Capítulo 70: lobo em pele de cordeiro
Bulk xingava baixinho enquanto avançava pela neve fofa. Cada passo afundava quase até o joelho, forçando os atuadores mecânicos das pernas a trabalharem além do confortável. O vento empurrava flocos soltos contra o visor do seu óculos, reduzindo a visibilidade a poucos metros.
— Como aqueles idiotas deixaram ela escapar? — resmungou, mais para si do que para a outra.
Velvet seguia alguns metros à frente. Às vezes parecia desaparecer por completo, dissolvida no branco. A roupa e os cabelos quase se confundiam com o ambiente. Só reaparecia quando se movia contra o vento, revelando a silhueta fina e constante. Não deixava marcas visíveis. Se deixava, a neve tratava de apagá-las rápido.
A garota Sylaris estava sumida havia um dia e meio.
Fantasma e o restante do grupo vasculhavam outra coordenada desde a manhã. Tinham decidido dividir forças para tentar afunilar a área antes que o tempo fechasse de vez. Ainda havia margem. Pouca, mas havia.
— Tem certeza que sabe pra onde está indo? — perguntou Bulk, já sem paciência.
Velvet não respondeu. Apenas virou o rosto por cima do ombro e sorriu. Um sorriso curto, quase infantil.
Bulk rangeu os dentes. Gostava daquele jeito dela. Gostava do silêncio. Mas a ausência de respostas começava a lhe dar nos nervos. Se encontrassem Helena, ela não pretendia seguir plano nenhum à risca.
“Entregar ilesa o caralho.”
Cuspiu na neve e seguiu em frente.
Fantasma tinha discutido com ela por ter escolhido Velvet, a “garota-coelho”, como ele gostava de chamar. Dissera que ela só queria levar a rastreadora pra cama. Não estava totalmente errado. Mas Bulk não confundia diversão com trabalho. Diversão vinha depois. Trabalho vinha primeiro. E ter alguém capaz de enxergar o que ninguém mais via estava se mostrando uma decisão certa.
Quando ergueu os olhos, Velvet tinha sumido.
Ou assim pareceu, por um instante.
Bulk parou, acionando os sensores do visor. Nada. Então deu dois passos à frente e percebeu. Velvet estava parada, imóvel, contra o vento, a poucos metros. A roupa branca a tornava quase invisível.
O olhar dela estava fixo adiante.
— Ela está ali? — perguntou Bulk, seca. Não tinha mais paciência para falsas pistas.
Velvet assentiu devagar e apontou com o indicador para um ponto distante. Uma fissura na rocha, quase invisível entre duas elevações. Pequena demais para chamar atenção à distância. Grande o suficiente para alguém ferido se enfiar lá dentro.
Bulk se aproximou e segurou o queixo da garota de cabelos brancos, forçando-a a levantar o rosto. Depositou um beijo rápido sobre os lábios fechados dela. Não era carinho. Era posse. Uma forma de descarregar a tensão acumulada.
— Sabia que você seria útil, minha gracinha — murmurou. — Esses olhos… nem o Fantasma pegaria aquela entrada com esse tempo maldito.
Velvet riu baixo. Não respondeu. Apenas fez um gesto para que Bulk fosse na frente.
A grandalhona avançou alguns passos e então parou de repente. Levou a mão ao bolso da jaqueta térmica e puxou o comunicador.
— Chefe. Achamos ela. Vou bipar nossa posição.
Um chiado breve, depois a voz rouca do outro lado:
— Compreendido. Estamos a caminho.
Bulk sorriu. Um sorriso largo que previa violência e diversão.
Desceu o declive quase escorregando. A neve chegava perto do joelho em alguns pontos. Os motores de suas pernas reclamaram. Quase caiu duas vezes. Quando se aproximaram da entrada, algo chamou atenção.
Uma mancha escura na rocha.
Bulk se agachou e passou os dedos pela superfície. Marrom escuro, já seco nas bordas. A forma lembrava uma mão aberta, pressionada contra a pedra.
— Sangue — disse, satisfeita.
Alguém ferido tinha escolhido aquele lugar para se esconder.
Helena Sylaris, se o Demiurgo tivesse compaixão.
Bulk se espremeu pela passagem estreita. Os braços mecânicos rasparam na pedra gelada, arrancando faíscas breves.
— Vou cobrar o polimento disso do Syan — rosnou, irritada.
Velvet veio logo atrás, deslizando sem esforço pelo espaço apertado.
A câmara interna se abriu diante delas. Pequena, irregular. Um fogareiro químico ainda ativo ocupava o centro, emitindo calor fraco. Uma armadura de domador estava encostada numa das paredes, com placas removidas. No canto oposto, um saco de dormir prateado.
Dentro dele, Helena Sylaris ergueu o corpo num sobressalto.
O movimento foi rápido demais para alguém naquele estado. O rosto estava pálido. Os olhos, arregalados, presos na entrada da caverna. O macacão vermelho contrastava violentamente com o ambiente. As armas estavam longe, fora de alcance imediato.
— Achei você! — gritou Bulk, abrindo os braços e dando um passo à frente.
Helena ergueu a mão num reflexo. O gesto saiu torto. O rosto se contraiu numa careta clara de dor.
O corpo não acompanhou a intenção.
Atrás dela, algo se materializou no ar.
Um pássaro vermelho e amarelo surgiu, abrindo as asas no espaço apertado. A feraether de Helena. O calor aumentou de imediato.
A rajada de fogo saiu concentrada, direta.
Bulk rolou para o lado, sentindo o impacto térmico passar rente ao corpo. Sacou a pistola pesada antes mesmo de parar de girar.
Dois disparos ecoaram na caverna, secos, ensurdecedores. O som bateu nas paredes e voltou multiplicado.
A ave se desfez no ar, virando uma névoa dourada que foi sugada de volta ao peito de Helena.
Bulk se levantou, batendo as mãos na jaqueta para apagar um foco pequeno de fogo.
— Mas que droga — resmungou. — Garota, ainda bem que você é bonita. Vai me pagar por toda essa dor de cabeça. De um jeito ou de outro.
Helena recuou instintivamente, o calcanhar batendo na pedra. O corpo não respondia no ritmo que precisava. Quando Bulk a alcançou, as mãos grandes se fecharam nos braços dela e a ergueram do chão.
O grunhido escapou antes que ela conseguisse conter. O quadril latejou. O sangue quente escorreu sob o tecido do macacão, manchando ainda mais o vermelho.
Bulk aproximou o rosto e encostou o nariz no pescoço de Helena. Inspirou fundo.
— Gosto desse cheiro — disse, arrastando a língua pelo local. — Medo misturado com suor.
— Bulk? — a voz de Velvet surgiu atrás dela, baixa.
Bulk virou a cabeça, sorrindo.
— Não vá me dizer que tá com ciúmes—
A frase morreu antes do fim.
A adaga de monofilamento atravessou o peito de Bulk até a guarda, bem onde estava seu coração. O corpo inteiro da grandalhona travou por um segundo. O sorriso desapareceu.
Velvet puxou a lâmina com um movimento controlado. O sangue escorreu devagar pela guarda da adaga antes de pingar na neve suja do chão da caverna.
Helena observou o corpo de Bulk desabar de lado, os braços mecânicos ainda se debatendo por reflexo. Viu a garota de branco fazer uma expressão de desgosto, franzindo a boca e o nariz. Era como se tivesse nojo.
— Finalmente — murmurou. — Chega desses dedos nojentos.
Ela limpou a lâmina numa dobra interna da roupa branca antes de guardá-la novamente na bainha oculta. Só então se virou para Helena, que ainda tremia no canto, o corpo encolhido contra a pedra fria.
Velvet se abaixou com elegância, joelhos juntos, costas retas e depositou aos pés dela a seringa de restaurador celular e o pacote de ração seca, como quem oferece biscoitos numa recepção.
— Senhorita Helena Sylaris — disse ela, com voz baixa, mas perfeitamente articulada. — Lady Aliah envia seus respeitos e lamenta profundamente as inconveniências causadas por este… contratempo. Ela pressentiu que pudesse ser traída.
Helena ergueu o olhar, os olhos ainda arregalados, o peito subindo e descendo em respirações curtas e doloridas. Não entendia completamente o que estava acontecendo.
Velvet inclinou ligeiramente a cabeça, um gesto educado de deferência que, de algum modo, parecia mais ameaçador do que qualquer grito.
— Permita-me assegurar-lhe: a partir deste instante, a senhorita está sob minha proteção direta. No entanto… — Ela fez uma pausa breve, os olhos claros fixos nos de Helena, sem piscar. — Ainda precisamos manter a aparência de que nada mudou. Fantasma e seus homens estão a caminho. Eles esperam encontrar Bulk viva, com a refém capturada e subjugada. Portanto, a senhorita continuará sendo a “prisioneira” dele. Eu permanecerei como o membro útil do seu grupo de mercenários que impediu sua fuga.
— Eu suportei o que foi necessário — continuou Velvet, o tom raivoso, chutando seu braço mecânico. — Suportei os toques dela, os olhares, as noites em que precisei fingir prazer para não levantar suspeitas. Cada segundo foi calculado. Cada sorriso forçado. Bulk morreu no instante que resolveu que eu deveria aquecer sua cama. Bulk era o lixo a ser retirado.
Helena engoliu em seco. A dor no quadril latejava, mas o que doía mais era a imagem que aquelas palavras evocavam: a garota de aparência frágil de cabelos brancos, pálida e pequena, deitada ao lado daquela montanha de músculos e metal, fingindo, aguentando, esperando o momento exato. Quem era ela?
— Para todos os efeitos — prosseguiu Velvet, erguendo-se devagar e alisando a roupa branca como se estivesse se preparando para receber visitas. — Foi a senhorita quem matou esse monte de merda. Em um golpe surpresa. Eu, infelizmente, não consegui intervir a tempo. Essa será a versão que contaremos. Fantasma acreditará, ele sempre achou Bulk imprudente demais.
Ela estendeu a mão pequena e pálida na direção de Helena, não para ajudá-la a se levantar, mas como um gesto formal de oferta.
— Vamos, coma e se cure, senhorita. Aplique o restaurador imediatamente; a hemorragia precisa ser contida antes que eles cheguem. Preciso colocar as algemas na senhorita em seguida. Elas serão reais, mas folgadas o suficiente para que não machuquem mais do que o necessário. A aparência deve ser convincente.
Helena manteve o olhar fixo nela. O corpo ainda tremia. A dor pulsava, mas havia algo pior ali. Algo que não se resolvia com curativos.
A garota à sua frente a assustava mais que a grandalhona, muito mais.
Estava quase com pena do Fantasma por ter traído sua tia.

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