O mestre da Guilda, observa os jovens através de um espelho encantado. Suspira de preocupação, mas expressa otimismo.

    — Esse garoto tem muito da personalidade do Fiogon. É compreensível, foi criado por ele. O que você acha? — Vira levemente a cabeça.

    Encostado à parede, atrás do mestre, o mascarado observa em silêncio. 

    — Quando me notou? — pergunta o homem de máscara.

    — No momento em que entrou na dimensão.

    — Não esperava menos de você. — Cruz os braços. — O garoto é um Dragão, essa empolgação frente ao perigo está na natureza deles.

    — Verdade. Aquela mulher me contou o que aconteceu na missão em Gnor. É algo difícil de acreditar.

    — Então agora você sabe o que estamos enfrentando. Não podemos falhar. Pelo menos, não desta vez.

    — As profecias de Uranos… complicado.

    O mascarado se afasta da parede e caminha até a porta.

    — Vou ajudar no que puder. Já vai? Não precisa ficar de olho nele? — Sundar acena com a mão.

    — Qualquer coisa, ela vai me avisar. Só não vou lá para baixo porque posso atrapalhar o treinamento que aquela doida inventou para ele.

    — Hahaha… por algum motivo, não consigo defendê-la.

    De repente, ambos sentem uma poderosa presença. O mestre da Guilda volta ao espelho e direciona a visão para a Central.

    Vê uma figura encapuzada em frente ao guichê. Por um momento, ela não vira o corpo… mas levanta o olhar na direção do espelho, como se encarasse o próprio foco do encantamento.

    O espelho estala, racha… e se despedaça.

    — Nem sequer está tentando esconder a presença… parece mais uma provocação. Mas é inusitado. Faz tempo que não mandam nenhum representante para o festival. Será que descobriram que ele está aqui? — murmura Sundar.

    — Eu conheço essa presença — diz o mascarado, sério. — Ela gosta de chamar atenção. Sendo ela, não duvido que rastrearia quem quisesse. Mas não acho que seja o caso. Deve ser uma aposta.

    — Faz sentido. Muito bem, ficarei de olho nela. Cuide do Heragon. No fim das contas, foi até bom ele estar lá embaixo. — Sundar fecha a mão, pensativo.

    O mascarado acena com a cabeça e sai da sala. O mestre respira fundo, ajusta o manto e vai ao encontro da estranha figura.

    O tempo passa rápido. Agora, falta um dia para o início do festival.

    Em meio à escuridão, cercada por nuvens negras, vemos uma porta de gelo se abrir. Saem de dentro Heragon e Taira, que caminham com calma.

    O bando de Avestempes se aproxima e, subitamente, para. Taira entra em posição de combate. Heragon está tranquilo, mãos nos bolsos, e continua andando.

    — Não se preocupe. Não vão nos atacar. Eles já sabem quem é o mais forte — diz ele, sem olhar para o lado.

    “Essa confiança… ele…” — Ela o observa de soslaio. — Acha que consegue derrotar aquele Alfa?

    — Não sei. Treinei para isso. Vamos lutar e ver no que dá.

    — Você é realmente muito despreocupado…

    Após andarem um pouco, chegam ao paredão de água. Passam pelo corredor de pedras e logo veem o Alfa se levantar com a aproximação dos visitantes.

    Desta vez, ele caminha com cautela. Encara Heragon que retribuio olhar. Sem aviso, os dois avançam ao mesmo tempo.

    Usando o terreno macio das nuvens, ambos saltam de um lado para o outro enquanto trocam golpes. O jovem está sendo pressionado, mas aguenta bem.

    Em uma das trocas, Heragon cospe fogo. O Alfa abre as asas, bate forte e desvia das chamas, dissipando o ataque. Escondido pela fumaça quente, ele avança com o cotovelo armado.

    Uma explosão de chamas ocorre atrás do cotovelo, aumentando a potência do soco. O golpe acerta o Alfa em cheio, jogando-o para trás.

    A criatura permanece em pé, mesmo depois do impacto. Levanta a cabeça, abre as asas e solta um grasnido que faz as nuvens vibrarem. O corpo começa a brilhar. Raios escapam das penas, trovões ecoam por baixo das patas.

    — Heragon, está começando a ficar perigoso… não acha melhor sairmos da… — Taira olha para ele e vê um sorriso empolgado no rosto. — “Essa não… o olhar dele diz que vai até o fim.”

    Ela cria lanças de gelo e as arremessa contra o Alfa. Os projéteis são desintegrados antes de chegarem perto.

    — Taira, não! — grita Heragon.

    Em um piscar de olhos, o Alfa aparece diante dela. Ela ergue uma barreira líquida para se proteger dos raios que saem do corpo do Alfa.

    Inexperiência. O raio contorna a água, amplifica-se usando as partículas de Eco, fura o bloqueio e a atinge em cheio. Uma descarga brutal toma o corpo de Taira. Ela desmaia na mesma hora.

    Com um Impulso, ele se aproxima do Alfa e tenta um novo ataque.

    A criatura esquiva, deslizando pelo ar eletrificado. Heragon agora tem muito mais equilíbrio e consegue controlar melhor os impulsos de chama, pousando perto de Taira.

    Ao ver que ela ainda respira, sente um breve alívio.

    — É tudo ou nada. Tenho que me apressar.

    Ele se afasta dela, caminhando na direção do Alfa. Quando está relativamente perto, para.

    O corpo endurece.

    Ele usa essa ressonância outra vez, forçando o limite. A dureza aumenta, mas o deixa completamente imóvel, incapaz de mover um músculo.

    Todo o corpo pega fogo. Com a técnica de controle de temperatura, ele aumenta a temperatura do próprio corpo ao máximo. As chamas se tornam violentas, quase brancas. Heragon puxa tudo aquilo para dentro dos pulmões.

    Libera um mar de chamas que vaporiza as nuvens à frente, criando uma clareira incandescente. Exausto, em pé, com partes do traje queimadas, ele encara o Alfa… de pé, à sua frente, sem nenhuma pena chamuscada.

    — Ha… ha… desculpa, Taira… não deu…

    Lentamente, o Alfa levanta a pata e a encosta no peito do jovem. Uma descarga elétrica gigantesca percorre o corpo de Heragon, seus cabelos brilham, faíscas o circulam, logo depois, ele desmaia.

    O Alfa permanece em pé, vitorioso. Então abaixa a cabeça até ficar a um palmo do rosto dele, e o encara com um olhar que não promete misericórdia.

    Castelo da Guilda — quarto VIP.

    Sentada em um sofá, uma mulher vestida com um roupão aprecia um vinho caro. Uma figura encapuzada entra pela sacada, silenciosa.

    — Ho… que coragem. Cheguei há duas semanas e só agora vem me cumprimentar — diz a mulher, sem olhar para ele, apenas girando o vinho na taça.

    — Desculpe. Estava me preparando — responde a figura, ajoelhando.

    — Venha cá. Fique de joelhos aqui na minha frente — ordena ela.

    — Sim, senhora.

    Ele se posiciona aos pés do sofá. Ela levanta as pernas e apoia os pés nas costas dele, como se fosse parte da mobília: uma mesa de centro viva e obediente.

    — Se preparar para quê? Não quero que você ganhe. — Ela sorri, fria. — Só mate o garoto e pegue o medalhão.

    — Não irei decepcioná-la.

    — É o que espero. Agora, caia fora. Não quero te ver em pé até chegar na sacada. — Ela o empurra com o pé.

    Engatinhando, ele vai até a sacada, se ergue apenas o suficiente para saltar e cai sobre uma grande ave, que o leva voando.

    — É uma pena… — ela comenta, levando a taça aos lábios. — Se aquele herói de guerra não estivesse me vigiando…

    Ela toma o vinho de um gole, deixando a taça vazia. Uma borboleta-beija-flor entra pela sacada. Em um piscar de olhos, ela arremessa a taça. O vidro afunda na parede sem sequer trincar, prendendo o inseto dentro, como em uma pequena cela transparente.

    — Eu mesma iria caçá-lo — diz, sorrindo sozinha, os olhos brilhando com uma mistura perigosa de desejo e tédio.

    Céu Negro

    Despencando rapidamente, um rastro moreno corta nuvens em queda livre. O vento sopra forte; o ar escurece, mas logo surge uma luz. Ao tocar as nuvens, ondulações se espalham ao redor. Raios irrompem delas, anunciando sua chegada. Elena caminha, tranquila, até o Alfa.

    Exibida… adorei. E, já que estamos em clima de espetáculo: joguei meus cabelos para trás! Virei o rosto de lado. Pronto. Agora podemos seguir!

    — Ei, precisava daquele último golpe?

    — Ruaaaaaa.

    — Uma voz disse que era necessário.

    — Rugaraaaaa.

    — E você só fez. É isso que dá dar trabalho para uma ave burra.

    O Alfa se irrita e desfere uma bicada. Elena não deixa barato: responde com uma canelada. Os dois caem numa briga absolutamente sem sentido.

    O Máscara Negra surge como uma sombra no meio da neblina. Checa os jovens, faz os primeiros socorros ali mesmo e se prepara para levá-los de volta.

    — Vocês dois, parem.

    — …

    — Ei. Parem de uma vez.

    Ele libera uma presença ameaçadora. O Alfa se encolhe atrás de Elena, que entra em guarda por puro instinto: uma perna erguida, mãos protegendo o queixo.

    — Quem é você?

    — Não temos tempo para isso. Vamos subir.

    — Sua alma se parece com a de alguém que conheço, mas é um pouco diferente.

    — O Mestre da Guilda me enviou para ficar de olho nele. — Ele mostra uma insígnia em forma de S.

    — É legítima. A energia que sai dela combina com a sua. — A postura de Elena muda; o rosto fica sério. — Você… você é…

    — Não temos tempo para isso.

    O Máscara Negra joga Heragon no ombro. Elena ergue Taira com cuidado. De volta à Guilda, deixam os dois na enfermaria. Na saída, o Mestre da Guilda já os aguarda.

    — Aquela mulher me ligou furiosa — diz o Mestre. — Perguntou quem intimidou a doma dela.

    — Era inevitável — afirma o mascarado.

    — Eu vi. Mas você se deixou levar pelos sentimentos. Aquela presença foi quase toda direcionada para… Elena, qual é o nome dele mesmo?

    — Rimu.

    — Ah, sim. Ela deixou o Rimu aqui para passar um tempo em seu habitat natural. Familiares de bruxas compartilham tudo o que sentem com seus mestres. Imagino que você saiba disso.

    — …

    — Esses jovens… Bem, terei de curar aqueles dois. Amanhã terão um longo dia.

    Elena corre atrás do mascarado.

    — Ei, espera aí. Tira a máscara rapidinho.

    No fim, ele simplesmente desaparece, ignorando-a. Elena baixa a cabeça, aperta os olhos e, num muxoxo quase fofo, resmunga:

    — Idiota.

    Sala do Mestre da Guilda — manhã seguinte.

    Sundar e Elena estão reunidos com Heragon já recuperado da luta.

    — Elena, aconteceu algo? Você parece meio para baixo — pergunta Heragon.

    — Calado. Não é nada.

    — Elena, qual é o seu veredito? Ele passou no seu teste? — indaga Sundar.

    — Passou, sim. Já o registrei como minha recomendação.

    — Sério? Consegui! Estou curioso: serão provas separadas ou conjuntas? Vai ter muita luta? Aaaah, estou animado. — Mas em sua mente:

    “Perdi, de novo, desta vez, tenho que ganhar, custe o que custar”.

    “Esse garoto se esqueceu totalmente do objetivo inicial dele… Bem, isso é bom.” — pensa o Mestre da Guilda, observando.

    — Vá se preparar, Heragon. Como eu o indiquei, vou levá-lo para a ilha onde acontece o festival. Tecnicamente, já começou, mas a provação do torneio só será anunciada à tarde.

    Heragon sai correndo para se arrumar. Na ponte que liga a Guilda à ilha onde ele treinava, Elena já o espera. O Máscara Negra chega e para ao lado dela.

    — Não sou quem você pensa que sou. Pelo menos, não mais.

    — …

    Ela continua claramente emburrada.

    Que fofo!

    — Muita coisa aconteceu — continua ele.

    — Percebi. Sua alma está diferente. Algum dia vai me contar o que houve?

    — Algum dia.

    Ela o empurra de leve com o ombro; os dois soltam uma risada curta.

    Ha, fofa exibida. Só por estar solteira não estou com inveja. Sou incrível demais para isso. Ha!

    Heragon entra na ponte.

    — Elena, já estou pronto. Sua expressão está melhor. Aconteceu algo de bom?

    — Podemos dizer que sim.

    — Tive a impressão de que estava conversando com alguém.

    — É só impressão sua.

    Em uma das bases ao lado da Guilda, há grande movimentação: enormes aves transportam quem quer ir ao festival.

    — Maneiro… olha o tamanho desses pássaros.

    — São Argentavis, um dos principais meios de transporte desta dimensão. Voam rápido para o porte que têm e possuem força suficiente para levar cargas pesadas.

    Os dois seguem para a ala do aviário. Elena já havia reservado uma Argentavis. Eles sobem na ave e voam rumo à ilha do festival.

    Ao chegarem, Heragon se impressiona: uma ilha enorme, com diversas estruturas, ruas tomadas por barracas e gente de todo tipo circulando entre elas.

    No centro, um coliseu colossal — usado, em geral, para duelos entre aventureiros e, às vezes, até para resolver intrigas entre nações, com a Guilda como mediadora neutra.

    Eles pousam e vão direto ao coliseu, passando pelas barracas, parando aqui e ali para comer alguma coisa — afinal, é um festival.

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