Capítulo 31: Segredos dentro de segredos
Assim que dispensou Lyra, Aedena seguiu em silêncio para seus aposentos. O prédio onde residiam os professores ficava logo atrás daquele onde ela costumava dar aula. Bastava uma breve caminhada pelos corredores de serviço. Assim que atravessou a porta de entrada do edifício, viu Logan se levantar. Ele a aguardava, sentado em um dos sofás da recepção. A peça, embora robusta, parecia de brinquedo sob o peso do legado.
— Professora Medinni — disse ele, a voz grave. — Uma palavra, por favor.
Aedena parou diante dele, o olhar firme e elevado. Não se intimidava com a altura ou o porte dele. Logan tragou lentamente de seu charuto, o aroma amadeirado preenchendo o espaço.
— Não me recordo de ter autorizado aulas particulares — disse ele, direto.
Aedena respirou fundo antes de responder.
— Você quase a matou. Por malícia ou ignorância. E, sinceramente, prefiro acreditar que foi por ignorância.
— Errei, admito. Achei que conseguiria bloquear o talento dela. Não quero perguntas inconvenientes por aqui. Pareceu ser o certo.
Sem esperar resposta, continuou.
— Mas por que tanto segredo? Por que não posso acompanhar o desenvolvimento das habilidades dessa garota?
— Então é isso… controle — disse Aedena, com um meio sorriso. — Você não está bravo por eu estar ensinando Lyra. Está bravo porque não pode controlar o que eu ensino a ela.
Logan cerrou os olhos.
— Você é uma caixa de segredos, Srta. Medinni. Se não tivesse sido indicada por… aliás… isso é bem suspeito, não acha?
— O quê?
— Você foi recomendada pelo Comando da Quarta Legião. Damocles me ligou pessoalmente para que eu aprovasse sua entrada na Academia. E agora essa garota, Lyra Veyne… filha de Paul Zachary. Está tudo conectado demais para o meu gosto.
— Será mesmo? Fui recomendada há um ano e meio. Lyra chegou agora. E se não fosse sua obsessão por controlar tudo, eu nem teria descoberto quem era o pai dela. Que o Demiurgo o tenha.
— Ele não está morto.
— Não sabemos.
Aedena fez uma pausa, depois suavizou o tom.
— Quanto ao treinamento, pode deixar. Manterei nossas sessões em sigilo. Mas assim que terminar, prometo redigir um relatório completo.
— Por que o segredo?
— Porque ela se abre nesse tipo de treino. E eu também. Quero ao menos o mínimo de privacidade.
Logan a fitou por longos segundos. Seus olhos pequenos e duros avaliando cada detalhe da expressão dela, da postura, da respiração. Não gostava de coincidências. Nem de zonas cinzentas.
Por fim, balançou a cabeça, num gesto de concessão forçada.
— Justo. Mas quero acompanhar o desenvolvimento dela. Suas habilidades. E não quero que ela seja treinada na Voz.
— Eventualmente, ela encontrará o caminho.
— Que não seja aqui. Entendido?
Aedena soltou o ar com força.
— Sim.
Logan se virou e caminhou até a saída.
— Boa noite, professora.
Assim que entrou em seu apartamento, Aedena ativou o scanner que trazia consigo. Era como um ritual. Poucos segundos depois, encontrou o que suspeitava: uma microcâmera e um minúsculo captador de áudio. Os extraiu com precisão e os destruiu sem hesitar.
Sentou-se à mesa. Massageava lentamente o próprio pescoço. Logan sempre a deixava tensa, como se instintivamente lhe causasse enrijecimento dos músculos. Fechou os olhos, buscando o foco. Entrou num estado meditativo. Suas memórias ainda estavam fragmentadas, o preço de passar milênios em suspensão era alto. A cada dia, precisava remontar pedaços soltos de sua identidade, de sua história, como quem coleta cacos de uma alma quebrada.
— A filha de Zach… quem diria — murmurou. — nas minhas mãos…
Forçou-se a lembrar dele. Do cheiro. Do toque. Estremeceu. A lembrança do amor que sentira por aquele homem ainda era vívida. Ela havia sido uma entre suas escolhidas. Antes de existir um Imperador. Antes mesmo do Império.
Estar longe de suas irmãs era como a ausência de um membro amputado. Uma dor fantasma que jamais passava.
E, mesmo depois de tudo que haviam feito, depois de entregarem seus corpos e dons para ajudar na unificação, ele ainda escolhera o lado do Imperador.
Suspirou, cansada. O passado estava enterrado. Paul Zachary, perdido além do Véu.
De dentro de uma caixa lacrada, retirou um tablet militar, selado com o brasão da Quarta Legião — Legio Caelestes. Uma chama pura com asas abertas.
Destravou o aparelho com digital e leitura de íris. Um único arquivo estava destacado.
“Temos indícios do surgimento de uma Relíquia em Tartarus. O oráculo da Legião previu. Descubra informações. Quem dominar a Relíquia terá destaque no futuro que se aproxima.”
Aedena leu a mensagem sem reação visível. Em seguida, suspirou e fechou o tablet e o escondeu de novo.
Ainda não estava perto de nenhuma resposta. Mas também não era mais o primeiro dia.
— Me descongelaram pra isso — sussurrou, com desdém e pesar, não sabia porque ainda aceitava trabalhar para eles. — E parece que minha missão agora é outra…
Na manhã seguinte, em Terraria, o inquisidor Raphael acordou antes do nascer do sol. Usou sua dose matinal de aether e fez suas preces ao Demiurgo. Não era um sacerdote, mas fora educado nos rituais da fé desde pequeno.
Não sabia como lidar com público, nem se importava com isso. Havia sido treinado desde cedo para aplicar a justiça do Império, e da Igreja. Sua função era obedecer, julgar e eliminar.
Era um psíquico. Um pirocinético, mais precisamente. Não tinha grande talento para ler pensamentos ou intenções profundas, mas conseguia discernir mentiras com razoável precisão. Sua mente, como seu corpo, era afiada e perigosa.
O caso dos Yeh’Isus havia chegado até ele por aquilo que chamava de graça do Demiurgo. Investigava o surgimento de um bruxo selvagem nos arredores de um planeta menor quando anotações em papel, uma raridade em si, caíram em suas mãos.
Raphael conhecia os Yeh’Isus por interesse próprio. Sempre fora um estudioso de história antiga, dos tempos pré-imperiais, quando homens e deuses ainda dividiam os mesmos tronos. As anotações falavam de rituais, nomes esquecidos e símbolos associados à seita. Ligando os pontos, seguiu o rastro até Terraria: um planeta agrícola, remoto, ignorado pela maioria das rotas estelares. Suas comunidades eram supersticiosas, isoladas, e preferiam fingir que não viam o que se passava nos quintais vizinhos.
Não achava que os Tremonti estavam envolvidos. Apenas sabiam manter distância, e o planeta, com seu silêncio rural e campos extensos, era o esconderijo perfeito para qualquer heresia.
— Senhor — a voz de Alina rompeu o silêncio do alojamento, precisa como sempre. — Detectei uma decolagem não autorizada. Sistema de camuflagem militar, mas inferior aos sensores da nossa nave.
— Certo. Conseguiu localizar o ponto de decolagem?
— Sim. Temos a coordenada exata.
— Avisa o piloto. Ligue os motores e prepare-se. Partiremos imediatamente. Ah, e diga à Vida para não brincar em serviço. Pode ser perigoso.
— Estaremos prontas, senhor.
Em poucos minutos, a nave se lançou com motores em modo furtivo. Tecnologia alimentada por aether, silenciosa e letal. O local indicado no mapa era uma vila agrícola modesta, cercada por campos e galpões. Pelos visores, Raphael viu mulheres, crianças, e apenas alguns poucos homens visíveis.
— Dê a volta. Vamos pousar atrás daquele grupo de árvores. A aproximação será a pé — ordenou ao piloto.
Assim que a nave tocou o solo e a escotilha se abriu, Raphael verificou seu colete de proteção, conferiu as pistolas e a carga de munição. Colocou mais uma pastilha azulada de aether sob a língua. Melhor prevenir. Nunca se sabia quando precisaria queimar alguém por dentro.
— Prontas? — perguntou, sem esperar resposta.
As Matriarcas já estavam a postos. Alina e Vida vinham logo atrás, ambas com seus punhais tradicionais em mãos.
Correram até a vegetação espessa que cercava a vila. Lá, se esconderam, observando. Raphael mantinha os olhos frios e atentos. Ele esperava uma emboscada. Ou um erro.
Assim que avançaram em direção às primeiras casas, foram notados. Uma mulher os viu. As Matriarcas, com seus véus e máscaras cerimoniais, eram fáceis de reconhecer.
Em vez do gesto respeitoso dos três dedos ao peito, ouviu-se um grito:
— Inquisidores!
Imediatamente, a vila entrou em movimento. Pessoas corriam. Mulheres, crianças e até alguns homens avançaram em direção ao prédio central, uma igreja dedicada ao Demiurgo. Ironia.
Droga, pensou Raphael. Tanta preparação para manter discrição, e tudo desmoronara no primeiro minuto.
Sem hesitar, fez mira e disparou. A mulher que gritara caiu antes de alcançar a porta da igreja. Ele fez sinal para as Matriarcas irem à frente, checando as casas. Queria evitar emboscadas.
De uma das construções, algo explodiu: Vida foi arremessada por uma janela, caindo e rolando na terra. Levantou-se de imediato. Uma mulher de cabelos escuros, presos em uma longa trança, saltou atrás dela.
Raphael ergueu a arma, fez mira e atirou. Mas a mulher saiu do caminho no último instante. Ela tinha alta sensibilidade e Raphael deixara escapar sua intenção assassina.
Vida não desperdiçou a abertura. Avançou com suas adagas em punho. A mulher, desarmada, defendia-se com agilidade impressionante. Mas estava em desvantagem.
Raphael analisava a cena, percebeu que Vida não era páreo para a estranha. Então, concentrou-se.
Visualizou os átomos ao redor da mulher começarem a vibrar. Mais rápido. Cada vez mais. Aumentando o atrito molecular.
Vida, conhecendo bem o inquisidor, recuou a tempo. Um instante depois, o ar em volta da mulher pareceu se distorcer, como se a própria realidade tremesse.
O calor a atingiu em cheio.
A pele borbulhou. Os gritos foram imediatos. O cheiro de carne, tecido e cabelo queimado encheu o ar, embrulhando o estômago de Vida.
A mulher ainda tentava gritar quando a adaga da Matriarca cortou sua garganta, pondo fim ao seu lamento.
Apressaram o passo e chegaram até a igreja. Era um prédio simples porém digno do Demiurgo.
A igreja estava silenciosa. Silenciosa demais.
Raphael se aproximava com cautela, as matriarcas às suas costas. A porta principal entreaberta, as paredes velhas ainda decoradas com os simbolos do Demiurgo e da igreja, gastos pelo tempo e pela fé. Mas não era fé o que ele sentia dali. Era tensão.
— Estão nos esperando — Alina murmurou. — posso sentir suas intenções vazando.
Raphael assentiu mas não hesitou.
Ao passar pela soleira, um som seco estourou no interior. Cinco homens surgiram dos bancos, roupas simples, mas armados com escopetas e com disposição. Dispararam quase ao mesmo tempo. A primeira rajada ressoou como um trovão nos tímpanos.
Raphael rolou para a esquerda, levando o impacto de um disparo direto no peito. Seu colete chiou, absorvendo parte da energia, mas não toda. O ombro doeu, queimando sob o impacto. Perdeu o folego. Iria deixar marcas.
Alina não hesitou. Levantou a mão, os olhos fixos em dois deles.
— Parem. — sua voz ressoou, não com força, mas com poder.
Os dois homens pararam como se tivessem batido contra uma parede invisível. Um deles deixou cair a escopeta. O outro chegou a dar um passo para trás. Mas não houve tempo para fugas. As adagas de Alina giraram no ar, negras e fatais. Cravaram-se na garganta e no coração, respectivamente.
Vida avançou como uma sombra. Sua frustração era combustível. Ainda se doía de ter sido surpreendida por uma mulher comum, se é que havia algo de comum nela. Não pretendia repetir o erro. Encontrou um dos homens distraído, tentando flanquear Raphael. Atravessou a distância em segundos e enfiou a adaga entre as costelas dele. Girou. O grito foi abafado pela própria surpresa do homem.
Raphael, ainda cambaleando do impacto, levantou a mão. O calor se acumulava em seus dedos. O suor brotava da testa. Um gesto rápido, uma explosão curta de ar quente e seco, e os últimos dois oponentes tombaram, os olhos abertos, pele tostada em pontos.
— Cuidado — alertou Alina.
Uma nova presença invadiu o campo como um sopro gélido. Da penumbra da sacristia, surgiu uma mulher de meia-idade, os cabelos grisalhos presos num coque severo, o rosto marcado por rugas que pareciam talhadas em pedra. Os olhos, escuros e intensos, carregavam um peso antigo. Na mão, trazia uma espada embainhada, de lâmina longa e empunhadura desgastada, como uma relíquia esquecida de eras passadas.
Mas ela não precisou da lâmina para agir.
Raphael foi o primeiro a cambalear. A mente dele pareceu escorrer, como se os próprios pensamentos se tornassem água. O mundo rodou. Uma voz sussurrava em sua cabeça, uma voz que não era dele.
— Ajoelhe-se. Você não é juiz aqui. — disse a mulher, sem mover os lábios.
Vida tentou atacar, mas foi repelida por uma barreira invisível, atirada contra os bancos. Alina hesitou por meio segundo, tempo demais.
A mulher sacou a espada. Não era ornamentada. Era uma arma de combate, pesada, de aço antigo. As matriarcas recuaram para as bordas da nave da igreja, tentando flanquear, mas a mulher se moveu como uma lutadora experiente.
Vida se ergueu, com o rosto ensanguentado, e correu em arco. Alina seguiu pelo outro lado. A mulher girou, desviando da primeira investida, bloqueando a segunda. A lâmina reluziu ao cortar o ar. Um golpe rasgou o ombro de Vida, outro pegou de raspão a perna de Alina.
Mesmo feridas, as duas matriarcas atacavam em sincronia. A mulher bloqueava um ataque, mas deixava brechas para o outro. Sangue começou a escorrer de um corte na lateral do corpo dela.
Raphael, ainda tonto, forçava sua mente a recuperar o foco. O aether queimava em suas veias, tentando reagir. A presença mental da mulher era forte demais.
Mas então, um erro. Um golpe mal calculado. A mulher perdeu o equilíbrio e Vida escorregou por baixo da guarda da oponente e perfurou seu abdômen com as duas adagas. A mulher gemeu, tentando girar a espada.
Alina se lançou por cima, cravando a própria lâmina no ombro dela, forçando-a contra o chão da igreja.
— Você não vai fugir da justiça do Demiurgo — sussurrou.
A mulher tentou falar algo, mas só cuspiu sangue.
Silêncio.
As duas estavam ofegantes e feridas. Raphael, de joelhos, finalmente recuperava o controle sobre si mesmo.
Alina se virou para ele.
— Está bem?
Ele assentiu, rangendo os dentes.
— vamos desentocar esse ninho de ratos.
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