de Eco que distorce o espaço.
Tudo congela por um instante.
Fiogon se move até o neto. Por trás da forma monstruosa, há um olhar suave, rápido, que só Heragon consegue ver. Ele tira o medalhão do próprio pescoço e entrega na mão do garoto.
— Guarde e proteja. Passo o vínculo desse medalhão para você, meu neto. — A voz é firme. — Vou te enviar para um lugar seguro.
— Espera… e o senhor?
— Eu vou segurá-los. Assim não vão conseguir te rastrear. Chegou a hora.
— Não! Vovô!
Heragon dá um passo, mas a pressão no ar o empurra de volta. Ele aperta o medalhão com força e, por um instante, ele brilha.
Fiogon olha para o nada e fala:
— Ei, velha gagá, abre um portal. Não quero que rastreiem Heragon usando minha assinatura de Eco.
‘Velha gagá? Que falta de modos! Posso estar viva há um bom tempo, mas continuo linda e maravilhosa, seu maníaco por batalhas!’ — a belíssima voz vem do nada, telepaticamente.
— Só abre logo!
‘Só porque é necessário, não porque você mandou!’
Um portal se abre atrás de Heragon, distorcendo o ar. Fiogon empurra o neto com a garra.
— Vá.
Heragon tenta resistir. Os dedos arranham o chão, o coração dispara, o mundo parece gritar sem som. Por um segundo, ele encara o avô… e entende que discutir ali é matar os dois.
Ele é engolido pelo portal e some. O portal se fecha. O espaço volta a fluir normalmente.
A Ária corre e salta sobre o ombro do colossal fantasma.
— Mestre… aconteceu como o senhor falou…
— Esconda seus pensamentos — Hugo fala, ainda encarando Fiogon. — Você fez bem em tirá-lo daqui, Fiogon. Vai ser bem mais difícil rastreá-lo agora.
Fiogon sorri.
— Hohoho… eu não nasci ontem. Mas não acha injusto? Dois contra um velho indefeso?
— Ora, ora! Dizer que um enorme dragão é indefeso é cara de pau demais, até para você — Hugo ri alto.
Fiogon abre um sorriso de canto.
— Então… vamos parar de brincar? Sua espécie de Hunter não é de conversa.
— Finalmente. De fato, nós Venators gostamos de caçar de frente.
Hugo fecha os punhos. O colosso se desfaz, e Fiogon estreita os olhos. Ambos dizem ao mesmo tempo:
— Fase Minguante…
O chão racha sob seus pés. As folhas voam em todas as direções só com a pressão que sai deles.
Fiogon e Hugo se encaram.
Uma nova fase dessa batalha começa.


Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.