Cruzar um portal nunca é só atravessar distância.

    Às vezes, parece simples: um passo, um clarão, um destino na mente. Mas o Multiverso adora esconder a parte importante. Porque portais não movem apenas corpos. Eles ligam rastros, encostam destinos e, de vez em quando, fazem histórias que estavam separadas começarem a respirar no mesmo ritmo.

    Heragon finalmente partiu.

    Deixou para trás treino, proteção e uma pequena fase da vida em que ainda podia contar com alguém mais forte segurando o mundo por ele. Agora, o caminho segue adiante, e o que antes era preparação começa a se transformar em movimento real.

    Só que cada avanço cobra alguma coisa.

    Enquanto um lado ainda cheira a veneno, fumaça e combate recém-encerrado, em outro canto do Multiverso, portas se abrem, ordens são dadas e olhos atentos já começam a se voltar para a mesma direção.

    Porque, às vezes, o instante em que alguém decide seguir viagem é exatamente o instante em que outras peças começam a se mover.

    E, quando isso acontece, a jornada deixa de ser apenas sobre chegar.

    Passa a ser sobre quem já estava esperando.

    Enquanto Sara está enfurecida.

    A luta no outro franco começa.

    Ravier não perde tempo.

    — Fase Cheia…

    A energia dele se desfaz em fumaça.

    — Campo de Caça!

    A névoa se espalha, densa, engolindo o terreno inteiro. Pouco a pouco, os olhos brilhantes somem atrás da cortina branca. Ravier reaparece em estalos de segundo, como se o campo tivesse portas invisíveis abertas só para ele.

    Golpes rápidos. Precisos. O Venenoso recebe, mede, bloqueia. Ainda assim, Ravier insiste. Some e reaparece, então avança numa velocidade absurda, circulando Ouroboros como uma sombra viva, farejando uma brecha.

    De repente, ele põe as mãos no chão.

    — Correntes Terrestres!

    O solo racha. Correntes irrompem, sobem e prendem Ouroboros ao piso com um estalo metálico que corta até o silêncio da névoa.

    — Esferas de Espinhos!

    Orbes cobertos de pontas se materializam ao redor da presa. Um estalar de dedos e as esferas se expandem de uma vez, perfurando e esmagando o centro.

    Ravier dá um passo à frente, confiante.

    — Oi, oi… não me diga que já morreu?

    — Haha… bela sequência de golpes. Foi bem treinado. Mas creio que nunca lutou contra um Dragão… nós odiamos ser subestimados.

    De dentro das esferas, uma fumaça verde começa a vazar. O ar vibra. O Eco ao redor parece derreter, virando uma gosma que recobre o corpo de Ouroboros. Ravier sorri, já sentindo o gosto da vitória.

    — Hã… Dragões vivem muito, mas não são imortais. Se morrem, podem ser caçados.

    O velho dragão ergue a cabeça, devagar, como se o peso das correntes fosse só um detalhe.

    — Vejo que não me apresentei. Meu nome é Ouroboros. Resista a isso… e talvez eu leve o que você falou a sério.

    Os olhos de Ravier se arregalam.

    — O quê…? Espera… aquele Ouroboros?!

    O dragão sorri de leve.

    — Minha vez.

    — Fase Cheia…

    Escamas que variam do marrom claro ao escuro se espalham pelo corpo.

    — Dragão Wyrm!

    O tronco alonga. A silhueta toma a forma de uma serpente colossal, com um chifre cravado bem no centro da testa. A cauda varre a névoa num único golpe, abrindo um rasgo de visibilidade no campo.

    Ele abre a boca.

    — Ninho de Serpentes!

    Da garganta, dezenas de serpentes de veneno disparam. Elas deslizam, se enlaçam ao redor de Ravier, mordem o revestimento de energia e arrancam pedaços que esfumaçam e derretem, como se fossem corroídos por ácido. A defesa cai em segundos, e as serpentes alcançam o caçador.

    — Vórtex Venenoso!

    As serpentes se desfazem em fumaça verde. O turbilhão gira feroz, adensa, vira uma esfera corrosiva. Cresce. Vibra. E explode.

    O vento sai quente e pesado. Quando a poeira baixa, Ravier ainda está de pé, com o corpo salpicado de manchas negras e os olhos brancos, vazios. Um segundo depois, ele desaba de costas, completamente paralisado.

    Ouroboros desfaz a forma dracônica e puxa o ar, fundo.

    — Usar a primeira fase foi um pouco demais… — murmura, ajeitando os cabelos. — Que inveja do Fiogon… queria ter lutado contra o Hugo…

    Ele se aproxima do Pilar, onde Sara está sentada calmamente lixando as unhas, enquanto um grande urso de pelúcia de aparência sinistra desfere golpes constantes na Hunter desacordada.

    — Sara, pode parar. Ela já está inconsciente.

    — Mas ela me irritou!

    Com um estalo de dedos, a criatura é puxada por um portal.

    — Entendeu, Heragon? — diz Ouroboros. — As Fases extraem da Lunae poder puro. Se enfrentar alguém desperto, fuja.

    Heragon, espantado, engole seco.

    — Com toda certeza, vou me lembrar disso.

    — Ótimo. Agora, levante o medalhão.

    — Por quê?

    — Apenas faça e não questione.

    — Bem… tá bom.

    Heragon ergue o medalhão.

    — Só pense no destino. Mas vá para Símia primeiro. Procure o posto dos Guias. Mostre o medalhão e eles te levarão a Guiar.

    — Sim, senhor. Obrigado por tudo.

    — Menos drama. Apenas vá.

    — Boa sorte, fofinho! — grita Sara.

    Um feixe de luz parte do medalhão e acende o Pilar. O portal se abre. Heragon dá um último olhar e atravessa. Ouroboros coça a cabeça.

    — Sinto que estou esquecendo algo…

    Sara abre a bolsa para guardar a lixa. Vê um passaporte com o nome do jovem.

    — Ah, hehe… se esqueceu, não deve ser importante.

    Essa cara de pau!

    — Deve ter razão.

    E esse venenoso também não colabora!

    Dimensão Guiar

    Em um lugar onde a brisa sopra suave e a natureza trabalha em perfeita harmonia, o próprio som do ambiente parece uma serenata para o mundo. Ali, uma mansão majestosa faz jus ao cenário.

    Pilares ornamentados com fios de ouro, telhado de telhas esculpidas em safiras, detalhes refinados por toda a estrutura. Diamantes refletem a luz do sol, exibindo para qualquer um que veja aquela casa o poder de quem vive ali.

    Ao entrar e seguir por um corredor repleto de obras de arte, chegamos a uma porta dupla, coberta de runas que brilham constantemente. Atrás dela, há uma ampla sala com diversos retratos de uma única pessoa. A única que importa, é claro!

    Ao redor, menos importantes do que os retratos, relíquias inestimáveis e ornamentos cobertos de pedras preciosas adornam as paredes. Ao fundo da sala, há um tatame escondido atrás de um véu translúcido.

    Por trás do tecido, uma mulher observa em silêncio: bela, sedutora, cabelos dourados como fios de ouro, cacheados como uma cachoeira inquieta, com olhos tão brilhantes quanto as pedras preciosas ao redor.

    Raça: Guia; Observadores, capazes de se moverem livremente pelo Multiverso.

     Ao seu lado, uma esfera flutua, parecida com um enorme globo ocular, com uma runa no lugar da pupila. Encará-la dá a sensação de que ela vasculha a sua alma.

    — Entre — diz a mulher, com uma voz majestosa.

    A porta se abre, e uma jovem entra. Cabelos loiros tão longos que quase tocam o chão, roupas leves e um olhar confiante. Ela se ajoelha diante da incomparável mulher.

    Guia aprendiz. A primeira de sua turma.

    — Bia Mormou se apresenta diante da Guia Suprema.

    A Guia Suprema observa com serenidade; um sorriso sedutor toma seus lábios.

    — Você, dentre os jovens, é a mais talentosa. Já está apta para sua primeira missão. Será seu teste de graduação.

    Ela inclina levemente a cabeça e apoia o punho no rosto.

    — Agradeço o elogio, senhora. Prometo não decepcioná-la.

    — Senhora?

    — Ah… quer dizer, Guia Suprema.

    — Melhorou. Perdemos contato com nossa base em Símia. Vá até lá, verifique a situação e me reporte pessoalmente.

    — Irei me preparar e partirei assim como me foi ordenado.

    A Guia Suprema acena com elegância, liberando a garota. Quando a porta se fecha, um homem de máscara negra se destaca na penumbra, encostado à parede, braços cruzados.

    Raça: Desconhecido.

    — Ela ficou bem orgulhosa — comenta o mascarado, num tom calmo.

    A belíssima se levanta, atravessa o véu com a esfera atrás, seguindo-a, caminha até a janela e observa Bia indo embora.

    — Muito talento pode gerar excesso de confiança — responde ela, sem desviar o olhar. — Com o tempo e com experiência, ela mudará.

    — Você não mudou.

    Um sorriso confiante surge naqueles lábios delicados.

    — Sou incrível demais. Meu orgulho é perfeitamente compreensível.

    — Essa coisa do seu lado continua sinistra como sempre.

    Ela apoia o cotovelo na esfera flutuante.

    — Ela é bem útil. O poder desse Artefato, em conjunto com as minhas ressonâncias, me torna ainda mais incrível.

    Coleção Oráculo

    Artefato das Moiras: Lachesis.

    — Ainda não sei como você a conseguiu, mas, com esse poder…

    — Nem adianta continuar. Eu sei onde você quer chegar, mas você sabe muito bem que, neste caso, não faz diferença.

    — Verdade… me exaltei. Por falar nisso, ele já os notou.

    — Era de se esperar. Com o selo prestes a se romper, ele deve sentir com mais clareza as mudanças desta linha do tempo. Não é algo que precise nos preocupar. Pelo que eles são… notá-los será o máximo que conseguirá fazer.

    — Assim espero. — O mascarado cruza os braços. — Heragon está indo para Símia.

    — Percebi. — Ela ri discretamente. — Quem você acha que eu sou? De acordo com os planos daquele homem, ainda é cedo. Eu o mandei para aquele lugar.

    — Usou a Lachesis, só um Artefato mesmo para hackear um Pilar. Mas pensando bem, o medalhão de Rodens consegue fazer algo parecido.

    — De fato, o que vai fazer agora?

    — Irei observá-lo de perto.

    — Não vai vigiar aquele outro?

    — Enquanto ele estiver com o selo amaldiçoado, não se moverá.

    — Imagino que seja verdade. Abrirei um portal. Lembre-se — diz ela, firme —, sua interferência deve ser mínima. O jovem deve aprender a se virar.

    — Eu sei.

    A Guia Suprema retorna ao tatame. Com um simples gesto, murmura:

    — Portalis!

    Um portal se abre em meio à sala. O homem atravessa o véu dimensional e desaparece. Voltado a ter apenas a companhia do Artefato.

    Fechando os olhos, sussurra:

    — Grande Gaia… esta é a nossa última chance. Desta vez, não podemos falhar.

    Portais são traiçoeiros.

    Parecem só atalhos bonitos, cheios de luz e destino na ponta dos dedos… mas raramente levam apenas alguém de um lugar a outro. Eles arrastam intenções, alinham encontros e, às vezes, empurram uma história inteira para o ponto exato onde ela precisava chegar.

    Heragon atravessou um.

    E, sem saber, deixou para trás mais do que uma dimensão. Deixou um mestre, um abrigo, uma fase da jornada em que ainda podia contar com explicações simples e caminhos mais ou menos guiados.

    Agora, há olhos voltados para ele.

    Olhos que observam.
    Olhos que calculam.
    Olhos que esperam.

    Em um canto do Multiverso, ordens já foram dadas.
    Em outro, decisões antigas começam a se mover de novo.
    E, no meio disso tudo, um garoto segue em frente, ainda acreditando que está apenas tentando alcançar o próximo passo.

    Mas algumas chegadas não são exatamente chegadas.

    São desvios.

    E, quando o destino resolve mexer as peças com as próprias mãos… até o lugar onde você cai pode ter sido escolhido antes de você nascer.

    Próximo capítulo: Yggdrasil.

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