Capítulo 10 — Dupla Dinâmica
Passam-se alguns dias de treinamento rigoroso. Dói, cansa, frustra, mas Heragon insiste. Teimoso como só ele.
Em certo momento, o Venenoso o chama para conversar.
— Heragon, tenho um desafio para você. Vá até uma caverna próxima e traga uma fruta que cresce numa plantinha.
— Uma fruta?
— É fácil. Mas vai ser bom para o seu crescimento.
Heragon parte determinado. No caminho, evita confrontos com criaturas enormes, desviando por trilhas estreitas, passando rente a ossadas antigas e marcas de garras em troncos, como se a própria dimensão deixasse avisos.
Ao chegar a uma cachoeira, sai de um arbusto, batendo a mão na roupa para tirar as folhas. De outro arbusto, um pouco mais à frente, surge um garoto de manto longo, cabelos azul-claro e olhar curioso.
Os dois se encaram.
“Quem é esse?” pensam, ao mesmo tempo.

— Oi! Sou Heragon, dos Dragões. — Ele toma a iniciativa.
— Sério?! Um Dragão?! Que legal! — o outro responde, animado. — Sou Merlin, dos Magos. Gosto de arroz e de conhecer pessoas novas!
Raça: Mago; Canal: Adap; Inteligentes e estudiosos, programam a própria ressonância.
Heragon sorri, apesar da estranheza.
— Você é bem empolgado. Mas preciso resolver uma coisa agora.
— Espera! — Merlin baixa um pouco o olhar, cabisbaixo. — Eu estou perdido… me afastei do Pilar e não sei onde estou.
— Hm… eu também não conheço muito bem essa dimensão. Boa sorte aí.
Merlin dá um passo para trás e capricha no drama, com a clássica cara de “me leva junto”.
— Então já vou… sozinho nessa floresta perigosa… sem rumo… cheia de dinossauros prontos para me devorar…
Heragon suspira.
— Vem comigo. Depois a gente acha o caminho para o seu Pilar.
— Opa! Eu sabia que você era gente boa!
Os dois entram na caverna atrás da cachoeira. O túnel é úmido e escuro, e a água pingando parece marcar o tempo, gota por gota, como se o lugar estivesse contando quantos passos faltam para alguém fazer besteira.
— Então… o que você precisa fazer aqui? — pergunta Merlin.
— Meu mestre pediu para eu pegar uma fruta que cresce aqui dentro.
— Legal. O seu mestre pede. — Os olhos do jovem mago brilham, como se aquilo fosse uma aventura lendária.
— Hahaha. — Heragon ri. — Eu falei que ia pegar uma fruta numa caverna e é com isso que você fica impressionado.
— Meu mestre é meio mandão.
Enquanto caminham, Heragon conta parte de sua história, soltando as palavras como quem mede o peso de cada lembrança antes de deixá-la cair no chão.
O caminho segue, e a conversa vai se costurando no ritmo dos passos, até chegarem a uma clareira.
Uma fenda no teto derrama luz sobre o lugar, um corte brilhante no escuro. O feixe ilumina o pó no ar e revela movimento: insetos gigantes circulam pela área, zunindo em espirais lentas, como se guardassem aquela abertura por instinto.
Merlin, por algum motivo, fica boquiaberto. Não é medo. É… reconhecimento. Estranhamente surpreso, ele fecha os punhos, trava o maxilar e solta uma frase nada comum:
— História inicial de protagonista… — Merlin aperta os olhos. — Droga!
— O quê? — Heragon sorri de canto, confuso. — Espera… ouvi algo.
Ele puxa Merlin para trás de um arbusto. À frente, dinossauros caçam em bando, rasgando formigas gigantes com precisão de açougueiro.
Deinonychus
Tipo: Animal; Ameaça: Raro; Classe: Dino; Apelido: Deino.
— Isso é ruim — sussurra Merlin. — Já estudei sobre esses dinossauros. São rápidos e inteligentes.
— Vamos pelas beiradas, sem fazer baru…
Crack.
Heragon pisa numa planta.
— O que foi isso?! — murmura Heragon.
Merlin arregala os olhos.
— Isso é ruim… isso pode soar estranho, mas você acabou de pisar em uma planta que odeia ser pisada.
Mandrágora
Tipo: Besta; Ameaça: Comum; Classe: Treant.
O grito da planta puxa os Deinos como ímã.
— Que ótimo. Agora vamos ter que lutar!
As feras avançam. Uma delas acerta o flanco de Heragon. Ele cai, mas, antes que o chão o engula por completo, trava o pescoço do bicho com os antebraços, segurando como pode. Garras em forma de foice rasgam o traje. O fôlego encurta, preso entre o peso da criatura e a urgência de não ceder.
Merlin se posiciona ao lado, mão erguida, olhar firme.
— Console: Mater — Matriz: Elemen Água…
Uma esfera se forma em sua palma. Pontinhos de luz surgem na superfície e, um a um, são ligados por um traço fino, formando uma rede: um mapa compacto de intenção e cálculo.

— Metralhadora D’água!
A esfera se rompe, transformando-se numa metralhadora de água, e dispara. As rajadas perfuram as penas do Deino preso a Heragon, atravessando como agulhas de pressão. O peso cede, enfim. Heragon gira o corpo, rola para longe e se levanta num salto curto, ainda ofegante.
Ele tenta criar fogo… nada. Só ar quente escapando, inútil.
Então, sem opção e sem tempo, parte para o combate direto.
Cotovelo. Chute baixo. Passo lateral. O Deino morde o vazio.
— Uau! Você luta bem! — comenta Merlin.
— Aprendi com meu avô. Ele chama isso de… Kung Fu.
— Maneiro! — Merlin ri. — Tive uma ideia. Pode ser a isca?
— Como se eu tivesse escolha!
— Tente juntá-los num só lugar!
Heragon puxa o bando para si. Desvia por centímetros. Salta uma raiz, deixa dois se atropelarem. Agarra o focinho de um, empurra, bate a cabeça dele contra a de outro… um estalo oco… e recua num salto.
Merlin aproveita a abertura.
— Console: Modi — Matriz: Invo — Paredão!
Grandes rochas surgem do nada. Elas se moldam em paredes em três lados, numa dobra súbita e brutal, fechando os Deinos numa caixa aberta, sem teto e sem fuga.
— Console: Mater — Matriz: Elemen Vento — Rajada!
O ar responde. Ventos em lâminas cortam o espaço como facas invisíveis, assobiando com sede de corte. O impacto chega de uma vez só, seco e esmagador, derrubando todos ao mesmo tempo, como se alguém tivesse arrancado as pernas do grupo com um único golpe.
— Heragon, da próxima vez, olha por onde pisa, hein?
— Engraçadinho…
Eles riem, um riso curto, com o pulso ainda acelerado, e seguem adiante.
— Você é forte — diz Merlin. — E tem bons chutes.
— Ainda não consigo usar ressonâncias direito. Só me viro com o Kung Fu.
— A Ressonância é quando você muda a vibração do Eco usando um dos sete canais.
— Meu mestre falou algo sobre Elemen.
— Elemen é o canal central da sua raça, o dominante. Para usar, você precisa mandar um Sinal, tipo um comando para o Eco entrar no padrão certo. Esse sinal se divide em três faixas.
— Já está dando um nó na minha cabeça.
— Haha! Agora fica mais simples: a faixa imagética é a mais comum, porque é a mais intuitiva. Ela depende totalmente da visualização. Você tem que imaginar com clareza o que quer criar.
— Eu estou tentando, mas ainda não consigo imagens claras.
— Imagino que o que você precisa é de um exemplo bem definido na mente. É mais fácil do que o jeito que a minha raça cria Ressonância.
— Pode me ajudar? Como vocês fazem?
— Programação. — Merlin anima a explicação. — A gente pensa no Eco como uma esfera com vários pontinhos e manifesta isso para fora do corpo. Em cada ponto, coloca uma informação: tamanho, densidade, efeito… Liga os pontos, e isso cria o Programa. A gente usa a faixa programática. É bem comum em raças de base Adap.
— É legal. Mas pensando bem… não me ajuda em nada.
— Haha. A gente só memoriza Programas já criados, então fica fácil ressoar. E relaxa: tem raça que sofre mesmo com a faixa imagética… quem tem Adap como base costuma penar nisso. No seu caso, tenta puxar um exemplo claro, uma imagem que grude com força na sua mente.
— Vou me lembrar disso. Obrigado.
Andam mais um pouco, até avistarem uma fruta de casca escura, com desenhos em forma de ondas.
— É ela! — Heragon aponta e corre para pegá-la.
— Essa fruta me é familiar… tenho certeza de que já a vi num livro — murmura Merlin.
Quando ele se aproxima, o chão vibra.
Ao redor, dentes brotam do chão. Afiados, armados para mastigar.

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