Capítulo 08 — Não olhe para as nuvens

Elena leva Heragon até um refeitório. Como já tinha avisado, não está nem um pouco disposta a poupar o bolso de Sundar. Até o garoto se espanta com o ritmo dela, mas entra na brincadeira, e logo aquilo vira quase uma competição de comilança.
Aventureiros à volta começam a apostar: Elena, uma Rank S da elite, contra o garoto desconhecido de cabelos brancos. A mesa se enche, e as mãos dos dois se movem rápido demais. Pouco depois, o jovem acaba deitado sobre a mesa, vencido e empanturrado.
Ao redor, risos se espalham. Os que apostaram nele nem se abatem. No fim, todos tinham ganhado um bom momento de diversão.
Após uma breve digestão, saem do refeitório passando pela recepção a caminho do treinamento. No meio do fluxo, o jovem para em frente a um dos quadros, curioso. Sua expressão revela o que esta pensando: maneiro.
Se prestarmos atenção, em um dos quadros há uma missão interessante: Rank B, Grau I, escolta (guiar um grupo pela dimensão Draconia). No rodapé, uma observação: missão do tipo nomeada. Necessária a colaboração de um membro da raça dos Dragões.
Heragon não vê o cartaz; fica ainda mais curioso com o quadro de Rank S.
Elena leva dois dedos à boca e solta um assovio agudo. O som corta o ar e, instantes depois, uma grande ave mergulha do céu, pousando ao lado dela com um bater pesado de asas. As penas se agitam como folhas arrancadas pelo vento, e a criatura abre a envergadura imponente, avisando que veio ao chamado. Diz para Heragon Subir na ave.
Os olhos do garoto se acendem no mesmo instante. Ele se aproxima sem disfarçar o encanto, admirando a ave de perto antes de montar. Elena leva a mão ao rosto, já sentindo o peso da tarefa que tinha aceitado.
A expressão dela diz o que a boca não precisa repetir: dali em diante, teria mesmo que cuidar daquele caipira.
A ave ganha o céu com um salto poderoso. O vento chicoteia roupas e cabelos enquanto os dois cruzam a imensidão verde, passando por galhos largos como pontes suspensas entre as nuvens.
Depois de algum tempo, descem sobre um galho extenso que avançava até uma pequena ilha isolada na ponta. O lugar parecia apartado do restante do mundo, silencioso, reservado apenas para aquilo. Elena salta primeiro e aponta ao redor.
— Essa é minha ilha de treino. Vai ficar aqui durante todo o seu treinamento.
Heragon observa o lugar, a casa, o espaço aberto, o vazio em volta. Solta a resposta sem muita convicção, já entendendo que discutir não mudaria nada. Elena nem perde tempo com isso. Entra na casa e retorna trazendo uma bacia. Ajoelha-se, enche-a com água e a coloca no chão entre os dois.
Sem rodeios, ela começa a instrução. O físico dos Dragões, já dispensava a parte mais bruta do treinamento. O foco ali seria outro. Respiração.
Heragon já tinha aprendido aquilo com o avô, mas Elena corta a confiança dele com um simples olhar e um gesto para a bacia. Ele enche os pulmões até o limite, mergulha a cabeça na água e permanece imóvel.
O tempo passa em silêncio. Só o vento corre pela ilha e balança as copas ao redor. Quando finalmente ergue o rosto, puxa o ar de volta com força, o peito subindo num tranco pesado.
Elena assovia baixo, impressionada apesar de si mesma. Sete minutos. A capacidade pulmonar dele era absurda. O problema vinha logo depois.
A respiração dele sai desordenada, funda demais, desesperada demais. Entre uma ofegada e outra, Heragon explica do jeito que consegue: o avô havia ensinado a puxar tudo de uma vez e soltar como se fosse o último sopro de vida.
Elena aperta a testa entre os dedos. Aquilo servia para reunir Eco, não para sustentar o corpo em combate, em esforço contínuo ou em controle. Respira fundo, recompõe a paciência e manda que ele tente de novo. Dessa vez, devagar. Entrada calma, saída curta, retomada leve. Primeiro superficial. Depois, aos poucos, mais profunda. Mais ritmada. Mais consciente.
Heragon mergulha o rosto na água repetidas vezes. Erra o tempo. Se adianta. Prende demais. Solta tudo de uma vez. Tenta corrigir no impulso e só piora.
Ainda assim, insiste. Elena observa, corrige, interrompe, manda repetir. Em certos momentos, cruza os braços e apenas encara; em outros, estala a língua, visivelmente incomodada com a lentidão dele. Mas segue ali. Quando a noite cai, o treino finalmente cessa.
Os dois entram na casa. O interior é simples e funcional. Nada de banquetes ou confortos exagerados, só o necessário. A refeição já estava separada, prática e sem qualquer encanto: barras de cereal e proteína empilhadas como se aquilo bastasse para substituir comida de verdade.
Heragon encara o que recebeu com uma expressão difícil de esconder. Elena, sem a menor piedade, apenas manda que ele coma e descanse. Antes de se recolher, ainda deixa a última ordem:
— Quando deitar, continue treinando a respiração até dormir.
Na manhã seguinte, Elena retorna à ilha e encontra o jovem treinando. Pequenas chamas atrás dos calcanhares criam impulsos que aumentam a velocidade e a potência dos chutes. Ele faz o mesmo nos cotovelos para aumentar a força dos socos.
Em um movimento arriscado, Heragon perde o equilíbrio e coloca força demais na chama do calcanhar. O corpo gira e, sem querer, ele desfere um golpe na direção de Elena, que o apara com facilidade, claro.
— Quem disse que podia treinar algo fora do que estou te ensinando? — ela pergunta, sem muita paciência.
— Tenho o costume de treinar todos os dias de manhã.
— É um bom costume. Mas, a partir de agora, enquanto estiver aqui, treine só o que eu mandar. — Elena cruza os braços.
Heragon olha para o lado, claramente insatisfeito. Os primeiros sinais de rebeldia começavam a aparecer, como em qualquer adolescente. Para um Dragão, aquilo não era só impressão. Por viverem muito, a puberdade chegava mais tarde. Elena continua o sermão.
— E não é para acordar mais cedo para treinar escondido. Tenha uma noite de sono completa, entendeu?
— Tá… está bem. — Ele estala a língua, indignado.
— Vamos seguir um cronograma de treinamento: de manhã, artes marciais; à tarde, equilíbrio; à noite, respiração.
— Equilíbrio?
— Quando chegar a hora, eu te explico. Enfim… entre em posição. Os movimentos que conheço da arte do Dragão são cópias, então não me pergunte os nomes dos golpes. Em resumo: vamos lutar, e você vai absorver e prestar atenção em tudo o que eu fizer.
— Estou com uma dúvida… como assim, cópia?
— Minha família tem um Brasão espiritual, passada de geração em geração, chamada Controle da Alma. Além de manifestar nossa alma para fora do corpo, sob certas condições, podemos copiar técnicas de luta dos oponentes. Enfim, vamos começar o treinamento do dia.
O treinamento do dia começa, Elena claramente pega leve, mas, ainda assim, é um massacre técnico. Durante o treino, ela precisa acelerar o ritmo. O jovem aprende seus movimentos numa velocidade impressionante. Depois de um descanso rápido, eles vão almoçar.
À tarde, a segunda parte do treinamento começa. Ela o leva para trás da casa, onde vários postes de madeira estão fincados no chão.
— O equilíbrio é extremamente importante nas artes marciais. Todo golpe que você usa, se errar, volta contra você. Aprender a manter o equilíbrio por instinto mantém sua guarda alta. Suba em um dos postes.
Heragon sobe em um dos postes, mas antes que consiga se firmar, Elena flexiona os cotovelos. Uma massa invisível se condensa ao redor de seus braços. Ela soca o ar num movimento seco. Um punho invisível dispara na direção do jovem, atinge-o em cheio e o arranca do poste.
— Ei! Como vou desviar se nem consigo ver o que está vindo na minha direção?!
— Esse treinamento também serve para melhorar sua percepção do ambiente.
Eles passam a tarde inteira nisso. No final, Heragon não consegue desviar de nenhum golpe e cai todas as vezes. À noite, continuam o treino de respiração. Essa rotina se estende por dias.
Heragon aprende rápido, absorvendo cada golpe do estilo do Dragão que Elena copiou da mãe dele, como se o corpo já conhecesse aquele caminho. Em pouco tempo, os movimentos deixam de parecer ensaio e viram instinto.
Então eles focam nos outros treinos. Com a base sólida, ele logo domina a respiração: o ar entra, o Eco responde, e a mente para de tropeçar nos próprios pensamentos. A percepção melhora. Heragon começa a desviar com mais frequência dos golpes de Elena, lendo ombros, quadris, intenção.
Mas o equilíbrio… esse cobra o preço. E, justamente por isso, acaba puxando outro evento.
Duas semanas se passam. O início do festival se aproxima. Um novo dia começa com o calor aconchegante da manhã e uma brisa refrescante.
Na base da árvore colossal, uma garota observa a paisagem. Usa roupas justas com padrões de escamas de peixe, uma máscara com respirador cobrindo nariz e boca. Perdida em pensamentos, começa a falar sozinha:
— Aaaaah, que tédio. Meu mestre me mandou trazer e postar aquela missão e me mandou ficar aqui até alguém aceitar. Cara… hoje em dia é difícil ver um Dragão por aí. Vou acabar tendo que ficar aqui por um bom tempo.
A garota suspira e começa a andar de um lado para o outro. Até que vê uma estranha borboleta, com um bater de asas semelhante ao de um beija-flor, sobrevoando ao lado daquele galho.
Ela vai para beirada da ilha, dá um passo no vazio… e não cai. Um líquido cristalino sai dos pés dela, gruda na madeira das raízes e endurece, criando uma plataforma de gelo a cada passo. Com cuidado, estende a mão, e a borboleta pousa em seu dedo.
— Que linda… aaaaah, estou tão entediada que até uma borboleta está me distraindo. Até participei da avaliação para passar o tempo. Foi um balde de água fria descobrir que ainda faltava mais de um mês para o festival… queria tanto algo que me ajudasse a matar o tempo…
Subitamente, uma forte ventania sopra, levando a borboleta, que gira descontroladamente. Com batidas rápidas de asa, recupera o controle e vai embora. Já a jovem…
. . . .
Um novo dia começa com o calor aconchegante da manhã e uma brisa refrescante. Heragon esta no treinamento de equilíbrio. Durante essas duas semanas, ele demonstrou grande talento nas artes marciais, dominando as técnicas da arte do Dragão que Elena conhece.
Sua respiração está bem mais controlada e se adapta a cada mudança de movimento. Agora, ele consegue desviar de vários golpes no treinamento de equilíbrio, embora ainda perca o centro quando é acertado.
— Seu centro de equilíbrio ainda é uma bagunça — comenta Elena, colocando a mão na cintura.
— Estou dando o meu melhor — retruca Heragon, franzindo a testa.
— Não é o suficiente. Esforce-se mais. — Ela faz um gesto com as mãos.
— O quê? Estou dando tudo de mim! Você poderia pelo menos reconhecer isso.
— Ah… você é bem mimado. — Ela dá um sorriso de canto.
— Ah, sua… aaah… musculosa sem coração.
— Sério? Esse foi o melhor insulto que você conseguiu pensar?
— Cérebro de… de… de macaco.
Elena não responde. Firma a base, gira o quadril e ergue a palma à mostra. Uma grande massa translúcida se molda ao redor da mão e dispara. A pressão invisível atinge Heragon em cheio no peito e o arrasta até a beirada da ilha.
— Haaaa! Sua doida! Quer me matar?! — Ele se levanta, bravo.
— Moleque… se quiser morrer mesmo, é só repetir o que falou.
Nesse instante, o mestre da Guilda surge para observar o treinamento. Caminha calmamente, com as mãos para trás, trazendo consigo a presença serena e imponente de um verdadeiro mestre.
— Ei, vocês dois. Como anda o treino?
É ignorado. Eles continuam discutindo tão calorosamente, que nem percebem a presença de Sundar.
— Ei. Estou falando com vocês.
Ignorado de novo. As veias engrossam na testa, olhar dele endurece. Todo o ruído dos insetos e cantar dos pássaros sessam. Até os animais perceberam. Aqueles dois, não. Ele estende as mãos, dedos abertos. As raízes rompem o chão, se trançam e moldam duas mãos gigantes, que agarram os dois pela cabeça, os levantando do chão.
— Parem com isso. Agora. — A voz vem baixa, mas corta o ar.
— Foi ela que começou — diz Heragon, virando o rosto para o lado.
— É esse cabeça-dura que não me escuta — responde Elena, olhando para o lado oposto.
— Não importa quem começou. O que exatamente está acontecendo?
Depois de ouvir a explicação, o mestre da Guilda conclui:
— Elena, já que ele está tendo dificuldade com o treinamento atual, que tal mudar o método?
— Bem, pensando por esse lado, tem razão. — Ela sorri de repente. — Hum, tive uma ideia. Pode nos soltar.
O mestre os libera. Elena ajeita a roupa e encara Heragon por um instante. Então ergue o braço e aponta para o horizonte.
— Heragon, olhe para as nuvens laaaaaa longe.
— E por que eu faria isso?
— Apenas olhe, não é nada demais, só vou te ensinar uma lição importante.
— Estou olhando. E agora? — Ele suspira.
Elena recua um passo. A expressão dela se afia aos poucos, satisfeita, enquanto ajusta a postura e firma o pé direito no chão.
— Você tem até o dia do festival para voltar. Boa sorte.
No instante seguinte, Heragon sente o impacto na bunda. Perde a sustentação e se vê lançado para fora da ilha, em pleno ar. Antes de cair mais, ainda consegue enxergar Elena acenando com um tchauzinho, os lábios curvados num sorriso malicioso.
O grito vem em seguida.
— Sua desgraçaaaaaa…

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