Capítulo 28: Nas entranhas do complexo
Nas entranhas do complexo, muito abaixo do nível principal do Domatorum, Jain, o responsável por conferir as cargas diárias, batia impaciente sua caneta eletrônica contra a tela da prancheta. Um alerta piscava no visor: algumas caixas haviam sido descarregadas, mas não constavam no manifesto de transporte.
Ele lançou um olhar desconfiado às caixas empilhadas no centro do depósito. Estavam claramente fora do esperado. A última vez que algo parecido aconteceu, seu superior apontou erro humano, o dele. Escutou desaforos por semanas. Mas agora, tinha certeza: aquelas caixas não deveriam estar ali.
Guardou a prancheta no coldre lateral e retirou de sua cinta de ferramentas um pé de cabra. Iria verificar o conteúdo por conta própria antes de acionar o chefe. Não tomaria mais broncas à toa. Não dessa vez.
— Jain, chefe, vamos indo — chamou um dos estivadores, já deixando o galpão. — Nosso serviço aqui terminou.
— Valeu, parceiro. Vai pedindo uma cerveja pra mim lá no bar.
— Você nunca aparece.
— Hoje a Mila vai. Óbvio que vou, estou de olho nela faz tempo.
— Quero só ver — riu o colega, desaparecendo pelo corredor.
Assim que o último estivador se foi, a luz do corredor piscou e se apagou. Jain estava sozinho. As caixas irregulares, silenciosas e misteriosas, permaneciam ali, empilhadas no centro.
Cuspiu nas mãos e firmou melhor o pé de cabra.
Com cuidado, encaixou a ponta na tampa de uma das caixas e fez força. Uma das tábuas cedeu com um estalo seco. O interior revelou um brilho metálico, intenso. Antes que pudesse mexer na segunda tábua, um ruído súbito o fez congelar.
— Quem está aí?
Virou-se, olhos varrendo a penumbra. O depósito era amplo, e a escuridão parecia se adensar nos cantos.
As luzes vacilaram novamente. Tudo apagou por um instante, mergulhando-o no breu absoluto. Quando voltaram, fracas, Jain já estava com os pelos do braço eriçados.
Um zumbido eletrônico reverberava ao fundo. Algo surgiu da escuridão. Uma silhueta.
Engoliu em seco.
— Quem está aí?
Do escuro, surgiu uma figura envolta em um manto escuro. O capuz foi abaixado, revelando uma cabeça inconfundível: um dos calculadores do complexo.
— Caramba, que susto, calculador Olson… — disse Jain, aliviado. A voz, porém, traiu o nervosismo. — O que posso fazer por você?
Dois homens surgiram logo atrás. Eram carregadores uniformizados, grandes, silenciosos. Jain não os reconheceu. Aquilo era estranho, pensou que conhecia todo mundo.
— Acho que algumas caixas minhas vieram parar com você por engano, conferente Jain — disse Olson, com uma voz amistosa.
— São suas? Ótimo! Já ia abrir pra ver o que era.
Os carregadores começaram a recolher as caixas e empilhá-las em um reboque mecânico que haviam trazido. Tudo parecia correr bem, até Jain se dar conta de um detalhe.
— Calculador Olson — chamou. — Tem a ordem de coleta? Eu preciso registrá-la.
— As caixas não estavam fora do manifesto?
Jain franziu o cenho.
— Como você sabe disso?
A pergunta pairou no ar, pesada.
Ele percebeu tarde demais. Era uma remessa clandestina. Contrabando.
A intenção de Olson transbordava. Jain recuou um passo, mas não teve tempo de levantar as mãos. Um tiro ecoou pelo depósito.
Seu peito explodiu em sangue. A pistola de repetição fumegava na mão firme de Olson.
Sem pressa, o calculador fez um sinal para que os carregadores jogassem o corpo sobre as caixas no reboque. Tirou o próprio manto, um dos símbolos de sua casta, e cobriu o cadáver e parte da carga.
— Pelo Axioma Primordial — murmurou, num fervor quase religioso. — Pelo Axioma.
Encostou um pequeno aparelho metálico na base da nuca. Um clique sutil. As câmeras de vigilância mudaram de registro.
A luz do corredor vacilou uma última vez, e então, em silêncio absoluto, eles desapareceram com a carga.
Lyra sabia que não estava no controle. Respirava fundo, tentando organizar os pensamentos. A aula de Aedena no dia anterior ainda ressoava em sua mente, mas a fúria que a consumia insistia em queimar em seu sangue.
Lembrou-se do legado que agarrou Imara no refeitório. Sentiu pena dele. Agora podia entender o que era viver à beira do colapso, com o corpo cheio de drogas e hormônios para conter algo que queria transbordar. Em vez de raiva, restava compaixão.
Sabia que não podia encontrar Logan naquele estado. Ele tinha poder sobre ela. Poder de vida ou morte. Se queria qualquer chance de conversar de forma racional, precisava se estabilizar.
Tateou os bolsos do macacão até encontrar uma pequena dose de aether, parte de sua cota semanal. Aquilo era o que precisava: foco. Clareza.
Aplicou-se.
A euforia disparou pelas veias como fogo líquido. Sentiu eletricidade subir pela espinha. A mente se abriu. As ideias voltaram a se organizar. Finalmente, podia pensar.
Chegou ao prédio da administração.
A estátua da cobra, enrolada em torno do símbolo de aether, a fez rir. Era aquilo que ela era agora, uma fera, domada momentaneamente por uma dose de droga.
Entrou. Imaginou-se chegando ali descontrolada. Seria presa. Ou pior: receberia uma surra do próprio Logan. A ideia, ao invés de aterrorizá-la, divertiu-a. E isso a assustou mais do que a possibilidade em si. Era o aether? Ele causava essa dissociação? Um traço de loucura latente? Lembrou-se de quando havia rido na Mina 19, em meio ao caos.
Antes que se dirigisse à recepcionista, ouviu:
— Suba. Ele está lhe esperando.
Agradeceu e refez o mesmo caminho da outra vez. Quando deu por si, já estava diante da porta do reitor. Estava aberta. Logan estava de pé, afastado da mesa, em postura de combate.
Mas quando viu Lyra, serena, controlada, sua postura mudou. Relaxou os ombros, endireitou as pernas. Parecia aliviado. Lyra quase riu. Fazia sentido. Aquilo provavelmente era comum entre legados: encontros com potencial para violência. Por isso o caminho até ali estava livre. Evitavam danos colaterais. Prático. E inteligente.
Ela ergueu o aplicador de aether, ainda em mãos.
Logan observou, e seu olhar mudou. Havia compreensão, agora.
— Jogada inteligente, tributo Veyne — disse Logan, com a voz carregada de uma tensão que começava a ceder. — Estava preparado para machucar você de verdade. Não admito insubordinação. Bom saber que teve o bom senso de se acalmar.
Antes que Lyra pudesse abrir a boca para responder, ele continuou, como se quisesse deixar tudo dito de uma vez.
— Eu cometi um erro, tributo. Admito. Estava com raiva, perdi o controle. Lidei com um problema da pior forma possível e quase deixei escapar uma joia rara. Talvez a mais valiosa que essa Casa já colocou as mãos. Você. Quero pedir desculpas.
— Ahn? — deixou escapar Lyra, surpresa de verdade.
Mesmo com o aether acalmando seus nervos, não era o tipo de coisa que esperava ouvir da boca de Logan Crass.
— Sei de tudo que acontece na minha escola — prosseguiu ele. — Sei dos bloqueadores, do acidente na aula da senhora Medinni. Do surto que você teve. Da garota que você espancou.
Ele olhou para Lyra e continuou.
— Mas você só não foi para a cela por uma semana inteira porque eu sei que a culpa não era sua. Era da medicação. Hormônios em excesso. Uma carga feita para legados. Fui eu que mandei aumentar as doses. Eu errei. Já mandei suspender. Você vai receber as drogas padrão para tributos, tenha ou não sangue de legado.
— Você descobriu… como? — perguntou Lyra, ainda tentando processar tudo. O aether mantinha sua mente afiada, mas aquilo ainda parecia surreal.
— Zyab — respondeu Logan. — Mas não foi ela quem me contou diretamente. A culpa, no fim das contas, foi sua.
— Como assim? O que eu fiz? Mal completei uma semana nesse lugar.
— Exatamente. E já atraiu mais confusão do que alguns em um ciclo inteiro. Você é um ímã para problemas, Veyne. Não me faça me arrepender de não ter chamado os inquisidores.
Ele se virou e sentou-se sobre a mesa, o som hidráulico da perna protética preenchendo o silêncio da sala por um segundo.
— Como você me perguntou… foi a Voz. Você usou a Voz em um legado. Algo que não deveria ser possível.
— A Voz? — repetiu Lyra, como se a palavra carregasse mais peso agora.
— Sim. Lá no refeitório. Você mandou todo mundo parar. E todo mundo parou. Até aquele maldito legado em crise de cio. Isso não acontece. Não devia acontecer. Nem a sua querida Zyab consegue isso. Os legados foram projetados para serem imunes a qualquer tipo de dominação psíquica. Mas você os calou.
— E você lidou com isso da única forma que conhece. Esmagando. — As palavras escaparam da boca de Lyra como uma lâmina afiada.
Logan sentiu o golpe. Por instinto, sua postura mudou. Pensou em avançar, mostrar que ainda era ele quem mandava ali. Mas se conteve. Estava ali para reconhecer erros, não repeti-los.
— Sim — respondeu, com o maxilar tenso. — Já entendi que, ao fazer isso, não só prejudiquei você, mas me prejudiquei também. Seu valor depende do seu crescimento. De alcançar seu limite — fez uma pausa, olhando-a fixamente. — Mulheres não se tornam legados.
— Agradeço por reconsiderar sua decisão — disse Lyra, com o tom mais firme do que antes. — Uma coisa a menos para me preocupar. Estou dispensada?
— Pode ir, tributo.
Lyra já estava quase além da porta quando ouviu a última frase de Logan, seca e cortante como sempre.
— Lembre-se que lhe prometi ser justo. Isso, pelo menos, eu ainda posso cumprir.
Ao sair do prédio, contornando o caminho que levava ao ginásio, Lyra quase colidiu com um carrinho de reboque, puxado por dois homens usando macacões alaranjados de serviço. A estrutura metálica vibrava sobre as rodas com um rangido abafado, e algo sob a lona presa no compartimento traseiro parecia emitir um leve brilho azul.
— Olhe por onde anda, tributo — ralhou um deles, sem nem diminuir o passo.
Lyra parou por um instante, surpresa com o tom ríspido. Aquilo não era comum. Em geral, os trabalhadores evitavam confronto direto com os alunos do Domatorum. O olhar breve que trocou com o homem revelou apenas indiferença.
Mas ela não tinha tempo para aquilo.
Apertou o passo. Precisava correr se quisesse almoçar e ainda chegar a tempo da próxima aula.
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