Capítulo 69: As coisas mais simples que dão errado
O barulho metálico de talheres batendo em algo acordou Lyra.
Ela abriu os olhos devagar, o corpo pesado e dolorido, a cabeça ainda lenta. Levou alguns segundos para entender onde estava. A caverna era maior que se lembrava, iluminada apenas pelo fogareiro químico que lançava uma luz vacilante contra a rocha nua.
Virou o rosto.
Kocka estava deitado num canto, o corpo maleável recolhido, como se ainda estivesse se recuperando. Seus olhos pequenos se moveram assim que ela acordou, encontrando os dela. Lyra sentiu o alívio que vinha dele, direto, quase infantil. Ao lado, o Canired permanecia enrolado, placas azuladas fechadas sobre si mesmo, imóvel, mas atento. Um pouco mais afastado, ocupando espaço como se fosse parte da própria caverna, o Polarion repousava encostado na parede, o corpo enorme relaxado, mas com os olhos abertos.
Três presenças. Três vínculos.
Ela engoliu em seco.
Ela conseguiu”, pensou.
Não só atravessou aquele inferno gelado.
Não só encontrou e manteve ela viva.
Ainda conseguiu dominar a feraether que desejava.
O peso disso caiu devagar.
Lyra desviou o olhar para o outro lado da caverna. Duas armaduras estavam apoiadas em pé contra a rocha. A dela carregava as marcas da queda: um amassado evidente no torso, um trinco longo atravessando o plaxyglass do capacete. Ela se perguntou, sem muita convicção, se ainda funcionaria direito.
De costas para ela, Tyla estava agachada diante do fogareiro, mexendo algo numa panela pequena. O cheiro era simples, direto. Bacon sintético. Ainda assim, suficiente para fazer o estômago de Lyra se contrair com força.
Se percebeu admirando o corpo nu de Tyla. Sentiu o rosto corar. Não tinha a intenção de olhar.
A silhueta recortada pela luz fraca, os ombros relaxados, o movimento concentrado das mãos. Nada ali parecia pensado. Era apenas… ela, na sua forma mais natural possível.
Lyra se sentou, puxando o saco de dormir até a cintura e cruzando as pernas. O movimento arrancou um grunhido baixo. O corpo inteiro protestou.
Tyla se virou na hora. A expressão franzida.
— Que bom que acordou — deixou escapar.
O sorriso veio fácil, aberto. Ela pegou a panela, se levantou e foi até Lyra, sentando ao lado dela, sem pressa.
— A sopa acabou de ficar pronta.
Estendeu uma colher.
— Tem o suficiente pra nós duas. Pegue.
Lyra pegou.
— O-obrigada.
— Imagina.
Ela ia comer, mas parou.
— Não… não por isso — disse, a voz mais baixa. — Por tudo. Por ter vindo atrás de mim. Por me salvar.
Tyla pousou a panela no chão e levou a mão ao rosto de Lyra, espalmando a palma quente em sua bochecha.
— Você faria o mesmo por mim — disse, simples. — E não me diga que não faria.
Lyra não respondeu. Apenas inclinou o rosto, pressionando a pele contra a mão dela, como se buscasse confirmação naquele toque. Tyla manteve a mão ali por um segundo a mais antes de afastar.
Sorriu. Mas havia algo diferente em seus olhos. Uma malícia estranha.
— Que foi? — Lyra perguntou.
Tyla pegou sua colher, experimentou a sopa.
— Hm… pra ingredientes sintéticos, tá ótima.
— Come também.
Lyra obedeceu. Talvez fosse a fome acumulada, talvez o corpo ainda em recuperação, mas estava realmente boa.
Engoliu.
— Tyla… me responde, o que foi?
Ela respirou fundo. Seus olhos brilhavam refletindo o fogo.
— Eu ouvi sua confissão.
O coração de Lyra disparou.
Ela quase engasgou, tossindo forte. A sopa ameaçou sair pelo nariz. Tentou se recompor, falhou de novo.
Tyla riu, baixo, sem deboche.
— Calma. — disse. — Não fica assim. Saiba que você quase me enganou.
— E-eu não entendi…
Tyla virou o corpo para ficar de frente pra ela.
— Você conhece meu passado. — falou com naturalidade. — Fui treinada pra perceber interesse. Pra identificar intenção. Era parte da minha função.
Lyra piscou, tentando acompanhar.
— Depois da briga com a Helena — Tyla continuou — Quando você quase morreu por minha causa.
O rosto de Lyra esquentou na hora.
— Aquilo… — Lyra tentou explicar, mas Tyla não deixou.
— Aquilo… — Tyla respirou fundo. — Aquilo deixou claro. Muito claro. Você estava me defendendo. Não era só por você. Você se jogou no fogo por mim. E pagou um preço muito caro.
Tyla tocou na cicatriz que a facada tinha deixado.
Lyra acompanhou com o olhar. Estremeceu com o toque.
— E depois disso — Tyla seguiu — você começou a me dar sinais. Bastante diretos, inclusive.
Ela sustentou o olhar de Lyra.
— Nunca ninguém tinha feito isso por mim. Nunca. Eu também estava caidinha por você. Ainda estou, mais que quero admitir.
O silêncio se instalou, pesado.
— Mas no luau você se afastou — disse Tyla. — E eu não entendi nada. Achei que.
— Eu estava confusa — Lyra respondeu rápido demais, interrompendo — Meu treinamento… e quando vi você com o Peter…
— Eu só fiquei com ele porque você se afastou — Tyla cortou, sem dureza. — Fiquei em dúvida se você queria mesmo.
Ela se aproximou mais. Lyra sentiu o calor que vinha do corpo dela, o cheiro leve da pele misturado à sopa. Sem perceber, umidificou os lábios.
Tyla percebeu.
— Agora — disse, em voz baixa — não importa o que foi antes. Nem os erros. Nem o medo.
Estava perto demais.
— O que importa é o que você vai fazer agora. Eu estou aqui.
Lyra não respondeu.
Avançou o rosto e tocou os lábios nos de Tyla. Foi um beijo breve, inseguro, quase um pedido. Tyla respondeu na hora, puxando-a pela nuca, aprofundando o contato com firmeza contida.
O beijo ganhou peso. Calor. Ritmo.
Lyra sentiu o gosto da sopa ainda nos lábios de Tyla, sentiu a pressão aumentar, o modo como Tyla ajustava o beijo, conduzindo sem força, mas sem hesitar. O mundo se estreitou naquele contato. No som baixo da respiração. No roçar das bocas. No arrepio que correu pela espinha quando Tyla separou os lábios só o suficiente para respirar e voltou, mais devagar, mais consciente.
As mãos de Lyra envolveram as costas dela, como se precisasse se ancorar.
Sem perceber quando, as duas se ajeitaram melhor dentro do saco de dormir. A panela foi deixada de lado, esquecida. O fogareiro continuou lançando sombras na rocha.
O frio lá fora não importava.
A fome agora era outra.
As moto-neves deixaram a nave uma atrás da outra, cortando o branco com faróis baixos. O vento já levantava neve solta, apagando marcas quase no mesmo instante em que surgiam. Uma tempestade se anunciava no horizonte.
Tiko seguia à frente. O novato vinha atrás, rígido demais sobre o banco, atento ao tablet preso ao guidão. O visor mostrava o sinal do comunicador de Helena fixo, estável.
— Ela continua parada — disse o novato.
— Apenas seguindo o combinado — respondeu Tiko. — Ela não sabe que estamos fazendo jogo duplo.
Reduziram a velocidade ao se aproximarem do ponto indicado. À frente, a cápsula de Helena estava aberta, intacta, apoiada sobre o solo como se tivesse sido colocada ali com cuidado. Se não fosse um pouco enterrada na neve fofa, não pareceria que tinha atravessado a atmosfera.
Helena estava fora dela, em pé, ajustando a própria armadura. Uma das placas laterais havia sido removida e apoiada na cápsula. O sistema interno, ainda exposto, piscava avisos discretos.
— Vocês demoraram — disse, sem virar o rosto.
— Tivemos que contornar uma área instável — respondeu Tiko. — O chefe mandou buscar você.
Helena se virou devagar. O olhar passou pelos dois, avaliando postura, armas, distância.
— Então vamos — disse. — Não pretendo ficar parada aqui.
— Nem a gente — retrucou Tiko. Servir de babá para uma mimada não era sua definição de trabalho.
— Espera — Helena disse.
O olhar dela parou nas armas pesadas.
— Vocês sempre vêm assim pra uma escolta?
Tiko manteve o rifle baixo, mas o corpo já estava pronto.
— Procedimento padrão.
O novato estava tenso demais. Não escondia o nervosismo.
Helena inclinou levemente a cabeça.
— Engraçado… — murmurou. — Dois homens armados pra escoltar uma única garota.
O silêncio se estendeu por um segundo a mais do que devia.
Ela entendeu.
— Foi o Syan, não foi? — disse, sem alterar o tom. — Resolveu pagar mais que minha tia?
O novato piscou. Tiko não respondeu. Fez de levar a mão para a arma.
Helena agiu primeiro.
O jato de fogo concentrado saiu da palma da mão, preciso. Atingiu o novato no centro do peito. A armadura falhou no impacto. Ele foi lançado para trás, caiu pesado e não se mexeu mais.
Tiko ergueu o rifle no mesmo instante em que Helena se jogava atrás da cápsula.
— Helena, não faça isso pior do que já é — avisou, a voz tensa, contida.
Começou a contornar a cápsula.
Ela já estava no painel, programando algo.
Assim que teve visão dela, colocou a arma em atordoar e disparou.
O tiro pegou de raspão, arrancando parte da placa do ombro. O metal se partiu. Helena cambaleou, mas não caiu. Continuou teclando com uma mão só, tentando manter o corpo protegido.
Mais dois disparos. Ambos acertaram a cápsula.
Helena terminou o que fazia, se jogou de lado e correu.
— Merda.
Tiko correu atrás. Quando chegou perto da cápsula, ouviu o bipe repetitivo.
— Droga.
Se jogou no chão.
A detonação foi seca, próxima demais.
A onda de choque atingiu Tiko e Helena. A moto-neve mais próxima virou, o motor morrendo com um chiado curto. Fragmentos de gelo, metal e neve tomaram o ar.
Quando o som cessou, Tiko levantou a cabeça.
Helena não estava mais ali.
A cápsula tinha sido destruída. Ela fugira, mas não sem custo. Partes da armadura estavam espalhadas pelo chão.
Sangue marcava a neve em manchas irregulares, já sendo apagadas pelo vento.
Tiko se levantou com dificuldade. A cabeça latejava. O comunicador estava rachado, mas ainda funcionava. Olhou para o corpo do novato, imóvel. Depois para o rastro confuso que o vento já apagava.
— Que monte de merda…
Tentou seguir, deu alguns passos, e parou. Não havia mais nada para rastrear. A explosão tinha feito o trabalho dela.
Ativou o comunicador.
— Chefe — disse, controlando a voz. — Temos um problemão.

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