Lyra se surpreendeu ao abrir os olhos. O Dr. Heisenhauer estava inclinado sobre seu rosto, com duas cânulas metálicas enfiadas em suas narinas. O brilho frio do metal contrastava com o calor abafado da enfermaria.
     

    — Não se mexa, tributo — disse ele, sem tirar os olhos do que fazia. — Fraturou o nariz e o osso zigomático. O da bochecha, caso esteja curiosa.
     

    Apesar da sensação estranha causada pelas cânulas e da dormência que deixava seu rosto pesado, Lyra permaneceu imóvel. Sentia-se amortecida, mas estranhamente lúcida. Estava bem anestesiada, e isso talvez explicasse o silêncio que conseguiu manter.
     

    Heisenhauer finalizou o procedimento com precisão. Seus movimentos eram rápidos, técnicos, experientes, não havia hesitação em suas mãos.
     

    — Está tudo no lugar — disse, ajustando o encosto da cadeira até deixá-la quase sentada. — Apliquei uma medicação para promover o crescimento ósseo. Em dez dias, seu rosto estará como novo. Três dias de folga das atividades físicas matinais, nada mais. O anestésico que usei é local. Não sentirá dor agora, mas prepare-se: dores de cabeça e sensibilidade na região devem aparecer nas próximas horas.
     

    Pegou dois frascos do bolso interno do jaleco e os entregou a ela.
     

    — Tome um de cada antes de dormir. Se estiver se sentindo bem, pode frequentar as aulas normalmente. Nada de dramatizar.
     
    Antes que Lyra pudesse responder, um enfermeiro se aproximou empurrando uma cadeira de rodas.
     
    — Está dispensada — disse o médico, já se afastando para atender outro paciente. — Volte apenas se houver alguma complicação.
     

    O enfermeiro empurrou a cadeira com eficiência, levando-a em silêncio até a saída da enfermaria. Quando cruzaram a porta automática, Lyra se espantou. Ali, na recepção, seus companheiros de quarto a aguardavam. Estavam todos, Imara, Kara, Tyla, Branth, Rin, Russel e Calder, reunidos em algumas poltronas, conversando baixo, em um misto de ansiedade e alívio.
     

    — Assim que a atividade acabou, ficamos sabendo do seu acidente — falou Russel com um sorriso matador. — viemos direto pra saber de você.
     

    — Obrigada.
     

    Com tantos tributos e voluntários sendo empurrados ao limite, ela não era a única a ter se machucado naquela manhã. O departamento Médico tinha outros alunos ali, esperando.
     

    — Tá bonitona, hein? — brincou Imara, com um sorriso zombeteiro.
     

    Lyra respondeu com um olhar enviesado. Estava usando uma proteção plástica no rosto: uma meia máscara rígida, em um tom roxo berrante, presa por uma correia elástica. Mal conseguia se levar a sério com aquilo no rosto.
     

    — Combina com seus olhos roxos — provocou Kara, rindo.
     

    — Está doendo? — perguntou Tyla, com um olhar mais preocupado.

    — Muito engraçado, vocês… — resmungou Lyra, revirando os olhos enquanto se levantava da cadeira com cuidado. Virou-se para Tyla e completou: — Não estou sentindo nada. Me encheram de analgésicos.
     

    — Como você está, de verdade? — perguntou Calder, a voz mais contida.
     

    — Estou bem. Nariz quebrado e fratura no osso da face do lado esquerdo. Consertaram tudo com regeneração acelerada. Me deram dez dias para cicatrizar completamente, mas ganhei três de licença dos exercícios matinais.
     

    — Sortuda… — murmurou Imara, fazendo uma careta invejosa.
     

    Lyra tirou um pequeno frasco do bolso e sacudiu na frente deles. O som dos comprimidos balançando fez todos olharem.
     

    — Mais alguns pra minha coleção de pílulas diárias — disse, com um meio sorriso.
     

    Todos caíram na risada, aliviando a tensão do momento.
     

    — Está quase na hora da aula da professora Medinni — lembrou Calder, erguendo a voz para todos ouvirem. — Vai querer vir com a gente?
     

    Lyra hesitou por um instante. Não estava exatamente mal, mas ainda sentia o gosto amargo da derrota. A sensação de vulnerabilidade queimava em seu estômago. Ainda assim, os analgésicos a deixavam leve, quase eufórica.
     

    Ela pensou no aether que iria manipular na aula, uma dose cavalar, como nas vezes anteriores. A boca chegou a salivar. Era algo que ia animar ela.
     

    — Acho que vou sim — respondeu, com um brilho frio nos olhos. — Não quero perder aula nenhuma.
     



     

    Longe do planeta Tartarus, um secretário se aproximou e ofereceu uma tela para Lady Aliah. Ela pegou, meio a contragosto, sem mover-se do divã onde estava reclinada, à espera de ser recebida na corte de seu pai. Era chegada a hora de apresentar suas descobertas em Glasurith, e negociar uma elevação em sua posição hereditária.
     

    A tela se acendeu, revelando o rosto de uma jovem que aparentava ter pouco mais de vinte anos. Tinha os cabelos loiros presos num rabo de cavalo, o rosto suado, e usava um macacão vermelho manchado de terra. Seus lábios eram cheios, mas os olhos, azuis, profundos e gelados como piscinas de gelo, que chamavam a atenção.
     

    — Já demos o primeiro susto nela, minha tia — disse a jovem com sarcasmo, um sorriso começando a se formar. — Um dos meus rapazes quebrou a cara da maldita. Vou me certificar de que ela se arrependa profundamente de ter se metido no caminho da Casa Sylaris.
     

    — Muito bom — respondeu Aliah, com desdém. — Mas isso está longe de ser o bastante. Você sabe disso, não sabe Helena?
     

    — Sei, minha senhora.
     

    — Ela só vai sofrer de verdade se conseguir que os próprios colegas virem contra ela. Quero que seja sabotada até que nem as Legiões de Refugo a queiram. Que seja descartada como lixo.
     

    — Estou trabalhando nisso, senhora.
     

    — Ótimo. Se precisar de mais créditos — especialmente para subornar alguém da instalação, me avise. Sem hesitação.
     

    Um pajem, vestido com o libré da Casa Sylaris, apareceu na porta dupla e fez um gesto discreto. Era a hora.
     

    — Preciso ir. Papai vai me receber — disse Aliah, erguendo-se com leveza.
     

    — Boa sorte, tia — respondeu a jovem, antes da tela desligar.
     

    Lady Aliah deixou a tela com desdém sobre o divã e se encaminhou à porta com passos decididos. O Patriarca Halvian Sylaris não era um homem conhecido por sua paciência.
     



     

    De volta ao Domatorum, todos entraram na sala com alguns minutos de sobra antes do início da aula. Naquele dia, teriam dois módulos consecutivos: o primeiro com a professora Medinni, como de costume; o segundo, com um professor que Lyra nunca tinha visto, Augustus Silak, responsável por “Administração Imperial”. Segundo a descrição no tablet, era um legado aposentado. Um nome de peso, embora afastado dos holofotes há anos.
     

    Acomodaram-se no anfiteatro, escolhendo os assentos mais próximos do tablado onde Medinni costumava se posicionar. Havia algo de reconfortante em estar ali, num espaço conhecido, antes que as coisas fugissem, de novo, do controle.
     

    Lyra sentia o formigamento antecipado nas palmas das mãos. Era como febre. Um zumbido sutil que subia pelos braços, inquieto. Desde a última dose, a euforia deixara marcas profundas em seu cérebro, um brilho opaco que não se dissipava. Ela queria mais. Precisava daquilo.
     

    Queria esquecer a fragilidade que sentiu ao enfrentar o tributo na arena. A impotência. Seus amigos haviam falado em acidente, mas ela sabia. Não tinha sido por acaso. Ele, e outros ali, queriam machucá-la.
     

    A sala foi se enchendo aos poucos. Cerca de sessenta tributos e voluntários se espalhavam, uns conversando baixinho, outros apenas procurando bons lugares. Havia um nervosismo silencioso no ar.
     

    No horário exato, a professora Medinni entrou pelos fundos.
     

    — Boa tarde a todos. Sentem-se e façam silêncio, por favor.
     

    O comando foi obedecido de imediato. Ninguém ousava contrariar Medinni depois da aula magistral que dera dois dias antes, uma verdadeira lição sobre a importância da disciplina para qualquer domador imperial. Sem a formação de um núcleo aethérico, um domador não conseguiria formar um vínculo.
     

    Drones desceram do teto com precisão, entregando os aplicadores individuais de aether, E como antes, Aedena, falou com sua voz calma e impessoal:
     

    — Já sabem como isso funciona. Podem injetar a dose mais próxima de suas tolerâncias seguras.
     

    Kara girou a tampa do seu aplicador com precisão e exibiu para os amigos o número no visor: “9”. Orgulhava-se disso como uma medalha. Lyra, por sua vez, ajustou o próprio dispositivo, mas ocultou o valor. Não queria comentários. Escolheu com cuidado uma veia saliente no antebraço e pressionou o gatilho.
     

    A dose entrou quente e instantânea. Um clarão de êxtase tomou conta de sua mente. Era como se a realidade se expandisse em todas as direções, um salto repentino para fora do corpo. Sentiu-se dissolver no espaço ao redor. E então, veio aquilo novamente: a sensação de estar sendo observada.
     

    Mas não era uma ameaça. Era como ser envolta por uma consciência colossal, vasta como o cosmos, que a olhava não com julgamento, mas com um tipo de reconhecimento silencioso. Como se dissesse: você pertence a algo maior.
     

    A professora já havia explicado certa vez que aquela consciência imensa, que surgia nas visões induzidas pelo aether, era o Demiurgo. Vigilante eterno, posicionado além do Véu, zelando contra os horrores exteriores.
     

    — Vamos começar? — disse Medinni. Não era uma pergunta.
     

    Ela caminhou até o centro do tablado, imponente em seu silêncio. Os alunos se endireitaram nos assentos.
     

    — O aether é extremamente responsivo ao nosso pensamento, à nossa vontade. Ele é a chave para o domínio da realidade que nos cerca. É a substância que nos foi deixada pelo Demiurgo, o segredo de nossa Ascensão.
     

    Fez-se uma breve pausa. Todos ouviam, respirando de forma quase sincronizada.
     

    — Vamos nos concentrar na energia dentro de nós. Aproveitem que ela está em sua força máxima. Mentalizem essa energia circulando. Sintam-na se condensando abaixo do coração… e na testa.
     

    Lyra fechou os olhos, tentando seguir as instruções. De início, sentiu a energia como um rio quente correndo sob a pele. Mas, à medida que tentava levá-la à testa, algo resistia. Era como se comportas tivessem sido trancadas em sua mente. A pressão aumentava. Seu crânio parecia que ia se partir ao meio.
     

    E então veio a dor. A princípio, pulsante. Depois, lancinante.
     

    Ela gritou, cambaleando, até cair no chão.
     

    — Aaarrgh!
     

    O som encheu o anfiteatro.
     

    A professora Aedena correu até ela, sem hesitação. Sabia que aquilo não era uma simples overdose de aether. Se fosse, teria deixado a garota convulsionar até apagar. Mas não. Aquilo era diferente. Era grave. E Lyra era valiosa demais para ser descartada, uma tributo de quinze por cento de tolerância.
     

    Ao tocar sua testa, Aedena sentiu imediatamente os bloqueios. Ela estava com inibidores psíquicos.
     

    — Droga — rosnou.
     

    Sem perder tempo, injetou-se com uma nova dose de aether. Em segundos, seus olhos se iluminaram com um brilho prateado. Ela começou a manipular a energia à sua volta, tentando desobstruir os canais mentais da garota. Mas as travas eram profundas.
     

    — Ela vai sobrecarregar… — sussurrou.
     

    Lyra espumava pela boca, os olhos revirando em agonia. O corpo se arqueava e tremia. Os caminhos energéticos estavam saturados, e seu núcleo ainda não havia sido formado, uma combinação letal.
     

    Aedena se abaixou e murmurou no ouvido da garota:
     

    — Lyra, me escute. Escute minha voz. Estou aqui. Vou te ajudar. Siga o som da minha voz. Concentre toda a energia no seu peito. Esqueça o cérebro. Por enquanto.
     

    Guiando com precisão, a professora começou a redirecionar a energia. Desviou-a do cérebro e forçou sua concentração abaixo do coração, na região onde se formavam os núcleos aethéricos. Ela moldava a energia com mãos experientes, como uma tecelã de carne e espírito. Era uma psíquica de alta patente. Tinha feito aquilo antes. Mas nunca sob tamanha pressão.
     

    Do outro lado, Lyra estava desconectada. Sentia-se flutuar sobre o próprio corpo. A dor havia sido tanta que ela simplesmente saíra de si mesma. Mas sabia que, para sobreviver, teria que voltar.
     

    A professora era a única âncora naquele caos. E ela parecia… genuinamente empenhada em salvá-la.
     

    Reuniu o que restava de coragem e mergulhou de volta na consciência física.
     

    A dor voltou com tudo.
     

    Mas agora ela sentia também a presença da professora, empurrando, guiando. Forçou-se a agir. Concentrou toda sua vontade. Queria viver. Precisava viver.
     

    Sentiu um calor começar a se formar abaixo do coração. Uma brasa que ardia e girava. Usou tudo o que tinha, toda a energia represada, todo o medo, toda a dor.
     

    E então, o núcleo se formou.
     

    Aedena sentiu o instante exato da consolidação. E ficou surpresa.
     

    Era um núcleo grande. Denso e instável. Arriscadamente próximo da tolerância da garota. Mas era um começo. Um núcleo podia ser ajustado, fortalecido… contido. O importante era que Lyra não corria mais perigo imediato.
     

    Se teria sequelas? Era cedo demais para dizer.
     

    Só então a professora notou os olhos ao redor. Um grupo de alunos havia se formado em volta, observando em silêncio, como animais em torno de uma presa caída.
     

    — Voltem para os seus lugares — ordenou, severa. — Não há nada para ver aqui. Usem a energia que lhes resta para consolidar seus próprios núcleos. Não desperdicem essa chance.
     

    Os estudantes se dispersaram devagar, voltando aos seus assentos, ainda atordoados pela cena.
     

    Aedena permaneceu ajoelhada, com Lyra desfalecida em seu colo. Ela não estava dormindo, a professora sabia disso. Estava em suspensão, seu corpo e mente tentando compreender e se adaptar ao que acabara de acontecer.

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