Capítulo 05 — O Mago Perdido

Os dois saem dos arbustos quase ao mesmo tempo. Por um instante, ninguém fala. Heragon mede o garoto à sua frente: manto longo, cabelo azul-claro, postura leve demais para alguém perdido numa dimensão como aquela.
— Oi! Sou Heragon, da raça dos Dragões. — Ele toma a iniciativa.
O outro se anima na mesma hora, como se tivesse acabado de encontrar algo raro no meio da mata.
— Sério?! Um Dragão?! Que legal! Sou Merlin, dos Magos. Gosto de arroz e de conhecer pessoas novas.
Heragon sorri, apesar da estranheza. O garoto era empolgado demais para alguém surgido do nada no meio de Jurassic. Diz que precisa resolver uma coisa e faz menção de seguir para a cachoeira, mas Merlin o interrompe antes. Baixa o olhar, força um ar abatido e admite estar perdido, afastado do Pilar e sem ideia de onde foi parar.
O jovem Dragão até tenta escapar da responsabilidade, desejando boa sorte. Não funciona. Merlin dá um passo para trás e capricha no drama, com a clássica expressão de quem já se imagina sendo devorado sozinho no meio da floresta.
— Então já vou… sem rumo… nessa floresta perigosa… cheia de dinossauros prontos para me devorar…
— Ah! Então, né! Vem comigo. Depois a gente acha o caminho para o seu Pilar. — Suspira, colocando as mãos na cintura.
— Opa! Eu sabia que você era gente boa!
Os dois entram na caverna atrás da cachoeira. O túnel é úmido e escuro, a água pinga das estalactites, e morcegos levantam voo assustados à medida que avançam.
No caminho, Merlin tenta descobrir o que Heragon foi fazer ali, e o jovem Dragão explica, entre uma passada e outra, que estava cumprindo um treinamento deixado por seu mestre: encontrar uma fruta que crescia naquela caverna. Merlin se impressiona mais com a ideia do treino do que com o perigo em si, o que arranca uma risada de Heragon. A partir daí, a conversa se solta. Entre uma piada e outra, o Dragão acaba contando parte da própria história.
O caminho segue, e a fala dos dois vai se costurando no ritmo dos passos, até chegarem a uma clareira. Uma fenda no teto derrama luz sobre o lugar, um corte brilhante no escuro. O feixe ilumina o pó suspenso no ar e revela movimento: insetos gigantes circulam pela área, zunindo em espirais lentas, como se guardassem aquela abertura por puro instinto.
Por algum motivo, Merlin fica boquiaberto com a história que acabou de ouvir. Não é medo. É… reconhecimento. Estranhamente surpreso, ele fecha os punhos, trava o maxilar e solta uma frase nada comum:
— História inicial de protagonista… — Merlin aperta os olhos. — Droga!
— O quê? — Heragon sorri sem graça, confuso. — Espera… ouvi algo.
Ele puxa Merlin para trás de um arbusto. À frente, dinossauros caçam em bando, rasgando formigas gigantes com precisão de açougueiro. O jovem Mago sussurra que já estudou aquelas criaturas. Eram rápidas, inteligentes e perigosas: Deinonychus. Nome grande demais. Melhor pensar neles apenas como Deinos.
Ao ver as feras de duas patas, com braços que lembram pequenas asas, os dois se enchem de cautela. A ideia é seguir pelas beiradas, sem fazer barulho. Mas um passo em falso de Heragon arranca um creck nada agradável.
Merlin arregala os olhos.
— Isso é ruim… pode soar estranho, mas você acabou de pisar em uma planta que odeia ser pisada.
O grito da Mandrágora puxa os Deinos como um ímã. As feras avançam em sintonia. Uma delas acerta o flanco de Heragon. Ele cai, mas, antes que o chão o engula por completo, trava o pescoço do bicho com os antebraços, segurando como pode. Garras em forma de foice rasgam o traje.
O fôlego do jovem Dragão encurta, preso entre o peso da criatura e a urgência de não ceder. Merlin se posiciona ao lado, mão erguida, olhar firme. Uma esfera se forma em sua palma.

Pontinhos de luz surgem na superfície e, um a um, são ligados por um traço fino, desenhando uma rede compacta de intenção e cálculo.
Console: Mater — Matriz: Elemen Água! — Metralhadora D’água!
A esfera se rompe, transformando-se numa metralhadora de água, e dispara. As rajadas perfuram as penas do Deino preso a Heragon, atravessando-o como agulhas de pressão. O peso finalmente cede. O jovem Dragão gira o corpo, rola para longe e se levanta num salto curto, ainda ofegante.
Com a mão aberta, tenta criar fogo… Nada. Só ar quente escapando entre os dedos, inútil numa luta daquelas. Sem opção e sem tempo para insistir, parte para o combate direto.
Avança no instante em que o Deino salta. O cotovelo sobe curto, batendo contra o lado do pescoço da criatura. Antes mesmo de sentir o impacto por completo, Heragon gira a base e desfere um chute baixo, atingindo a perna dianteira para quebrar o impulso do predador. Em seguida, desliza para o lado num passo rápido, seco, saindo da linha de ataque. O Deino fecha a mandíbula no vazio. Ele aproveita a brecha, desce uma cotovelada entre os olhos do bicho.
— Uau! Você luta bem! — comenta Merlin.
— Aprendi com meu avô. Ele chama isso de… Kung Fu.
— Maneiro! — Merlin ri. — Tive uma ideia. Pode ser a isca?
— Como se eu tivesse escolha!
— Tente juntá-los num só lugar!
Heragon corre sem atacar, puxando o bando para si como uma isca viva. Um bote passa por centímetros de seu braço. Outro rasga o ar às suas costas. Ele salta por cima de uma raiz grossa, aterrissa já girando o corpo e muda de direção no último instante, fazendo dois Deinos se chocarem num baque seco.
Um terceiro vem de frente. Heragon agarra o focinho da criatura com as duas mãos, trava o avanço por um segundo e a empurra de lado com violência, batendo sua cabeça contra a de outro que vinha no embalo. O estalo é oco, pesado. Sem esperar resultado, ele se lança para trás num salto rápido, abrindo distância. Os Deinos se embolam no chão, rosnando, escorregando e trombando entre si na tentativa de se levantar. Merlin aproveita a abertura.
Console: Modi — Matriz: Invo — Paredão!
Grandes rochas surgem do nada. Moldam-se em paredes em três lados, numa dobra súbita e brutal, fechando as feras numa caixa aberta, sem teto e sem fuga.
Console: Mater — Matriz: Elemen Vento — Rajada!
O ar responde. Ventos em lâminas assobiam com fome de corte. O impacto chega de uma vez só, seco e esmagador, derrubando todos ao mesmo tempo.
— Heragon, da próxima vez, olha por onde pisa, hein?
— Engraçadinho…
Eles riem, um riso curto, ainda com o pulso acelerado, e seguem adiante. Merlin elogia os chutes de Heragon. Cabisbaixo, o jovem admite que consegue se virar na arte marcial, mas o que queria mesmo era usar Ressonância de verdade.
Percebendo a frustração dele, Merlin tenta explicar. Ressonância é, no fundo, uma mudança na vibração do Eco por meio de um dos sete canais. No caso dos Dragões, o canal central é o Elemen, e a forma mais comum de ativá-lo passa pela faixa imagética: o Sinal em Frames, moldando na mente a imagem do que se quer criar.
Heragon cruza os braços, confuso. As palavras entram, mas não se encaixam. Merlin sorri e simplifica. Apesar de parecer complicado, ainda é mais intuitivo do que o jeito que os Magos usam Ressonância. A curiosidade do jovem Dragão desperta na mesma hora.
— Pode me ajudar? Como vocês fazem?
— Programação. — Merlin se anima ao explicar. — A gente pensa no Eco como uma esfera cheia de pontos. Em cada um, coloca uma informação: tamanho, densidade, efeito… Depois liga tudo e forma um Programa. É a faixa programática. Bem comum em raças de base Adap.
Heragon pensa por um instante e logo chega à conclusão mais sincera possível:
— É legal. Mas, pensando bem… não me ajuda em nada.
Merlin ri. No caso dos Magos, o processo fica mais fácil porque muitos Programas já existem e só precisam ser memorizados. Depois tenta trazer a conversa de volta para algo útil: diz que certas raças realmente sofrem mais com a faixa imagética, e que, para Heragon, talvez o melhor caminho seja se agarrar a um exemplo claro, uma imagem forte o bastante para não escapar da mente.
— Vou me lembrar disso. Obrigado.
Andam mais um pouco, até avistarem uma fruta de casca escura, marcada por desenhos em forma de ondas. Heragon aponta, empolgado, e corre para pegá-la.
Merlin estreita o olhar.
— Essa fruta me é familiar… tenho certeza de que já a vi num livro.
Pela grama ao redor da fruta, finos filamentos se movem em sincronia. Cipós começam a serpentear rente ao solo. Quando Heragon se aproxima, o chão vibra. Ao redor da fruta, dentes brotam da terra. Afiados. Prontos para mastigar. No impulso, Merlin salta e puxa Heragon junto.
Matriz: Elemen Vento — Ejetor!
Uma rajada de vento os arremessa para o alto. A boca gigantesca se fecha exatamente onde estavam. Prestes a caírem ali por perto, outra rajada amortece a queda.
Então o solo se rompe. Do chão irrompe uma planta colossal, toda dentes e cipós. O Mago ergue o dedo, como quem finalmente encaixa a peça que faltava.
Era isso.
Uma planta carnívora chamada Carnoda. A fruta era uma Onda Doce, isca rica em Eco usada para atrair presas.
— Esse meu mestre! Plantinha uma ova! Olha o tamanho disso! — grita Heragon.

O jovem Dragão dispara sem pensar, correndo em direção à planta carnívora. Merlin tenta pará-lo. Lutar sem plano era arriscado demais.
Mas já era tarde demais.
Heragon salta na direção da planta. A Carnoda reage com uma chuva de cipós. Ele desvia de alguns; outros o agarram pelas pernas e o arremessam ao chão com força. O solo, gramado, mas firme, arranca o ar de seu peito. Mesmo tonto, ele se levanta e avança de novo.
Merlin observa, atento, procurando uma brecha. Heragon desfere socos e chutes. Aos poucos, consegue concentrar chamas fracas nos punhos, calor o bastante para avermelhar a superfície da própria pele. O dano é mínimo… mas real.
A planta se enfurece. Os ataques ficam mais agressivos, apressados, impacientes. Cipós se entrelaçam num instante, torcendo e apertando até virarem uma broca viva. Ela dispara direto nele, girando com fúria.
Matriz: Invo — Teleporte!
Heragon desaparece no exato instante em que a broca estava prestes a atingi-lo. O golpe perfura o solo com força absurda, rasgando e estilhaçando a terra. Ele reaparece ao lado de Merlin, ainda sentindo o vento do ataque que quase o pegou.
— Uau… pareceu o vovô. O que foi isso?
— Algo que gasta muito Eco… — Merlin responde, ofegante, com o peito subindo e descendo rápido. — Heragon, vamos trabalhar juntos! Eu sei que você quer aproveitar para treinar, mas a gente precisa de um plano.
O jovem Dragão se desculpa. Tinha se empolgado. O Mago então improvisa uma ideia. Quer usar uma Ressonância que anda treinando e que talvez funcione.
— “Talvez”? — Heragon estreita os olhos. — Isso é um plano ou uma aposta suicida?
— Há! Essa foi boa! — Merlin solta um riso rápido. — Algo do tipo. Vamos tentar derrotá-la sem destruir a fruta. Você vai ter que queimá-la, e eu cuido da proteção.
— Minhas chamas ainda estão fracas…
— Dá um jeito. Confia na sorte. Eu sou sortudo!
— Tudo ou nada, então.
Heragon para de atacar e passa a apenas desviar. Um cipó despenca como chicote e explode no chão onde ele estava um instante antes. Outro rasga o ar por trás, mas ele gira o corpo e escapa por um fio. Os golpes não vêm só de cima. Entram no solo, serpenteiam por baixo da terra fofa e surgem de repente, tentando agarrar seu tornozelo, prender sua perna, puxá-lo para o erro. Dessa vez, ele não reage por impulso. Observa. Mede o tempo. Lê o ritmo da planta em meio ao caos. Cada esquiva afia mais seu olhar, cada salto, cada passo curto, cada recuo no instante exato. No meio do combate, Heragon deixa de apenas sobreviver aos ataques e começa a entendê-los.
Merlin também analisa o padrão. Percebe que a planta sempre tenta puxar o alvo depois de imobilizá-lo. Ela está presa ao solo e não tem outra arma além dos cipós. Heragon, agora com a visão mais aberta por ter parado de atacar sem pensar, também percebe. Finalmente usa a cabeça para algo além de buscar emoção.
— Merlin, prende meus pés no chão!
— Tem certeza? Você vai ficar vulnerável!
— Confia em mim. Tenho um plano.
O jovem Dragão se concentra. A pele se torna firme, quase metálica. Ele usa a única Ressonância que aprendeu com alguma facilidade.
Matriz: Elemen Madeira — Enraizar!
Merlin faz raízes romperem do solo, prendendo Heragon até os tornozelos. Os cipós se fecham ao redor de seu corpo, apertando e puxando. A Carnoda tenta arrastá-lo, mas é inútil. Ele finca o corpo, abaixa o centro de gravidade e segura a força da planta nos braços e na postura, travando cada puxão na força de vontade.
“Vamos lá… lembra da Salamandra. Fogo… fogo mais quente.”
Ele estreita o olhar, fecha os punhos, respira fundo e solta o ar devagar. O Eco em sua mente ganha forma, imagem atrás de imagem, lado a lado, até se fixar em uma só.
Subitamente, um clarão.
Seu corpo se incendeia. As chamas correm pelos cipós. A planta grita em agonia. A boca se abre por completo.
A brecha perfeita.
De olhos fechados, Merlin cria em suas mãos duas grandes esferas de Eco, parecidas com painéis cheios de pontos de luz. Flutuando entre elas, forma uma esfera menor, compacta. Fios de energia saem das maiores e se conectam à menor, ponto por ponto, como se ele montasse um circuito no ar. Quando tudo se encaixa, Merlin choca as esferas, fundindo-as em uma só. A estrutura vibra.
Protocolo — Matriz: Elemen Vento e Luz/Variante — Vácuo!
Uma barreira luminosa se ergue ao redor da fruta. O ar é expulso, formando um vazio que impede as chamas de tocá-la. A Carnoda é consumida pelo fogo e desaba, queimando a grama ao redor, enquanto a fruta permanece intacta.
— Merlin! Você está bem?! — grita Heragon, ainda ofegante.
O Mago ri, caindo exausto ao chão, admite que está inteiro, mas com o Eco praticamente esgotado. Aquele tipo de Programa consome energia demais. Mesmo assim, os dois comemoram. Conseguiram vencer. E, para Heragon, aquilo tinha sido bom demais.
De longe, Ouroboros observava tudo com um sorriso satisfeito no rosto.
— Morgan… seu discípulo é talentoso. Vou ter que pegar mais pesado com o meu.
Sem se mostrar, ele passa a seguir os garotos de forma sorrateira enquanto eles conversam.
Merlin admite que improvisou quase tudo e que nem sabia se o plano daria certo. Diz que tiveram sorte, mas elogia Heragon do mesmo jeito. O jovem Dragão sorri, ajuda o Mago a se levantar e resolve encerrar a aventura da forma mais simples possível: carregando o novo amigo nas costas até a saída da caverna.
No caminho, Merlin estranha a expressão no rosto dele.
— Então… por que está sorrindo tanto?
— Não sei. De repente, fiquei empolgado.
Dragões, a raça mortal com a maior expectativa de vida, capazes de viver por vários séculos. Com o tempo, talvez por viverem tanto, desenvolveram quase por instinto uma sede inesgotável por adrenalina. Sem nem perceber, Heragon já sentia isso nascer dentro de si. E, pelo visto, emoção não lhe faltaria.
De volta à casa do mestre, os dois chegam exaustos, mas em segurança. Como bom anfitrião rabugento, o mestre já havia deixado o caminho livre de perigos. Ouroboros nota de imediato a fruta nas mãos do discípulo… e também o companheiro extra.
O jovem Dragão apresenta Merlin como o amigo que fez na caverna. O Mago, ainda acabado, se apresenta com o humor de sempre, dizendo que até apertaria a mão dele, mas estava morto por dentro. O ranzinza entende sem dificuldade, pede a fruta e, ao ouvir que Merlin não sabia como voltar ao Pilar, decide que o levaria até lá assim que ele recuperasse as forças.
O garoto empolgado agradece e, sem economizar no carisma, comenta que Heragon tinha sorte de ter um mestre tão legal. Ouroboros resmunga, chama o garoto de bajulador… mas o orgulho aparece no sorriso.
No dia seguinte, já recuperado, Merlin se despede.
— Heragon, se um dia você for à Magi, me procure! Sou bem conhecido por lá.
— Pode deixar! E, se precisar de mim, é só chamar.
Merlin então se vira como se estivesse encerrando uma cena importante. Endireita a postura, faz uma pose exagerada, ergue a mão e anuncia, com a solenidade dramática de quem acredita demais no próprio roteiro:
— Que vença o melhor protagonista!
— Fechou! Até a próxima! Pera… o quê? Prota… pragonista… protanista?
E lá se vai o jovem Mago, desaparecendo pelo caminho e deixando Heragon para trás, confuso, mastigando uma palavra que ainda não fazia sentido na cabeça dele.
Foi uma colaboração inusitada. Um encontro entre dois jovens que, algum dia, voltariam a lutar novamente… lado a lado.
Por enquanto, Heragon treina incansavelmente. O tempo passou mais rápido do que esperava. Foram dois anos de puro esforço.
No topo de uma árvore, Ouroboros observa o pupilo.
Heragon está diferente: mais alto, mais forte, com o olhar firme como uma lâmina recém-afiada. À sua frente, uma criatura monstruosa. Couraça grossa, focinho alongado, dentes afiados… e aquela calma predatória que sempre anuncia tempestade. Os dois permanecem imóveis, esperando o primeiro movimento.
Então, de repente, um portal se abre no céu.
Montada em uma vassoura voadora, alguém se aproxima sorrateiramente de Ouroboros, com um sorriso claramente malicioso.

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