Capítulo 29: Fazendo amizades
Apenas ter conversado com Logan parecia já ter feito a temperatura interna baixar alguns graus. A vontade de quebrar coisas, gritar ou fugir simplesmente se dissipara um pouco, como se uma das válvulas de pressão tivesse finalmente sido aberta. Saber que a medicação voltaria ao normal bastava para tornar o mundo menos sufocante.
Conferiu o tablet. Não daria tempo de almoçar.
Chegou na aula instantes antes do professor entrar. Se largou na cadeira ao lado de Tyla, soltando um suspiro abafado.
— Tá tudo bem? — Tyla perguntou de canto, sem virar muito o rosto. — Tava parecendo uma maluca mais cedo…
— Agora tô melhor. — Lyra hesitou. — Quanto ao que aconteceu de noite…
— Intimidade sua. Não quero saber. O professor chegou. Vamos fechar a boca.
Lyra sentiu as bochechas esquentarem de novo. Era injusto. Queria explicar que seus hormônios estavam desregulados, que não era exatamente culpa dela, mas a voz do professor já ecoava pelo salão.
Era mais uma aula de Teoria de Estratégia Militar. E, como da última vez, era conduzida pelo professor James Stuart, um Calculador, rígido, de fala controlada e passos silenciosos.
Apesar do nome do curso, a aula por enquanto era basicamente sobre História Imperial, uma introdução longa e minuciosa dos eventos que moldaram o domínio do Império sobre as galáxias.
Lyra se deu conta, com um aperto no peito, de que ainda nem tinha iniciado o trabalho solicitado para a próxima semana. Aquela disciplina era particularmente difícil para ela. Ter crescido tão longe dos centros imperiais cobrava seu preço agora. Sabia pouco da verdadeira história, e muito do que conhecia vinha cheio das interpretações da Igreja.
Eram narrativas similares em estrutura, mas com lacunas enormes.
Esperava que Tyla ainda estivesse disposta a ajudá-la nos estudos.
— Qual foi o primeiro front de batalha da Primeira Guerra Eterna? — perguntou o professor, andando lentamente pela frente da sala. — E quem sabe qual é o último front que surgiu, e quando?
Mãos se ergueram imediatamente. Todos os legados sabiam a resposta. Eram criados desde o berço dentro do sistema imperial, educados nas próprias Legiões. Se não fossem designados para funções como domadores ou Calculadores, sequer teriam contato com outros seres humanos fora de suas unidades.
O professor ignorou os de sempre e apontou para Tyla, que também tinha levantado a mão com calma.
— A primeira ruptura que marca o início das guerras fratricidas — e, por consequência, da Primeira Guerra Eterna — aconteceu na Via Láctea, respondeu ela com clareza. — Esse evento delimita o ano 1 do calendário imperial. Como estamos no ano 5355… façamos as contas.
A turma riu da provocação leve, mas o silêncio voltou assim que o professor assentiu.
— A última ruptura conhecida ocorreu há cerca de 150 anos — prosseguiu Tyla. — Relativamente perto daqui, a mil anos-luz. No sistema de Gerion 5. É o front atual da Sexta Guerra Eterna. Estão alocadas lá, atualmente, a 13ª e a 9ª Legião.
Alguns dos legados se levantaram e bateram o punho no peito com orgulho quando suas Legiões foram mencionadas. Entre eles, o de dentes perfeitos, o mesmo que tinha cruzado o caminho de Lyra algumas vezes. Ele a olhou diretamente, sorrindo abertamente. Será que não sabia como seu sorriso era desconfortável?
Ao lado dele, o outro, o que havia agarrado Imara dias atrás, parecia igualmente satisfeito com a menção.
Lyra desviou o olhar, desfazendo o contato visual. Os legados a faziam pensar demais sobre si mesma, sobre o que era, o que havia se tornado e o que poderia vir a ser, mas agora não era o momento para mergulhar nessas questões. Por ora, queria apenas ser uma aluna comum, invisível, livre das pressões externas.
Para sua surpresa, o professor a corrigiu:
— Quase certo, tributo Valka — disse, com os olhos tremendo de leve enquanto processava informações em tempo real. Era assim que fazia: consultava os dados do Domatorum sobre os alunos enquanto falava, um truque impressionante que lhe conferia autoridade e controle. — O início das Guerras Fratricidas aconteceu antes da Primeira Ruptura. Poucos anos antes, na verdade. Foram o estopim da Primeira Guerra Eterna, mas não são o mesmo evento. Costumamos ensinar diferente para os mais jovens. É mais fácil acreditar que a humanidade se uniu primeiro contra ameaças externas, do que aceitar que começamos nos destruindo entre nós.
Ele fez uma pausa, ergueu os braços em um gesto quase teatral e continuou:
— Foi ali, naquele momento limiar, que o homem que viria a se tornar o Imperador, hoje, nosso Demiurgo selou nosso destino. Ele jurou que a humanidade jamais voltaria a guerrear contra seus próprios irmãos. Louvado seja o Demiurgo.
A classe respondeu quase em uníssono, erguendo a mão com o sinal dos três dedos:
— Louvado seja o Demiurgo.
— Agora — retomou o professor, a voz firme — quero saber: como a Primeira Ruptura mudou para sempre a trajetória da humanidade? Quem pode responder?
Lyra sabia essa. Pelo menos, parte dela. Seus anos de trabalho em campos de mineração garantiam esse conhecimento. Levantou a mão, e o professor apontou para ela.
— Aether — disse simplesmente. A palavra soou pesada, definitiva.
— Muito bem dito — elogiou o professor, com um leve aceno de cabeça. — Quase tudo que conhecemos hoje nasceu naquele primórdio. O aether nos permitiu romper as limitações da matéria, desafiar as leis conhecidas. Foi o que possibilitou as viagens mais rápidas que a luz, a criação dos legados, o surgimento dos psíquicos… e, para substituir as inteligências artificiais, que nos traíram, criamos os Calculadores e os Navegadores. Aether, nossa salvação… e, também, nosso suplício.
O professor prosseguiu com a aula, projetando imagens holográficas sobre a superfície branca da lousa, cenas do passado imperial que pareciam tão distantes quanto mitos. Falou sobre o primórdio da consolidação do Império: os anos caóticos das guerras, a entrada do aether na vida humana, e como o Escolhido do Aether se tornou o ser mais poderoso da espécie, unificando toda a humanidade sob uma única bandeira.
Explicou o surgimento da Segunda e da Terceira Ruptura, como essas brechas na realidade se tornaram fronts permanentes de batalha, exigindo vigilância constante. Em resposta, veio a militarização da sociedade, a fundação das primeiras Legiões e a subsequente pacificação dos territórios.
— Entre os maiores apoiadores do futuro Imperador — disse o professor, enquanto exibia retratos dos primeiros líderes militares — estavam Paul Zachary, Praetor Primus da Quarta Legião, e Magnus Holt, Praetor Primus da Segunda, um dos maiores entusiastas da criação dos Inquisidores.
Os legados ergueram o punho cerrado até o peito, em um gesto firme e cerimonial. Um deles, que estava próximo, se destacou aos olhos de Lyra. Tinha cabelos negros, como os dela. Traços similares. Um instante de estranha conexão.
É só minha cabeça me pregando peças, pensou, afastando a ideia como fumaça no vento.
Quando a aula terminou, enquanto os tributos se dispersavam em pequenos grupos, um deles murmurou em tom entediado:
— Que raios de aula é essa? Só velharia de história…
Tyla, que ouviu ao passar, respondeu baixo, como se falasse apenas para Lyra:
— Temos que conhecer as batalhas… pra depois estudar as táticas militares.
Ela piscou para Lyra, cúmplice.
— Me ajuda a fazer o trabalho? — perguntou Lyra, se movimentando para a saída.
— Claro. Quero terminar ainda hoje, deixar o domingo livre pra relaxar.
— Hoje tenho que me encontrar com Aedena… daqui a pouco, na verdade.
Tyla fez uma careta, como quem desaprova ter de mudar seus planos.
— Então fazemos domingo. Eu espero até lá.
Lyra sorriu e a abraçou com gratidão.
— Você é a melhor, sabia?
— Na verdade, não… — respondeu Tyla, retribuindo o abraço com estranheza.
Lyra correu pelos corredores até a sala da Professora Aedena. A aula ainda não havia terminado. Parou ao lado da porta, controlando a respiração, ansiosa para continuar o treino, e para contar sobre a Voz.
Esperou cerca de quinze minutos, tentando não demonstrar impaciência. Quando os primeiros alunos começaram a sair, ela se posicionou discretamente, afastada do fluxo.
Foi então que seus olhos cruzaram com os de uma garota que saía da sala. Muito bonita. Cabelos loiros ondulados, e finas linhas prateadas marcando o rosto como tatuagens vivas. Ela sorria enquanto conversava com os colegas, mas ao ver Lyra, o sorriso morreu no mesmo instante.
Acompanhando a garota, vinham dois rostos que Lyra não esqueceria tão cedo: o brutamontes careca que havia quebrado seu rosto e o tributo loiro de sorriso debochado que a ameaçara dias antes. Ele, ao vê-la, abriu um sorriso largo. Um sorriso que lembrava o de um predador ao encontrar uma presa ferida.
Instintivamente, Lyra levou a mão à máscara roxa que ainda usava. A proteção apertava o rosto em recuperação. Engoliu em seco, e só não recuou porque havia uma parede atrás dela.
A garota loira parou bem à sua frente. Usava um macacão vermelho. Uma voluntária.
— Helena, vamos. Deixe o lixo aí — disse o loiro, num tom entediado.
Mas Helena não se moveu. Fitou Lyra de cima a baixo. Era mais alta. Seus olhos brilhavam com uma mistura de curiosidade e julgamento.
— Lyra Veyne… esperava mais de você.
O sangue de Lyra ferveu. Naquela manhã mesmo, havia mandado uma garota para o hospital por roubar um pão doce, e essa idiota vinha falar com desdém? Mas antes que pudesse responder, uma voz firme surgiu logo atrás.
— Algum problema aqui, tributo Orsini, voluntária Sylaris? — perguntou Aedena Medinni, agora diante da porta.
O loiro virou-se com naturalidade.
— Nenhum, senhora Medinni. Helena está só fazendo… amizades.
— Sei. — Aedena ergueu uma sobrancelha. — Lyra, para dentro.
Lyra a seguiu sem olhar para trás. O coração disparou; sentiu as pernas amolecer. Sylaris… a garota loira era uma Sylaris. Apesar do susto, as engrenagens em sua mente finalmente se encaixaram. Agora sabia quem queria vê-la no chão, e isso mudava tudo. Ela podia se defender melhor.
Respirou fundo e se concentrou na professora à sua frente.
— Preciso te contar uma coisa — adiantou-se, ainda descendo os degraus do anfiteatro atrás de Aedena.
Aedena parou e se virou, séria. Lyra arregalou os olhos, alarmada.
— O que foi que eu fiz?
— Já falei pra me chamar de Aedena. Nem “senhora Medinni”, nem “professora”… só Aedena. — A expressão dela suavizou, mas os olhos ainda estavam atentos.
Lyra soltou uma risadinha, aliviada.
— Você me assustou. Achei que tivesse feito algo errado.
— E fez, não falei já? — Aedena retrucou com um meio sorriso. — Mas vá lá… o que era tão urgente que te fez me esperar no corredor?
— Como a senh… você sabe?
Aedena apenas a olhou, como se a resposta fosse óbvia, e esperasse mais dela.
Lyra respirou fundo, sentindo o peso do que prestes a dizer.
— O reitor Logan disse que eu usei a Voz… em um legado. E que isso deveria ser impossível. O que isso significa, Aedena?
A professora a encarou por um instante, o olhar agora mais fechado. Como se medisse palavras invisíveis antes de soltá-las. Por fim, virou-se e continuou a descer a escada em direção à parte inferior da sala.
— Isso… significa que precisamos conversar seriamente. — disse, por fim.
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