Índice de Capítulo

    O barulho metálico de talheres batendo em algo acordou Lyra.
     

    Ela abriu os olhos devagar, o corpo pesado e dolorido, a cabeça ainda lenta. Levou alguns segundos para entender onde estava. A caverna era maior que se lembrava, iluminada apenas pelo fogareiro químico que lançava uma luz vacilante contra a rocha nua.
     

    Virou o rosto.
     

    Kocka estava deitado num canto, o corpo maleável recolhido, como se ainda estivesse se recuperando. Seus olhos pequenos se moveram assim que ela acordou, encontrando os dela. Lyra sentiu o alívio que vinha dele, direto, quase infantil. Ao lado, o Canired permanecia enrolado, placas azuladas fechadas sobre si mesmo, imóvel, mas atento. Um pouco mais afastado, ocupando espaço como se fosse parte da própria caverna, o Polarion repousava encostado na parede, o corpo enorme relaxado, mas com os olhos abertos.
     

    Três presenças. Três vínculos.
     

    Ela engoliu em seco.

    Ela conseguiu”, pensou.

    Não só atravessou aquele inferno gelado.

    Não só encontrou e manteve ela viva.

    Ainda conseguiu dominar a feraether que desejava.
     

    O peso disso caiu devagar.
     

    Lyra desviou o olhar para o outro lado da caverna. Duas armaduras estavam apoiadas em pé contra a rocha. A dela carregava as marcas da queda: um amassado evidente no torso, um trinco longo atravessando o plaxyglass do capacete. Ela se perguntou, sem muita convicção, se ainda funcionaria direito.
     

    De costas para ela, Tyla estava agachada diante do fogareiro, mexendo algo numa panela pequena. O cheiro era simples, direto. Bacon sintético. Ainda assim, suficiente para fazer o estômago de Lyra se contrair com força.
     

    Se percebeu admirando o corpo nu de Tyla. Sentiu o rosto corar. Não tinha a intenção de olhar.
    A silhueta recortada pela luz fraca, os ombros relaxados, o movimento concentrado das mãos. Nada ali parecia pensado. Era apenas… ela, na sua forma mais natural possível.
     

    Lyra se sentou, puxando o saco de dormir até a cintura e cruzando as pernas. O movimento arrancou um grunhido baixo. O corpo inteiro protestou.
     

    Tyla se virou na hora. A expressão franzida.
     

    — Que bom que acordou — deixou escapar.
     

    O sorriso veio fácil, aberto. Ela pegou a panela, se levantou e foi até Lyra, sentando ao lado dela, sem pressa.
     

    — A sopa acabou de ficar pronta.
     

    Estendeu uma colher.
     

    — Tem o suficiente pra nós duas. Pegue.
     

    Lyra pegou.
     

    — O-obrigada.
     

    — Imagina.
     

    Ela ia comer, mas parou.
     

    — Não… não por isso — disse, a voz mais baixa. — Por tudo. Por ter vindo atrás de mim. Por me salvar.
     

    Tyla pousou a panela no chão e levou a mão ao rosto de Lyra, espalmando a palma quente em sua bochecha.
     

    — Você faria o mesmo por mim — disse, simples. — E não me diga que não faria.
     

    Lyra não respondeu. Apenas inclinou o rosto, pressionando a pele contra a mão dela, como se buscasse confirmação naquele toque. Tyla manteve a mão ali por um segundo a mais antes de afastar.
     

    Sorriu. Mas havia algo diferente em seus olhos. Uma malícia estranha.
     

    — Que foi? — Lyra perguntou.
     

    Tyla pegou sua colher, experimentou a sopa.
     

    — Hm… pra ingredientes sintéticos, tá ótima.

    — Come também.
     

    Lyra obedeceu. Talvez fosse a fome acumulada, talvez o corpo ainda em recuperação, mas estava realmente boa.
     

    Engoliu.
     

    — Tyla… me responde, o que foi?
     

    Ela respirou fundo. Seus olhos brilhavam refletindo o fogo.
     

    — Eu ouvi sua confissão.
     

    O coração de Lyra disparou.
     

    Ela quase engasgou, tossindo forte. A sopa ameaçou sair pelo nariz. Tentou se recompor, falhou de novo.
     

    Tyla riu, baixo, sem deboche.
     

    — Calma. — disse. — Não fica assim. Saiba que você quase me enganou.
     

    — E-eu não entendi…
     

    Tyla virou o corpo para ficar de frente pra ela.
     

    — Você conhece meu passado. — falou com naturalidade. — Fui treinada pra perceber interesse. Pra identificar intenção. Era parte da minha função.
    Lyra piscou, tentando acompanhar.
     

    — Depois da briga com a Helena — Tyla continuou — Quando você quase morreu por minha causa.
     

    O rosto de Lyra esquentou na hora.
     

    — Aquilo… — Lyra tentou explicar, mas Tyla não deixou.
     

    — Aquilo… — Tyla respirou fundo. — Aquilo deixou claro. Muito claro. Você estava me defendendo. Não era só por você. Você se jogou no fogo por mim. E pagou um preço muito caro.
     

    Tyla tocou na cicatriz que a facada tinha deixado.
     

    Lyra acompanhou com o olhar. Estremeceu com o toque.
     

    — E depois disso — Tyla seguiu — você começou a me dar sinais. Bastante diretos, inclusive. 
     

    Ela sustentou o olhar de Lyra.
     

    — Nunca ninguém tinha feito isso por mim. Nunca. Eu também estava caidinha por você. Ainda estou, mais que quero admitir.
     

    O silêncio se instalou, pesado.
     

    — Mas no luau você se afastou — disse Tyla. — E eu não entendi nada. Achei que.
     

    — Eu estava confusa — Lyra respondeu rápido demais, interrompendo  — Meu treinamento… e quando vi você com o Peter…
     

    — Eu só fiquei com ele porque você se afastou — Tyla cortou, sem dureza. — Fiquei em dúvida se você queria mesmo.
     

    Ela se aproximou mais. Lyra sentiu o calor que vinha do corpo dela, o cheiro leve da pele misturado à sopa. Sem perceber, umidificou os lábios.
     

    Tyla percebeu.
     

    — Agora — disse, em voz baixa — não importa o que foi antes. Nem os erros. Nem o medo.
     

    Estava perto demais.
     

    — O que importa é o que você vai fazer agora. Eu estou aqui.
     

    Lyra não respondeu.
     

    Avançou o rosto e tocou os lábios nos de Tyla. Foi um beijo breve, inseguro, quase um pedido. Tyla respondeu na hora, puxando-a pela nuca, aprofundando o contato com firmeza contida.
     

    O beijo ganhou peso. Calor. Ritmo.
     

    Lyra sentiu o gosto da sopa ainda nos lábios de Tyla, sentiu a pressão aumentar, o modo como Tyla ajustava o beijo, conduzindo sem força, mas sem hesitar. O mundo se estreitou naquele contato. No som baixo da respiração. No roçar das bocas. No arrepio que correu pela espinha quando Tyla separou os lábios só o suficiente para respirar e voltou, mais devagar, mais consciente.
     

    As mãos de Lyra envolveram as costas dela, como se precisasse se ancorar.
     

    Sem perceber quando, as duas se ajeitaram melhor dentro do saco de dormir. A panela foi deixada de lado, esquecida. O fogareiro continuou lançando sombras na rocha.
     

    O frio lá fora não importava.
     

    A fome agora era outra.
     



     

    As moto-neves deixaram a nave uma atrás da outra, cortando o branco com faróis baixos. O vento já levantava neve solta, apagando marcas quase no mesmo instante em que surgiam. Uma tempestade se anunciava no horizonte.
     

    Tiko seguia à frente. O novato vinha atrás, rígido demais sobre o banco, atento ao tablet preso ao guidão. O visor mostrava o sinal do comunicador de Helena fixo, estável.
     

    — Ela continua parada — disse o novato.
     

    — Apenas seguindo o combinado — respondeu Tiko. — Ela não sabe que estamos fazendo jogo duplo.
     

    Reduziram a velocidade ao se aproximarem do ponto indicado. À frente, a cápsula de Helena estava aberta, intacta, apoiada sobre o solo como se tivesse sido colocada ali com cuidado. Se não fosse um pouco enterrada na neve fofa, não pareceria que tinha atravessado a atmosfera.
     

    Helena estava fora dela, em pé, ajustando a própria armadura. Uma das placas laterais havia sido removida e apoiada na cápsula. O sistema interno, ainda exposto, piscava avisos discretos.
     

    — Vocês demoraram — disse, sem virar o rosto.
     

    — Tivemos que contornar uma área instável — respondeu Tiko. — O chefe mandou buscar você.
     

    Helena se virou devagar. O olhar passou pelos dois, avaliando postura, armas, distância.
     

    — Então vamos — disse. — Não pretendo ficar parada aqui.
     

    — Nem a gente — retrucou Tiko. Servir de babá para uma mimada não era sua definição de trabalho.
     

    — Espera — Helena disse.
     

    O olhar dela parou nas armas pesadas.
     

    — Vocês sempre vêm assim pra uma escolta?
     

    Tiko manteve o rifle baixo, mas o corpo já estava pronto.
     

    — Procedimento padrão.
     

    O novato estava tenso demais. Não escondia o nervosismo.
     

    Helena inclinou levemente a cabeça.
     

    — Engraçado… — murmurou. — Dois homens armados pra escoltar uma única garota.
     

    O silêncio se estendeu por um segundo a mais do que devia.
     

    Ela entendeu.
     

    — Foi o Syan, não foi? — disse, sem alterar o tom. — Resolveu pagar mais que minha tia?
     

    O novato piscou. Tiko não respondeu. Fez de levar a mão para a arma.
     

    Helena agiu primeiro.
     

    O jato de fogo concentrado saiu da palma da mão, preciso. Atingiu o novato no centro do peito. A armadura falhou no impacto. Ele foi lançado para trás, caiu pesado e não se mexeu mais.
     

    Tiko ergueu o rifle no mesmo instante em que Helena se jogava atrás da cápsula.
     

    — Helena, não faça isso pior do que já é — avisou, a voz tensa, contida.
     

    Começou a contornar a cápsula.
     

    Ela já estava no painel, programando algo.
     

    Assim que teve visão dela, colocou a arma em atordoar e disparou.
     

    O tiro pegou de raspão, arrancando parte da placa do ombro. O metal se partiu. Helena cambaleou, mas não caiu. Continuou teclando com uma mão só, tentando manter o corpo protegido.
     

    Mais dois disparos. Ambos acertaram a cápsula.
     

    Helena terminou o que fazia, se jogou de lado e correu.
     

    — Merda.
     

    Tiko correu atrás. Quando chegou perto da cápsula, ouviu o bipe repetitivo.
     

    — Droga.
     

    Se jogou no chão.
     

    A detonação foi seca, próxima demais.
     

    A onda de choque atingiu Tiko e Helena. A moto-neve mais próxima virou, o motor morrendo com um chiado curto. Fragmentos de gelo, metal e neve tomaram o ar.
     

    Quando o som cessou, Tiko levantou a cabeça.
     

    Helena não estava mais ali.
     

    A cápsula tinha sido destruída. Ela fugira, mas não sem custo. Partes da armadura estavam espalhadas pelo chão.
     

    Sangue marcava a neve em manchas irregulares, já sendo apagadas pelo vento.
     

    Tiko se levantou com dificuldade. A cabeça latejava. O comunicador estava rachado, mas ainda funcionava. Olhou para o corpo do novato, imóvel. Depois para o rastro confuso que o vento já apagava.
     

    — Que monte de merda…
     

    Tentou seguir, deu alguns passos, e parou. Não havia mais nada para rastrear. A explosão tinha feito o trabalho dela.
     

    Ativou o comunicador.
     

    — Chefe — disse, controlando a voz. — Temos um problemão.

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