Cara a cara. Dois heróis de guerra se enfrentando: isso é combate. Quem sairá vitorioso? Logo descobriremos, pois…

    As pupilas de Hugo se transformam em três marcas de garra na diagonal. Um manto de energia negra envolve seu corpo: um sobretudo translúcido, duas golas altas sobrepostas, um capuz e uma máscara cobrindo-lhe o rosto. Nas costas do manto, uma roleta; nas laterais, símbolos de diversas armas.

    — Manto do Predador!

    Hugo move a mão para a frente, chamando seu adversário para a briga.

    Os olhos de Fiogon brilham ainda mais forte. As pupilas se afunilam em fendas verticais, muito finas, como cortes de lâmina na escuridão roxa de seus olhos. O corpo muda de novo. As escamas se tornam ainda mais brilhantes, os chifres se alongam, e ele assume uma forma híbrida: metade humanoide, metade dragão. Duas pernas fortes, tronco definido coberto por escamas, garras afiadas.

    Fiogon responde a Hugo, com um sorriso empolgado.

    — Híbrido Drake!

    Eles se encaram.

    A roleta nas costas de Hugo gira o ponteiro, caindo no símbolo de um arco.

    — Arco do Caçador!

    Um arco com seis pontas, como se vários tivessem sido talhados juntos, se forma em sua mão. Ao puxar, não vem apenas um fio, mas três, criando a mesma quantidade de flechas. Pontas circulares, hastes finas e penas assimétricas.

    O ar sibila ao serem disparadas.

    — Flechas Perfurantes!

    Elas rotacionam em seu próprio eixo, ganhando mais velocidade a cada metro percorrido.

    Rápidas demais, Fiogon usa uma poderosa Ressonância, que não poderá usar de novo neste combate. Suas escamas brilham, e o reflexo roxo age como um espelho.

    — Reflexão Espacial!

    Em vez de causarem dano ao atingi-lo, as flechas desaparecem, entrando em suas escamas. Quando Fiogon estende as mãos para a frente, elas saem disparadas rumo a Hugo.

    — É por isso que eu não gosto de lutar contra quem usa esse tipo de Ressonância — Hugo resmunga, desviando por pouco.

    Hugo abre os braços, e a barra do manto se ergue como se fosse movida pelo vento.

    — Rastro Fantasma!

    Num instante, Hugo se cola em Fiogon, quase sem sombra de movimento. Puxa novas flechas e dispara à queima-roupa.

    Fiogon segura duas no reflexo; a terceira raspa a escama e canta. A pressão do impacto o lança para o alto.

    Ele atravessa nuvens, corta o céu como projétil e cai no meio de um mar de areia.

    Garra Âmbar.

    O calor estala. A areia morde.

    — Continua forte como sempre… me arremessou logo na Garra Âmbar. — Fiogon se levanta, sacudindo grãos dourados das escamas, como se limpasse poeira de um incômodo.

    O caçador chega em seguida, veloz demais para “correr”. Ele só… está ali. Sem papo. Só ataque.

    Fiogon sorri, com a expressão perfeita de “então vem”.

    Os dois se movem rápido demais para olhos comuns. Cada golpe levanta tempestades de areia; cada defesa empurra o mundo e molda dunas como ondas.

    Hugo acerta um soco que não parece “soco”. Parece martelo.

    O ar distorce. O chão cede.

    Fiogon é empurrado para trás e, no mesmo instante, o espaço abre uma fenda curta, como uma piscada.

    Hugo é lançado para dentro dela.

    Garra Central.

    A luta continua em uma savana.

    Capim alto se deita como se temesse. Bestas e Animais disparam em pânico, fugindo em manadas que não param para olhar para trás.

    Os dois travam os dedos numa disputa de força. O Eco range no ar, fervendo. A pressão aumenta… e o espaço rasga de novo.

    Outro salto.

    Desfiladeiro rochoso: Garra Cinzenta.

    O vento uiva entre fendas, carregando poeira de pedra.

    Hugo agarra a cabeça de Fiogon e o arrasta pelo paredão; a rocha quebra como vidro. Lascas explodem em cascatas.

    Fiogon não deixa barato.

    Ele agarra o manto de Hugo, gira o corpo inteiro como um eixo e o arremessa com violência. Nem o vento consegue desacelerá-lo.

    O impacto é gigantesco… mas amortecido por uma grossa camada de neve.

    Garra Boreal.

    O ar queima de frio.

    Hugo cruza os braços e se levanta, irritado.

    — Me jogou logo na Garra Boreal. — Ele sacode a neve do ombro. — Odeio frio.

    Fiogon chega com um chute devastador, lançando Hugo para o alto.

    Portais surgem ao redor do caçador. Das aberturas, saem as flechas que haviam sumido antes.

    Por um segundo, Hugo fica perplexo.

    No seguinte, entende. E sorri de canto.

    No ar, ele gira o corpo. O ponteiro da roleta gira junto, até parar.

    — Adaga Sangria!

    Uma lâmina serrilhada surge em sua mão.

    Ele corta.

    O golpe estica a lâmina como se ela tivesse vontade própria, arranha as escamas do peito de Fiogon e arranca o chifre esquerdo num estalo seco.

    O chifre voa e cai na neve, meio enterrado, ainda fumegando com energia.

    Mas as flechas o atingem logo em seguida.

    Explodem numa chuva de luz.

    Os dois caem exaustos na neve, respirando com dificuldade.

    — Ora, ora… sua raposa astuta… — Hugo ri, limpando o sangue do canto da boca. — As flechas que você me jogou de volta e eu desviei eram só imagens residuais. Você mandou as verdadeiras para um espaço separado… e esperou o momento certo.

    — Hohoho… claro. — Fiogon toca o lugar do chifre perdido, com um suspiro divertido. — Eu não ia te enfrentar sem um plano. Mas esse chifre vai demorar para crescer de novo… estou velho.

    — Nós dois, meu caro amigo. — Hugo se levanta meio torto. — Vamos terminar logo com isso. Quero sair deste frio.

    — Hohoho… eu até gosto do frio. Não me importaria de lutar mais.

    Ambos sorriem, empolgados. Como duas crianças brincando… só que num combate capaz de arranhar um mundo.

    A roleta de Hugo brilha.

    Um segundo ponteiro aparece: maior chance de cair na arma desejada, mas com um tempo de recarga longo.

    — Manopla de Caça!

    Placas de energia se formam ao redor de cada punho, como manoplas pesadas. Entre as frestas, a energia vaza, vibrando.

    — Dei azar. Vou ter que me virar com essa.

    Fiogon esvazia os pulmões.

    As escamas brilham intensamente, liberando energia no ar. Quando puxa o ar de volta, puxa junto o Eco do ambiente, condensando tudo no próprio corpo.

    Eles sorriem.

    E avançam.

    Espaço Disforme!

    Soco do Predador!

    Os golpes se encontram no meio do caminho.

    A explosão é ensurdecedora. A luz engole a visão.

    Avalanches se formam. A neve ao redor derrete em vapor. Árvores se dobram como se pedissem desculpas. O chão racha como vidro.

    Quando a claridade cede, os dois estão caídos, lado a lado.

    Rindo.

    E, ao redor, um desastre recém-nascido.

    — Ainda vivo? — Hugo pergunta, encarando o céu.

    — Sim… e você? Tudo no lugar?

    — Acho que sim. Você é duro na queda.

    — Digo o mesmo, velho amigo.

    O silêncio volta pesado.

    A luta termina sem vencedor. Por alguns instantes, sem heróis: só dois velhos cansados que bateram demais um no outro.

    A neve continua caindo… mas parece cair com cuidado, como se não quisesse encostar neles.

    O Eco que fervia no ar, de repente, abaixa. Não some. Só… fica quieto.

    Quieto demais.

    E eu vou admitir uma coisa: isso não é normal!

    Um estalo seco corta o vento.

    Não vem de árvore. Não vem de gelo.

    Vem do próprio ar, como se alguma coisa tivesse chegado e o mundo tivesse lembrado de ficar sério.

    Então…

    quatro presenças encostam no lugar.

    Não correndo.

    Não ofegantes.

    Só presentes… como se o estrago tivesse sido um convite.

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