Capítulo 23: Catarse
Lyra abriu os olhos, surpresa. Estava deitada nas cadeiras almofadadas do anfiteatro da professora Medinni.
A lembrança veio em fragmentos, a dor lancinante na cabeça, a pressão, o descontrole. Soltou um gemido e tentou se levantar, mas seu corpo fraquejou. Sentou-se novamente, ofegante. Levou a mão ao rosto. A máscara plástica ainda cobria seu nariz e bochechas.
Estranhou, até que se lembrou: o ferimento daquela manhã. A luta. O impacto. Estava tudo misturado agora, o corpo e a mente, quebrados.
— Senhorita Veyne. É bom tê-la de volta ao mundo dos vivos.
A voz vinha do tablado. Aedena Medinni estava sentada em sua cadeira, como se a tivesse aguardado o tempo todo.
— Seus companheiros foram para a próxima aula. Não se preocupe, eu lhe dei uma dispensa — disse, olhando para uma tela translúcida à frente do rosto. — Aliás, a esta altura, a aula já deve ter terminado. Devem estar voltando para o dormitório.
— O que… aconteceu?
Aedena recostou-se, avaliando.
— Antes de responder, preciso saber: qual suplementação está tomando, senhorita Veyne?
Lyra tateou os bolsos e retirou os comprimidos.
Aproximou-se da mesa da professora e os estendeu.
— Esses são para o ferimento no rosto… — apontou com o indicador. — E esses… são os que tomo todo dia.
Aedena pegou o comprimido azul com a tarja vermelha. Quando viu o rótulo, sua expressão se fechou, tomada por uma irritação visível.
— Há quanto tempo está tomando isso?
— Comecei hoje.
— Não tome mais isso. Esse comprimido é um bloqueador psíquico. — A raiva na voz de Aedena era contida, mas inconfundível. — Não sei quem prescreveu, mas se continuar com essa substância, vai se tornar quase impossível evoluir como domadora.
Lyra tentou processar o que ouvira, mas a mente parecia embaçada. Fragmentos desconexos, nenhuma lembrança da aula, apenas a dor, cravada como ferro quente em sua memória.
— Talvez quem te receitou isso não tivesse más intenções. — Aedena fez uma pausa breve, olhando com mais atenção para o rosto abatido da garota. — Mas com o tanto de aether que seu corpo comporta… é praticamente impossível manter o controle sob o efeito de bloqueadores. Você quase morreu, Lyra.
A professora fez uma pausa, avaliando o rosto pálido de Lyra antes de continuar.
— Eu tive que intervir, conduzir a energia manualmente. Forçar a cristalização de um núcleo instável. — Aedena falava com seriedade, mas sem dramatizações. — Salvamos sua vida, sim. Mas isso teve um preço.
Ela fez uma pausa, deixando o peso das palavras assentar no ar.
— Um núcleo como o seu… instável e tão grande logo na formação… é perigoso. Vai limitar sua capacidade de manipular grandes volumes de aether daqui pra frente. Seu desenvolvimento não será como o de outros tributos.
O estômago de Lyra afundou. Seu valor estava justamente nisso. Na promessa do desempenho, da ascensão. Zyab havia dito. Logan também. Era o que a fazia especial.
Aedena notou seu desespero e suavizou o tom.
— Mas não se desespere. Nem tudo está perdido. Posso tentar ajudá-la. Existem maneiras…
Lyra a encarou. Já sabia a resposta antes mesmo de falar.
— Ninguém ajuda ninguém de graça. Não aqui, no Império. — Lyra estreitou os olhos, desconfiada. — O que quer de mim?
— Agora? — Aedena riu, não de escárnio, mas com uma ponta de cansaço. — Agora você não tem nada que eu possa querer. Quero te ajudar, só isso. Chame de tolice, instinto maternal… ou do que quiser. Mas você me lembra garotas que cuidei, há muito tempo.
Havia algo na forma como a professora disse aquilo, sem pressa, sem exigências, que desarmou Lyra.
— Se torne alguém importante, Lyra. Quem sabe, um dia, eu cobre esse favor.
Lyra assentiu, com uma determinação nova. E perguntou, direto ao ponto:
— Como pode me ajudar?
— De muitas formas. Algumas que você nem sequer imagina. — Aedena se aproximou da tela sobre a mesa e começou a digitar. — Mas, por ora, quero estabilizar seu núcleo. Ajudar a reduzir o tamanho e torná-lo funcional. Seguro.
A tela piscou. Ela girou o monitor em direção a Lyra.
“Acesso restrito.”
— Essa é a sua ficha médica. Em teoria, eu deveria conseguir acessar o histórico de todos os tributos e voluntários. As únicas exceções são os legados. E… você. Quero entender por quê.
As palavras da professora, combinadas com a tela lacrada diante de si, despertaram algo em Lyra. Como se uma engrenagem antiga, esquecida, começasse a girar de novo. Pensou no que Medinni dissera, no que ela própria havia sentido… e numa palavra que agora parecia inevitável: legados.
Aedena notou a mudança em sua expressão.
— O que foi, Lyra?
Ela hesitou. Carregava um segredo que mal compreendia, e mesmo assim, ali diante daquela mulher que a salvara sem pedir nada em troca, sentiu, pela primeira vez em muito tempo, o impulso de confiar.
— Logan descobriu meu segredo. Achei que a Matriarca Zyab conseguiria manter isso escondido.
Aedena se endireitou levemente.
— Que segredo?
Lyra respirou fundo.
— Estou confiando em você, professora. Espero que mantenha isso só entre nós duas.
Aedena segurou suas mãos. O toque era firme, mas acolhedor. Um gesto simples, que acalmou o coração acelerado de Lyra.
— Eu sou filha de uma Matriarca. Você sabe o que isso significa, não?
A expressão de Aedena mudou. Ela sabia. Sabia muito bem.
Lyra era filha de um dos Praetorii Primus, a casta mais alta do Império. Parte de sua genética era o auge da engenharia imperial.
— Qual deles? — perguntou Aedena, a voz fraca, como se temesse a resposta.
— Zachary. Paul Zachary. — disse Lyra, encarando-a nos olhos.
Pela primeira vez naquela conversa, Aedena perdeu o controle das emoções. Seus olhos se arregalaram, e por um momento, Lyra pensou ter cometido um erro.
Mas, em vez de raiva ou medo, a professora riu.
Um riso solto, quase selvagem, que ecoou pela sala com uma alegria inesperada.
Quando enfim se acalmou, ainda sorrindo diante de uma Lyra perplexa, Aedena balançou a cabeça e disse:
— É incrível como o destino prega suas peças. Você… é filha dele. Inacreditável.
Lyra não sabia o que responder. Estava prestes a perguntar o que aquilo significava, quando Aedena falou de novo:
— Acredite se quiser… mas eu conheci seu pai.
A garota piscou, confusa.
— Espere… isso significaria que você tem mais de, sei lá, uns mil anos… Isso é impossível…
Aedena sorriu com os cantos dos lábios, mas não havia humor no gesto. Apenas cansaço e talvez algo como saudade.
— Bem. Acho que agora estamos quites. — Seus olhos encontraram os de Lyra, sérios. — Eu sei um segredo seu muito importante e perigoso. E você… agora sabe um meu. Talvez ainda mais perigoso.
Ela se afastou um pouco, como se deliberadamente colocasse uma barreira invisível entre as duas.
— Não vou negar, nem confirmar nada. E também não vou te contar nada da minha história por enquanto.
Quanto menos você souber, menos risco corre.
Aedena fez uma pausa. Seus olhos estavam atentos, agora novamente frios e calculistas.
— Só saiba que conheci seu pai. E sim… não conte a ninguém que é filha de um Praetor Primus, principalmente de Paul.
Ela respirou fundo, como se encerrasse ali o assunto.
— Me encontre aqui todos os dias, depois das aulas e antes do jantar. Vamos trabalhar no seu núcleo. É o que posso fazer por você. Por enquanto.
Quando chegou ao dormitório, Lyra encontrou o lugar quase vazio. Imara, Kara e Branth não estavam.
— Estão na área comum, estudando — comentou Tyla, sem tirar os olhos de um terminal. — Você também devia. A aula de Administração Imperial foi pesada hoje.
Calder, Russel, Rin e Tyla se aproximaram. Para eles, Lyra era a personificação do azar. No mesmo dia em que literalmente havia quebrado a cara, ainda sofrera um acidente com aether na aula de formação de núcleo.
Mas Lyra não parecia ouvir. Estava distante. Flutuando entre lembranças e cicatrizes.
Calder entrou em seu espaço pessoal e tocou-lhe o ombro com cuidado.
— Você tá bem?
Ela virou o rosto devagar. Os olhos marejados.
Ela queria dizer que não. Queria gritar. Dizer que não estava nem perto de estar bem. Que ela estava quebrada. Desfeita por dentro.
Nos últimos dias, foi arrancada da infância à força. Participou, mesmo que à margem, do massacre da Mina Dezenove. Voltou para casa apenas para ver sua família desmoronar.
Rob, o homem que a criara desde bebê, foi julgado por desvio de aether e executado diante de seus olhos. Não houve tempo para luto. Não houve tempo para nada.
Para preservar o que restava de sua Casa, foi coagida a se tornar um tributo. Abandonou tudo o que conhecia. Foi lançada num mundo onde sua vida já não lhe pertencia. Onde descobriu que sua existência era uma mentira cuidadosamente construída. Um segredo de mil facetas.
E mesmo ali, no Domatorum, a exposição continuava. Seus segredos estavam nas mãos de pessoas perigosas, Logan, Zyab, Aedena… e quem mais?
Haviam ferido seu corpo. Intencionalmente. Queriam quebrá-la. E estavam conseguindo.
E agora, o que a tornava especial, sua tolerância ao aether, havia sido arrancada. Um erro. Um bloqueador. Aedena dissera que era temporário, mas o golpe era profundo demais. Como continuar sendo ela… se já não sabia mais quem era?
— Eu… eu tô bem — murmurou para Calder.
Mas sua voz tremeu. Lágrimas quentes escorreram pelo rosto. Os punhos cerrados com força. As unhas cavando a carne.
Calder recuou, sem saber o que fazer. Tyla, atenta, levantou-se imediatamente.
— Fora daqui, vocês três — disse firme, encarando os meninos. — Agora. Me deixem com ela.
Eles hesitaram, mas obedeceram. Saíram em silêncio.
Tyla então se aproximou de Lyra, sentou-se na cama ao lado e, sem dizer nada, puxou a garota para um abraço. Aninhou sua cabeça contra o próprio peito.
— Deixe sair — sussurrou, firme e doce ao mesmo tempo.
E ali, no silêncio do dormitório, a dor que Lyra segurava há tanto tempo finalmente encontrou espaço para existir.
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