Há momentos em que uma batalha termina.

    E há momentos em que ela apenas abre espaço para algo pior.

    Quando feras antigas finalmente caem de joelhos, o verdadeiro perigo não costuma vir no auge do combate, mas depois. No instante em que o cansaço pesa, o sangue esfria e o silêncio muda de forma.

    Porque alguns predadores não precisam correr.
    Não precisam gritar.
    Não precisam provar nada.

    Eles chegam quando a conta já foi fechada.

    E, enquanto uns são levados em correntes e outros desaparecem nas sombras, algo muito mais antigo desperta onde a luz falha, onde o tempo vacila e onde certas ruínas ainda se lembram de tudo.

    Desta vez, não é apenas uma caçada.

    É o presságio de que algo que deveria permanecer enterrado acabou de começar a se mover.

    Não vieram correndo.

    Não vieram “ajudando”.

    Vieram do jeito que predador chega quando a presa já cansou: no tempo deles.

    A neve afunda um pouco mais a cada passo.

    E o luar, por algum motivo, parece menos… gentil.

    O estrago no chão ainda está quente.

    Mas o que chegou agora é outra coisa.

    É frio de matemática.

    Frio de “acabou”.

    Ômegas, dispensam apresentações. São o topo do topo, da cadeia alimentar.

    Curupira: Hunter Ômega; Espécie: Track; São rastreadores, excelentes em criar armadilhas.

    Ela vai na frente, pequena, quase juvenil, cabelos um pouco acima dos ombros, o rosto sorridente voltado para Fiogon.

    — Irú… e aí, Fiogon. Há quanto tempo.

    São Jorge: Hunter Ômega; Espécie: Domitor; Domam animais, bestas e criaturas para lutar.

    Veste uma armadura de metal e um elmo na cabeça; a cicatriz no olho esquerdo destaca o olhar duro enquanto encara o horizonte deformado e a neve ainda “viva” de energia.

    — Essa luta causou estrago demais. Típico de dragão.

    Ele lança uma breve olhada para Fiogon, que apenas sorri de volta.

    Odin: Hunter Ômega; Espécie: Perfidus; Ótimos em esconder sua presença, atacam sorrateiramente.

     Cabelos cacheados, armadura leve, ri baixo, já cutucando onde dói.

    — Por que está reclamando? Se quisesse menos estrago, podia ter vindo no lugar do Hugo. Ou o famoso caçador de dragões ficou com medinho?

    São Jorge vira o rosto devagar. O brilho do luar pega na armadura e se estilhaça em reflexos limpos, quase como vitral quebrado espalhando fé pela neve. Até o vento parece hesitar antes de encostar nele.

    — Medo? Fala quem prefere a noite e a sombra. Atacar pelas costas virou bravura agora… hein?

    Odin dá um passo. A luz ao redor dele não reflete; parece afundar. As sombras se juntam no chão como cães treinados, e o ar fica fino, frio, com cheiro de caçada começando.

    — Hã. Bonito discurso. Lenda… famoso caçador de dragões… qual dragão dizem que você matou mesmo? Ah, lembrei. — Ele sorri maliciosamente — He…

    São Jorge emite uma presença que pesa o ar, fazendo pássaros se assustarem aos quatro ventos.

    Os dois encostam a testa um no outro, como duas feras teimosas marcando território.

    Uma figura passa entre eles e empurra os dois para o lado, sem esforço.

    — Já chega.

    Diana: Hunter Ômega; Espécie: Venator; Só uma palavra a define: Predadora.

    Olhar afiado, cabelos pretos, postura de quem não veio assistir, veio encerrar.

    Ela para diante de Fiogon.

    — Fiogon… como vai ser?

    Fiogon solta o ar, vencido mais pela matemática do que pela dor.

    — Desisto. Com tantas feras e uma predadora, não tenho energia nem para fugir… — Ele vira o rosto, resmungando. — Mas não vou dizer onde está meu neto.

    Diana inclina levemente a cabeça.

    — Sem problemas. — Ela passa a língua nos lábios, devagar, sem pressa. — Vai ser mais divertido caçá-lo.

    Correntes de prata prendem Fiogon. Ele é arrastado para dentro de uma jaula, puxada por ferozes Tigres presos a coleiras de energia.

    Tigre Dente de Sabre

    Tipo: Besta; Ameaça: Legendário; Classe: Dino.

    — Levem-no para a masmorra subterrânea — ordena Diana.

    São Jorge olha para Hugo, que acena de leve.

    Assim, Fiogon é levado.

    — Ué… não vem, Hugo? — indaga Curupira.

    — Depois alcanço vocês. Por enquanto, vou ficar deitado enquanto o chão ainda está quente.

    Ele fecha os olhos e respira fundo, encarando o céu estrelado. O rastro de uma estrela reflete em seus olhos.

    “Heragon… boa sorte. Você vai precisar.”

    Próximo a uma fenda entre dimensões

    Ao deixar Floressi, percebemos que estamos envolto por uma densa névoa!

    De dia, o Nimpo é limpo. A cúpula das dimensões altera o espectro da luz, que deixa de ser prateado e se torna azul.

    De noite, a maré sobe. Gêiseres entram em erupção e cobrem as dimensões com uma nevoa negra, escurecendo o interior da cúpula, que logo é levemente iluminado pelo brilho prateado.

    Vamos mergulhar mais fundo nesse Miasmo quase mais denso que água, descendo por uma grande fenda. Trevas definem este lugar, escondendo seres aterrorizantes, pesadelos vivos.

    É arriscado ir mais fundo.

    Lá, onde a luz se desfaz e o tempo esquece o próprio nome, uma ilha solitária flutua dentro de um mar de Miasmo envolto em uma cúpula.

    No topo dessa ilha esquecida, um castelo em ruínas desafia o silêncio. Torres partidas, muralhas corroídas, janelas cobertas por um brilho escuro. Cada pedra parece lembrar algo que o resto do Multiverso preferiu esquecer.

    Dentro dele, passos ecoam. Lentos. Certos. Fortes.

    A cada passo, o chão se curva um pouco; as sombras se ajeitam, como se quisessem sair do caminho.

    Uma figura surge, usando um traje negro que devora a própria luz. Seu corpo é uma cicatriz viva no tecido do Multiverso.

    Ele se senta em um trono de ferro retorcido. O trono vibra, como se odiasse o peso que é obrigado a sustentar.

    Do solo rachado, seres se erguem da neblina de Miasmo que emana dali. Criaturas distorcidas, com cristais cravados em seus corpos, surgem daquela névoa pesada: Tritsers. Garras, bocas, olhos que não fazem sentido, escamas e barbatanas… todos se curvando diante do trono.

    A figura ergue o olhar. Sua voz é grave, arrastada, como se tivesse atravessado eras demais.

    — …O selo… está quase quebrado.

    O ar vibra. O castelo range, longamente.

    Das sombras à frente, outra presença aparece: uma figura encapuzada, máscara negra, postura curvada em respeito.

    — Meu senhor… — diz, com voz neutra. — Sua expressão mudou. Aconteceu algo?

    O ser no trono apoia o queixo na mão, como alguém entediado que, mesmo assim, está atento a tudo.

    — O tempo… vacila — ele diz. — A linha se estica. Está frágil, perto do fim.

    Ele respira, e o ar ao redor se comprime.

    — Vi algo que nunca tinha visto antes.

    — Uma visão…?

    — Não. Um presságio. — Seu traje escuro se inclina um pouco à frente. — Vi uma fera alada com três sombras. Longos cabelos. Um manto. Um olhar que o tempo não reconhece. Algo que ainda não existia.

    O mascarado hesita.

    — E… o que isso significa, meu senhor?

    O trono estala. Fissuras se abrem na estrutura.

    — Significa… — A voz dele se enche de ódio e satisfação. — Que o último ciclo começou.

    O Miasmo ferve. Os Tritsers urram, como se celebrassem e temessem ao mesmo tempo.

    — Por incontáveis eras, eu fui arrastado de volta ao início — ele continua. — Sempre que me aproximava do fim… o tempo me puxava de volta. Mas agora… o fluxo não vai recuar.

    O mascarado permanece em silêncio. Mesmo ele sente: algo mudou.

    — A profecia está se mexendo. — o ser no trono continua. — Aquela Celestial insolente deve ter sentido. Mas não importa. Desta vez… o ciclo não vai se repetir.

    Ele caminha até a sacada. Seus punhos se fecham lentamente.

    — Meus outros Aspectos logo vão despertar… e, quando isso acontecer, o Multiverso vai se curvar diante de meus irmãos.

    Relâmpagos escarlates rasgam as trevas. O castelo treme.

    Ele apenas sorri. Um sorriso calmo, quase satisfeito.

    — Desta vez… nada será capaz de me deter.

    O riso que se segue não é alto, mas parece atravessar mundos.

    Não é o riso de quem ameaça.

    É o riso de quem lembra!

    E pronto.

    Um herói de guerra foi levado em correntes.
    O outro ficou para trás, olhando o céu como quem já entendeu que, dali em diante, o garoto não terá mais o luxo de tropeçar em paz.

    Enquanto isso, longe da neve, longe das jaulas e longe de olhos que ainda acreditam controlar alguma coisa, algo antigo voltou a sorrir no escuro.

    Nada mal para uma única noite, não é?

    Mas antes de seguir correndo atrás de Heragon, de suas desventuras e da próxima catástrofe prestes a bater na porta, convém entender uma coisinha:

    Floressi não é só uma dimensão.

    É um filtro.

    Um lugar que mastiga os fracos, afia os fortes e cria predadores como se estivesse cultivando problema em larga escala.

    E, se vamos continuar essa história direito, então é melhor abrir os registros.

    Afinal, antes de atravessar um território assim… o mínimo que se espera é saber exatamente que tipo de lugar está tentando te matar.

    Próximo capítulo: Registro: Floressi.

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