Fiquei tateando a parede úmida, pois para mim a voz vinha de lá. Segui em frente. A única fonte de luz eram as tochas presas às paredes, de onde escorria um líquido preto.

     Já não escutava mais a voz, então franzi os lábios. Olhei para o lado e vi apenas celas vazias, com grades enferrujadas.

     Se tivesse que chutar, diria que aquele lugar tinha mais de cem anos.
    Conforme avançava, virei-me para trás — jurei ter escutado algo.

     E então vi a névoa atrás de mim. Era cinza, quase como fumaça. Por algum motivo, parei e fiquei admirando-a.

     Muito inteligente da minha parte. Ela se aproximava.
    Estiquei a mão para sentir. 

    Assim que meus dedos tocaram a névoa, caí no chão de dor. Era como se eu tivesse assado a mão no forno e, logo em seguida, jogado água fervente por cima. 

    Gemi, arrastando-me para trás. Grandes bolhas começaram a se formar ao redor dos meus dedos.
    — Argh!
    A névoa se aproximava cada vez mais. Reuni minhas forças, consegui ficar de pé e corri.
    Conforme avançava, parecia que ela ficava mais rápida. 

    Chutei minhas chinelas para longe para correr melhor. Olhei para trás: estava a poucos centímetros de mim, e até agora nenhum sinal de saída. 

    Eu não aguentaria por muito tempo.
    Gemi de dor quando a névoa encostou em minhas costas.

     Quase caí ali mesmo. Foi então que uma luz branca surgiu, quase me cegando. Uma escada em espiral. 

    Quando alcancei o penúltimo degrau, pulei antes que a névoa me alcançasse.
    Um barulho, como o zumbido de mil abelhas, ecoou em meus ouvidos.

     Depois, silêncio absoluto.
    Minha primeira visão foi um céu azul, sem nuvens. 

    Uma brisa fresca soprou em meu rosto. Levantei-me sentindo a mão arder. As bolhas ainda estavam lá — e doíam muito.

     A saída havia desaparecido, como se nunca tivesse existido.
    Foi então que ouvi passos se aproximando. Fiz uma careta de dor e me escondi atrás de uma pedra grande.

    — Quero que esse julgamento comece logo. Não aguento ver meus filhos chorando toda noite com medo desse Caçador — disse algum João-ninguém.

    — Não consigo acreditar… Caçadores existem. Para mim, eles eram só histórias para assustar crianças, sabe?

    Por algum motivo, minha visão começou a ficar embaçada. A única pessoa que me parecia confiável era Merlin, e de um jeito ou de outro eu precisava chegar até ele o mais rápido possível. 

    Era só isso que importava naquele momento.
    Levantei-me devagar, sentindo a grama macia entre os dedos. 

    Não sabia onde estava, mas tinha certeza de uma coisa: eu estava no Reino Élfico.
    Senti uma tontura e desabei sentado na grama. O sol parecia dez vezes mais quente.

     Daria tudo por um sorvete de chocolate ou, no mínimo, um copo d’água.
    Passos novamente. Não deu tempo de reagir.
    Algo me acertou no rosto.

    — Peguei ele, pai!

    A voz vinha de um… garotinho? As bochechas rosadas faziam-no parecer um daqueles anjinhos de pintura. Minha visão ia e vinha.

    Um homem usando um daqueles chapéus pontudos que Merlin costumava usar apontou uma espada para o meu rosto.

    — Me dê um motivo para não matá-lo agora.

    Continuei encarando-o. Minhas pálpebras estavam pesadas, e a única coisa que consegui dizer foi:
    — M-Merlin…

    Tudo ficou preto.
    Uma melodia tocava. Quando abri os olhos, o menino me encarava como se tivesse visto um fantasma, de boca aberta.

    — Legal.

    Consegui esboçar um sorriso, mas só então percebi: eu estava amarrado, com as mãos presas à cabeceira da cama.
    Ora, ora… as coisas não podiam piorar, certo?

    — Você não deveria ter medo de mim? — perguntei baixinho.

    O garoto parecia ter a mesma idade que eu.

    — Sempre gostei de ver caçadores matando monstros — começou a gesticular com os braços. — Claro, só tinha medo quando eles matavam magos.

    Minha boca estava seca, como se eu tivesse corrido uma maratona no deserto.

    — Me conta… você já matou a Cuca? Já viu a Mula sem Cabeça? Me fala, por favor!

    Desviei o olhar, envergonhado. Ah, se ele soubesse que eu era só uma criança que, alguns dias atrás, assistia Hora de Aventura nas horas vagas… Provavelmente ficaria decepcionado.

    — Billy, vá para o seu quarto.

    — Mas, pai, eu—

    — Não vou falar de novo.

    O garoto saiu de cabeça baixa, como se tivesse perdido o horário do desenho favorito.
    O pai decidiu me dar as boas-vindas aproximando uma faquinha do meu rosto.

    — Vou te soltar, mas se tentar qualquer gracinha, já sabe.

    Engoli em seco, concordando várias vezes com a cabeça. Ele cortou os nós com um único golpe. Quando olhei para minha mão, ela estava limpa — sem bolhas. Ergui os olhos para ele.

    Um homem de talvez cinquenta anos, barba grisalha aparada, agora usando um chapéu de pescador, não o pontudo.

    — Onde estou? — perguntei, sentindo uma enxaqueca forte.

    — Você não está mais no reino, se é isso que está pensando.

    — O quê? Nem ferrando.

    — Preferia ficar lá e morrer? Acho que não.
    Ele saiu do quarto sem dizer mais nada..

    Franzi a sobrancelha, intrigado. Como diabos ele me tirou de lá? Teletransporte, como Merlin?

    Vi sal espalhado na janela e vários símbolos estranhos pelo quarto. Levantei-me da cama, ainda grogue. Ao pisar no carpete, notei algo escondido ali.

    Eu sabia que não deveria mexer em coisas estranhas, mas minha curiosidade falava mais alto. Não me julgue.

    Um círculo com uma estrela, desenhado no chão em vermelho-sangue. Parecia um… ana… anagrama.

    Ou ele era um mago… ou—
    Balancei a cabeça, arrepiado. Ouvi passos se aproximando e voltei correndo para a cama, fingindo estar ali o tempo todo.

    — Coma e beba um pouco. Vai precisar.

    Ele segurava uma bandeja com arroz, feijão, ovo e um líquido amarelo-claro. Meu estômago roncou.

    — Ah, fala sério — ele revirou os olhos e comeu um pouco da comida. — Se eu quisesse te matar, acredite, você já estaria a sete palmos da terra, criança.

    Não aguentei e perguntei sobre os símbolos.

    — Olha, garoto… sei que você deve estar cheio de dúvidas, mas precisa confiar em mim. Já estou arriscando a minha vida e a do meu filho te ajudando.

    — Então por que está me ajudando?
    Arrependi-me na mesma hora. Soou ingrato.
    Ele suspirou e tirou o chapéu. Era completamente careca.

    — Meu nome é Bobby. Devo um favor a Merlin. Só isso. E estou pagando agora.

    — Como você sabia onde eu estava?

    — Te achei com minha bola de cristal.

    — Sério?

    — Claro que não. Merlin me teletransportou direto para o reino, bem onde você estava. E o mais engraçado é que ele não me explicou nada. Simplesmente apareci lá.

    — Típico — dissemos ao mesmo tempo.

    — Então você é um mago também.

    Ele assentiu.

    — Ou melhor, eu era. Fui exilado por causa de um caçador. Expulso do paraíso por… bem, comer a maçã. Não literalmente, mas você entendeu.

    — Quer dizer que você é humano agora?

    — Sim. Por isso o sal na janela, para afastar espíritos e demônios. E esses símbolos afastam alguns monstros.

    Lancei aquele olhar de fala sério.

    — Espíritos? Demônios?
    — Estou falando sério. As lendas existem. Vampiros, lobisomens… todo o folclore é real.
    — Claro. Por que não?
    Minha cabeça voltou a doer.
    — Descanse. Durma um pouco.
    Assim que ele saiu e apagou a luz, fiquei encarando o teto branco.

    Quando fechei os olhos, senti uma gota cair na minha testa.
    Goteira. Ah! Maravilha! Quando abri os olhos o teto estava coberto de sangue.

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