Em um portal no céu de Jurassic, uma mulher de cabelos azuis surge, sentada numa vassoura, chapéu pontudo e um sorriso provocante, desses que já chegam testando limites. Ela desce sem pressa, cortando o ar com leveza, e voa entre as árvores. Aproxima-se sorrateiramente, devagar, como se fosse dar um susto só para ver a reação e…

    — Nem tente, Sara. Não estou com humor para brincadeiras! — exclama Ouroboros.

    — Tsc, que sem graça. — Ela faz bico por um instante, mas o olhar continua brilhando. — Então esse é o neto de Fiogon?

    — Sim. E você demorou.

    — Passei para ver meu sobrinho numa dimensão próxima. — Ela sorri, satisfeita consigo mesma. — Trouxe o que você pediu… mereço um beijinho, né?

    — Sim, você merece. Mas sem beijo de recompensa.

    — Poxa… ainda o mesmo rabugento de sempre.

    Enquanto isso, mais abaixo, Heragon avança contra a criatura à sua frente. O soco estala na couraça dura fazendo sua mão ricochetear para trás. O monstro responde no mesmo instante, virando o focinho e cravando os dentes no braço do jovem Dragão. Só que os dentes não atravessam.

    Heragon endurece a própria pele, finca os pés no chão e não recua. Gira o corpo, usa a própria mordida da criatura como ponto de apoio e, num movimento bruto de alavanca, a arremessa com violência. O bicho cai perto do topo da cachoeira, levantando respingos e poeira úmida. Num tranco, ele já se ergue de novo.

    A cauda vem cortando o ar.

    Heragon desvia da primeira investida por pouco, mas o golpe seguinte o alcança e o prende como um laço vivo. A fera o puxa sem dar tempo de resposta, arrastando-o junto numa queda livre pela cachoeira.

    Cair na água seria péssimo. Aquela criatura era semiaquática, feita para dominar ali.

    Mesmo despencando, Heragon mantém a expressão firme, como se já tivesse aceitado a ideia do risco e calculado a resposta antes do impacto.

    — Boa jogada… mas eu não sou o mesmo de antes.

    O corpo dele se incendeia. O calor explode no ar. A criatura afrouxa o aperto por reflexo. Heragon aproveita o instante, puxa o fogo para o peito e comprime tudo em um único ponto.

    Então assopra.

    Um jato de chamas atinge o monstro em cheio e o empurra com força contra a água. A criatura se debate. Heragon nada até a margem e arrasta o corpo para fora. Quando pensa em se levantar, uma abocanhada violenta irrompe do nada, mirando sua cabeça. Só que ele já esperava por isso.

    Heragon gira o corpo. O punho se fecha, e o fogo se enrola nos dedos por pura vontade. O soco acerta em cheio, quebra a mandíbula da criatura e a lança de volta para a água, que desta vez não a recebe. Apenas a leva, arrastando-a rio abaixo. O jovem respira fundo, ainda com o peito subindo e descendo em esforço.

    — Finalmente… estou indo até o senhor, meu velho.

    Do alto, Ouroboros solta um suspiro. Sara, observando a cena com interesse renovado, comenta que o pupilo dele é bem talentoso. O mestre discorda na mesma hora. Diz que talento não é a palavra certa. O que Heragon tem é outra coisa: teimosia, insistência e uma determinação difícil de matar. Aprendeu tudo na marra. Sofreu até no básico. Só depois de errar, insistir e apanhar o suficiente começou a ressoar direito. Sara escuta, pensativa, e acaba cedendo num ponto: se não puxou o talento, ao menos puxou a personalidade da mãe.

    Ouroboros resmunga como quem preferia não comentar.

    De volta à casa do mestre, Heragon chega tomado por uma animação que há muito estava presa no peito. Aquela vitória marcava a promessa feita dois anos atrás. Ele entra já anunciando a missão cumprida, mas para no meio do impulso ao notar a presença da bruxa.

    — Quem é essa bela…

    Antes que consiga perguntar direito quem é aquela bela mulher no canto da casa, Sara o envolve num abraço apertado demais.

    — Aaaaah, que fofo! Diferente do seu mestre, você sabe tratar bem uma dama.

    — Agradeço… mas… não consigo respirar!

    Rindo, ela finalmente se apresenta como Sara, da raça das Bruxas, e começa a tirar objetos de uma bolsa encantada. Não faz isso com pressa. Vai exibindo cada item como quem gosta de ver o encanto crescer no rosto dos outros.

    Uma bússola.

    Um mapa.

    Roupas novas.

    Explica que a bússola aponta para o Pilar mais próximo, que o mapa mostra toda a região ao redor e que o papel junto deles contém instruções importantes. As roupas, além de novas, carregam encantos de resistência e autorreparo. Como se não bastasse, o bolso interno do sobretudo guarda um pequeno espaço de armazenamento.

    Heragon fica admirado de verdade.

    — Uau… deve ter dado um trabalhão conseguir tudo isso.

    Sara sorri com gosto, como se estivesse esperando exatamente por aquilo.

    — Muito. Acho que mereço um beijinho.

    Heragon cora na mesma hora.

    — Aaaaaaaah! Fofo demais!

    Ouroboros manda que pare de atormentar o garoto, embora um riso breve escape dele também. Depois, o tom muda. Diz a Heragon que aquilo é sério. Os itens vão ajudá-lo de verdade na jornada. O jovem endireita a postura no mesmo instante.

    — Sim, senhor!

    O mestre então resolve lhe passar uma informação importante antes da partida. Explica que o núcleo onde o Eco é armazenado se chama Lunae. Heragon acha o nome curioso. O mestre esclarece que significa Lua e continua: quando alguém se fortalece o bastante, essa Lunae evolui. E, quando evolui, permite o uso não só das Ressonâncias, mas também das Fases.

    O garoto lembra que já tinha ouvido o avô mencionar aquilo em histórias. Nunca perguntou direito o que era. Só achava muito maneiro. Ouroboros não discorda. As Fases elevam o poder de um indivíduo ao liberarem certos limitadores, mas corta a empolgação do garoto antes que ela cresça demais. Heragon pergunta por que nunca lhe ensinaram a usar, e a resposta vem seca:

    — Porque você ainda não está pronto. Quando chegar a hora, vai despertar naturalmente. E, se encontrar alguém desperto… não lute… corra.

    Roupa nova, itens legais guardados e coração decidido. Partem em direção ao Pilar. Após um tempo de caminhada, logo avistam a estrutura. Um Pilar de pedra escura com rachaduras emitindo luz roxa.

    Subitamente o ar ganha peso e, então, um portal se abre. Duas figuras encapuzadas saem dele, pisando como se já estivessem em casa.

    — Olha só Pamela… fomos premiados.

    — Finalmente. Nem me diga, Ravier. Já estava ficando entediada.

    Ouroboros solta um suspiro curto, sem pressa, sem surpresa.

    — Em boa hora. Observe, Heragon. Ver o uso das Fases em ação será importante para você.

    Ravier avança sem aviso, com lâminas de energia que cortam o ar, rápidas e certeiras. Ouroboros as bloqueia com facilidade, sem nem mover muito o corpo.

    — Entregue o garoto e saímos em paz — diz Ravier.

    — Hahaha… nem parece um Predator falando. Por acaso, vocês são Betas?

    O rosto de Ravier endurece até não deixar brecha para dúvida. A resposta não sai pela boca; vem fria, afiada, cravada no olhar. Em silêncio, os dois se afastam alguns passos, medindo a distância com cautela. As posturas se abaixam, o peso do corpo se ajusta, e a respiração controlada denuncia que nenhum dos dois pretende agir por impulso. Se afastam do Pilar, levando o combate, para outro lugar.

    Pamela tenta se aproximar de Heragon, mas Sara estala os dedos, cortando o avanço como quem fecha uma porta na cara.

    — Saia, mocinha. O fofinho tem coisa mais importante para fazer.

    — Só não se mete, vadiazinha.

    Quase dá para ouvir uma veia na testa de Sara estalar. O sorriso dela não some, mas endurece, virando lâmina. Ela se acomoda na vassoura flutuante com uma calma ofensiva, como se aquele insulto fosse só poeira no sapato.

    Tira uma lixa da bolsa e, focada nas unhas, sem dar a honra de olhar direito, com um gesto simples, faz surgir um círculo negro que se abre sob seus pés, silencioso, profundo. A criatura surge ao lado dela num salto curto, já em guarda, o corpo tenso e pronto para morder a realidade.

    — Fase Cheia…

    Sara inspira devagar, e o ar parece hesitar. Os olhos dela brilham em escarlate. A criatura se distorce na mesma hora: músculos engrossam, os pelos se eriçam e se multiplicam, e a presença cresce até ficar sufocante, como se a clareira tivesse perdido espaço.

    Sara termina de lixar uma unha, satisfeita, e aponta com o queixo, casual.

    — Fluflu. Pega!

    A luta no outro franco começa. Ravier não perde tempo.

    — Fase Cheia…

    A energia dele se desfaz em fumaça. A névoa se espalha, densa, engolindo o terreno inteiro. Pouco a pouco, os olhos brilhantes somem atrás da cortina branca. Ravier reaparece em estalos de segundo, como se o campo tivesse portas invisíveis abertas só para ele.

    Golpes rápidos. Precisos. O Venenoso recebe, mede, bloqueia. Ainda assim, Ravier insiste. Some e reaparece, então avança numa velocidade absurda, circulando Ouroboros como uma sombra viva, farejando uma brecha.

    De repente, ele põe as mãos no chão. O solo racha. Correntes irrompem, sobem e prendem o Dragão ao piso com um estalo metálico que corta até o silêncio da névoa.

    Orbes cobertos de pontas se materializam ao redor da presa. Um estalar de dedos e as esferas se expandem de uma vez, perfurando e esmagando o centro. Ravier dá um passo à frente, confiante.

    — Oi, oi… não me diga que já morreu?

    — Haha… bela sequência de golpes. Foi bem treinado. Mas creio que nunca lutou contra um Dragão… nós odiamos ser subestimados.

    De dentro das esferas, uma fumaça verde começa a vazar. O ar vibra. O Eco ao redor parece derreter, virando uma gosma que recobre o corpo de Ouroboros. Ravier sorri, já sentindo o gosto da vitória.

    — Hã… Dragões vivem muito, mas não são imortais. Se morrem, podem ser caçados.

    O velho dragão ergue a cabeça, devagar, como se o peso das correntes fosse só um detalhe.

    — Vejo que não me apresentei. Meu nome é Ouroboros. Resista a isso… e talvez eu leve o que você falou a sério.

    — O quê…? Espera… aquele Ouroboros?! — Os olhos de Ravier se arregalam. — O dragão sorri de leve. — Fase Cheia…

    Escamas que variam do marrom claro ao escuro se espalham pelo corpo. O tronco alonga. A silhueta toma a forma de uma serpente colossal, com um chifre cravado bem no centro da testa. A cauda varre a névoa num único golpe, abrindo um rasgo de visibilidade no campo.

    Ele abre a larga boca. Da garganta, dezenas de serpentes de veneno disparam. Elas deslizam, se enlaçam ao redor de Ravier, mordem o revestimento de energia e arrancam pedaços que esfumaçam e derretem, como se fossem corroídos por ácido. A defesa cai em segundos, e as serpentes alcançam o caçador.

    As serpentes se desfazem em fumaça verde. O turbilhão gira feroz, adensa, vira uma esfera corrosiva. Cresce. Vibra. E explode.

    O vento sai quente e pesado. Quando a poeira baixa, Ravier ainda está de pé, com o corpo salpicado de manchas negras e os olhos brancos, vazios. Um segundo depois, ele desaba de costas, completamente paralisado. Ouroboros desfaz a forma dracônica e puxa o ar, fundo.

    — Usar a primeira fase foi um pouco demais… — murmura, ajeitando os cabelos. — Que inveja do Fiogon… queria ter lutado contra o Hugo…

    Ele se aproxima do Pilar, onde Sara está sentada calmamente lixando as unhas, enquanto um grande urso de pelúcia de aparência sinistra desfere golpes constantes na Predator desacordada.

    — Sara, pode parar. Ela já está inconsciente.

    — Mas ela me irritou!

    Com um estalo de dedos, a criatura é puxada por um portal.

    — Entendeu, Heragon? — diz Ouroboros. — As Fases extraem da Lunae poder puro.

    Heragon, ao ver tamanho brutalidade, engole seco, com toda certeza, vai se lembrar disso.

    O mestre caminha até o Pilar em passos largos. Ao tocá-lo, um brilho roxo nasce de baixo para cima. À frente, surge um portal circular em espiral, faiscando pelas bordas.

    — Irei te enviar para Símia, procure o posto dos avançado Guias. Mostre o medalhão, irão te levar para onde quiser depois disso.

    — Sim, senhor. Obrigado por tudo. Esses dois anos, foram divertidos.

    — Menos drama. Sem abraço, apenas vá.

    — Boa sorte, fofinho! — grita Sara.

    Caminha em passos curtos. Cada pegada carrega as marcas das memórias que o trouxeram até aquele momento. Diante do portal, lança um breve olhar para trás e, com um gesto simples da mão, se despede do passado para manter o foco na jornada que está à sua frente.

    — E lá vai ele. — Ouroboros passa a mão em seus cabelos. — Sinto que estou esquecendo algo.

    Sara abre a bolsa para guardar a lixa. A revira, seu alhar é de “Ah”. Vê um passaporte com o nome do jovem.

    — Ah, hehe… se esqueceu, não deve ser importante.

    Na maior cara de pau, em pensamentos, apenas deseja boa sorte ao garoto.

    Enquanto Heragon se move pelo tecido do espaço, em outro lugar… onde a brisa sopra suave e a natureza trabalha em perfeita harmonia, o próprio som do ambiente parece uma serenata para o mundo. Ali, uma mansão majestosa faz jus ao cenário.

    Pilares ornamentados com fios de ouro, telhado de telhas esculpidas em safiras, detalhes refinados por toda a estrutura. Diamantes refletem a luz do sol, exibindo para qualquer um que veja aquela casa o poder de quem vive ali.

    Ao entrar e seguir por um corredor repleto de obras de arte, chegamos a uma porta dupla, coberta de runas que brilham constantemente. Atrás dela, há uma ampla sala com diversos retratos de uma única pessoa. A única que importa, é claro!

    Ao redor, menos importantes do que os retratos, relíquias inestimáveis e ornamentos cobertos de pedras preciosas adornam as paredes. Ao fundo da sala, há um tatame escondido atrás de um véu translúcido.

    Por trás do tecido, uma mulher observa em silêncio: bela, sedutora, cabelos dourados como fios de ouro, cacheados como uma cachoeira inquieta, com olhos tão brilhantes quanto as pedras preciosas ao redor.

     Ao seu lado, uma esfera flutua, parecida com um enorme globo ocular, com uma runa no lugar da pupila. Encará-la dá a sensação de que ela vasculha a sua alma.

    — Entre — diz a mulher, com uma voz majestosa.

    A porta se abre, e uma jovem entra. Cabelos loiros tão longos que quase tocam o chão, roupas leves e um olhar confiante. Ela se ajoelha diante da incomparável mulher.

    — Bia Mormou se apresenta diante da Guia Suprema.

    A beldade observa com serenidade, enquanto um sorriso sedutor se desenha em seus lábios. Leva um dedo à maciez da própria boca, inclina levemente a cabeça e apoia o rosto sobre o punho.

    — Você, dentre os jovens, é a mais talentosa. Já está apta para sua primeira missão. Será seu teste de graduação.

    A garota baixa a cabeça em respeito.

    — Agradeço o elogio, senhora. Prometo não decepcioná-la.

    Um sorriso surge, pesado o bastante para sobrecarregar o ar, não por ódio, mas pelo repúdio que aquela palavra despertava.

    — Ah… quer dizer: Guia Suprema.

    — Melhorou. Perdemos contato com nosso posto avançado em Símia. Vá até lá, verifique a situação e me reporte pessoalmente.

    Com um aceno elegante, a Guia Suprema a dispensa. Quando a porta se fecha, um homem de máscara negra se destaca na penumbra, encostado à parede, braços cruzados.

    — Ela ficou bem orgulhosa — comenta, num tom calmo.

    A belíssima se levanta. A esfera flutuante a acompanha enquanto ela atravessa o véu e caminha até a janela, observando Bia ir embora.

    — Muito talento pode gerar excesso de confiança. Com o tempo e com experiência, ela mudará.

    — Você não mudou.

    Um sorriso confiante toca aqueles lábios delicados.

    — Sou incrível demais. Meu orgulho é perfeitamente compreensível.

    O mascarado lança um olhar para a esfera ao seu lado, ainda sinistra como sempre. Ela apoia o cotovelo no Artefato flutuante, quase carinhosa.

    — Ele já os notou.

    Ela não se vira. Continua olhando pela janela.

    — Era de se esperar. Com o selo prestes a se romper, ele deve sentir com mais clareza as mudanças desta linha do tempo. Não é algo que precise nos preocupar. Pelo que ele é agora… notá-los será o máximo que conseguirá fazer.

    — Assim espero. Heragon está indo para Símia.

    Uma risada discreta escapa dela.

    — Percebi. Quem você acha que eu sou? De acordo com os planos daquele homem, ainda é cedo. Eu o mandei para aquele lugar.

    O mascarado entende no mesmo instante. Hackear um Pilar daquela forma só podia ter sido obra de Lachesis. Ele comenta que o medalhão de Rodens é capaz de algo parecido, mas a observação não muda nada.

    — De fato — diz ela. — O que vai fazer agora?

    — Irei observá-lo de perto.

    — Não vai vigiar aquele outro?

    — Enquanto ele estiver com o selo amaldiçoado, não se moverá.

    Ela aceita a resposta com um leve aceno.

    — Imagino que seja verdade. Abrirei um portal. Lembre-se: sua interferência deve ser mínima. O jovem deve aprender a se virar.

    — Eu sei.

    A Guia Suprema retorna ao tatame. Com um simples gesto, um portal se abre em meio à sala. O homem atravessa o véu dimensional e desaparece.

    Sozinha outra vez, restando apenas a companhia do Artefato flutuante, ela fecha os olhos e sussurra:

    — Grande Gaia… esta é a nossa última chance. Desta vez, não podemos falhar.

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