Lyra não se lembrava de ter adormecido. Mas acordou ao som estridente da sirene que marcava o início dos preparativos do dia. Estava estranhamente bem-disposta. Ainda abalada sim, mas não tão quebrada quanto estivera na véspera.

    Observou os colegas de quarto se levantarem com uma energia que beirava o absurdo. Como conseguiam?

    Será que todo dia era assim naquele lugar?

    Ela, pelo menos, tinha três dias de folga das atividades matinais. Suspirou, puxou o cobertor por cima da cabeça e tentou se enterrar nele.

    Ouviu a voz de Tyla ao sair do quarto:

    — Aproveite a manhã pra repassar a aula que você perdeu ontem. O conteúdo tá no tablet.

    Lyra sentiu o coração aquecer com o cuidado naquelas palavras. A lembrança do abraço apertado da noite anterior voltou com força. Não sabia o quanto precisava liberar o que carregava até que Tyla a deixara desabar.

    E, ali deitada, pensou que Tyla não se parecia em nada com Lady Aliah Sylaris.

    Tentou cochilar mais um pouco, mas não conseguiu. Acabou se trocando e foi até o banheiro, cumprindo a rotina de higiene com uma calma que há muito não experimentava. Depois, seguiu para o refeitório.

    Para sua surpresa, o lugar não estava vazio. Alguns alunos, legados, tributos e voluntários, já ocupavam mesas em silêncio, comendo ou estudando.

    Ela caminhou até o expositor e pegou panquecas com bacon. Torceu para que fosse bacon de verdade. Quando terminou, seguiu para a área comunitária e se sentou num canto. Ligou o tablet e começou a repassar o conteúdo de Administração Imperial.

    Em algum momento, sentiu um calor suave no peito. Instintivamente pousou a mão sobre a região: seu núcleo de aether. Notou, com certa surpresa, que o desconforto causado pela falta da substância não a incomodava como antes. Talvez o núcleo fosse uma forma que seu corpo encontrara para lidar com a abstinência. Ou seria algo mais?

    Pensou na sessão que teria à noite com Aedena. Ansiava por respostas. Era a primeira vez em algum tempo que ansiava por alguma coisa.

    Com o passar da manhã, porém, uma inquietação começou a crescer. Estava desacostumada a ter tempo para si mesma. Não sabia muito bem o que fazer com ele. Até que se lembrou de algo que Tyla comentara dias atrás, sobre as feraether, os ginásios especiais onde os mais graduados treinavam com suas feras vinculadas.

    Será que conseguiria ver um deles? Mesmo que só de longe?

    Consultou o mapa do complexo de prédios que formavam o campus e deixou que os pés a levassem, devagar. Era a primeira vez que podia caminhar por ali com calma, absorvendo as imagens e cenas ao redor sem pressa. Sem a pressão do relógio.

    O ginásio era uma grande cúpula cinzenta, parcialmente visível acima do solo, o grosso da estrutura parecia se estender subterrâneo. Ao se aproximar, percebeu que as portas principais estavam abertas. Os corredores internos eram largos, altos, revestidos de metal escovado. O chão, de concreto polido. No final, uma enorme porta dupla dava acesso à arena propriamente dita.

    Assim que se aproximou, Lyra perdeu o fôlego por um instante. Uma rajada elétrica veio em sua direção e explodiu a poucos metros. Um campo de força isolava a arena da arquibancada, e absorveu o impacto, mas o estalo da energia foi real. Os pelos de seu corpo se eriçaram com a eletricidade estática; os ouvidos zumbiam com a força da explosão.

    No centro da arena, um rapaz de cabelos loiros longos notou seu susto. Sem jeito, acenou para ela. Lyra apenas se sentou, sem conseguir tirar os olhos da cena.

    O rapaz comandava uma feraether altiva: um enorme lobo cinzento, com quase três metros de altura. Faíscas elétricas percorriam seu pelo espetado, como relâmpagos em movimento.

    — Uau… — murmurou Lyra.

    Era realmente impressionante. E então, em meio àquele espetáculo, avistou um rosto conhecido: Logan.

    Era ele quem liderava o treinamento. Montado em um lagarto alado gigantesco, de aparência feroz, gritava ordens para os alunos. Nenhum deles vestia os macacões típicos, usavam armaduras completas, com o símbolo do Domatorum estampado no peito. Estar no meio daquelas criaturas talvez fosse realmente perigoso, usar a armadura deveria ser uma proteção necessária.

    Lyra não entendia bem o que estava acontecendo, mas não conseguia desviar os olhos. As feras eram tão diversas quanto formidáveis.

    Contou três lobos elétricos. Quatro criaturas bípedes, simiescas e enormes com longos pelos negros e braços enormes e musculares. Uma massa negra disforme cheia de tentáculos. Um olho flutuante, que diferente do Oculae, possuía apenas um único grande olho que disparava feixes de energia. E outras feras que ela

    Foi então que sentiu o peso de um olhar.

    Logan.

    Ele a encarava do centro da arena. Seu rosto era uma máscara neutra, sem emoção visível. A observou por alguns segundos, e voltou a dar suas ordens.

    — Atenção! Preparem-se para reabsorver. Vamos praticar formações com habilidades compartilhadas! — ordenou Logan, a voz firme ecoando por toda a arena.

    Uma a uma, as feraether começaram a se desfazer. Transformavam-se em nuvens cintilantes de partículas douradas, que giravam no ar antes de serem sugadas para o peito de seus domadore, bem onde deveriam estar seus núcleos.

    Lyra se inclinou para frente, os olhos arregalados.

    — É por isso então… — murmurou. — As feras vivem dentro deles.

    — Luporax, campo de estática! — gritou Logan em seguida.

    Raios dispararam do corpo de três domadores, incluindo o rapaz que havia acenado para ela. As faíscas serpentearam pelo ar e se uniram, formando uma esfera elétrica ao redor de seus corpos. O campo vibrava com uma energia quase palpável.

    — Eles podem usar as habilidades da fera… — comentou Lyra, soando mais para si mesma do que para qualquer outro.

    — Simiemon. Crescimento. Ampliação de força. Ataquem os Luporax! — ordenou Logan.

    Quatro outros domadores avançaram. Seus corpos começaram a se expandir, musculatura inchando como se fossem inflados de dentro para fora. Cada um quase dobrou de tamanho, e as armaduras acompanharam a transformação, moldando-se ao novo porte de maneira orgânica.

    Os braços estavam monstruosamente largos, com mãos enormes, calosas. Eles partiram para o ataque, saltando com brutalidade sobre os domadores envoltos nas esferas de energia.

    Os golpes, socos e agarrões, colidiam com o campo elétrico. Alguns domadores eram arremessados para trás, ricocheteando no chão,  mas nenhum conseguia atravessar a defesa.

    — Vocês não aprendem nunca, é? — berrou Logan, impaciente. — Precisam aterrar a energia elétrica antes de atacar!

    Naquele instante, Lyra estava tão absorta que nem notou o tempo passar. Um alarme suave soou em seu tablet, lembrando-a do horário do almoço. Precisava voltar ao refeitório, encontrar os colegas e seguir para a próxima aula.

    Ao consultar o cronograma, seus olhos se arregalaram: teriam biologia de feraethers naquela tarde.

    Ela soltou uma risada breve, quase incrédula com a coincidência. Levantou-se apressada, ainda com as imagens do treinamento gravadas na mente.

    Mal podia esperar para contar aos outros o que acabara de ver.

    Chegou à área comum dos dormitórios no exato momento em que seus colegas retornavam do banho. Estavam visivelmente exaustos. Rin tinha um ralado largo no braço, e Lyra não conseguiu conter um sorriso involuntário. Ainda teria mais dois dias de folga daquela rotina.

    — Que foi isso, Rin? — perguntou.

    O garoto, porém, permaneceu calado, mergulhado em seu próprio mundo. Lyra apenas deu de ombros.

    — Ele levou um tombo na corrida — respondeu Calder, no lugar dele.

    — Mas ele corre tão bem… quase não se cansa — comentou Lyra.

    — Pois é. Acho que alguém passou uma rasteira. Não vimos direito o que aconteceu.

    — E você, Lyra? Como foi sua manhã?

    — Estava no ginásio. Um lugar incrível.

    Branth se animou na hora, saltando à frente.

    — Viu as criaturas? Viu como são incríveis? Eu amo as criaturas!

    Kara deu leves tapinhas no braço dele.

    — Nós sabemos disso…

    Seguiram juntos rumo ao refeitório. Imara observava o entorno com atenção, como se calculasse qualquer aproximação inesperada.

    Durante o almoço, Lyra contou sua experiência no ginásio, entre garfadas e goles de suco. Branth parecia uma criança empolgada, praticamente pulando no assento.

    Era o segundo dia consecutivo em que Lyra comia com gosto. Começava a desconfiar das injeções e da suplementação. Havia algo diferente em seu apetite.
    Depois da refeição, seguiram para o prédio das aulas. Branth, com o tablet em mãos, foi quem trouxe as novidades:

    — Aula de biologia de feraethers. Professora Nadine Clemont. Diz aqui que é uma domadora imperial licenciada.

    Lyra sentiu o coração acelerar.

    Estava mais ansiosa que imaginava pela aula.
    Entraram no anfiteatro com tempo de sobra.

    Procuraram se sentar nas fileiras mais próximas ao tablado, de onde a professora daria a aula.

    Ela entrou por uma porta lateral, no nível do palco.
    Era uma mulher de postura ereta, magra e longilínea. Usava um uniforme negro com detalhes em cinza e vermelho, com um broche do Domatorum preso à gola. Apesar dos cabelos loiros encaracolados, presos em um coque prático, aparentava ter mais de sessenta anos. Usava maquiagem leve, discreta.

    — Boa tarde — pigarreou. A voz foi amplificada por algum microfone de lapela oculto. — Bem-vindos à disciplina de biologia de feraethers.

    Ela começou a se mover pelo tablado com segurança, capturando a atenção da sala com naturalidade. Havia algo na sua voz, na postura, que exigia escuta.

    — Primeiro, um aviso: não vamos, de fato, estudar biologia. Feraethers não são criaturas regidas pelas leis da biologia como os demais animais. São seres cuja exposição natural ao aether, prestem atenção a essa palavra: natural, provoca mutações tão violentas que elas não podem mais ser classificadas com segurança pelos padrões da ciência.

    Fez uma breve pausa, percorrendo os olhos da turma.

    — Feraethers habitam um reino além da ciência. Já tentamos reproduzi-las em laboratórios, em situações controladas. Sempre falhamos. Por isso, o Império mantém certos planetas reservados exclusivamente à criação livre de feraethers. Como este em que nos encontramos.

    Estendeu um braço, como se abrisse uma cortina invisível sobre o mundo exterior.

    — Fora deste complexo… tudo é selvagem.

    Ela percorreu a fileira da frente com o olhar. Os olhos brilhavam, não apenas com severidade, mas com entusiasmo.

    — E é nesse contexto — apontou com um gesto amplo — que, em breve, vocês terão que enfrentar não apenas as feraethers… mas também a natureza implacável de Tartarus, o planeta onde estamos. Este mundo é lar de algumas das mais perigosas criaturas conhecidas pelo Império.

    Fez uma pausa, permitindo que o peso da afirmação se assentasse sobre a turma.

    — Minha missão aqui é simples — continuou. — Ensinar vocês a identificar as criaturas, compreender suas fraquezas, reconhecer seus pontos fortes. Para que, quando chegar o momento, saibam não apenas escolher a feraether ideal… mas também sobreviver ao encontro com uma delas em seu habitat natural.

    Levantou o dedo indicador e tocou a própria têmpora.

    — Apesar de muitas feraethers serem incrivelmente inteligentes, é isto aqui — apontou novamente para a cabeça — que nos garante vantagem. O conhecimento é o que nos permite subjugá-las. Lembrem-se: somos domadores, não tutores. Esse erro de mentalidade… já custou a vida de jovens promissores mais de uma vez.

    Ao ouvir a abertura da aula, Lyra não sabia se estava apavorada ou ainda mais entusiasmada. Apesar de tudo, tinha decidido não se esconder. Iria enfrentar o que jogassem sobre ela.

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