Todos se levantaram para voltar juntos para o dormitório. Lyra contou, com detalhes contidos, o que havia acontecido. Como tinha sido surpreendida. Tyla, por outro lado, não apareceu para o jantar.

    Rin observava os colegas em silêncio. Tentava compreender o que se passava. Sempre tivera dificuldades em se comunicar, mas não por incapacidade de fala, nem por timidez comum. Era algo mais profundo. O que as pessoas diziam e o que ele captava de suas mentes raramente combinavam.

    Desde muito novo era assim. Não ouvia pensamentos, exatamente, mas sentia. As emoções vinham até ele como ondas: raiva, cobiça, luxúria, medo, mentira. Sentimentos cruzavam o ar como cheiros, cores ou calor, e Rin os absorvia sem querer. Havia aprendido filtrar mas ainda assim era atordoante.

    Gostava de Lyra porque ela era simples de decifrar. Suas emoções transbordavam com naturalidade. Eram sinceras. Não oscilava como Calder, nem dissimulava como Tyla, que pensava uma coisa, dizia outra e sentia uma terceira. Lyra era transparente, como Kara e Russel. Kara brincava, mas sem maldade. Russel, esse só pensava em garotas. Em Kara, na maior parte do tempo. E Branth… Branth era um livro aberto. Sentia afeto por todos ali, mas sua paixão verdadeira eram as feraether.

    Rin, no entanto, agora não conseguia mais ler Lyra.

    O brilho emocional que antes escapava dela havia desaparecido. Havia um bloqueio, como se uma parede grossa houvesse sido erguida. Quando tentava tocar sua mente, encontrava apenas o vazio.

    sso o preocupava. Não queria que ela se tornasse uma estranha.

    Mas havia algo mais. Algo muito mais incompreensível.

    Rin sentia que algo naquele planeta, algo antigo e profundo tentava alcançá-lo. Tocava sua mente, buscava uma brecha, desejava contato. Era como se uma consciência dormente enviasse impulsos ritmados, pedindo aceitação. Ele nunca sentira nada parecido. não era hostil, nem carregava hostilidade, mas o deixava preocupado.

    — Rin, vamos, não fique aí parado no meio do caminho — chamou Imara. — Vamos pro dormitório. Amanhã é segunda e tem treino cedo.

    Ela dizia sem se importar de verdade, mas Rin sabia. Sabia que ela achava que ele era bonito… e estranho. Principalmente estranho.

    Mas talvez ele não estivesse sendo justo. No fundo, todos ali o achavam estranho. Todos, menos Branth. Paciência.

    Caminhavam em direção ao bloco dos dormitórios quando o mundo ao redor de Rin pareceu desacelerar. As emoções dos outros continuavam: inveja, por estarem em primeiro lugar no ranking. Desprezo pelo braço deformado de Branth. Desejo cru pela beleza de Lyra, Kara, Imara.

    Rin tentou filtrar. Como sempre fazia. Deixar pra lá.

    Mas então veio algo muito diferente.

    Uma presença. Um raio negro atravessando o céu de sua mente. Algo que não deveria estar ali.

    Não era uma emoção humana. Era vontade. Mas não como as vontades que conhecia. Era algo frio, inumano. Uma ânsia de aniquilação total. De destruição de tudo que fosse biológico.

    Um nome ecoou na mente dele, como se tivesse sido esculpido com ferro em brasa:

    Axioma Primordial.

    A intenção invadiu como uma lâmina, violenta, absoluta.

    Planejava a morte deles. De todos ali. E trabalhava para isso.

    Rin gritou.

    Seu corpo começou a tremer. As pernas falharam e ele desabou no chão, os olhos arregalados, a boca escancarada.

    Os colegas correram até ele. Havia pânico em suas expressões. Era genuíno.

    — Rin, o que está acontecendo? Fale com a gente! — disse Kara, ajoelhando-se ao lado dele.

    Mas Rin não conseguia responder. Nem que quisesse. Seus olhos giravam nas órbitas, a boca espumava. O corpo arqueava em espasmos.

    — Rápido, ele tá convulsionando!

    E então, como uma lâmpada se apagando, a consciência de Rin mergulhou na escuridão.


    Lyra queria voltar logo, ir ao banheiro, jogar água no rosto, escovar os dentes. Queria descansar. O corpo pedia pausa, mas a mente ainda fervia.

    Ainda estava abalada. Primeiro, por Tyla, que desde o choro no gramado se recusava até a olhar para ela. Lyra havia tentado ajudar, se mostrar, no mínimo, como alguém disposta a estar ali para apoiá-la. Mas Tyla, desde então, não tinha dito uma palavra, nem mesmo, jantado com o grupo.

    Havia algo errado ali. Lyra sentia. Tyla já a havia ajudado antes, e ela queria retribuir. Agora, porém, parecia que a garota erguera um muro entre as duas.

    Depois, veio o incidente com Rin. Ele simplesmente desabou no caminho de volta para o refeitório, bem diante de todos. Um ataque súbito, violento. Lyra não conseguia apagar da memória a expressão dele: olhos virados, mostrando apenas o branco; a boca espumando; o corpo arqueando como se tentasse escapar de algo invisível.

    Os seguranças chegaram rápido. Colocaram Rin numa maca e o levaram para o hospital. Calder e Lyra o acompanharam.

    Após um tempo de espera, um médico jovem, não o doutor Heisenhauer, veio até eles.

    — Seu amigo teve um ataque epilético. Aparentemente provocado por algum gatilho psíquico. Ele é um empata muito poderoso, e não sabemos quando vai acordar.

    O médico fez uma pausa, observando os dois.

    — Está medicado e estável. Mas vai precisar ficar aqui, em observação e para mais exames. Podem voltar. Sei que terão um dia cheio amanhã.

    — Pois é… treino de assalto começa amanhã — comentou Calder, com um sorriso breve.

    Lyra o olhou de lado. Como ele sempre sabia dessas coisas?

    Sentindo o olhar dela, Calder se virou e ergueu o tablet.

    — Você não vê as coisas da escola aqui direito, né?

    — Hum?

    Ele desbloqueou o aparelho e mostrou. Na tela, havia um calendário completo do semestre: programação, mudanças de aula, provas, avaliações físicas… tudo.

    Até mesmo, ao final das três semanas de treinamento com Aedena, constava: “Análise de núcleos e vinculação de feraethers iniciais”.

    Lyra nunca havia explorado todas as seções do tablet. Pelo contrário, só usava para ver o conteúdo das aulas e estudar.

    — Tá tudo aqui, Lyra. Aposto que nem leu as normas internas do Domatorum… — disse ele, com um meio sorriso.

    Ela abaixou a cabeça. Era verdade, não tinha lido nada daquilo.

    — É importante. Se tivesse lido, teria visto que até situações como a sua estão previstas — completou, falando de forma casual enquanto seguiam pelo caminho calçado de volta ao dormitório.

    — Como assim?

    — A perseguição. Não ache que isso é exclusivo seu. Muita gente aqui chega com rixas familiares. Muitos, Lyra. Seu caso não é isolado. Você não é a única que desperta inveja… que tem um talento raro… ou que se acha a coisa mais valiosa do mundo.

    As palavras atingiram Lyra como um coice. Por um instante, ficou sem ar. Não era justo. Ela não se via assim… ou estava se enganando?

    — O primeiro passo para cair é achar que está acima dos outros. Que é mais esperta, ou mais especial.

    Ela encarou Calder. Imaginou que fosse mágoa ou inveja por ela estar à frente na pontuação. Mas não viu nada disso nele. Apenas preocupação genuína, como se tivesse visto esse tipo de história se repetir antes.

    Ele devolveu o olhar e sorriu. Um sorriso cansado, que deixava transparecer algo além da fachada. Por um instante, Lyra o achou mais velho. Como se fizesse tudo no automático, porque parar significaria desmontar.

    Chegaram. Lyra foi direto ao banheiro. Quando voltou, o quarto estava escuro. A cama de Tyla estava ocupada, o cobertor sobre a cabeça. Lyra se aproximou, passou a mão com cuidado em seus cabelos. Depois, olhou para a cama vazia de Rin, suspirou, deitou-se e, finalmente, adormeceu.

    Antes do amanhecer, Lyra despertou num sobressalto. O ar entrou nos pulmões em golfadas curtas; estava ofegante, o corpo coberto por uma película de suor frio. A camisola grudava em sua pele, como se fosse mais uma coisa a incomodá-la.

    Havia algo estranho… uma sensação que não conseguia nomear. Tentou puxar da memória o que estava sonhando, mas as imagens se desfaziam como neblina ao sol. Achava que ia se lembrar, estava quase lá, mas, no instante em que tentava agarrar o fio, ele se desfazia, deixando apenas o vazio.

    — Droga — murmurou, frustrada. Algo dentro dela dizia que era importante. Sentia, com uma convicção que não sabia explicar, que aquilo tinha a ver com Rin. Que ele havia vindo lhe dizer alguma coisa… e ela não conseguira ouvir, ou se ouvira, não conseguia se lembrar.

    Um arrepio percorreu-lhe a nuca, erguendo todos os pelos do corpo. Lyra não era de se impressionar com superstições, mas agora… estava cada vez mais imersa no mundo dos psíquicos. E sabia que certas sensações não vinham do nada. Decidiu que consultaria Aedena sobre essa impressão.

    Balançou a cabeça, tentando afastar aquela sensação incômoda. Já tinha problemas suficientes, concretos, palpáveis. Não iria acrescentar algo que talvez nem existisse à sua lista.

    Consultou o horário. Ainda tinham mais meia hora antes da sirene. Pensou em voltar para a cama e tentar dormir mais um pouco, mas logo descartou a ideia. Uma ducha ajudaria a despertar de vez. Pegou a toalha, a troca de roupa e seguiu para o banheiro.

    Assim que entrou, foi surpreendida pelo som de um chuveiro ligado.

    Era Tyla.

    A água escorria por sua pele marcada por delicados detalhes dourados, que reluziam sob a luz fria e artificial. Ela fechava a torneira quando se virou e encontrou Lyra parada à entrada, observando. O silêncio que se instalou entre as duas era denso, quase palpável.

    Tyla abaixou a cabeça, pegou a toalha e saiu da área das duchas, evitando qualquer contato.

    Lyra, instintivamente, estendeu a mão para detê-la.

    Mas Tyla passou reto. Nem uma palavra. Nem um olhar.

    — Tyla? — chamou Lyra, a voz carregada de incerteza.
     
    A outra parou, de costas, por apenas um instante.

    — Não posso ser sua amiga. Me desculpe — disse, num tom fraco, quase um sussurro, e continuou andando, sem se virar.

    Lyra sentiu as lágrimas queimando nos olhos. Ficou ali, imóvel, ouvindo os passos dela se afastarem até sumirem. Só então abriu a torneira, deixando que a água escorresse pelo corpo e escondesse o som do seu choro.

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