Capítulo 11 — A provação de Sun Wukong

Arquibancadas gigantes cercam a arena, contidas por um muro arredondado. No topo, com a melhor visão, ficam as salas VIP — tomadas por figuras importantes.
— Como sempre, o festival está bem movimentado. Magnífico — comenta o Mestre dos Magos, Magnon.
— Exatamente, meu amigo. Essa animação deixa a cerveja ainda mais saborosa. O que amarga é esse cheiro de Elfo — resmunga o Magnânimo da Forja, Diamut, dos Anões.
— É impressão minha ou ouvi um murmúrio? Deve ser algo insignificante, já que está fora do meu raio de visão — responde o Mestre da Guilda, o Alto Elfo Sundar.
— Fala na minha cara, se tiver coragem, seu orelhudo — retruca Diamut.
— Ai, ai… já estou com a idade avançada. Está difícil até olhar para baixo para ver enfeites de jardim — Sundar o provoca.
— Quer levar um soco? — rosna o anão.
— Quer uma cadeira emprestada? Posso arrumar mais uma ou, se preferir, espero você construir uma escadaria.
— Como sempre, grandes amigos — comenta a Rainha das Bruxas, Merlinda.
— Quem é amigo de quem? Desse cara eu não sou — dizem os dois ao mesmo tempo, virando o rosto para lados opostos.
— Ainda fazem isso em perfeita sincronia… — Merlinda se levanta, ajeita seus cabelos azuis, para diante de Sundar, apoia o pé na cadeira entre as pernas dele e o puxa pela gola. — Não pense que esqueci. Quem intimidou a minha doma? Se não responder, será punido no lugar dessa pessoa.
— Bem… — ele começa a suar frio. — Eu não sei o…
— Sem rodeios. Se mentir, já sabe as consequências.
“Desculpa, meu amigo. É por um bem maior.” — Sundar sussurra, quase inaudível. — Ra…
— Muito bem. Já imagino quem seja. Vou deixar para lá desta vez. Poucas pessoas são capazes de intimidar um dos meus familiares… “Conheço apenas uma pessoa com essas iniciais capaz de tal feito. E, com esta mulher aqui, não é bom que o nome seja dito.” — Merlinda recua, pensativa.
— Fiquei curiosa. A superprotetora dos bichinhos de estimação vai deixar para lá? Quem é essa pessoa? — pergunta Diana, Líder dos Predators, a Grande Predadora.
— Ninguém que te diga respeito.
— Quanta hostilidade… Se me tratar assim, vou é ficar com vontade de caçar você — diz Diana, lambendo os lábios.
— …
É a reação geral da sala.
— Ei, não precisam me olhar desse jeito. Só quero participar da conversa. Essa mulher do meu lado já está me dando calafrios… e olha que já enfrentei aberrações de todo tipo. Essa doida, do nada, começa a sussurrar — reclama Diana.
Doida é você, sua sado-psicopata!
Todos esticam o pescoço para encarar a mais bela entre as mulheres: postura, olhar, cada gesto exala presença.
— Não me importo de ser encarada; sei que sou irresistível. Mas já é hora de prestarmos atenção: a apresentação vai começar — diz a Guia Suprema, Stephane, linda, maravilhosa!
Um homem entra na arena: roupas pretas de couro, espinhos em partes do corpo, cabelo em moicano. Com um microfone em mãos, ele abre os braços e começa:
— E aí, seus putos, estão prontos para a competição mais frenética e eletrizante já vista no Multiverso?
A plateia vibra em coro: Siiim!
— Não ouvi direito. Cadê a empolgação?
O rugido aumenta até fazer o coliseu tremer.
— É isso aí, rock and roll! — Apresentador do festival.
Ao seu sinal, duas Argentavis sobrevoam a arena carregando uma grande roleta. Elas a depositam no chão, soltam um brado e voltam ao alto.
— Chegou a hora que todos esperavam: a escolha das provações que nossos competidores terão de enfrentar. Como todos sabem, durante a terrível Horda Negra. Apareceram os Campeões — que passaram por provações para salvar todo Multiverso. As imagens de cada provação estão estampadas nesta roleta. Agora vocês já sabem: façam esta arena tremer para a roleta girar e, depois, silêncio total para ela parar.
Guran marca o ritmo: duas pisadas rápidas, um intervalo, palmas em sequência.
A plateia acompanha, primeiro desordenada, até que tudo se encaixa. O coliseu começa a tremer; a arena vibra; a roleta ganha velocidade.
De súbito, o som para em sincronia, e a roleta desacelera até parar no desenho de duas pessoas correndo.
— Ah, moleque! Essa é a minha preferida: a segunda provação de Sun Wukong, a Relíquia Perdida.
A plateia delira — é a favorita de muitos. Das provações de Wukong, eu prefiro a primeira. É mais simples!
— Nesta provação, uma relíquia será escondida. Os competidores deverão procurá-la. Quem a encontrar, além de poder ficar com ela, terá vaga garantida na Guilda e começará no Rank B. O restante será avaliado; desempenho satisfatório começa no Rank C. A única regra é não receber ajuda externa durante a prova. Agora, os competidores serão levados ao local da provação.
Projetores se alinham; imagens de uma das maiores ilhas da dimensão tomam o ar acima dos muros.
Ilha do Terror
Uma enorme cachoeira despenca das bordas da ilha. Árvores altas e grossas se espalham por toda a extensão; o solo é de terra vermelha, com arbustos carregados de pequenas frutas. Um pássaro pousa, atraído pelas frutinhas suculentas.
Aproxima-se, bica uma… e, num piscar de olhos, sobram apenas algumas penas planando até o chão.
Elena acompanha Heragon até a borda da ilha. Como sempre, discutem.
É difícil dizer se se dão bem ou não!
— Olha só, é bom não me envergonhar durante a provação. Você ainda é fraco, mas é o bastante para ter um desempenho satisfatório.
— Ah, você só acha os outros fracos porque tem músculos no lugar do cérebro. Por isso está solteira até hoje.
— O que você disse, seu moleque?
— Seus músculos taparam os ouvidos, sua… musculebro.
— Essa palavra nem existe.
Os dois batem testa um no outro.
Discussão totalmente desnecessária, mas divertida!
Taira se aproxima.
— Como sempre, mestre e discípulo se dando muito bem.
— Ah, com ela? Eu não — responde Heragon.
— Quem disse que ele é meu discípulo? No máximo é um cachorrinho que resolvi adestrar… mas está com raiva; precisa é ser vacinado — retruca Elena.
Eles voltam a trombar as testas. Taira observa com um olhar cabisbaixo.
“Eu sei que não posso me sentir assim, mas o relacionamento dos dois é invejável.”
Um som ecoa, avisando que a provação está prestes a começar.
— Você vai ver só. Vou vencer isso e esfregar a vitória na sua cara — garante Heragon.
— Ah, vai na fé. Só não quero te ver chorando depois de levar uma surra — provoca Elena.
O jovem se vira e caminha para perto da floresta. Elena observa suas costas… e uma visão a atravessa: as costas de duas pessoas. Um homem desleixado de cabelos negros, e uma mulher empolgada de cabelos brancos. Eles se viram e dizem:
“Elena, vamos. Não estou com pressa, mas esta aqui está empolgada demais.”
“Ei, lesma, se demorar muito, vamos te deixar para trás.”
Elena sorri de canto e sussurra:
— Esse garoto, até de costas, é irritante igual a ela… Boa sorte, discípulo idiota.
Enquanto caminha, Heragon aperta os punhos e sorri com um olhar confiante.
— Pode esperar. Eu vou vencer, mestra.
O sinal de largada é dado. Os jovens disparam para dentro da floresta. Os competidores foram posicionados em pontos diferentes nas bordas da ilha, mas, no decorrer da provação, inevitavelmente se encontrarão — e os combates virão. Não há tempo limite: no instante em que alguém pegar a relíquia, a prova acaba.
— Taira, você já está melhor? — pergunta Heragon.
— Sim. O Mestre da Guilda é realmente incrível. Estou novinha em folha.
— Ótimo. E aí, o que vamos fazer? Encontrar a relíquia não vai ser fácil.
— Vamos prestar atenção em tudo à nossa volta. Deve haver alguma pista por aí.
— Agora que parei para pensar… Se a gente encontrar, quem fica com a relíquia?
— Pensamos nisso depois. Fique atento. “Claro que você; preciso que entre para a Guilda.”
Depois de correrem um pouco, o ataque vem seco: três mulheres de cabelos dourados, armaduras leves, avanço coordenado. No alto, a arqueira arma o arco. No chão, espada e lança com escudo. Em segundos, as três fecham em torno de Heragon.
O gelo de Taira se ergue no ar. O impacto das armas faz o escudo tremer, e o trio recua por um instante.
— Heragon, eu pego a arqueira e a lanceira. A espadachim é sua.
— Por que você contra duas e eu só uma?
— Sem tempo. A única que feriu o bloqueio foi a espadachim. Força contra força. Eu seguro o ataque à distância.
— Está dizendo que a espadachim é forte?
— Sim. Vai.
Heragon dispara e isola a rival no flanco.
Os braços pesam, duros como barras. Ele abaixa a base e avança. Punho e lâmina se encontram num som áspero, metal arranhando pedra.
— Do que são feitos seus braços? Qual é a sua raça? — pergunta a espadachim, firme.
— Heragon, dos Dragões.
— Dragão… Valeu cada passo até esta provação.
Ele não recua. Passo curto, ombro girando, cotovelo por dentro. A lâmina roça o queixo e passa. Eles voltam ao centro, olhar travado.
— Vou vencer você e procurar a relíquia.
— Não será tão fácil assim. Já eu, não quero a relíquia e nem entrar para a Guilda.
— Então por que está aqui?
— Me chamo Clea, das Amazonas. Lutamos por força. Mostre a sua, Dragão.
O sorriso de Heragon é rápido. A troca recomeça, mais seca, mais pesada.
No outro lado, Taira segura a linha sozinha. A ponta da lança tilinta; a corda do arco canta.
A lanceira costura o ar com golpes em sequência.
A flecha vem reta, com músculos reforçados com ressonância, madeira vibrando como aço. Taira concentra o escudo na direção do disparo.
O projétil rompe o gelo e arranca um corte de raspão. Ao cravar no chão, o impacto tira sua base; ela cai.
No mesmo movimento, Taira espalha líquido pela pele e o vaporiza. A névoa engole as três. Silêncio de caça.
As inimigas ampliam a audição. A lanceira dá mais um passo… e derrapa.
O chão está vidrado de gelo. Enquanto defendia e desviava, Taira umedecera o solo e, no momento certo, o congelou.
Um vulto se aproxima pela névoa. A lanceira estoca — alvo perfeito. O corpo estilhaça: uma escultura de gelo.
Estacas rompem o chão. A amazona ergue o escudo a tempo, mas a explosão a arremessa para o alto.
A arqueira reage por reflexo e dispara contra o que emerge da névoa — e acerta a própria companheira. O foco delas se quebra.
Taira salta por plataformas de gelo, subindo pelas costas de uma árvore.
Os projéteis cravam. A arqueira despenca. Taira respira, senta num galho, o peito subindo e descendo.
— Ufa… nada fácil. Sua vez, Heragon.
No outro flanco, Heragon e Clea ainda não cederam. A lâmina desenha arcos limpos; os passos dele cortam em ângulos. Cotovelo, joelho, giro curto.
O metal range na guarda. Ritmo. Pressão.
— Dragões não usam só força. Onde estão suas ressonâncias? — provoca Clea. — Achei que estivesse com pressa.
— Queria treinar mais um pouco… mas você tem razão. Agora vou a sério. Hora de testar isso.
Os dedos se curvam. Chamas escorrem pela mão até formarem garras incandescentes. Ele estoura um jato nas costas que o lança à frente.
Clea abandona o escudo.
Os músculos dela se definem de imediato; veias marcam os braços. A lâmina sobe do chão ao céu.
O choque das duas investidas abre uma onda de impacto que sacode folhas e poeira. Eles travam força no meio do clarão.
Um segundo. Dois.
Heragon desfaz a garra de súbito. A força dela passa em falso. Ele gira o tronco, salta, trava o endurecer na perna e explode um impulso no calcanhar.
O corpo roda como um martelo. Faíscas pipocam ao redor de sua canela.
O golpe pega em cheio.
Clea voa contra a árvore. O tronco geme. Ela fica de pé por um instante, lâmina ainda na mão. O ar some do peito em três fôlegos curtos.
— Ha… ha… valeu a… pena. Boa… luta…
Ela apaga. Antes da queda, Heragon a ampara.
— Você lutou bem. Obrigado pela luta. — Logo pensa — “O que foram aquelas faíscas”.
Mas deixa para lá. Não era algo importante naquele momento.
Taira, já no chão, termina os primeiros socorros nas duas amazonas caídas. Heragon chega com Clea nos braços.
— Cuida desta também?
— Cuido, mas tem de ser rápido. Já perdemos tempo demais.
Eles acomodam as três no galho mais grosso por perto. É arriscado deixá-las no chão em uma ilha desconhecida. Ajustam as posições, conferem o pulso e voltam à busca da relíquia, e o som da cachoeira batendo fundo como um tambor.
Enquanto caminham, num passo mais tranquilo para recuperar o fôlego, percebem uma movimentação suspeita.
Um jovem de cabelos dourados e corpo bem definido corre na direção deles. Heragon e Taira entram em guarda, mas há algo estranho: não sentem hostilidade. Logo atrás, ergue-se uma cortina de poeira.
O desconhecido passa por eles e solta, sem cerimônia:
— Corre.
Ao focarem melhor na poeira, veem um bando enorme de aves terrestres em perseguição. Lembram Avestempes, só que menores; cabeças maiores, bicos serrilhados, pernas longas e finas.
Sem discutir, os dois também disparam na corrida e alcançam o outro jovem.
— O que você fez para irritar essas coisas? — pergunta Taira.
— Nada. Eu estava só fazendo um lanchinho e, do nada, começaram a me perseguir.
— Não me diga que o seu lanchinho era…

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