FLORESSI: A DIMENSÃO SELVAGEM

    (Registro dos Guias)

    Há dois tipos de gente no Multiverso:

    Os que olham um mapa como quem procura um destino…

    e os que olham um mapa como quem procura um alvo.

    Hoje, eu vou abrir um registro.

    E antes que você se anime: isso não é aula.

    Isso é catálogo de risco.

    Um gesto meu, e as runas na porta da sala mudam de brilho. Aquele brilho contínuo, educado… se torna mais direto. Como um olho que decidiu parar de fingir que é decoração.

    Ao meu lado, Lachesis flutua em silêncio. A runa onde deveria haver pupila gira devagar, como se estivesse folheando páginas que ninguém ousa tocar.

    Eu encosto dois dedos na superfície da esfera.

    Desenrolo um pergaminho.

    E o Registro responde.

    Um painel de luz se abre no ar: camadas de texto, mapas, nomes, marcas, sangue seco em forma de estatística.

    Eu sorrio.

    — Vamos falar de … Floressi.

    O nome aparece como se fosse pesado demais para ser escrito com pressa.

    REGISTRO 01: FLORESSI

    Nível de ameaça: alto constante;

    Mortalidade por travessia: “depende do orgulho do visitante”;

    Observação oficial: “dimensão territorial. ambiente reage ao intruso”.

    Eu leio e, por um instante, penso como esse texto é… otimista.

    Floressi não “reage”.

    Floressi caça de volta.

    Visão geral:

    Floressi é uma das dimensões mais perigosas do Multiverso.

    Não por causa de um monstro específico, nem por uma maldição rara.

    Mas por uma regra simples:

    Tudo nela foi feito para vencer você pelo desgaste.

    A fauna é predatória por natureza.

    A flora não é decoração.

    E o terreno… bem… o terreno tem senso de humor.

    Vista de cima, Floressi lembra marcas de garras: cinco massas continentais separadas por divisões de água tão grandes que não merecem o nome “rio”.

    Nós chamamos essas massas de Garras.

    E chamamos as divisões de Fronteiras ou Lâminas Líquidas.

    Porque é exatamente isso que são.

    Estrutura geográfica:

    O Registro abre duas camadas de mapa: Antes e Depois.

    Antes do Evento:

    Um supercontinente único.

    Transições de bioma mais contínuas.

    Fronteiras menos agressivas.

    Depois do Evento:

    Cinco continentes, cinco Garras.

    Separadas por Fronteiras hídricas colossais.

    Travessia depende de rastreio, rotas secretas ou guias nômades.

    Eu inclino a cabeça, olhando o mapa como quem avalia uma peça de xadrez.

    — É curioso — digo, quase distraída. — A maioria dos mundos é separada por política. Floressi… separa por geografia.

    E geografia não negocia.

    Que evento é esse?

    Ninguém sabe ao certo. Um dia, Floressi rachou, ficando mais ameaçadora.

    Organização histórica:

    O Registro mostra a estrutura antiga, como um quadro cerimonial:

    Tribo → Espécie → Garra.

    Eu passo o olhar, e as linhas acendem.

    Garra Boreal (Neves):

    Tribo: Presas das Neves;

    Espécie associada: Domitor.

    Ambiente extremo. Sobreviver depende de parceria com montarias e feras domadas.

    O Domitor não domina “o inimigo”. Domina o ecossistema ao transformar predadores locais em extensão do clã.

    Garra Verde (Selva):

    Tribo: Rugido da Selva;

    Espécie associada: Venator.

    Selva é confronto constante. O Venator prospera no combate frontal: rápido, destrutivo. Ele abate antes que o bioma decida abater ele.

    Garra Âmbar (Deserto):

    Tribo: Fantasmas do Deserto;

    Espécie associada: Perfidus.

    Onde “não existe lugar para se esconder”, o Perfidus vira lenda justamente por sumir.

    Deserto não perdoa erro. O Perfidus não erra duas vezes.

    Garra Cinzenta (Vale de Pedra):

    Tribo: Ecos do Vale de Pedra;

    Espécie associada: Track.

    Cânions transformam som e vibração em informação. Track usa o terreno como tabuleiro. A presa percebe tarde demais que já virou peça.

    Garra Central (Savana):

    Tribo: Nômade (mista);

    Controle: Território do Líder.

    Ponte entre Garras. Mensageiros, batedores, caravanas de treino, mediadores.

    Em tempos antigos: os únicos que cruzavam Fronteiras sem pedir desculpas.

    Eu sorrio.

    — Sem pedir desculpas… e sem pedir permissão.

    Biomas por Garra:

    O Registro muda para a camada “ambiente”, e eu sinto a sala ficar um pouco mais fria. Não por magia. Por respeito.

    Garra Boreal:

    Frio extremo, nevascas, noites longas;

    Planícies congeladas, florestas de coníferas escuras, lagos sob gelo, fendas de gelo azul.

    Flora hostil:

    Fruta-frost (energia e cura leve, rara);

    Líquens de brilho noturno (atraem predadores);

    Lipós rígidos como fios (armadilhas naturais).

    Fauna típica:

    Lobos gigantes em matilha;

    Felinos de gelo silenciosos;

    Alces predadores.

    Identidade Domitor boreal: “o que doma o impossível”.

    Coleiras não são só controle: são pacto e hierarquia.

    Garra Verde:

    Selva fechada, pântanos, árvores colossais, raízes-pontes;

    Umidade pesada, chuvas repentinas.

    Flora:

    Trepadeiras de espinhos retráteis;

    Flores de névoa entorpecente;

    Árvores-resina.

    Fauna:

    Predadores nas copas;

    Crocodilos de pântano com carapaça;

    Insetos predadores em enxame.

    Identidade Venator caça com barulho e presença. O “rugido” é psicológico: fugir pode ser pior que enfrentar.

    Garra Âmbar:

    Calor brutal de dia, frio cortante à noite; tempestades de areia;

    Dunas, cânions secos, salinas e oásis disputados.

    Flora:

    Cactos de seiva corrosiva;

    Plantas “vidro”;

    Fungos subterrâneos que “respiram” pelo chão.

    Fauna:

    Vermes de areia;

    Felinos quase invisíveis;

    Aves predadoras que seguem sombra.

    Identidade Perfidus: ataca no instante certo e some antes do eco da vitória.

    Garra Cinzenta:

    Vales estreitos, cânions, torres de pedra, cavernas e pontes naturais;

    Vento forte, mudanças bruscas de temperatura.

    Flora:

    Musgos que vibram ao vento (sensor natural);

    Fungos luminosos;

    Arbustos raros em fendas.

    Fauna:

    Bestas escaladoras;

    Predadores de caverna com audição absurda;

    Caçadores por vibração.

    Identidade Track: o caçador-geômetra. Linha e ponto viram sentença.

    Garra Central:

    Savana pedregosa resistente;

    Sede do líder, provas, assembleias, tréguas e treinamentos conjuntos.

    Regra cultural: Na Garra Central, a “garra” é guardada.

    Quem quebra a trégua vira alvo de todas as espécies.

    Sub-região crítica Vale do Desespero: travessias quase sempre fatais.

    Eu deixo a última linha flutuar um pouco mais no ar, para ver se ela assusta do jeito certo.

    Assusta.

    Ótimo.

    Fronteiras:

    As divisões de água entre as Garras não são tratadas como rios comuns.

    Características.

    Correntezas violentas e imprevisíveis;

    Predadores aquáticos;

    Neblina baixa em trechos;

    Pontos de travessia conhecidos apenas por rastreadores ou guias nômades.

    Consequência: Explica por que as tribos permaneceram separadas por tanto tempo… e por que a Garra Central virou o único espaço realmente comum.

    Eu fecho o mapa.

    E abro o arquivo que todo mundo lê com um olho só, como se o papel pudesse morder.

    REGISTRO 02: HUNTERS

    (Entrada: espécie dominante de Floressi | Status: membros atuais da Axis).

    Eu apoio o cotovelo em Lachesis. A esfera não reclama. Ela só observa.

    — Hunters… — murmuro. — A criação mais previsível de Floressi.

    O que é a Axis? Uma organização criada para manter a ordem no Multiverso.

    Particularmente, fui contra a entrada deles, afinal. São selvagens demais para meu gosto.

    O Registro responde.

    Ficha:

    Canal Central: Mater;

    Dimensão natal: Floressi;

    Status: membros atuais da Axis;

    Função: lutar pelo Multiverso, caçar criminosos multiversais e impor paz pela força;

    Cultura: sobrevivência do mais forte; prestígio definido por força, feitos, domínio de fase e resultados em missão;

    Territórios: Cada espécie mantém território próprio; Garra Central é zona mista.

    Espécies genéticas:

    A espécie do Hunter é determinada por herança genética.

    Venator: ataque direto e destrutivo; defesa mais frágil.

    Perfidus: furtividade e sequências para imobilizar/cansar; fraco contra alta percepção e ações em larga escala.

    Track: rastreio e armadilhas precisas e duradouras; fraco contra alvos extremamente rápidos ou extremamente resistentes.

    Domitor: especialidade em coleiras de energia para domar seres vivos.

    Dominância: o Ranqueamento.

    Beta (Subordinado): reconhecimento inicial.

    Alfa (Mestre): domínio e competência em combate/missão.

    Ômega (Fera): marco definido pelo despertar da Fase Nova.

    Predador(a): líder. Preferencialmente hereditário, mas só assume depois de demonstrar força; até lá, o mais forte senta no trono.

    Fases dos Hunters:

    As Fases expressam o predador interno do Hunter, refletindo gosto, instinto e identidade.

    Fase Cheia: domínio do ambiente, leitura de cenário, vantagem situacional.

    Fase Minguante: energia cobrindo o corpo em forma de predador, como uma “casca”.

    Eu passo o dedo por uma linha do registro.

    Fase Nova: sem registro.

    A tinta muda de tom.

    — O que eles chamam de “predador interno”… — digo, olhando para o texto como se fosse uma criança tentando parecer adulta — é só o jeito bonito de dizer: “agora eu sou o perigo e o ambiente concorda.”

    Deve estar curioso para saber o que é a Fase Nova deles. Não queira, ninguém que viu, sobreviveu para contar a história.

    Encerramento do Registro

    As runas do painel se apagam uma a uma. A sala volta a parecer uma sala.

    Mas eu não “volto” junto.

    Eu fico com a mente presa naquela dimensão por um segundo a mais, como quem escuta o eco depois do som.

    Floressi é assim: quando você fecha a pasta… ela ainda continua olhando para você.

    Lachesis flutua ao meu lado, paciente. A runa no lugar da pupila gira e, por um instante, para.

    Como se perguntasse:

    E agora?

    Eu suspiro.

    — Chega de Hunters por hoje. Vamos ver… o garoto.

    Vou guardar esse registro e retornar aos meus aposentos…

    Já confortavelmente sentada na poltrona do meu aposento.

    Um toque.

    Lachesis abre outra camada.

    MONITORAMENTO EM TEMPO REAL

    Identificação: Heragon;

    Dimensão atual: Jurassic;

    Status: vivo;

    Estado: … irritável.

    — Um Artefato com senso de humor, ha!

    Inclino a cabeça, e a imagem surge como “visão”.

    O mundo troca de perfume.

    Sai o frio do metal e entra o cheiro de água, terra úmida e folha esmagada.

    — Mostre — eu digo.

    E Lachesis obedece.

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