Capítulo 09 — O Domínio do Céu Negro

Em queda livre, mil pensamentos atravessam a mente de Heragon.
Ele respira fundo, organiza a cabeça. Enquanto cai, controla o corpo para não bater nos galhos.
Naquela velocidade, mesmo usando ressonância para endurecer a pele, se acertar de frente vai se quebrar bonito.
Algo aparece ruma a queda dele, uma garota, parada sobre gelo preso a madeira. Sem tempo para desviar, Heragon ajusta o corpo no ar, estica o braço… quase se chocando com ela.
Só no último instante consegue agarrá-la, evitando o impacto.
As nuvens ao redor começam a escurecer. O branco se fecha aos poucos, puxando para o cinza, até que eles se chocam contra nuvens carregadas.
A queda é amortecida, mas o impacto dispara uma descarga elétrica. Os trajes resistentes impedem danos sérios, porém o choque ainda é suficiente para fazê-los desmaiar.
Lá em cima, em solo firme. O mestre da Guilda observa a queda.
— Olha só… até imagino o que você está pensando. Mas não acha que é meio cedo para ele? — diz colocando as mãos nas costas.
— Hã… é bem difícil lutar naquele lugar — diz Elena. — Vai ter que aprender na marra. Por mais que pegue pesado com ele, admito: ele tem talento para artes marciais. E é determinado. Ele vai dar um jeito.
— É bom mesmo. Se algo acontecer com ele, vou te rebaixar para Rank B. — Se vira, já indo embora.
— Que isso, vai dar tudo certo… — Ela começa a soar.
“Droga, é bom dar certo mesmo, pelo bem da minha carreira.”
A raça dos humanos é conhecida por duas características simples: ganância em excesso ou impulsividade além da conta.
Lá… onde o céu é invertido e a tempestade é constante. Heragon desperta, pisca algumas vezes e encara o nevoeiro espesso ao redor. A cabeça lateja, e a memória volta aos poucos.
— O que aconteceu? Ah… sim. Aquela doida quer me matar. — Ele se senta, sentindo o corpo formigar.
— Ai… meu corpo está formigando — resmunga uma voz ao lado.
— Acordou. Você está bem? — Coloca a mão no ombro dela.
— Ah… o quê? Quem é você? — Recua, assustada.
— Não é hora para perguntas. Vamos. Precisamos achar um lugar seguro. — Heragon olha rapidamente a volta.
— Não vou a lugar nenhum até me dizer quem é você e onde estamos! — A garota cruza os braços.
A penumbra vibra. Pontos vermelhos começam a pipocar no horizonte negro.
— Vamos logo, estamos ficando sem tempo.
— Negativo. — A garota vira a cabeça. — Não dou um passo até ter respostas.
Heragon puxa a teimosa de supetão. Os dois despencam para trás. No exato ponto onde ela estava, um pescoço comprido irrompe numa bicada, enterrando a cabeça na nuvem.
Os pontos vermelhos então se revelam. Pequenas cabeças de bicos pontiagudos emergem do nevoeiro, presas a corpos arredondados cobertos por penugem acinzentada. As pernas são longas e finas, terminando em garras ferozes. Um bando inteiro se move ali dentro.
Uma das criaturas avança sem hesitar. A bicada mira a garota, mas Heragon se joga na frente e endurece o corpo no impacto.
A pancada os arremessa para longe, fazendo os dois quicarem pela superfície instável até caírem numa área mais afastada do bando.
Ele se ergue no mesmo instante e reage.
Um sopro de fogo rasga a névoa e ilumina tudo por um breve segundo. As criaturas recuam, cegadas pelo clarão. Os dois aproveitam a abertura para correr.
As nuvens são macias e traiçoeiras, afundando sob cada passo. A velocidade cai. Fica irritante. Perigosa. E o bando logo se recompõe, retomando a perseguição.
Heragon fecha os punhos, pronto para contra-atacar se fosse preciso.
À frente, um paredão de água despenca sem fim. Na base, abre-se um túnel de pedra, com musgos bioluminescentes brilhando pelas paredes.
A teimosa percebe a entrada de imediato e aponta para ela. Heragon questiona. Podem acabar encurralados ali dentro. Ainda assim, a lógica é irrefutável: se a ameaça vier de uma única direção, ficará mais fácil lutar.
O jovem Dragão pensa por um instante e concorda, lembrando-se do truque de Merlin com as paredes de terra. Se aquilo podia ser usado para encurralar, também podia servir para limitar o avanço do inimigo.
Percebendo a dificuldade de correr naquele ambiente, a garota age. Água cristalina escorre por suas mãos e se espalha pelas nuvens à frente.
No instante em que pisa, o líquido congela e avança rápido, formando uma pista de gelo.
Com movimentos precisos dos pés, ela desliza sem perder o ritmo.
Heragon tenta imitar. Falha. Perde o equilíbrio, cai, e a pancada trinca o gelo sob o corpo.
Na hora, entende que não bastava copiar. Então improvisa. Dobra os joelhos e joga os braços para trás.
Uma rajada de chamas explode de suas palmas abertas e o lança para frente.
Ele cai e desliza de forma desgovernada, mas usa as mãos para corrigir a direção e não escapar da pista de gelo. Ao alcançar o corredor, salta em guarda… e percebe que as criaturas haviam parado de persegui-los.
— Estranho… por que não vieram atrás da gente? — Ela pergunta, confusa.
— Sei não. Talvez tenham medo do paredão… ou da luz dessas paredes. — Heragon dá de ombros.
— Ainda assim, não faz sentido. Devem ser bichos daqui, estão acostumados com tudo. Ei… aonde você vai?
— Explorar. Vai que eu acho um caminho lá para cima.
Sem andarem muito, chegam a um espaço aberto cercado pelo mesmo paredão de água. No centro, um amontoado de pedras cobertas de musgo.
De dentro dele, uma tromba d’água sobe, carregando luz, como uma coluna viva puxando o mundo para cima.
— Já sei onde estamos. — Heragon sorri. — Em uma das histórias que meu avô contou, existe uma tromba d’água que leva a água lá para cima, distribui pelas veias da ilha e depois despeja lá de cima, formando esse paredão.
— História bem detalhada — comenta ela. — Então dá para usar essa tromba para subir.
— Exato. Mas, se tudo for verdade, isso significa… — Algo o acerta no meio da frase e o lança longe.
Diante da garota, pousa uma criatura maior que as demais, penugem totalmente branca, limpa demais para um lugar tão escuro.
Os olhos vermelhos não piscam. O ar ao redor parece ficar mais frio… ou mais pesado, como se a nuvem tivesse encontrado seu dono.
Taira reage no mesmo segundo. Lanças de gelo surgem no ar e começam a orbitar em torno dela. Ao comando de suas mãos, disparam.
A criatura desvia com movimentos secos, econômicos, e contra-ataca com as garras. Uma parede de gelo se ergue. As garras cortam, racham e rompem a defesa como se estivessem rasgando papel molhado.
Antes que atinjam a garota, Heragon surge do lado, rasgando o ar. Ele usou o Impulso no máximo, sem pensar. A criatura percebe, desloca o corpo e bate uma pata no chão de nuvem.
A espuma cede e afunda num círculo perfeito, como se obedecesse.
Heragon passa reto. Perde o tempo do golpe. Sem controle, cai quicando pelo solo fofo.
A nuvem reage como um trampolim e o joga para cima… e, por um instante, ele vê a criatura se mover junto, subindo com ele, como se o salto fosse um degrau.
Ela domina o ar, espaço e o ritmo da luta. Desce com um golpe seco no peito do rapaz. A visão apaga dele apaga no mesmo instante.
Um tempo depois…
Heragon acorda com uma dor forte no peito. Talvez não seja visível por causa da alta regeneração do traje, mas a criatura o feriu. Por sorte, o golpe não foi profundo.
Graças à capacidade regenerativa dos Dragões jovens, a ferida já está quase cicatrizada.
Ele olha ao redor e percebe que está em uma caverna: paredes de pedra, solo firme coberto por grama rasteira e arbustos; uma árvore com frutos estranhos; ao lado, uma vereda d’água. No ar, pequenos insetos bioluminescentes flutuam, emitindo uma luz intensa e deixando o ambiente bem iluminado.
Avista a garota desmaiada, com três cortes nas costas. Aproxima-se e verifica se ela ainda respira. O alívio vem… mas não dura muito.
Ao observar os ferimentos, entende: não é hora de relaxar.
Seguindo as instruções de sobrevivência ensinadas pelo avô, ele lava os cortes com a água da vereda. Em seguida, pega folhas dos arbustos, molha, amassa nas mãos e aplica com cuidado sobre as feridas.
Recolhe galhos e folhas secas, colhe algumas frutas e faz uma fogueira ao lado da garota. Senta-se, come e a observa em silêncio.
Após algum tempo, nota que o calor não é suficiente para aquecê-la. Aproxima-se, a abraça com cuidado e usa uma técnica aprendida com Ouroboros, aumentando a própria temperatura corporal. Depois de um tempo, ele acaba adormecendo ali mesmo.
— Ei, garoto. — Um empurrão.
— Hum…
— Acorda. — Outro empurrão.
— Hum… mais cinco minutinhos…
— Sai de cima de mim logo! — ela berra, chutando ele.
— Opa, desculpa! — Ele se afasta, meio sonolento. — Você acordou?
— Meio óbvio, né? Ai, ai… que dor. O que é isso nas minhas costas?
— Folhas dos arbustos — responde ele, simples.
— Olha só… algo assim só faz efeito se forem folhas medicinais.
— Eu sei. — Heragon coça a nuca. — Mas era melhor do que deixar aqueles cortes abertos. E… funcionou o bastante pra você acordar e gritar comigo.
— Ah… nesse caso, tudo bem. — Ela respira fundo, apesar da dor.
— Como você se machucou daquele jeito? — pergunta Heragon.
— Você me deu um trabalhão. Depois que foi derrotado, dei um jeito de te pegar e fugir. Fomos perseguidos por aquele bando lá fora. Achei esta caverna, mas, antes de entrar, acabei sendo atingida. Usei a energia que restava para bloquear a entrada.
— Por isso está tão frio aqui. — Heragon olha para o enorme bloco de gelo na entrada da caverna.
— Agora que percebeu? Para algumas coisas você é esperto, mas para outras… é bem tapado.
— Obrigado por me salvar, mesmo sem me conhecer direito.
— É bom estar agradecido mesmo. Você é pesado, foi difícil te carregar. Te salvar é algo natural para mim. Afinal, me chamo Taira, da grandiosa raça dos Librarianos. Nosso dever é proteger quem precisa de ajuda, nascemos para sermos Heróis.
— Maneiro. Já ouvi histórias sobre a sua raça. Bem, me chamo Heragon, da orgulhosa raça dos Dragões! — Ele faz uma pose exagerada.
— Ei, está me imitando, por acaso? — Ela estreita os olhos. — O quê? Espera… Dragões?
— Você falou com tanta convicção que me empolguei.
“Se ele é um Dragão, significa que posso voltar para casa mais cedo do que pensei…” — Taira pensa, escondendo o sorriso.
— Agora que nos apresentamos, preciso de uma explicação.
— Hehe, imagino que sim. Bem…
O jovem explica, de maneira resumida, o que aconteceu e como chegaram até ali.
“Entendi. Ele ainda não é um aventureiro… nesse caso, tenho que ajudá-lo o máximo possível. Assim, posso convencê-lo a aceitar aquela missão.” — Taira vira seu olhar para Heragon. — Nossa situação atual não é muito boa. Temos que derrotar aquela coisa e eu não sei se consigo ajudar agora. Vai demorar um pouco para me recuperar.
— Já pensei em algo — diz Heragon.
— Qual é o seu plano?
— Treinar, ficar mais forte e derrotar aquela coisa.
— Você chama isso de plano? — Ela suspira. — Mas… é melhor do que nada.
— Faça uma abertura no gelo. Vou lá fora começar. Colhi algumas frutas para você comer. Descanse e se recupere.
— Está bem. Só tenta não morrer.
Ela cria um buraco no bloco de gelo. Heragon sai da caverna e, logo em seguida, Taira fecha a entrada de novo.
— Muito bem… — Ela observa o bloco. — Tenho que modelar melhor esse gelo… deixei uns buracos nos cantos para o ar entrar, mas precisamos de mais ventilação. Também não dá para ficar abrindo um buraco novo toda vez que ele entrar e sair. Precisamos de uma porta.
Enquanto a jovem reúne forças e se recupera, Heragon começa a correr por aquele solo fofo, tentando se acostumar ao terreno. Não demora para o bando percebê-lo. A perseguição começa.
Ele ainda corre com dificuldade, mas já está se adaptando. Algumas vezes é alcançado; por enquanto, foca em desviar das investidas, aceitando alguns arranhões como parte do treino.
Em certo momento, despista as criaturas, encontra uma pedreira com água corrente, bebe e se senta sobre uma rocha.
— Haa… — Ele respira fundo.
Um rosnado o interrompe.
Heragon ergue o olhar e vê outro grupo de criaturas: corpos cobertos por penas, mas com a aparência de lobos, olhos brilhando na escuridão.
— Haha… pelo jeito, não vou ter tempo para descansar. — Heragon sorri empolgado, se levantando com os punhos fechado. — E lá vamos nós..

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