Aedena se sentou à sua mesa. Lyra posicionou-se à sua frente, os ombros tensos.

    — Me explique isso direito — pediu a professora. — Essa coisa da Voz.

    — Foi o que o Reitor disse. Que eu usei a Voz em um legado. E por isso ele mudou meus remédios. Por isso me deu os bloqueadores. Ele até pediu desculpas.

    — Uma resposta típica de tipos como ele. — Aedena estreitou os olhos. — Não sei como não chamou os inquisidores.

    — Ele disse que sou muito valiosa.

    — Valiosa? Hmph. Ele deve ter planos para você no futuro, isso sim. Mas continue.

    — Teve um episódio no refeitório… um legado no cio tentou agarrar uma amiga minha. Eu mandei ele parar… e ele parou.

    Aedena arqueou uma sobrancelha.

    — Só isso? — disse em um tom descrente.

    — Bem… talvez o refeitório inteiro tenha obedecido.

    Aedena congelou por um instante, depois se levantou devagar. Pegou um pequeno dispositivo da gaveta e escaneou o escritório inteiro, os olhos atentos ao visor.

    — Nenhuma escuta. Ele ainda não renovou os microfones e câmeras aqui.

    Voltou a se sentar, o olhar sério.

    — De quem você descende, não me surpreende. — Ela suspirou. — Mas isso muda tudo. Terei que te educar de outro modo. Ensinar coisas que não pretendia. Coisas que podem me comprometer, Lyra.

    Lyra baixou a cabeça, um peso frio crescendo no peito. Não queria ser um fardo. Não queria prejudicar a única pessoa que confiava nela de verdade.

    — Dane-se. — Aedena murmurou, com raiva mal contida. — Não serei eu quem vai podar seu desenvolvimento. E olha que costumo não acreditar em destino, mas… você estava destinada a me encontrar. Só eu posso te ensinar o que precisa. Eu… ou uma Matriarca.

    Fez uma pausa longa. Depois continuou, firme:

    — Vou te ensinar, Lyra. Depois que dominar o estado de Serenidade. Mas terá que fazer um juramento. Um juramento de sangue. Um pacto que impede você de revelar qualquer coisa do que for aprendido. É considerado heresia fora dos círculos eclesiásticos.
     

    Lyra sentiu o estômago revirar. Heresia. Rob havia sido executado por isso. Aquela palavra carregava uma sombra profunda demais.
     

    — Se não quiser… posso ensinar só o básico — completou Aedena. — Mas quem estará limitando seu caminho… será você mesma.

    — Posso pensar nisso? É que… heresia é um assunto complicado.

    — Imagino que sim. — Aedena suavizou o tom. — O trauma ainda é muito recente. E se eu te dissesse que… quem me ensinou o que quero ensinar você… foi seu pai?

    Lyra arregalou os olhos. Aedena levou a mão à boca, como se tivesse falado demais.

    — Já falando coisas que não devia… — murmurou.

    — Mesmo assim, preciso pensar. Você me dá um tempo?

    — Claro, querida.

    Aedena se levantou, agora com outro brilho nos olhos.

    — Vamos continuar, então? Quero que domine o estado de Serenidade. Vamos decompor esse seu núcleo, garota. Primeiras coisas primeiro.

    E, sem dizer mais nada, mergulharam no treinamento.
     


    Muito longe do planeta Tartarus, em uma galáxia distinta e esquecida pelos mapas estelares mais recentes, uma nave moderna, sem qualquer identificação visível, rompeu a atmosfera de um planeta agrícola. A terceira ruptura havia ocorrido não muito distante dali, em escala cósmica. O planeta em questão chamava-se Terraria, uma homenagem nostálgica ao berço ancestral da humanidade. Sua força produtiva vinha de extensas plantações de grãos e da criação de gado em pastos intermináveis.

    A nave desceu suavemente sobre o pátio de carga e descarga da zona 23, ao lado de um hangar colossal que coordenava a maior parte das operações logísticas do setor. Era início de tarde, segundo o horário local.

    Todo aquele território era supervisionado, há gerações, pela Casa Tremonti, uma dinastia regional cujos laços com o Império garantiam autonomia e respeito. Eram considerados incorruptíveis, firmes como o solo que cultivavam.

    Assim que a rampa da escotilha foi baixada, Raphael desceu com passos medidos. Já o esperava um homem trajado com as insígnias da Casa Tremonti.

    — É uma honra, senhor Inquisidor — saudou o anfitrião, curvando levemente a cabeça.

    Mal teve tempo de se recompor quando duas figuras femininas desceram logo atrás. Matriarcas. Usavam máscaras peroladas e seus véus, um deles preto, o outro azul, com bordas prateadas, que desciam até a cintura. Matriarcas.

    O homem levou três dedos à testa e ao coração, gesto de respeito e temor.

    — É uma honra receber as senhoras também — completou, a voz um pouco embargada.

    Uma delas soltou uma risadinha abafada. Pelo entalhe simples da máscara e a tonalidade escura do tecido, era uma  Matriarca de Primeiro Grau, estava talvez em suas primeiras missões de campo.

    A outra a reprimiu. Estava acima na sua hierarquia interna, mas ambas ainda respondiam ao inquisidor.

    Raphael estendeu a mão ao representante local. Tinha olhos verdes penetrantes, frios e calculistas. Era magro, de membros longos, quase desproporcionais, e rosto severo. A aparência lembrava algo entre um eremita e um monólito.

    — Inquisidor Raphael Montechio. Essas são minhas assistentes, Matriarcas Alina e Vida — disse, revelando um distintivo escondido sob a lapela de seu grosso sobretudo de couro negro. — Desde já, invoco a Supremacia do Inquisitorum. Quero todos os recursos do planeta à minha disposição.

    — Claro, claro… eu sou Filipe Tremonti — respondeu o homem, esfregando as mãos de modo nervoso, mas cordial. — Tudo o que vossa excelência requisitar estará pronto imediatamente.

    Naquela mesma noite, em uma residência ampla no centro administrativo, Raphael consultava dados em seu tablet, conectado à rede interna da Igreja.

    Vida se alongava no fundo do cômodo, como se tivesse energia acumulada que não sabia onde pôr. Nunca conseguia ficar parada por muito tempo. Raphael imaginava que aquilo era algum tipo de desvio ou trauma oculto, mas não era de sua conta,  não enquanto ela continuasse a cumprir suas funções com precisão cirúrgica. E isso ela vinha fazendo com retidão.

    Alina, mais comedida, sentava-se ao seu lado, os olhos atentos nas projeções. Era sempre ela quem organizava os dados, cruzava possibilidades e levantava as perguntas certas. Tinha uma natureza analítica. Estavam estudando o trajeto de uma nave que havia entrado naquele sistema solar de forma clandestina, sem autorização imperial ou da Casa Tremonti. A nave que seguiam.

    — Não há dúvidas, excelência. A nave só poderia ter aterrissado aqui, em Terraria. Mas afinal… o que exatamente estamos caçando?

    — Uma seita antiga — respondeu Raphael, sem tirar os olhos do visor. — Pré-imperiais. Heréticos. Suas crenças não confrontam o credo do Demiurgo de maneira direta. Talvez por isso sejam ainda mais perigosos que os lunáticos que veneram horrores além do Véu.

    — Eles têm nome? — perguntou Alina, franzindo o cenho detrás da máscara.

    — Um nome que, suponho, vocês Matriarcas já ouviram sussurrado em seus treinamentos. Yeh’Isus.

    Ao ouvir aquilo, Vida se aproximou de imediato. A história contava que certas técnicas de combate e disciplina das Matriarcas tinham raízes obscuras nessa seita esquecida.

    — interessante — sussurrou a jovem Matriarca. Suas palavras ignoradas por hora.

    — E o que exatamente estamos procurando aqui? — insistiu Alina, já antevendo o peso da missão.

    — Erradicar a seita neste planeta. E encontrar pistas. Essa seita sumiu por milênios. O que os trouxe de volta agora?
     



     

    Em uma estação espacial de luxo, orbitando em alguma rota segura entre os sistemas centrais, o Patriarca Halvian Sylaris, lorde supremo da Casa Sylaris, desfrutava de uma sauna privativa. Estava acompanhado de dois homens de confiança e de uma dezena de serviçais.

    O ambiente era amplo, elegante, banhado por uma iluminação difusa que parecia simulada à perfeição para emular a luz natural de um entardecer. A sauna funcionava também como sala de banhos e salão de conversas. Os vapores eram perfumados com extratos de orquídeas de Artalum.

    Todos os serviçais presentes eram surdos, escolhidos a dedo para que jamais traíssem segredos. As mulheres pareciam esculpidas em mármore polido, enquanto os homens não eram menos perfeitos, exibindo proporções clássicas e beleza controlada até nos mínimos detalhes.

    A única exceção a esse mutismo seletivo eram os assistentes pessoais dos três senhores ali presentes: Halvian, seu suserano e velho aliado Gero Orsini, e Syan Sylaris, o favorito na linhagem sucessória.

    Curiosamente, Syan não era seu filho. Era um sobrinho distante, o que fazia das filhas de Halvian suas maiores inimigas.

    Syan estava recostado com desleixo calculado, a cabeça apoiada no colo de um jovem de pele alva salpicada por manchas douradas, ombros largos e feições suaves. O rapaz lhe oferecia uvas com delicadeza. Era seu novo secretário, designado apenas alguns dias antes. Ainda estava em avaliação, mas os exames mentais preliminares haviam garantido lealdade e estabilidade.

    — Padrinho… meus homens descobriram novas informações sobre a relíquia. Estou cada vez mais perto — murmurou Syan, com um leve sorriso, sem abrir os olhos.

    — Mais um motivo para que meu estimado Gero me apoie na empreitada — respondeu Halvian, sem virar o rosto, com a naturalidade de quem já dava tudo como acordado.

    — Sabe que vou apoiar você — disse Gero, sua voz grave e arrastada. — Meu sobrinho é um inútil como senador. O cargo será seu… desde que a relíquia acabe nas minhas mãos. Esse era o trato, não?

    Gero tinha cabelos totalmente brancos, mas o vigor ainda se mantinha. Seu corpo, embora não escultural, era firme, preservado sem os artifícios comuns de modificação aethérica. Orgulhava-se disso. Com um gesto breve, chamou uma das serviçais. Queria que ela esfregasse suas costas, com o vigor exato que só uma criada bem treinada sabia oferecer.

    — E suas filhas? — provocou, em tom leve, lançando o olhar a Halvian. — Ainda tentando te impressionar?

    — Acho que está na hora de casá-las com algum aristocrata insuportável. Talvez assim sosseguem… e me deixem ocupar meu trono no Senado em paz.

    A risada que se seguiu foi genuína. Os três senhores riram juntos, como velhos predadores que compartilham um banquete.

    Halvian se ergueu da piscina. Era alto, esguio, atlético, e, ao contrário de Gero, exibia com orgulho um corpo modificado. Sua pele era inteiramente dourada, como uma estátua viva de alguma divindade esquecida. Com um aceno, chamou duas das mulheres para o acompanharem. Queria uma massagem completa e privada. Enquanto se afastava para os aposentos mais reservados do complexo, a voz de Gero o seguiu como um lembrete afiado:
     
    — Não se esqueça: quero minha relíquia.

    Relíquias. Objetos de uma civilização extinta, anterior à própria ascensão do Império. Tecnicamente incompreensíveis, operavam por princípios que pareciam indistinguíveis da magia. Algumas eram classificadas como heresia absoluta; outras, toleradas por sua utilidade estratégica. Uma das mais conhecidas era o Anel de Salto de Anharon, um artefato orbital capaz de dobrar o espaço.

    — Meu melhor homem está no encalço dela. Não se preocupe, Lorde Gero — respondeu Syan, mordiscando mais uma uva enquanto sorria para o jovem ao seu lado. — A relíquia já pode ser considerada sua, é somente questão de tempo.

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