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    A nave dos mercenários, equipada com sistemas avançados de anti-detecção, pousara dias antes da intervenção oficial das Legiões. Como sairiam dali? Ainda não tinham um plano definitivo. Ao mesmo tempo em que amaldiçoavam a neve que caía lá fora, agradeciam por ela: a camada branca ajudava a esconder a presença da embarcação dos sensores inimigos e mantinha os mais afoitos longe da superfície do planeta.

    — Quando vamos agir? — perguntou um homem magro, a face esquerda cruzada por uma longa cicatriz; no lugar do olho saíra uma esfera metálica multisensorial que brilhava em um azul brilhante.

    — Assim que os garotos forem despachados para a caçada — repetiu Bulk pela quarta ou quinta vez. Era a segunda em comando, atrás apenas de Fantasma. — Os sensores deles vão confundir nossa assinatura com a dos tributos. Passamos por eles e ninguém nos perceberá.

    O homem da faca, impaciente, abriu a lâmina articulada do “butterfly” e ensaiou movimentos complexos, um espetáculo de dedos velozes para impressionar.

    — E o que faremos para passar o tempo? — cutucou, a agitação evidente.

    Bulk lançou um olhar de soslaio para a garota de cabelos brancos sentada num dos sofás; a pele dela era pálida a ponto de parecer despigmentada, os olhos com tom rosado. Ela sorriu de volta, maliciosa.

    — Isso é problema seu — retrucou Bulk, seca. — Arrume algo pra fazer. E não cause confusão. Se tu aprontar, eu mesma corto seu pau fora.

    — Mas eles estavam roubando no jogo — murmurou o homem, tentando justificar a briga do dia anterior.

    A troca de provocações foi interrompida pelo abrir da porta do compartimento de carga. Uma lufada de ar cortante entrou junto com neve empurrada pelo vento forte, fragmentos brancos que se acumularam rapidamente sobre o chão de metal. A garota albina encolheu, sem perceber, puxando o sobretudo mais para cima.

    Passos firmes foram ouvidos. A marca de botas deixou sulcos na neve. E, quando a porta se fechou de novo, uma figura surgiu, como se tivesse sido materializada ali: um homem negro, dreads presos para trás, a postura de quem estava acostumado a guerrear. Nas costas, um fuzil de agulha longo, frio como lâmina. Fantasma havia chegado.

    O homem da faca recuou sem notar; a presença de Fantasma impôs silêncio imediato. Bulk lançou-lhe um olhar avaliador.

    — Você gosta mesmo de entradas triunfais. — murmurou ela.

    — Não quero arriscar ser visto — retrucou Fantasma, seco.

    — E tem novidade? — perguntou Bulk.

    — Sim — respondeu o líder, aproximando-se com um sensor na mão, um pequeno aparelho com luzes intermitentes. — Parece que estamos na região certa. O sensor que Syan nos deu, indica atividade. Não detecta a fonte exata, mas aponta a direção. Só falta achar.

    Fantasma estudou a tela por um instante e jogou o aparelho para sua imediata.

    — E o plano? Vamos ficar com Syan mesmo? — indagou Bulk, retesando a voz. — Aliah ofereceu muito…

    — Sim, vamos ficar com ele. Mercenários que traem contratos têm vida curta — respondeu Fantasma, cortando Bulk. — Aliah não me inspira confiança, Syan paga por resultados, e uma coisa que eu aprendi é que quem promete muito, não espera cumprir.

    — E a garota Helena? Foi instruída a nos encontrar no campo. O que vamos fazer com ela já que não vamos obedecer sua tia?

    — Syan diz que quer ela inteira e viva — disse Fantasma, notando a expressão de sua companheira completou. — intocada.

    Bulk bufou, revirando os olhos para a albina, que acenou com a cabeça num sorriso distraído.

    — E se outros estudantes chegarem por acaso? — perguntou o homem da faca, a preocupação evidente.

    — Não quero testemunhas — cortou Fantasma, sem hesitar. — Mas também não quero mortes desnecessárias. Qualquer movimento fora do padrão vai chamar os legionários. Temos que ser limpos. Silenciosos.

    — Nossa única chance é fazer isso na surdina, quando o planeta estiver fervilhando de atividade.

    Bulk assentiu, o rosto duro, compondo novamente a máscara de comando. Ao perceber que todos tinham parado para ouvir sua conversa, explodiu em irritação:

    — Vocês não têm mais o que fazer? — resmungou, a rigidez da voz tentando disfarçar o nervosismo.

    Todos se colocaram em ação. Alguns pegaram caixas para levar de um lado a outro, outro fingiu verificar munições. A garota de cabelos brancos apenas se recostou e sorriu novamente. O plano estava em movimento, e a eles, restava esperar, pacientes, a hora de agir.


    Próximo dali, na boca de uma caverna parcialmente tomada por gelo, Olson tremia. O frio não vinha só do clima, vinha do que estava ao seu lado. Mesmo envolto em três camadas de roupas térmicas, era como se o vento atravessasse sua carne. O Ungido, porém, permanecia imóvel, sem demonstrar qualquer reação à temperatura. A pele humana que ele costumava vestir, um disfarce grotesco, mas perfeito, estava dobrada sobre uma pedra. Sem ela, sua estrutura metálica negra refletia a luz azulada dos três anéis em rotação, que zumbiam com ritmo quase hipnótico.

    A máquina dos anéis girava, emitindo ondas de distorção que vibravam pelo chão da caverna. Havia outras máquinas como aquela, espalhadas por Tartarus, e Olson fora o responsável por montá-las e despachá-las, peça por peça, sem nunca admitir a ninguém o que realmente eram. Todos achavam que eram estações de medição de atividade aethérica. Ninguém suspeitaria do verdadeiro propósito.

    — O sincronismo está próximo — afirmou o Ungido, sua voz saindo através de um modulador de ressonância, suave e sem esforço. — O véu se enfraquece mais a cada dia.

    Olson passou a mão pela própria nuca, onde plugues metálicos se conectavam à carne. Sentia o leve pulsar das alterações que o Ungido havia instalado nele. Alterações pequenas, no começo, apenas para “ajudar na interface”. Depois, vieram outras. Agora, Olson era algo entre humano e máquina, embora não se atrevesse a pensar muito sobre isso.

    — Quando vamos agir? — perguntou ele, forçando firmeza na voz.

    — Assim que os jovens deixarem a segurança dos muros — respondeu o Ungido. — As feras serão atraídas pelo campo psíquico das máquinas. Haverá pânico. Confusão. Muitas e muitas mortes.

    Olson assentiu, mas o olhar se desviou. A ideia de usar tributos, garotos, como sacrifício nunca o tinha agradado. Dissera a si mesmo que era necessário. Evolução exigia preço. Era o que sempre repetia. Contudo, perto do evento, aquilo agora pesava.

    O Ungido virou o rosto metálico em sua direção. Mesmo sem olhos orgânicos, Olson sentiu ser observado em seus pensamentos.

    — Você está hesitante — disse a máquina.

    — Não — respondeu rápido demais.

    O Ungido inclinou a cabeça levemente, um gesto ensaiado para parecer humano.

    — Você me pertence, Olson. Foi você quem pediu para ver o mundo evoluir além da carne. Foi você quem clamou por ordem. Foi você quem me ajudou a montar tudo isso.

    Aquelas palavras cortaram mais fundo do que qualquer faca. Olson lembrou-se da noite em que havia conectado o núcleo cognitivo de seu cérebro computacional a uma ia que tinha sido enviada a ele por outro Calculador. “É incrível”, lembrava das palavras do amigo de guilda. Depois ajudou na chegada do Ungido à  Tartarus. O Império jamais o perdoaria se descobrisse. Nem o deixaria morrer fácil.

    — Eu sei o que escolhi — murmurou Olson. Mas sua voz vacilou.

    O Ungido se aproximou, sem passos, seus mecanismos ajustando o peso para não produzir som.

    — Então não duvide agora. Uma vez que o véu se romper, o Império será forçado a mudar. Não haverá retorno à velha ordem. Você verá o mundo como sonhou. Máquina, raciocínio puro, sem o caos da carne.
    Olson engoliu, a garganta seca.

    — E… o que quer que eu faça agora?

    O Ungido colocou uma mão metálica em seu ombro, com uma gentileza ensaiada que só tornava tudo pior. Seus tentáculos metálicos saíram, a procura das entradas atrás de sua cabeça.

    — Garanta que a máquina do setor B-33 permaneça estável até o momento exato. Proteja-a com sua vida. E para isso, evolua.

    Sentiu quando os plugues conectaram. Sentiu quando os dados invadiram sua mente. Um rastro quente de dor, mas dessa vez sentiu algo a mais. Além dos dados, redefinindo seu cérebro, sentiu algo mais. Eram como se milhares de formigas corressem por debaixo de sua pele. O frio já não parecia mais importar.

    Olson fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, o Ungido já havia recolocado parte da pele sobre o rosto, a máscara humana retornando ao lugar.

    Parecia quase uma pessoa.

    Quase.

    — Sim, Ungido — respondeu Olson, baixinho. — Cumprirei suas ordens.

    Sem mais nada a dizer, ele se virou, e caminhou para fora da caverna, o frio cortando o rosto, o peso de suas decisões sobre suas costas.

    Não havia mais volta.


    A Nave-Flagelo Aurora Septima orbitava Tartarus como um predador silencioso. Na escuridão fria do espaço, suas superfícies metálicas refletiam o brilho baço do sol distante, enquanto dezenas de outras naves da 7ª Legião formavam uma muralha absoluta ao redor do planeta.

    Nenhum transporte entrava. Nenhum transporte saía.

    A quarentena era total.

    Nos hangares, Legados marchavam, gigantes de dois metros e meio, corpos densos, reforçados por gerações de manipulação de aether e cruzamentos planejados. Cada passo fazia o solo vibrar. Suas armaduras maciças, verdes e douradas, traziam insígnias da 7ª: a Legio Draconis, com seu símbolo do dragão e do olho do Demiurgo.

    No núcleo da nave, por trás de corredores purificados e vácuos pressurizados, ficava a Câmara de Confinamento Aethérico. A quantidade de aether ali era controlada minuciosamente, para manter seu ocupante fraco.

    Ali, sentado, com as mãos apoiadas sobre as pernas nuas, estava um “Bruxo.”

    Seu nome não aparecia em registros comuns.

    Nos documentos secretos, ele era identificado como:

    Ithrann Vale.

    O que contempla sem piscar.

    Portador do Quarto Olhar.

    Seu corpo era magro, emaciado, pele pálida como algo sem sol. No lugar dos olhos, uma película negra e iridescente, como um vidro líquido, movia-se em ondas lentas, como se algo respirasse por trás dela.

    Onde deveria haver pupilas, brilhos branco-azulados emergiam e desapareciam, como estrelas afogadas num mar escuro.

    Runas negras surgiam e desapareciam na sua pele branca, era hipnótico e repulsivo.

    Cada respiração parecia lenta demais.

    Cada movimento parecia calculado demais.

    Até mesmo o vácuo parecia hesitar ao redor dele.

    Diante dele, em postura reta, estava o General Cassian Russo da 7ª Legião. Um dos maiores legados a serviço do Império. Dois metros e meio de disciplina e propósito. Seu rosto era duro, cortado por cicatrizes antigas, seus olhos dourados como metal aquecido.

    A atmosfera entre os dois era pesada.

    Não pelo medo, legados não temiam nada, mas pela impossibilidade de compreender o que estava diante dele.

    Ithrann parecia… distorcer o ambiente.

    As paredes pareciam mais próximas.

    O som parecia mais abafado.

    Como se a realidade, ao redor dele, estivesse desajustada.

    — Recebi ordem direta do Alto Conselho para empregá-lo nesta operação — disse o general, voz profunda, tão firme que reverberava na sala. — Não gosto de empregar um herege, mas meu Preator Primus deixou entender que foi uma ordem… superior.

    Ithrann abriu um sorriso lento, infantil, como alguém provando um doce raro.

    — Superior… — ele saboreou a palavra. — Sim. Uma voz acima das vozes que vocês reconhecem. Aquela que respira por trás do sol. Aquela que escreve a forma do céu. A assinatura da Criação. O Demiurgo, se preferir chamar assim. Que sonha o que vocês mortais, vivem.

    Cassian manteve o semblante inalterado, mas apertou os punhos. Queria punir o herege.

    — Me recorde o motivo de ter vindo, Bruxo — disse, cuspindo as últimas palavras, como se tivesse sido vontade dele estar ali.

    O bruxo inclinou a cabeça, como se observasse algo através de paredes e órbitas, lá na superfície do planeta.

    — Tartarus… — murmurou. — O véu aqui está se tornando fino. Há algo do outro lado, pressionando, empurrando, sussurrando… tão faminto.

    Sua voz mudava de tom, como se várias vozes falassem através dele, ligeiramente fora de sincronia.

    Cassian endureceu o maxilar. Mesmo com anos de batalhas no front, o bruxo o deixava à flor da pele.

    O bruxo continuou a falar.

    — Essa melhora no clima não é natural. Esse planeta é de tempestades permanentes. Algo esta criando um cenário perfeito.

    Ithrann riu.

    Um riso baixo. Algo entre sincero e terrivelmente errado.

    — Máquinas… sim. Engrenagens mexendo na carne da realidade. Vocês ainda pensam que aether é uma chama para ser contida em lâmpadas.

    Cassian manteve-se firme diante da divagação.

    — Fui informado de que você pode detectar rupturas antes que elas se manifestem.

    — Não “antes”. — Ithrann falou. Levantou um dedo, sorrindo como um professor gentil. — Eu as vejo enquanto acontecem. Em todas as possibilidades. Em todos os futuros. Em todos os passados. Aqui… neste planeta… algo cava de dentro para fora.

    Ele inspirou, devagar.

    — O tecido está amolecendo. O mundo está ficando… delicioso.

    Cassian franziu o cenho.

    — Há rumores de uma entidade mecânica envolvida. Uma inteligência não sancionada.

    Os olhos líquidos do bruxo brilharam, finalmente fixando-se no general.

    — Oh, sim. Há um Eco do Ferro caminhando na carne do mundo. Um que desistiu da alma, mas insiste em usar a máscara dela. Um Engenheiro de Desequilíbrios de N’Kharoth, pai do axioma. Mas máquinas… são frágeis. São apenas pensamentos congelados.

    Ele piscou, ou algo parecido em seus olhos estranhos.

    O silêncio engoliu o ar.

    Lentamente, o bruxo se levantou.

    Quando ficou de pé, algo na sala esticou.

    As sombras se alongaram.

    As luzes tremeluziram.

    O metal pareceu vibrar, como se a nave inteira tivesse prendido a respiração.

    Ele sorriu gentilmente para o gigante de armadura.

    — Chamaram-me aqui porque eu sei fechar portas.

    Cassian sentiu, pela primeira vez em muitos anos, um peso que não era físico.

    Ithrann continuou:

    — Quando o véu se rasgar… eu estarei lá. E vou coser carne com sombra. E silêncio com grito.

    Ele inclinou o rosto, quase encostando no punho do general.

    — Mas é sempre tão… interessante… ver quão perto vocês deixam o mundo chegar do fim antes de pedirem ajuda.

    O general não recuou.

    — Então faça seu trabalho.

    — Oh — sorriu o bruxo — ele já começou. Sua sorte é que estamos do mesmo lado, por hora.

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