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    A professora Nadine mantinha a cabeça baixa. As mãos tremiam pouco, apenas o suficiente para denunciar a tensão. O rosto estava pálido. Ela já vinha sendo interrogada havia algum tempo por Raphael, o inquisidor enviado com as Legiões.
     

    A sala era asséptica e fria. O cheiro de produto químico forte dominava o ar. Mesmo assim, manchas escuras ainda marcavam o chão, resquícios que a limpeza não apagava. Ela desviou o olhar antes que a memória do que aquilo significava voltasse de forma muito clara.
     

    Um dos calculadores sob sua supervisão, Olson, era agora um dos principais suspeitos de contrabando de peças, manipulação de dados e envolvimento com seitas heréticas. O peso dessa informação estava em suas costas.
     

    Um toque na porta fez Nadine estremecer. Uma matriarca entrou, o manto azul-turquesa marcando sua hierarquia interna.
     

    — Consegui as informações com o carregador — anunciou ela. A voz sem qualquer emoção.
     

    Raphael interrompeu o questionário, virou-se para ela e entregou a prancheta com as respostas de Nadine. A matriarca leu em silêncio por alguns minutos. O rosto oculto pela máscara não permitia qualquer leitura de expressão, mas a postura era suficiente para deixar Nadine mais rígida na cadeira. Sentiu suor escorrer na nuca.
     

    Quando finalmente falou, dirigiu a pergunta a Raphael:
     

    — Quer que eu confirme que ela não sabia de nada?
     

    Ele assentiu, levantando-se para ceder o lugar. A matriarca sentou-se à frente de Nadine com calma profissional. Observou-a como alguém acostumada a avaliar criaturas complexas, e Nadine percebeu imediatamente a inversão desconfortável. Ali, ela era a examinada, não as feraethers.
     

    — Abra sua mente para mim — pediu a matriarca, num tom firme, sem pressa. — Não se oponha. Apenas respire.
     

    A garganta de Nadine secou.
     

    — V-vou tentar…
     

    Assim que a conexão se estabeleceu, a matriarca, Alina, sentiu um medo cortante vindo da mulher à sua frente. Medo, não culpa. Intenso, mas legítimo. A respiração de Nadine acelerou, mas Alina manteve a ligação estável, exigindo nenhum esforço da professora.
     

    — Responda com sinceridade — disso a matriarca. — Qual sua relação com o Calculador Olson?
     

    — Ele… ele era o responsável pela compilação inicial dos dados. Depois continuou envolvido, por se mostrar muito competente.
     

    — E como se tornou responsável pelo estudo do Hipnoferal?
     

    Nadine engoliu.
     

    — A feraether é dócil, apesar do tamanho e da sua classificação, mas seu poder é perigoso. Consegue induzir rebelião, alterar padrões de obediência, amplificar agressividade em feraethers selvagens e nas domadas. As Legiões queriam estudar uma aplicação militar disso…
     

    A matriarca interrompeu com um gesto breve.
     

    — Não quero a ficha técnica. Quero saber por que ele, especificamente, assumiu o estudo.
     

    — Ah… — ela respirou fundo. — Olson demonstrou interesse desde o primeiro contato. Era dedicado, atento aos detalhes. Eu… sou professora. Quando vejo alguém que aprende rápido, eu incentivo. Ele absorveu tudo. Em pouco tempo, já não precisava da minha supervisão direta. Como eu estava sobrecarregada com outras pesquisas, deixei que ele continuasse.
     

    — Certo, continue.
     

    — Eu aproveitei a competência dele, mas ele que se aproveitava de mim. Não percebi. Ele tinha objetivos próprios. Eu estava presa às minhas próprias linhas de estudo, e ter alguém para carregar uma parte do trabalho… parecia conveniente demais. E ele era metódico. Nunca suspeitei.
     

    A matriarca inclinou a cabeça, avaliando.
     

    — E você soube da sabotagem? Da jaula? Do ataque dentro do complexo?
     

    Nadine arregalou os olhos.
     

    — Sabotagem? — sussurrou. — Eu sempre acreditei que tinha sido um acidente…
     

    As memórias vieram à tona sem resistência: A fera rompendo a contenção, o pânico dos assistentes, o Hipnoferal avançando no campi, a tentativa desesperada de lutar, o caos, os corpos dos alunos espalhados. Não havia culpa naquelas lembranças. Apenas horror e tristeza, de uma coisa que ela julgava até ali terem sido apenas um acidente.
     

    A pressão na mente de Nadine cessou. A ligação se desfez como se alguém tivesse retirado um peso das costas dela. Ela soltou o ar, sem perceber que estava prendendo a respiração.
     

    — Ela fala a verdade — anunciou Alina, voltando-se para Raphael.
     

    — Está dispensada, Srta. Nadine — disse o inquisidor.
     

    Ela levantou tão rápido que quase tropeçou, saiu pela porta e desapareceu pelo corredor.
     

    Assim que a porta se fechou, Raphael cruzou os braços e virou-se para a Matriarca:
     

    — E então? O que conseguiu com o carregador?
     

    — Ele está envolvido em vários crimes no complexo — respondeu Alina, direta. — Inclusive um assassinato. Tudo para encobrir o contrabando de peças. Mas agiu por dinheiro, não por fé. Não faz parte da seita.
     

    — Certo. Alguma pista de onde Olson possa estar?
     

    — Ele entregou um transmissor que Olson usava para contatá-lo. Com sorte, podemos rastrear o sinal. Vamos precisar da tecnologia da Legião.
     

    — Fugir do planeta não é possível — completou Raphael. — Quando o isolamento começou, ele ainda estava no complexo. Temos imagens.
     

    O comunicador dele vibrou e a imagem de Cassian, o General responsável, surgiu no visor, estática ao fundo.
     

    — Encontramos a origem das interferências. Temos seis pontos no radar. Quer participar, inquisidor?
     

    Raphael soltou um suspiro breve, cansado e atento ao mesmo tempo.
     

    — Envie as coordenadas. Já estou indo.
     



     

    Em outro ponto do planeta, a nave camuflada permanecia imóvel, abaixo de uma grossa camada de neve. Por fora, não passava de uma falha no horizonte. Por dentro, tudo vibrava num estado de espera que já durava dias.
     

    Fantasma estava sozinho na cabine de controle.
     

    As telas ocupavam quase toda a parede curva à sua frente. Dados subiam e desciam em linhas limpas, frias. Trajetórias. Velocidade de reentrada. Assinaturas térmicas. Cápsulas surgindo, uma após a outra, em pontos espalhados pelo globo.
     

    Estudantes do Domatorum.
     

    Ele acompanhava cada marca surgir no mapa do planeta como se fossem pinos cravados numa lousa. Não por interesse nos alunos, eles eram irrelevantes, mas porque cada cápsula que atravessava a atmosfera significava que o plano avançava. Tinha chegado a hora.
     

    Quando a última sequência se confirmou, Fantasma recostou-se na cadeira e soltou o ar devagar.
     

    — Finalmente — murmurou. — Podemos agir.
     

    A nave permaneceu em silêncio por alguns segundos. Apenas o som baixo dos sistemas internos e o leve tremor constante dos equipamentos de suporte à vida.
     

    Fantasma apoiou as mãos nos braços da cadeira e começou a se levantar.
     

    O comunicador preso ao antebraço vibrou.
     

    Ele parou no meio do movimento.
     

    A identificação surgiu na tela menor, no canto do painel.
     

    Helena Sylaris.
     

    O maxilar dele se contraiu por um instante antes de atender.
     

    — Aqui é Helena Sylaris — a voz dela veio limpa, direta, sem qualquer sinal de hesitação. — Cheguei no setor combinado. Acabei de pousar. Onde vocês estão?
     

    Fantasma fechou os olhos por meio segundo.
     

    A garota nem tinha aparecido direito no planeta e já falava como se estivesse no comando. Nem uma pergunta. Nem um cuidado. Apenas a certeza de que seria atendida.
     

    Ele se perguntou, não pela primeira vez, como alguém tão jovem podia carregar tanta convicção sem nunca ter sido realmente testada.
     

    A sorte ou o azar dela era algo simples: naquele momento, não havia comunicação externa. O bloqueio orbital ainda estava ativo. Aliah não podia ouvir nada. Não podia interferir. Não podia proteger a peça que tinha enviado para o tabuleiro. Um coelho no meio de lobos famintos.
     

    Fantasma abriu um sorriso curto, que não chegou aos olhos.
     

    — Aqui é Fantasma — respondeu, a voz neutra, profissional. — Líder do grupo mercenário. Estou enviando uma equipe para te apanhar. Fique onde está. Vou usar o sinal do seu comunicador como referência.
     

    Houve uma breve pausa do outro lado.
     

    — Não sairei daqui — respondeu Helena. — Estou aguardando.
     

    A transmissão caiu.
     

    Fantasma deixou o braço cair ao lado do corpo.
     

    — Claro que está — murmurou para ninguém.
     

    Virou-se e saiu da cabine de controle.
     

    O corredor que levava à área de convivência era estreito, metálico, iluminado por faixas contínuas no teto. A nave não fora feita para conforto. Fora adaptada. Cada espaço parecia ter sido pensado para função, não para permanência.
     

    O som chegou antes da sala aparecer inteira: vozes altas, risadas, o bater seco de cartas sendo jogadas sobre uma mesa improvisada.
     

    A área de convivência estava cheia.
     

    Seus homens ocupavam bancos, caixas, o chão. Um jogo de cartas corria no centro, cercado por apostas pequenas e comentários exagerados. Alguns riam alto demais. Outros observavam em silêncio, esperando a chance de entrar na próxima rodada.
     

    Estavam ali havia dias.
     

    Trancados e rabugentos. Com ordens para não sair.
     

    O humor à flor da pele era previsível, e esperado.
     

    Fantasma parou à entrada, observando por um instante. Ninguém percebeu de imediato. Estavam distraídos demais tentando esquecer que o tempo parecia não passar.
     

    — Onde está a Bulk? — perguntou, sem elevar a voz.
     

    O jogo não parou na hora, mas alguns olhares se ergueram.
     

    — Nos aposentos dela, chefe — respondeu um dos homens, magro, nariz pontudo, jovem demais para já ter aquele olhar gasto. Fantasma sabia que o tinha recrutado há pouco tempo e não lembrava o seu nome.
     

    Antes que o silêncio se estabelecesse, outro mercenário riu.
     

    — É que ela tá com a Velvet junto.
     

    Alguns sorrisos surgiram ao redor da mesa. Comentários baixos. Cotoveladas discretas.
     

    Fantasma fechou os olhos e passou a mão pelo rosto.
     

    — Claro que está.

    Bulk não resistia a um rabo de saia. Ela tinha escolhido a especialista em infiltração ela mesma. Fantasma tinha suas suspeitas do porque. Tinha decidido que se a garota fosse apenas um fardo, seu pagamento sairia da parte de sua braço-direito.
     

    Inspirou fundo.
     

    — Tiko.
     

    Um homem grande, sentado mais afastado, levantou o olhar na mesma hora.
     

    — Chefe?
     

    Fantasma apontou para o novato de nariz pontudo.
     

    — Pegue ele. Vocês dois vão buscar a garota Sylaris.
     

    Ele puxou um tablet do bolso e o lançou na direção de Tiko, que o pegou no ar.
     

    — Ela está nessa coordenada. — Fantasma falou enquanto já se afastava da mesa. — Peguem as moto-neves e vão. Sem conversa.
     

    Tiko passou o dedo pela tela, confirmando os dados.
     

    — Já podemos sair? A barra tá limpa?
     

    — Vão logo.
     

    Não precisou repetir.
     

    O jogo de cartas se desfez em segundos. As apostas foram recolhidas às pressas. Tiko e o novato já se moviam em direção à doca de carga, falando baixo entre si. O novato esfregava as mãos. Fantasma esperava que não fizessem cagada.
     

    O chefe acompanhou com o olhar até que desaparecessem pelo corredor lateral.
     

    Então virou-se para um terceiro mercenário, que observava tudo encostado na parede, braços cruzados.
     

    — Wolf. Vai buscar a Bulk. Quero ela aqui em cinco minutos.
     

    O homem assentiu sem dizer nada e saiu.
     

    Fantasma ficou na área de convivência por alguns instantes. O silêncio voltou a ocupar o espaço, pesado, desconfortável. Alguns mercenários desviavam o olhar quando ele passava. Outros fingiam ajustar equipamentos.
     

    Ele seguiu pelo corredor, voltando em direção ao comando.
     

    Wolf parou diante de uma porta fechada. Sorriu ao ouvir risadas e gemidos vindo de lá.
     

    Bateu duas vezes, forte o suficiente para ser ouvido lá dentro. No fundo, se sentia contente em estragar o momento das duas.
     

    — Bulk — disse, sem rodeios. — O chefe quer te ver. Os alunos já começaram a se espalhar pelo planeta.
     

    Houve movimento do outro lado. Vozes abafadas, xingos e exclamações.

    Dentro do quarto, Bulk ergueu o rosto devagar, ainda entre as pernas de Velvet. O cabelo estava bagunçado, o queixo úmido. Velvet respirava fundo, os olhos semicerrados, um sorriso preguiçoso no rosto.
     

    Bulk limpou a boca com as costas da mão.
     

    — Ouviu isso, bebê? — disse, olhando para Velvet. — Chegou a hora.
     

    Velvet soltou um riso baixo.
     

    — De caçar?
     

    Bulk se levantou, já alcançando as peças de roupa espalhadas pelo chão.
     

    — De trabalhar — corrigiu. — Caçar vem depois.
     

    As peças estavam onde eles queriam, finalmente.

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