Naquela noite, depois do jantar, Lyra tomou um longo banho. A água morna não ajudava a esfriar o que sentia. Era o núcleo de aether? As provocações de Aedena? Ou algo ainda mais confuso e interno? Não sabia. Sabia apenas que seu corpo reagia de formas inesperadas desde que aquela energia estranha tomara forma dentro dela. Um calor em seu ventre, que irradiava para as pernas.

    Sabia que gostava de garotos. Ainda era virgem, como Aedena havia brincado, mas já tinha tido seus momentos, beijos, toques, calor. E gostava disso. Mas o que sentira naquela tarde a confundiu ainda mais, não parecia exatamente desejo. Ou pelo menos, não apenas isso.

    Rolou na cama, tentando dormir. Mas os pensamentos rodavam em espiral, os traumas revividos com Aedena, a súbita exposição no placar, a expectativa crescente que parecia se estreitar ao seu redor. Era como se o mundo estivesse cobrando dela mais do que tinha a oferecer.

    Virou de lado, enfiando o travesseiro entre as pernas em busca de uma posição mais confortável. O contato suave ativou um calor que ela não queria admitir. Gemeu baixinho, surpresa com a própria resposta involuntária.

    A voz sonolenta de Tyla cortou o silêncio do dormitório, um sussurro rouco:

    — Pare de se mexer, Lyra. Quero dormir. Continue aí, eu entendo, mas segura essa boca, oras…

    Lyra sentiu as bochechas queimarem. Vergonha e desejo se misturavam de forma confusa. Talvez… talvez aquilo a ajudasse a relaxar de verdade.

    Excitada pela ideia de Tyla poder ouvi-la, mas mantendo-se o mais silenciosa possível, deixou-se levar pelas sensações. Sentiu intimamente que aquilo era o que estava represado dentro de si. O corpo enfim cedeu. E, depois do turbilhão, adormeceu.

    Acordou com o soar da sirene. Sentia-se melhor. O calor interno havia sumido. O corpo parecia mais leve.
    Sentou-se na cama, preguiçosa, observando o alvoroço dos colegas de dormitório se arrumando.

    — Aproveite seu dia de descanso. É o último, né? — brincou Imara, Pegando a escova de dentes em seu escaninho.

    — Infelizmente é — respondeu Lyra, bocejando. — Amanhã minha folga acaba.

    — Depois de amanhã é domingo — comentou Russel. — Domingo é folga geral.

    — Com a benção do Demiurgo, quero passar o domingo sem fazer nada, de preferência ficar de pernas pro ar — disse Kara, sonolenta.

    — Eu também, vamos fazer isso juntos? — ronronou Russel, sorrindo sugestivamente para a ruiva.

    — Deixem de papo e vamos logo, vamos nos atrasar pras atividades matinais — rosnou Calder, já arrumado.

    Em poucos minutos, todos estavam prontos e desceram. Lyra pensou em dormir mais um pouco, mas estava desperta. Se levantou, fez sua higiene e desceu para o café da manhã. O estômago roncava, uma fome quase animalesca. Mais um mistério de sua nova condição.

    Na fila do refeitório, seus olhos não resistiram e se voltaram para o placar instalado no alto da parede. Ali estava: seu nome ainda em primeiro lugar. Um calor estranho voltou a subir pelo seu corpo. Não era orgulho, tampouco vergonha. Era um sentimento misto. Era como se aquele destaque tivesse colocado um alvo brilhante pendurado em sua testa, e na de seus amigos.

    Abaixou os olhos e seguiu. Queria apenas comer. Com isso em mente, sorriu consigo mesma, encher a barriga era algo que poderia fazer.

    Foi quando viu, na janela longa do expositor de comida, um único pão doce, dourado e macio, com creme em cima, esperando como um prêmio. Seu estômago voltou a roncar. Apurou o passo, bandeja no trilho. Já podia quase tocá-lo.

    Mas então, como um vulto, outra garota surgiu, uma tributo também, e pegou o pão na frente de Lyra. Sem aviso.

    — Ei! Esse pãozinho é meu! — rosnou, surpresa e indignada.

    — Não vi seu nome escrito nele — rebateu a garota, com um sorriso maldoso. Para provocar, enfiou o pão inteiro na boca, com escárnio. E ainda, piscou um olho.

    O mundo ao redor de Lyra desapareceu. Tudo silenciou. A garota estava ali, isolada, cercada por um contorno vermelho vibrante.

    Uma Raiva fria surgiu. Cortante.

    Antes que entendesse o que fazia, seu punho se lançou, veloz e certeiro, contra o rosto da garota. O impacto ecoou seco. Ela caiu.

    Lyra caiu por cima. Outro soco. Mais um. A adrenalina comandava. A raiva queimava. Queria fazer a garota sangrar. Queria apagar aquele sorriso. Queria… matar.
    Mãos a seguraram. Alunos, funcionários. Vozerio ao redor.

    Ela se debatia. Tentava se soltar. A garota sangrava, desacordada. Mas Lyra queria mais.

    Queria punir aquele inseto por sua insolência.

    Quando voltou a si, ofegante e trêmula, já era tarde.

    Estava contida por dois seguranças do Domatorum, imponentes em suas fardas negras, que a empurravam com firmeza por um corredor estreito e abafado. O som das botas ecoava nas paredes enquanto a conduziam até uma sala gradeada, onde a deixaram sem dizer uma palavra. Pela segunda vez em sua curta vida, Lyra se via trancafiada em uma cela.

    Sentada no chão frio, olhava para os próprios punhos, esfolados, vermelhos, latejando. Os nós dos dedos estavam marcados e rachados. A dor era suportável, mas o peso da culpa era sufocante. Imaginava o estado do rosto da garota, teria quebrado alguma coisa? Teria causado algum dano irreversível?

    Sentia um nó no estômago, a ânsia subindo como uma maré ácida. Suas mãos tremiam, as pernas fracas pareciam feitas de algodão. Nunca, nem mesmo nos momentos mais desesperadores, havia experimentado aquela fúria cega. Sempre fora intensa, sim, reativa, mas não violenta. Aquilo era novo. Estranho.

    Assustador.

    Passado um tempo que ela não soube medir, a porta se abriu e por ela entrou Briana, a instrutora de cabelos vermelhos como brasa. O olhar da mulher era gélido, calculista. Uma mistura de desprezo e um tipo peculiar de curiosidade.

    — Tem sorte, tributo 1404. A garota vai se recuperar. É uma peça valiosa do Império, assim como você — disse ela com a voz firme. — Vai me contar o que aconteceu?
    Lyra abaixou a cabeça, os olhos fixos nas rachaduras do chão.

    — Honestamente, não sei o que houve. Quando ela pegou aquele pão… foi como se algo tomasse conta de mim. Senti uma raiva tão grande, incontrolável. Era como se eu tivesse sido possuída.

    Briana a observou em silêncio por um momento, depois digitou algo em seu tablet.

    — Entendo… tem sentido dificuldade em se controlar? Alguma outra mudança de comportamento? Alterações físicas, mentais?

    — Por quê? — perguntou Lyra, inquieta. — O que está acontecendo comigo?

    A instrutora não respondeu. Apenas fez um gesto discreto com a cabeça. Um homem apareceu na porta.

    Era um enfermeiro, vestido com um uniforme branco, que trazia nas mãos um pequeno estojo metálico.

    Aproximou-se com calma, sem dirigir-lhe palavra, e preparou os materiais para uma coleta de sangue. Lyra não resistiu. Sentia-se estranha demais para protestar. Estendeu o braço e observou, em silêncio, o tubo se encher com o seu sangue rubro. O enfermeiro selou o tubo, agradeceu com um aceno de cabeça e desapareceu pelo corredor.

    — Pode se levantar, tributo. Está liberada — disse Briana. — Vou descontar dois pontos da sua pontuação por má conduta. E um aviso: evite danificar outros tributos. Se continuar a sentir que está perdendo o controle, dirija-se imediatamente à ala hospitalar. Entendido?

    Lyra assentiu, embora não compreendesse completamente o que estava se passando. Com o corpo ainda trêmulo e a cabeça latejando de confusão, foi escoltada para fora da cela.

    Sentia que havia algo crescendo dentro de si, e não fazia ideia do que encontraria ao final desse processo. Lyra queria apenas se enfiar debaixo das cobertas e esquecer do mundo. Sentia o peso do próprio corpo como chumbo e a cabeça cheia demais para pensar. Só desejava repousar por algumas horas, se esconder dos problemas até a hora do almoço, e depois seguir para as aulas da tarde como se nada tivesse acontecido.

    Mas, ao empurrar a porta do dormitório, encontrou seus colegas ali. O treino da manhã já havia sido encerrado, e todos pareciam em clima de pausa, espalhados pelas camas e pelos bancos do pequeno espaço comum.

    Tyla foi a primeira a notar suas mãos. Aproximou-se com o cenho franzido.

    — Ei… o que é isso? — disse, tomando as mãos de Lyra entre as suas. — Você brigou com alguém? Mexeram com você de novo?

    — Dessa vez quem começou fui eu — respondeu Lyra, desviando o olhar, a voz baixa, quase um sussurro envergonhado. — Eu bati numa garota… por causa de um pão doce.

    Imara levantou-se de onde estava e se aproximou, os olhos semicerrados, como se tentasse entender se aquilo era sério.

    — Um pão doce? Você ficou maluca? — disse, cruzando os braços. — Desse jeito, vai acabar parecendo um desses legados selvagens que perdem o controle por qualquer coisa.

    Ela se postou bem diante de Lyra, mas o tom de crítica foi rapidamente substituído por uma expressão estranha, algo entre espanto e fascínio.

    — Que foi agora? — perguntou Lyra, desconfiada.

    — Você tá mais alta — respondeu Imara, com firmeza.

    — E não é pouca coisa. Quase um palmo!

    — É verdade — confirmou Kara, levantando-se também, com o olhar fixo nas proporções de Lyra. — Você tá… diferente.

    — Mais forte também — comentou Russel com um sorriso enviesado. — Mais atlética. E não é porque tô prestando atenção, juro. É que eu reparo mesmo.

    — Tarado — retrucou Kara, revirando os olhos com uma careta de nojo teatral.

    Lyra franziu a testa e se aproximou do espelho afixado na parede do banheiro coletivo. Estudou sua silhueta refletida no vidro. E então percebeu: os ombros estavam mais largos, os bíceps marcados sob o tecido justo do macacão. Seu abdômen, mesmo coberto, exibia traços definidos, e as pernas pareciam mais densas, como se tivesse passado semanas em algum regime intensivo de musculação.

    — Que raios… está acontecendo comigo? — murmurou para si mesma, tocando o próprio rosto.

    Não esperou resposta. Virou-se sem dizer mais nada e cruzou a porta do dormitório em passos rápidos.

    Só havia um lugar onde poderia encontrar alguma explicação para aquilo.

    A ala hospitalar.

    Lyra atravessou as portas da ala hospitalar com passos duros, quase tropeçando na própria pressa. O corredor branco e silencioso parecia zombar de sua inquietação.

    Aproximou-se da primeira enfermeira que viu, a voz já embargada por uma raiva que borbulhava sob a pele.

    — Eu quero ver o Dr. Heisenhauer. Agora. — Sua voz saiu áspera, mais alta do que pretendia.

    A enfermeira recuou, assustada, e tentou argumentar algo que Lyra não escutou. Seu corpo inteiro tremia, mãos cerradas, coração acelerado, o calor subindo pelo rosto como fogo. Sentia-se à beira do colapso.

    — Eu só vou sair daqui depois que ele me atender! — gritou, já chamando a atenção de todos à volta.

    Os seguranças, sempre à espreita, se moveram com rapidez. Dois se aproximaram pelas laterais, mãos próximas aos coldres de contenção. Um deles ativou o comunicador no ombro, pedindo autorização para intervenção.

    Foi quando o Dr. Heisenhauer surgiu de um corredor lateral, imponente como uma torre. Magro, alto, com a postura rígida de um oficial, sua expressão não demonstrava surpresa. O rosto era marcado por linhas duras e olhos frios, um homem que carregava décadas de decisões difíceis.

    — Qual é o significado disso, Tributo? — perguntou, sem elevar a voz.

    — Exijo saber o que fizeram comigo! — gritou Lyra, o peito arfando. — Exijo!

    O médico ergueu uma das mãos. Os seguranças pararam instantaneamente. A autoridade que emanava dele era suficiente para conter qualquer avanço. Ele se aproximou com calma.

    — Se quiser respostas, vai precisar se acalmar primeiro.

    A frase acertou Lyra como um tapa. Por um instante, sentiu vontade de gritar de novo. Mas algo na expressão dele a deteve. Era uma mistura de cansaço e paciência firme. Ela fechou os olhos, respirou fundo. As lições com Aedena ecoaram em sua mente: estado de serenidade.

    Inspirou. Expirou. Inspirou mais uma vez. A raiva ainda fervia, mas começou a empurrá-la para longe, como quem expulsa um corpo estranho.

    — Estou calma — disse, após alguns longos minutos. A voz saiu rouca, mas controlada.

    Heisenhauer assentiu, como se isso fosse parte de um teste.

    — Não é culpa nossa, tributo. Apenas seguimos ordens. — Sua voz era dura, impessoal. — O senhor Crass nos instruiu a alterar suas drogas e dosagens. Desde então, você tem recebido uma carga elevada de hormônios… compostos desenvolvidos para os legados. É isso que está afetando seu comportamento. Oscilações emocionais, impulsos físicos. Esperávamos reações, mas não nessa intensidade. Ainda estamos ajustando as doses.

    O mundo pareceu girar. A informação caiu como chumbo sobre os ombros de Lyra.

    — Logan Crass… — murmurou, cerrando os punhos.

    Não disse mais nada. Virou-se sem dar ouvidos a mais explicações. Saiu do hospital em passos decididos, o olhar fixo, o maxilar travado.

    Aquilo precisava parar. Ela não era um rato de laboratório. Não era cobaia de ninguém.

    Estava na hora de visitar o reitor.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota