Capítulo 10 — Tudo ou Nada

O mestre da Guilda, observa os jovens através de um espelho encantado. Suspira de preocupação, mas expressa otimismo.
— Esse garoto tem muito da personalidade do Fiogon. É compreensível, foi criado por ele. O que você acha? — Vira levemente a cabeça.
Encostado à parede, atrás do mestre, o mascarado observa em silêncio.
— Quando me notou? — pergunta o homem de máscara.
— No momento em que entrou na dimensão.
— Não esperava menos de você. — Cruz os braços. — O garoto é um Dragão, essa empolgação frente ao perigo está na natureza deles.
— Verdade. Aquela mulher me contou o que aconteceu na missão em Gnor. É algo difícil de acreditar.
— Então agora você sabe o que estamos enfrentando. Não podemos falhar. Pelo menos, não desta vez.
— As profecias de Uranos… complicado.
O mascarado se afasta da parede e caminha até a porta.
— Vou ajudar no que puder. Já vai? Não precisa ficar de olho nele? — Sundar acena com a mão.
— Qualquer coisa, ela vai me avisar. Só não vou lá para baixo porque posso atrapalhar o treinamento que aquela doida inventou para ele.
— Hahaha… por algum motivo, não consigo defendê-la.
De repente, ambos sentem uma poderosa presença. O mestre da Guilda volta ao espelho e direciona a visão para a Central.
Vê uma figura encapuzada em frente ao guichê. Por um momento, ela não vira o corpo… mas levanta o olhar na direção do espelho, como se encarasse o próprio foco do encantamento.
O espelho estala, racha… e se despedaça.
— Nem sequer está tentando esconder a presença… parece mais uma provocação. Mas é inusitado. Faz tempo que não mandam nenhum representante para o festival. Será que descobriram que ele está aqui? — murmura Sundar.
— Eu conheço essa presença — diz o mascarado, sério. — Ela gosta de chamar atenção. Sendo ela, não duvido que rastrearia quem quisesse. Mas não acho que seja o caso. Deve ser uma aposta.
— Faz sentido. Muito bem, ficarei de olho nela. Cuide do Heragon. No fim das contas, foi até bom ele estar lá embaixo. — Sundar fecha a mão, pensativo.
O mascarado acena com a cabeça e sai da sala. O mestre respira fundo, ajusta o manto e vai ao encontro da estranha figura.
O tempo passa rápido. Agora, falta um dia para o início do festival.
Em meio à escuridão, cercada por nuvens negras, vemos uma porta de gelo se abrir. Saem de dentro Heragon e Taira, que caminham com calma.
O bando de Avestempes se aproxima e, subitamente, para. Taira entra em posição de combate. Heragon está tranquilo, mãos nos bolsos, e continua andando.
— Não se preocupe. Não vão nos atacar. Eles já sabem quem é o mais forte — diz ele, sem olhar para o lado.
“Essa confiança… ele…” — Ela o observa de soslaio. — Acha que consegue derrotar aquele Alfa?
— Não sei. Treinei para isso. Vamos lutar e ver no que dá.
— Você é realmente muito despreocupado…
Após andarem um pouco, chegam ao paredão de água. Passam pelo corredor de pedras e logo veem o Alfa se levantar com a aproximação dos visitantes.
Desta vez, ele caminha com cautela. Encara Heragon que retribuio olhar. Sem aviso, os dois avançam ao mesmo tempo.
Usando o terreno macio das nuvens, ambos saltam de um lado para o outro enquanto trocam golpes. O jovem está sendo pressionado, mas aguenta bem.
Em uma das trocas, Heragon cospe fogo. O Alfa abre as asas, bate forte e desvia das chamas, dissipando o ataque. Escondido pela fumaça quente, ele avança com o cotovelo armado.
Uma explosão de chamas ocorre atrás do cotovelo, aumentando a potência do soco. O golpe acerta o Alfa em cheio, jogando-o para trás.
A criatura permanece em pé, mesmo depois do impacto. Levanta a cabeça, abre as asas e solta um grasnido que faz as nuvens vibrarem. O corpo começa a brilhar. Raios escapam das penas, trovões ecoam por baixo das patas.
— Heragon, está começando a ficar perigoso… não acha melhor sairmos da… — Taira olha para ele e vê um sorriso empolgado no rosto. — “Essa não… o olhar dele diz que vai até o fim.”
Ela cria lanças de gelo e as arremessa contra o Alfa. Os projéteis são desintegrados antes de chegarem perto.
— Taira, não! — grita Heragon.
Em um piscar de olhos, o Alfa aparece diante dela. Ela ergue uma barreira líquida para se proteger dos raios que saem do corpo do Alfa.
Inexperiência. O raio contorna a água, amplifica-se usando as partículas de Eco, fura o bloqueio e a atinge em cheio. Uma descarga brutal toma o corpo de Taira. Ela desmaia na mesma hora.
Com um Impulso, ele se aproxima do Alfa e tenta um novo ataque.
A criatura esquiva, deslizando pelo ar eletrificado. Heragon agora tem muito mais equilíbrio e consegue controlar melhor os impulsos de chama, pousando perto de Taira.
Ao ver que ela ainda respira, sente um breve alívio.
— É tudo ou nada. Tenho que me apressar.
Ele se afasta dela, caminhando na direção do Alfa. Quando está relativamente perto, para.
O corpo endurece.
Ele usa essa ressonância outra vez, forçando o limite. A dureza aumenta, mas o deixa completamente imóvel, incapaz de mover um músculo.
Todo o corpo pega fogo. Com a técnica de controle de temperatura, ele aumenta a temperatura do próprio corpo ao máximo. As chamas se tornam violentas, quase brancas. Heragon puxa tudo aquilo para dentro dos pulmões.
Libera um mar de chamas que vaporiza as nuvens à frente, criando uma clareira incandescente. Exausto, em pé, com partes do traje queimadas, ele encara o Alfa… de pé, à sua frente, sem nenhuma pena chamuscada.
— Ha… ha… desculpa, Taira… não deu…
Lentamente, o Alfa levanta a pata e a encosta no peito do jovem. Uma descarga elétrica gigantesca percorre o corpo de Heragon, seus cabelos brilham, faíscas o circulam, logo depois, ele desmaia.
O Alfa permanece em pé, vitorioso. Então abaixa a cabeça até ficar a um palmo do rosto dele, e o encara com um olhar que não promete misericórdia.
Castelo da Guilda — quarto VIP.
Sentada em um sofá, uma mulher vestida com um roupão aprecia um vinho caro. Uma figura encapuzada entra pela sacada, silenciosa.
— Ho… que coragem. Cheguei há duas semanas e só agora vem me cumprimentar — diz a mulher, sem olhar para ele, apenas girando o vinho na taça.
— Desculpe. Estava me preparando — responde a figura, ajoelhando.
— Venha cá. Fique de joelhos aqui na minha frente — ordena ela.
— Sim, senhora.
Ele se posiciona aos pés do sofá. Ela levanta as pernas e apoia os pés nas costas dele, como se fosse parte da mobília: uma mesa de centro viva e obediente.
— Se preparar para quê? Não quero que você ganhe. — Ela sorri, fria. — Só mate o garoto e pegue o medalhão.
— Não irei decepcioná-la.
— É o que espero. Agora, caia fora. Não quero te ver em pé até chegar na sacada. — Ela o empurra com o pé.
Engatinhando, ele vai até a sacada, se ergue apenas o suficiente para saltar e cai sobre uma grande ave, que o leva voando.
— É uma pena… — ela comenta, levando a taça aos lábios. — Se aquele herói de guerra não estivesse me vigiando…
Ela toma o vinho de um gole, deixando a taça vazia. Uma borboleta-beija-flor entra pela sacada. Em um piscar de olhos, ela arremessa a taça. O vidro afunda na parede sem sequer trincar, prendendo o inseto dentro, como em uma pequena cela transparente.
— Eu mesma iria caçá-lo — diz, sorrindo sozinha, os olhos brilhando com uma mistura perigosa de desejo e tédio.
Céu Negro
Despencando rapidamente, um rastro moreno corta nuvens em queda livre. O vento sopra forte; o ar escurece, mas logo surge uma luz. Ao tocar as nuvens, ondulações se espalham ao redor. Raios irrompem delas, anunciando sua chegada. Elena caminha, tranquila, até o Alfa.
Exibida… adorei. E, já que estamos em clima de espetáculo: joguei meus cabelos para trás! Virei o rosto de lado. Pronto. Agora podemos seguir!
— Ei, precisava daquele último golpe?
— Ruaaaaaa.
— Uma voz disse que era necessário.
— Rugaraaaaa.
— E você só fez. É isso que dá dar trabalho para uma ave burra.
O Alfa se irrita e desfere uma bicada. Elena não deixa barato: responde com uma canelada. Os dois caem numa briga absolutamente sem sentido.
O Máscara Negra surge como uma sombra no meio da neblina. Checa os jovens, faz os primeiros socorros ali mesmo e se prepara para levá-los de volta.
— Vocês dois, parem.
— …
— Ei. Parem de uma vez.
Ele libera uma presença ameaçadora. O Alfa se encolhe atrás de Elena, que entra em guarda por puro instinto: uma perna erguida, mãos protegendo o queixo.
— Quem é você?
— Não temos tempo para isso. Vamos subir.
— Sua alma se parece com a de alguém que conheço, mas é um pouco diferente.
— O Mestre da Guilda me enviou para ficar de olho nele. — Ele mostra uma insígnia em forma de S.
— É legítima. A energia que sai dela combina com a sua. — A postura de Elena muda; o rosto fica sério. — Você… você é…
— Não temos tempo para isso.
O Máscara Negra joga Heragon no ombro. Elena ergue Taira com cuidado. De volta à Guilda, deixam os dois na enfermaria. Na saída, o Mestre da Guilda já os aguarda.
— Aquela mulher me ligou furiosa — diz o Mestre. — Perguntou quem intimidou a doma dela.
— Era inevitável — afirma o mascarado.
— Eu vi. Mas você se deixou levar pelos sentimentos. Aquela presença foi quase toda direcionada para… Elena, qual é o nome dele mesmo?
— Rimu.
— Ah, sim. Ela deixou o Rimu aqui para passar um tempo em seu habitat natural. Familiares de bruxas compartilham tudo o que sentem com seus mestres. Imagino que você saiba disso.
— …
— Esses jovens… Bem, terei de curar aqueles dois. Amanhã terão um longo dia.
Elena corre atrás do mascarado.
— Ei, espera aí. Tira a máscara rapidinho.
No fim, ele simplesmente desaparece, ignorando-a. Elena baixa a cabeça, aperta os olhos e, num muxoxo quase fofo, resmunga:
— Idiota.
Sala do Mestre da Guilda — manhã seguinte.
Sundar e Elena estão reunidos com Heragon já recuperado da luta.
— Elena, aconteceu algo? Você parece meio para baixo — pergunta Heragon.
— Calado. Não é nada.
— Elena, qual é o seu veredito? Ele passou no seu teste? — indaga Sundar.
— Passou, sim. Já o registrei como minha recomendação.
— Sério? Consegui! Estou curioso: serão provas separadas ou conjuntas? Vai ter muita luta? Aaaah, estou animado. — Mas em sua mente:
“Perdi, de novo, desta vez, tenho que ganhar, custe o que custar”.
“Esse garoto se esqueceu totalmente do objetivo inicial dele… Bem, isso é bom.” — pensa o Mestre da Guilda, observando.
— Vá se preparar, Heragon. Como eu o indiquei, vou levá-lo para a ilha onde acontece o festival. Tecnicamente, já começou, mas a provação do torneio só será anunciada à tarde.
Heragon sai correndo para se arrumar. Na ponte que liga a Guilda à ilha onde ele treinava, Elena já o espera. O Máscara Negra chega e para ao lado dela.
— Não sou quem você pensa que sou. Pelo menos, não mais.
— …
Ela continua claramente emburrada.
Que fofo!
— Muita coisa aconteceu — continua ele.
— Percebi. Sua alma está diferente. Algum dia vai me contar o que houve?
— Algum dia.
Ela o empurra de leve com o ombro; os dois soltam uma risada curta.
Ha, fofa exibida. Só por estar solteira não estou com inveja. Sou incrível demais para isso. Ha!
Heragon entra na ponte.
— Elena, já estou pronto. Sua expressão está melhor. Aconteceu algo de bom?
— Podemos dizer que sim.
— Tive a impressão de que estava conversando com alguém.
— É só impressão sua.
Em uma das bases ao lado da Guilda, há grande movimentação: enormes aves transportam quem quer ir ao festival.
— Maneiro… olha o tamanho desses pássaros.
— São Argentavis, um dos principais meios de transporte desta dimensão. Voam rápido para o porte que têm e possuem força suficiente para levar cargas pesadas.
Os dois seguem para a ala do aviário. Elena já havia reservado uma Argentavis. Eles sobem na ave e voam rumo à ilha do festival.
Ao chegarem, Heragon se impressiona: uma ilha enorme, com diversas estruturas, ruas tomadas por barracas e gente de todo tipo circulando entre elas.
No centro, um coliseu colossal — usado, em geral, para duelos entre aventureiros e, às vezes, até para resolver intrigas entre nações, com a Guilda como mediadora neutra.
Eles pousam e vão direto ao coliseu, passando pelas barracas, parando aqui e ali para comer alguma coisa — afinal, é um festival.

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