Capítulo 32: Por entre os dedos
Raphael xingava baixinho. Palavras feias, rudes, cuspidas entre os dentes. Se seus superiores estivessem ali, diriam que estava blasfemando, e com razão.
Chutou um dos bancos da igreja com força. A madeira gemeu, mas não cedeu. A raiva explodiu como uma maré. Quando passou, ele respirou fundo e endireitou as costas. As costelas doíam, uma dor funda, aguda. Provavelmente havia quebrado uma ou duas com o impacto do tiro que tinha recebido.
O som das gotas de sangue das Matriarcas, pingando no chão de pedra, era a única coisa que ainda ecoava no templo. Nenhum canto, nenhuma reza. Nada vindo da vila lá fora. Só o silêncio e o cheiro de pólvora e sangue.
Raphael encarou o sangue que se acumulava sob os pés delas. Não era a primeira vez que via aquilo… mas nunca deixava de ser incômodo. Passavam por treinamentos árduos para ignorar ferimentos desses tipos. Dificilmente algo saudável.
— Chame a nave — disse, a voz baixa, sem emoção. — Eles já fugiram mesmo. Vocês duas precisam de pontos.
A nave pousou poucos minutos depois, na praça vazia à frente da entrada da igreja. Alina e Vida caminharam até a pequena enfermaria a bordo, ambas ainda sangrando. Raphael, no entanto, não se deu esse luxo. Resolveu vasculhar o local enquanto podia.
Empurrou o corpo da mulher caída com a ponta da bota. Tinha sido uma adversária à altura, bela, de meia-idade, olhos vazios agora. O rosto, marcado por rugas discretas e raízes grisalhas, ainda carregava traços de imponência.
Se não estivesse acompanhado das Matriarcas, teria morrido. Era um lembrete brutal de que precisava praticar mais suas defesas mentais.
Os homens armados tinham ficado para morrer. Sabiam disso. Foram enviados para atrasar. A mulher… aquela mulher… ficara para se sacrificar, ou, quem sabe, com sorte, eliminar os inquisidores. As demais pessoas, mulheres e crianças, aproveitaram a confusão para fugir. As marcas de uma nave rápida havia sido encontrada sob a igreja, escondida num hangar improvisado, camuflado nas fundações do templo. Um túnel levava a uma saída uns cem metros dali.
— Malditos — rosnou Raphael, cuspindo no chão de pedra. Odiava perder sua presa.
Mas, na pressa, não conseguiram apagar todos os rastros. E isso poderia ser sua vantagem. Com certeza teriam outras pistas para pegar eles mais tarde.
Com paciência, começou a revirar caixas empilhadas no hangar subterrâneo. Muitos dos conteúdos eram inúteis, roupas, ferramentas, suprimentos. Mas então, um achado: um grosso registro de papel, encadernado à moda antiga. Listagens de pessoas da vila. Nomes e sobrenomes, linhagens inteiras. Várias gerações de trabalhadores.
Seria um trabalho para os calculadores cruzarem os dados, encontrarem incongruências. Rastrear conexões ocultas. Descobrir quem ali era apenas um inocente e quem pertencia à seita. Raphael, no entanto, já suspeitava: toda a comunidade era herege. Uma colônia silenciosa. Um ninho. Teria que investigar junto aos Tremonti, verificar se tinham alguma espécie de censo.
Ao retirar uma lona encardida que cobria uma parte da parede lateral do hangar, prendeu o ar.
Assobiou, surpreso.
— Tirei a sorte grande aqui — murmurou, um sorriso se abrindo devagar em seu rosto machucado.
Diante dele, três cápsulas de êxtase antigas. Muito antigas. Estranhamente bem preservadas, apesar do tempo. Devem ter mais de mil anos, deduziu, ao ver os brasões desgastados, o emblema original da Quarta Legião gravado em cada uma.
Todas vazias.
A cápsula central estava cercada por velas, algumas ainda queimadas até a metade, outras já consumidas. Amuletos e oferendas envolviam a base da estrutura.
Um altar de adoração grotesco: colares de orelhas humanas, um livro encadernado com couro de pele real, uma adaga de lâmina fosca e cabo entalhado a partir de um fêmur, e outras coisas com dentes, cabelo. Os Yeh’ Isus tinham o costume de presentear sua sacerdotisa com coisas feitas de seus inimigos derrotados.
Raphael se agachou, observando o altar profano.
— Cor Cogitans… — murmurou. — Achei você.
Duas semanas se passaram num piscar de olhos. A rotina era dura, exigente, mas Lyra começava a perceber que o corpo e a mente se moldavam, como se aos poucos estivesse sendo talhada para aquele novo mundo. Era domingo, o único dia livre que tinham.
Tributos e voluntários se espalhavam pelos gramados do Domatorum: alguns tomavam sol, outros riam em pequenos grupos, enquanto os mais disciplinados aproveitavam para adiantar tarefas e relatórios.
O dia havia começado com uma grande celebração campal de louvor ao Demiurgo e ao Império. Para Lyra, criada em um lar onde as tradições litúrgicas nunca ocuparam muito espaço, aquilo soava enfadonho, quase uma propaganda encenada, repetida em voz alta. A cadência ensaiada das palavras do sacerdote a deixava inquieta, como se tentassem enfiar uma verdade pronta goela abaixo.
Ainda assim, quando desviou o olhar, surpreendeu-se: muitos legados e tributos estavam de pé, imóveis diante da capela central, alguns com os olhos marejados, tocados de forma evidente pelo sermão. Lyra os observou em silêncio, sem compreender por inteiro aquele fervor que parecia mais um transe coletivo do que fé.
Quando a liturgia terminou, o clima se transformou de imediato. O peso da solenidade se quebrou, e cada um seguiu para onde quisesse, livres pela primeira vez naquela semana.
Lyra estava satisfeita com o ritmo que havia conquistado. Conseguiu alcançar o conteúdo das aulas e manter as matérias em ordem. A tal Helena Sylaris parecia tê-la deixado em paz, e os treinos com Aedena estavam rendendo frutos concretos. Seu núcleo já havia encolhido bastante. O de vários colegas da sua turma já estava completamente formados. Todos do dormitório oito haviam cristalizado os próprios núcleos. Branth estava radiante. Restava apenas mais uma semana. Depois, viriam as escolhas das feraether iniciais. E Lyra mal podia esperar.
Ainda não havia decidido se aceitaria aprender as lições secretas propostas por Aedena. Não sentia necessidade, e a professora também não forçava o assunto.
Mas uma coisa era certa: Lyra já não deixava escapar suas intenções com facilidade. Nem mesmo Rin era capaz de detectar seus pensamentos superficiais.
Nos domingos, cada aluno tinha direito a uma ligação, inclusive os tributos. Era o segundo domingo de Lyra na escola. E, como na semana anterior, ela ligou para sua tia Virna, que até pouco tempo atrás ela chamava de mãe. A primeira ligação havia sido estranha. As duas apenas se olharam e choraram, por longos minutos. Foi só a intervenção de Elias, seu priminho, que conseguiu quebrar o ciclo e arrancar sorrisos delas.
Virna havia lhe contado que nas minas as coisas seguiam mais ou menos as mesmas. Um primo do outro lado da família agora era o novo gerente. Caine continuava entre os capatazes, e Ciel havia sido liberado para operar as brocas novamente.
Na ligação de hoje, todos estavam lá: Caine, Ciel, Elias e Virna. Lyra sorriu ao ver os rostos familiares do outro lado da tela.
— Você está abatida — murmurou Ciel. — Pálida.
Caine lhe deu um tapa na cabeça.
— Que comentário idiota, moleque.
Lyra riu. Sentiu no peito aquela saudade que não cicatrizava.
— Como estão as coisas aí, querida? — perguntou Virna, com a voz suave de sempre.
— Estão bem, mãe. Ainda tenho dificuldades nas matérias teóricas, mas Tyla tem me ajudado bastante. Agora, nas atividades físicas e práticas, acho que estou à frente de todo mundo da turma.
— Ainda está na frente do placar? — provocou Ciel, escondendo a cabeça com as mãos e espiando Caine, esperando outro tapa. Que, dessa vez, não veio.
— Nem fala isso… a distância diminuiu, mas eu e meus colegas do dormitório ainda estamos na frente. Se a gente segurar mais uma semana, vamos nos mudar pra mansão.
— Uau. Sempre soube que minha prima era dureza.
Um aviso na transmissão começou a piscar em vermelho no canto da tela.
— Meu tempo está acabando, gente… Fiquem bem. Até semana que vem.
Do outro lado, todos acenaram e mandaram beijos. A imagem se apagou.
Lyra enxugou uma lágrima teimosa, que insistia em ficar pendurada no canto do olho.
Ao sair da cabine, teve uma surpresa. Tyla deixava outra cabine, bem ao lado. As lágrimas riscavam seu rosto perfeito.
Ao ver Lyra, tentou recompor a expressão, limpando o rosto às pressas.
— Problemas em casa? — perguntou Lyra, com gentileza.
— Minha mãe… — respondeu Tyla, e os olhos logo se encheram de novo.
Lyra não disse nada. Estendeu a mão e puxou Tyla para longe dali, atravessando o pátio até um espaço mais reservado, sob uma árvore no gramado extenso.
Lyra não perguntou. Tyla também não falou. Apenas deitou no colo da garota e deixou que ela mexesse em seu cabelo em silêncio. Chorou muito. E, toda vez que olhava para Lyra, as lágrimas voltavam.
Mais tarde, quando já estava mais recuperada, Tyla se levantou devagar.
— Obrigada, Lyra. Eu não mereço sua ajuda.
— Imagina. Você é quem mais me dá apoio aqui.
A resposta fez os olhos de Tyla se encherem de novo.
— Preciso ir agora — disse ela, se virando com passos lentos e incertos, como se não soubesse para onde estava indo.
Lyra fez menção de segui-la, mas desistiu. Resolveu deixá-la curtir o próprio silêncio. Às vezes, era exatamente disso que alguém precisava.
Começava a escurecer. Em breve, o jantar seria servido. Lyra lembrou que no domingo anterior haviam sido surpreendidos com carne de verdade, assada, não um substituto processado, mas carne mesmo, com gordura crocante e cheiro de especiarias. Sua boca se encheu d’água só de imaginar.
Foi quando escutou um ruído atrás de si. Virou-se, alerta. Nada. Apenas o gramado já mergulhado em sombras. Então, um som abafado, soluços? Pareciam vir de um beco estreito entre dois prédios.
— Tyla?
Chamou com hesitação, e se aproximou. Mas antes que pudesse cruzar a entrada do beco, algo foi puxado por cima de sua cabeça, um tecido grosso, opaco. Um saco. Escuro e abafado.
Lyra reagiu no reflexo. Golpeou o ar em todas as direções, movida pelo desespero. O coração batia com violência no peito, o estômago congelado pela adrenalina. O som abafado da própria respiração a deixava tonta.
Sentiu o cotovelo acertar alguma coisa, carne, osso. Um baque seco. Alguém soltou o ar com força, como se tivesse levado um soco.
Passos apressados ecoaram, fugindo.
Inspirou com violência, o ar fresco ardendo nos pulmões. Estava suada; lágrimas e catarro escorriam pelo rosto. Arfava. O coração ainda disparado.
Jogou o saco no chão com raiva. Quando a luz fraca tocou o tecido amarrotado, viu algo rabiscado em letras tortas, quase arrancadas da própria raiva. Curvou-se, abriu o saco para enxergar melhor.
“Pra escória não achar que esquecemos dela.”
A frase queimou mais do que o sufoco.
— Filhas de uma puta — cuspiu entre os dentes, a voz rouca, trêmula de ódio.
Voltou pelo mesmo caminho, ainda trêmula. O susto não passava. A claustrofobia. A sensação de impotência. O medo, esse, principalmente, a corroía por dentro, mesmo que ela não quisesse admitir.
Procurou pelos amigos no local onde haviam passado a tarde, mas não encontrou ninguém. Então seguiu para o refeitório.
Assim que entrou, seus olhos bateram na primeira mesa. Lá estavam Helena Sylaris e seus capangas. O rapaz de cabeça raspada exibia uma marca vermelha na testa, fruto da cotovelada.
O sangue de Lyra ferveu, mas, graças ao Demiurgo, os hormônios manipulados já não a dominavam.
Abriu um sorriso lento e se aproximou, passos controlados, olhos fixos no grupo. Eles a notaram, cochicharam entre si e riram com desdém.
— Recebi seu recado, garota Sylaris — sibilou Lyra, fingindo um descontrole que não sentia mais. — Pode deixar que não vou esquecer de vocês. Nunca.
Helena se levantou. Era só um pouco mais alta que Lyra, embora com menos força visível.
— E o que vai fazer? Continuar se escondendo, que nem o verme que é? — devolveu Helena, dando ênfase cruel à palavra verme, em busca de reação.
Seus dois comparsas também se levantaram, formando uma linha hostil.
De longe, Lyra viu Calder e Branth se aproximando. Tinha contado a eles, e aos demais do dormitório, que era alvo de alguém. Eles sabiam de tudo, ou quase tudo.
— Não, garota. Pelo contrário — retrucou Lyra, firme. — Vou retribuir. Assim como me pegaram de surpresa… vou pegar vocês. Quando menos esperarem.
Virou-se. Uma pequena multidão havia se formado. Seguranças do refeitório observavam com atenção.
Deu mais um passo, então parou. Sorriu de lado, sem olhar para trás.
— Ah… — completou, com veneno doce. — Escória se escreve com c, não com qu.
E saiu, deixando as palavras pairarem no ar como uma sentença.
No meio do caminho, encontrou Calder e Branth.
— O que aconteceu, Lyra? — perguntou Branth, os olhos cheios de preocupação.
— Nada demais — respondeu, como se fosse verdade. — Quero comer. O que tem de especial neste domingo?
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