Capítulo 12 — Escamas vs Couraça
Dois anos passaram voando, e nesse momento…
No topo de uma árvore, Ouroboros observa o pupilo.
Heragon está diferente: mais alto, mais forte, o olhar firme como lâmina recém-afiada.
À sua frente, uma criatura monstruosa. Couraça grossa, focinho alongado, dentes afiados… e aquela calma predatória que anuncia tempestade.
Sarcosuchus
Tipo: Animal; Ameaça: Raro; Classe: Dino/Aquárion.
Os dois permanecem imóveis, esperando o primeiro movimento, como se o combate fosse um acordo silencioso.

De repente, um portal se abre no céu.
Uma mulher de cabelos azuis surge, sentada numa vassoura, chapéu pontudo e um sorriso provocante, desses que já chegam testando limites.
Ela desce sem pressa, cortando o ar com leveza, e voa entre as árvores como sombra com perfume de encrenca. Aproxima-se sorrateiramente, devagar, como se fosse dar um susto só para ver a reação e…
— Nem tente, Sara. Não estou com humor para brincadeiras.
— Tsc, que sem graça. — Ela faz bico por um instante, mas o olhar continua brilhando. — Então esse é o neto de Fiogon?
— Sim. E você demorou.
— Passei para ver meu sobrinho numa dimensão próxima. — Ela sorri, satisfeita consigo mesma. — Trouxe o que você pediu… mereço um beijinho, né?
— Sim, você merece. Mas sem beijo de recompensa.
— Poxa… ainda o mesmo rabugento.
Enquanto isso, Heragon parte para cima do monstro. O soco estala contra a couraça… e não deixa sequer um arranhão. A criatura responde na hora, virando o focinho e cravando os dentes no braço dele.
— Endurecer!
Os dentes falham em perfurar. Heragon não recua. Pelo contrário: gira o corpo, usa a própria mordida como ponto de apoio e alavanca, e arremessa o bicho com violência. A criatura cai perto do topo da cachoeira, levantando respingos e poeira úmida.
Ela se ergue num tranco e contra-ataca com a cauda. Heragon desvia por pouco, mas o golpe seguinte o alcança e o prende, como um laço vivo.
A fera o puxa, levando-o em queda livre pela cachoeira abaixo.
Cair na água seria péssimo para o jovem: aquela criatura é semiaquática, feita para dominar ali. Mesmo despencando, Heragon mantém a expressão firme, como se já tivesse calculado o final da jogada.
— Boa jogada… mas eu não sou o mesmo de antes.
Ele incendeia o próprio corpo. O calor estoura no ar, e a criatura afrouxa o aperto no reflexo. Heragon aproveita o instante, puxa o fogo para o peito, concentrando tudo num único ponto.
— Sopro Ardente!
Um jato de fogo atinge o monstro em cheio, empurrando-o com força contra a água. A criatura se debate, e Heragon nada até a margem. Quando pensa em se levantar, uma abocanhada violenta vem do nada, mirando a cabeça como uma guilhotina.
— Já esperava por isso.
Heragon gira o corpo, o punho cerrado, o fogo se enrolando nos dedos como se obedecesse à raiva.
— Punhos em Chamas!
O soco quebra a mandíbula da criatura e a lança de volta para a água, que desta vez não a acolhe: só a leva, arrastando-a rio abaixo.
— Finalmente… estou indo até o senhor, meu velho.
Do alto, Ouroboros suspira.
— Seu pupilo é bem talentoso — comenta Sara.
— Errado. Ele é o oposto disso.
— Como assim? Ele derrotou o bicho com facilidade!
— Sim, mas foi puro esforço. Treinou dia e noite. Esse garoto é feito de teimosia e determinação. Teve uma enorme dificuldade no básico; depois que aprendeu, aí sim começou a ressoar direito.
— Hm… deixando o talento de lado, puxou a personalidade da mãe.
— Nem me fale.
Retornam a caverna que o venenoso chama de lar, ainda acho muito rustico para meu gosto!
— Mestre, missão cumprida! E quem é essa bela mulher?
Sara o abraça e aperta com força.
— Aaaaah, que fofo! Diferente do seu mestre, você sabe como tratar uma dama.
— Agradeço… mas… não consigo respirar!
— Me chamo Sara, da raça das Bruxas. Trouxe umas coisinhas para você.
Raça: Bruxa; Canal: Invo; Especialistas em Doma.
Ela puxa de uma bolsa encantada uma bússola, um mapa e roupas novas.
— Essa bússola aponta para o Pilar mais próximo. O mapa mostra toda a região ao redor. Toma, esse papel tem todas as instruções. Leia com calma depois. E essas roupas têm encantos de resistência e autorreparo, de bônus, o bolso interno do sobretudo tem um espaço de armazenamento.
— Uau! Deve ter dado trabalho conseguir tudo isso.
— Muito! Acho que mereço um beijinho.
Heragon fica vermelho.
— Aaaaah, muito fofo! — ela o provoca.
— Pare de atormentar o garoto — diz Ouroboros, rindo. — Isso é sério. Esses itens vão te ajudar na jornada.
— Sim, senhor!
— Agora, escute. O núcleo que armazena o Eco se chama Lunae.
— Nome curioso.
— Significa Lua. Quando um indivíduo fica mais forte, ela evolui, permitindo que, além do Eco, ele possa usar as Fases.
— Nas histórias do velho, escutei sobre isso. Nunca perguntei o que era, só sempre achei muito maneiro.
— As Fases aumentam o poder do indivíduo, pois liberam certos limitadores.
— Legal. Por que nunca me ensinou a usar?
— Porque ainda não está pronto. Quando estiver, vai despertar naturalmente. Se encarar um desperto, não lute. Corra.
E, claro, a narradora não ia ficar calada!!
Ah, e o velho esqueceu de dizer algo importante! A quebra dos limitadores da Lunae tem três Fases que emitem um intenso brilho e criam diferentes padrões nos olhos, que podem substituir a pupila ou causar alguma mudança na íris e na esclera dos olhos!
… Espera aí. Que porcaria é essa? Você tentando me narrar? Pode parar, hein! Da próxima vez, eu vou rodar a baiana, folgada!
Roupa nova, itens legais guardados e coração decidido. Partem em direção ao Pilar.
Logo avistam a estrutura. Um Pilar de pedra escura com rachaduras emitindo luz roxa.

Subitamente o ar ganha peso e, então, um portal se abre.
Duas figuras encapuzadas saem dele, pisando como se já estivessem em casa.
Ravier: Hunter Beta; Espécie: Perfidus.
— Olha só… fomos premiados.
Pamela: Hunter Beta; Espécie: Track.
— Finalmente. Já estava ficando entediada.
Ouroboros solta um suspiro curto, sem pressa, sem surpresa.
— Em boa hora. Observe, Heragon. Ver o uso das Fases em ação será importante para você.
Ravier avança sem aviso, como uma lâmina puxada do escuro.
— Adagas Voadoras!
As lâminas de energia cortam o ar, rápidas e certeiras. Ouroboros as bloqueia com facilidade, sem nem mover muito o corpo, como se aquilo fosse só poeira tentando incomodar.
— Entregue o garoto e saímos em paz — diz o caçador.
O Venenoso sorri, e o sorriso tem veneno de sobra para justificar o apelido.
— Hahaha… venha com tudo.
Os dois se afastam, medindo distância. Postura baixa. Respiração controlada. O combate ainda não começou, mas o mundo já está pronto para ele.
Pamela tenta se aproximar de Heragon, mas Sara estala os dedos, cortando o avanço como quem fecha uma porta na cara.
— Saia, mocinha. O fofinho tem coisa mais importante para fazer.
— Só não se mete, vadiazinha.
Quase dá para ouvir uma veia na testa de Sara estalar. O sorriso dela não some, mas endurece, virando lâmina. Ela se acomoda na vassoura flutuante com uma calma ofensiva, como se aquele insulto fosse só poeira no sapato.
Tira uma lixa da bolsa e, focada nas unhas, sem dar a honra de olhar direito, diz:
— Invocar!
Um círculo negro se abre sob os pés de Sara, silencioso e profundo, como um buraco arrancado do mundo. A criatura surge ao lado dela num salto curto, já em guarda, o corpo tenso e pronto para morder a realidade.
— Fase Cheia…
Sara inspira devagar, e o ar parece hesitar.
— Metamorfose!
Os olhos dela brilham em escarlate. A criatura se distorce na mesma hora: músculos engrossam, os pelos se eriçam e se multiplicam, e a presença cresce até ficar sufocante, como se a clareira tivesse perdido espaço.
Sara termina de lixar uma unha, satisfeita, e aponta com o queixo, casual.
— Fluflu. Pega!

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