Rodeada por densas névoas, uma cúpula luminosa se destaca, envolta por nuvens. No topo, um branco intenso escurece à medida que desce, como um crepúsculo eterno.

    Próximo à cúpula, um verde surge entre o branco das nuvens.

    Ao entrarmos, passamos por entre enormes galhos cobertos de folhas. O inusitado: cada galho tem o tamanho de um arranha-céu, como se vários prédios tivessem sido empilhados um sobre o outro. E cada folha daria para uma pessoa usar como paraquedas.

    Descendo mais e mais, vemos um mar de nuvens densas, tão fofas que parecem dar para nadar. Peixes serpenteiam por elas, saltando para outras nuvens, seguindo o som distante das cachoeiras.

    Ilhas flutuantes pontilham o céu: algumas gigantes, com árvores colossais; outras pequenas, com árvores delicadas, como bonsais pendurados no abismo.

    Cachoeiras deságuam pelas bordas das ilhas, fluindo tão calmas que parecem rios verticais que esqueceram de cair.

    Aves cruzam o céu: umas grandes, com asas como velas; outras pequenas, rápidas como flechas. Todas à espreita, esperando que um peixe se arrisque a planar demais.

    No horizonte, algo maior toma a visão: uma árvore colossal, tão grande que seria necessário empilhar incontáveis torres para alcançar seu topo. Tão grossa que dar uma volta completa levaria dias.

    Suas imensas raízes se estendem e se prendem a ilhas próximas, como pontes vivas. Ilhas repousam nos galhos do tronco, como se descansassem após flutuar demais. Já a ilha que sustenta esse colosso é igualmente colossal, com as bordas despejando cachoeiras imensas.

    Em uma ilha ao lado, ligada a uma das raízes, uma estrutura de blocos de pedra empilhados guarda, em seu interior, um Pilar maior do que o que já vimos.

    Pilar Prime — Central

    Um feixe de luz cai do céu, atingindo o topo do imenso Pilar. Ao sair do portal, Heragon se vê dentro de um enorme prédio com vários Pilares lado a lado. Corredores demarcados por fitas, presas em pequenos postes, direcionam o fluxo de gente até uma fila única em frente a um guichê.

    Uma mulher atrás do balcão estende a mão, burocrática até a alma.

    — Passaporte, por favor.

    — O quê?

    — Pa… ssa… porte, por favor!

    — Eu não sei do que você está falando.

    — Para entrar, você tem que mostrar seus documentos e pagar as taxas apropriadas. Caso contrário, não posso permitir sua entrada. — Ela aperta um botão embaixo do balcão, sem tirar os olhos dele.

    — Não tenho nada disso.

    Seguranças se aproximam e o cercam. Heragon fecha os punhos, cotovelos colados ao tronco, queixo baixo. Um homem grande encosta a mão em seu ombro. Péssima decisão.

    Em dois movimentos, o jovem solta a pegada, gira o quadril e projeta o sujeito ao chão. Os outros avançam. Heragon corta ângulos, entra e sai da distância, desequilibra, varre pernas. Um por um, todos caem, gemendo no chão.

    Encostada à parede, uma mulher observa. Alta, pele morena, abdômen definido, runas tatuadas nos braços e pernas. Cabelo curto, roupas leves que deixam o corpo solto para golpear.

    — Interessante… o garoto é bom, mas só domina o básico. Vence na força e na intuição.

    Ela caminha até ele. Sem aviso, estala o quadril e solta um chute frontal no peito. Heragon percebe por um fio, cruza os antebraços e absorve o impacto. O recuo é pesado. Ele quase perde o centro, mas fixa os pés, respira fundo e balança os braços, tentando tirar o formigamento.

    “Essa doeu… não deu tempo de usar o Endurecer. Essa mulher é forte.”

    — E aí? — ela provoca, ajeitando a guarda. — Vai ficar parado ou vem? Se não vier, eu vou.

    A pressão no ar aumenta. No rosto dele, porém, só empolgação. Heragon baixa o centro de gravidade: um braço à frente, o outro recuado, peso bem distribuído, pronto para reagir.

    A mulher mantém guarda alta, queixo protegido, tronco levemente girado. Pernas afastadas, prontas para chutar com qualquer perna. Braços vivos, marcando distância. Ela avança devagar, olhar cravado nele, passos medidos.

    Heragon dá um passo curto para dentro e tenta um agarramento de tronco. Ela torce o corpo no último instante, esvazia a linha e responde com um chute lateral. Ele bloqueia no antebraço e sente o impacto até o ombro. Já contra-ataca em linha, mas ela sai do alcance num pequeno recuo.

    — Olha só… achei que você só sabia o básico. Tem um contra-ataque decente. Eu te subestimei.

    Ela encurta a distância. Um joelho sobe, raspando o vazio. Em seguida, o corpo gira numa canelada por cima, sem espaço para acertar, as tatuagens brilham. Heragon arma a resposta… e o golpe entra no abdômen por um ângulo impossível. O ar foge do peito. Ele é levantado do chão e, ainda no ar, recebe outro chute que o joga de costas.

    Tonto, encara a lutadora. Ombros e quadris dela se movem… e, um instante depois, um rastro translúcido do corpo repete o gesto, meio atrasado, como se a imagem demorasse a voltar.

    — Deve estar se perguntando o que aconteceu. — Ela apoia os punhos na cintura. — Investida Fantasma. Uso Ressonância para materializar a alma e golpear junto. E eu ainda estico um pouco o alcance.

    — Entendi. Difícil de lidar, mas não caio nessa de novo. — Ele se ergue devagar, estala o pescoço e fecha os punhos.

    — Punhos em Chamas!

    Chamas discretas se acendem ao redor dos punhos.

    — Fogo, hein? — Ela sorri, animada. — Pode vir, garoto.

    Heragon e sua adversária ajustam a base para voltar ao combate…

    Quando uma pressão diferente afunda o ambiente. O ar pesa. Um homem de aparência jovem, orelhas pontudas, pele muito clara, cabelos verde atravessa a entrada principal e caminha na direção dos dois.

    — Vocês já se cumprimentaram o suficiente.

    — Bem quando estava começando a ficar divertido… que sem graça — resmunga a mulher.

    — Heragon, venha comigo — chama o homem, sem elevar a voz.

    — Está falando com o garoto, mestre da Guilda? — Ela franze a testa. — Você conhece esse intruso?

    — Ligue os pontos. Já deve ter percebido que o garoto é da raça dos Dragões.

    — Espera aí… Dragão com nome terminando em gon… ele é parente do Fiogon? Como não sobraram muitos Dragões por aí, isso só pode significar que ele é filho da…

    — Exatamente.

    — O senhor… — Heragon arregala os olhos, o coração disparando. — Herói de guerra… mestre e fundador da Guilda… conhecido como Imperador da Natureza… que maneiro…

    Esse é pau a pau com Fiogon. Mas esse outro velho eu não posso julgar pela aparência. Elfos literalmente não envelhecem… droga… bateu uma inveja daquelas agora!

    Raça: Elfo; Canal: Elemen. Os Homens dessa raça podem criar e manipular a flora.

    — Vejo que já ouviu falar de mim — diz o elfo, divertido.

    — Mas é claro! Meu velho me contou muitas histórias. Em várias delas, ele falava com orgulho dos companheiros que lutaram ao lado dele.

    — Aquele velhote… sentimental como sempre. — O elfo sorri de canto. — Vou me apresentar formalmente. Me chamo Sundar, dos Elfos. Vamos para o meu escritório. Temos que conversar.

    Ele se vira e segue em direção à saída do prédio.

    — Espera… quer dizer que não estou em Símia? — Heragon o alcança, confuso.

    — Não. Estamos em Yggdrasil, sede da grandiosa Guilda.

    Ao abrir a porta, Heragon se encanta com a visão adiante. Anda pela extensa ponte viva, como se tivesse entrado numa história antiga.

    — Esse lugar… é bem mais incrível que nas histórias — diz, quase sem voz.

    — Hahaha. Sua mãe teve a mesma reação — comenta Sundar.

    — Ela… está aqui na Guilda?

    — Não. — A expressão dele pesa um pouco. — Por falar nisso, Heragon, quero que fique aqui e estude na Academia.

    — O quê?! Não posso! Meu avô foi capturado pelos Hunters. Tenho que ir salvá-lo. Treinei dois anos inteiros para isso, não posso esperar mais.

    — Mais um motivo para treinar mais. — Sundar olha para o horizonte. — Os Hunters são fortes. Você pode acabar morrendo antes mesmo de chegar lá. Não posso deixar o neto de um grande amigo morrer assim.

    No meio da ponte, Heragon para e fecha os punhos com força.

    — Como posso provar que fiquei mais forte?

    Sundar suspira.

    — Elena, entre em posição — diz o elfo, sem nem olhar para trás. — Desta vez, leve mais a sério essa luta. Heragon, aguente dez segundos. Se conseguir, não tocarei mais no assunto.

    — Só dez segundos? Muito fa…

    Antes de terminar a frase, Elena o derruba com um único movimento. Ele nem vê o golpe.

    — O quê?! Isso foi injusto, não tive tempo de me preparar!

    — Garoto, em uma luta de verdade, o inimigo não espera — retruca Elena, cruzando os braços.

    Elena. Aventureira de Rank S.

    Raça: Humano; Canal: Adap; Artista marcial onmyōji (Exorcista).

    — Essa não valeu — resmunga Heragon, levantando-se. — Desta vez vai ser diferente.

    Ele se prepara e entra em posição. Elena sorri e avança outra vez.

    O resultado é o mesmo.

    E de novo.

    E de novo.

    E de novo.

    Nada muda. Cansado, ofegante, o jovem já não consegue se erguer.

    — Entendeu agora? Você ainda é muito fraco — afirma o mestre da Guilda, com frieza calma.

    — Ainda assim… tenho que salvá-lo. Quero entrar para a Guilda, mas…

    — Você tem a mesma teimosia da sua mãe. — Sundar suspira. — Não vou deixar você sair desta dimensão sem me provar que está pronto.

    — Mas como?

    — Daqui a um mês, acontecerá o Festival dos Campeões…

    — Já ouvi falar. Fazem um tipo de provação em um torneio no festival.

    — Exatamente. Você não está com paciência para participar como formando da Academia. Os testes para participantes de fora já acabaram. Só te resta a recomendação.

    — Recomendação?

    — Se for recomendado por um Rank S, será qualificado automaticamente para o torneio. Elena, cuide dele durante esse mês.

    — O quê?! Vou ter que passar o mês inteiro como babá? Tem outros Rank S que podem cuidar disso. — Elena demonstra nítido descontentamento.

    — Você já lutou várias vezes com a mãe dele. — Sundar sorri de canto. — Já deve ter copiado o estilo do Dragão. Será uma missão nomeada. Entendeu?

    — Droga… está bem. Não tenho escolha, então. — Ela revira os olhos.

    — Heragon, você terá um mês para conseguir a aprovação da Elena. Se tentar fugir, vou obrigá-lo a entrar na Academia. Estamos entendidos? — diz Sundar, liberando uma pressão ameaçadora no ar.

    — Sim, senhor — responde o garoto, engolindo seco.

    Toda essa conversa acontece enquanto Heragon está estirado no chão, sem forças. O mestre da Guilda se aproxima, abre a palma da mão.

    — Florescer!

    Flores brotam ao redor do jovem e começam a brilhar. A luz escorre para o corpo dele; a energia o preenche e, em instantes, ele consegue ficar de pé novamente.

    — Incrível… toda a minha fadiga sumiu.

    — Vamos — diz Sundar.

    Heragon se levanta devagar, aperta os punhos e pensa:

    “Não tenho escolha. De novo.”

    Mas o próprio rosto o trai: um leve sorriso de empolgação, teimoso, vivo… como se aquela ordem fosse só mais um desafio para ele morder.

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