Índice de Capítulo

    A vila estava silenciosa, deserta sob o manto da noite. A cada golpe no tronco, Kenji fazia uma breve pausa de um minuto, tentando recuperar o fôlego e a força.

    O tempo se arrastava, e o suposto minotauro que deveria supervisioná-lo não aparecia. Mesmo assim, ele persistia.

    Suas mãos tremiam, os braços pesavam, e a exaustão o dominava por completo. Os golpes perderam a força, e logo seu machado mal arranhava a madeira.

    A frustração crescia junto com a certeza de que, naquele ritmo, não chegaria a lugar algum.

    “Quando será que isso vai acabar? Meus músculos doem. Eu tenho que ir pra casa.”

    Kenji sentiu medo, por isso não tinha parado até aquele momento de cortar madeira. Era como se ele sentisse uma extrema pressão mesmo sozinho, como se aos arredores dele, o minotauro estivesse o observando.

    “Se eu parar ele pode aparecer… Eu preciso sair daqui, talvez se eu correr bem rápido ele não me alcance.”

    Diante daquela situação, Kenji parou. Os braços pesados, o corpo exausto e a mente à beira do colapso. Aquilo não era o que esperava.

    Sem dizer uma palavra, decidiu: iria deixar a vila, escapar daquela rotina esmagadora. Mas antes mesmo de dar o primeiro passo, um leve som de asas cortando o ar interrompeu seus pensamentos.

    Ele reconheceu imediatamente — era Isha.
    Ela pousou suavemente à sua frente, com os olhos fixos nele. Sua expressão não era de raiva, tampouco de repreensão. Era tristeza.

    Uma mistura silenciosa de empatia e pena. Ela não disse nada, mas o olhar dizia tudo: ela compreendia a dor dele.

    — Vamos embora, você já trabalhou muito! — ao dizer isso, Isha cobre Kenji com seu pó de fada mais uma vez, fazendo o mesmo flutuar, para que ele não tivesse mais nenhum esforço.

    Com os dois no ar, Isha começa a guiar Kenji até o que seria a casa dela, eles entram flutuando pela janela e ela deixa o garoto deitado num sofá.

    — Obrigado, mais uma vez.

    — Descanse, tenho certeza que amanhã você estará melhor. — Isha pousa e suas asas se recolhem, ela deixa Kenji deitado e se retira para o seu quarto.

    “O minotauro deve ter me enganado, ele só queria me por medo e me deixar lá até desmaiar.”

    — Tomara que amanhã seja um dia melhor. — Kenji começa a pegar no sono, aquele dia tirou todas suas energias, ele não teve tempo para fazer outra coisa, então ele só dormiu.

    Abrindo os olhos esse se vê em frente de Shiro seu irmão, ele usava vestes pretas e chorava bastante.

    — Irmão?! — ao falar isso ele novamente abre os olhos percebendo que era só um sonho.

    “Estranho!”

    Apesar da estranheza em seu sonho ele se sentia revigorado. Isha já tinha se levantado e preparado café para Kenji.

    Fadas costumam se alimentar de tudo que vem da natureza, então o café preparado para Kenji não podia ser diferente.

    — Espero que você esteja melhor, porque hoje o dia vai ser longo. — disse Isha se aproximando com uma bandeja. Na bandeja tinha um pote de mel e frutas de diferentes tipos.

    — Longo?! Eu vou voltar a trabalhar com os minotauros? — perguntou Kenji espantado, já imaginando o pior.

    — Você vai numa missão de resgate com os lagartos. Não era bem eles que deveriam ir, mas foi completamente de última hora, vai ter que servir!

    Kenji reconhecia e apreciava tudo o que Isha havia feito por ele até agora. Ela o acolheu em sua casa, ofereceu comida e lhe proporcionou um lugar seguro para descansar.

    Contudo, ele não conseguia entender por que Isha insistia tanto para que ele trabalhasse.

    Em sua cabeça, imaginava que talvez estivesse apenas quitando o custo do que consumiu na taverna, já que, até o momento, não conseguiu vender nada do que havia coletado e, consequentemente, não tinha dinheiro guardado.

    — Coma e se vista, você irá para cidade resgatar um unicórnio que foi capturado. Qualquer coisa os lagartos te explicam tudo! — ela sorri mais uma vez como de costume, pega roupas limpas, deixando num canto separado para Kenji e se retira.

    Kenji termina de comer e uma sensação de que aquilo não seria o suficiente paira em sua mente, porém ele não questiona e veste as roupas novas.

    Ele usa uma túnica vermelha de mangas curtas, presa por um cinto largo de tecido ou couro ornamentado com detalhes e amarrações.

    Sob a túnica, veste calças volumosas de cor escura que se ajustam nos dois tornozelos com faixas, proporcionando mobilidade e conforto.

    Os braços estão parcialmente enfaixados com bandagens. Nos pés, ele calça sapatos leves, que escondem suas meias aladas que permaneciam em seus pés.

    A casa de Isha não era tão grande, quase não tinha móveis, provavelmente ela tinha se mudado recentemente como ela havia dito.

    Kenji sai da casa da fada e começa a andar na vila. Em um dos portões laterais da vila ele percebe o grupo de lagartos, e vai de encontro a eles, percebendo que Isha também estava lá.

    — Ótimo! A roupa deu certinho em você, parece até outra pessoa. — Isha ri. — Como estão todos aqui, vamos continuar. Vocês vão entrar na cidade como viajantes comuns, no entardecer na biblioteca central, em algum lugar de lá vai acontecer um leilão, e o unicórnio será leiloado. Vocês só precisam resgatar o unicórnio, seja antes, durante ou depois do leilão, façam como quiserem, depois disso vão devolvê-lo à sua respectiva floresta em segurança. Alguma pergunta?

    — Como vocês descobriram que um unicórnio seria leiloado? — perguntou Kenji.

    — Temos alguns gnomos trabalhando por lá, eles nos enviaram uma carta informando isso, como eles não são um número grande, pediram nossa ajuda.

    — Desde quando aqui tem gnomos? Eu não vi nenhum.

    — A maioria está trabalhando escondido nessa cidade, e o resto continua aqui, eles não são do tipo que gostam de aparecer. Enfim, se vocês saírem agora conseguem chegar lá a tempo.

    Os lagartos começam a caminhar na frente e Kenji fica para trás ainda conversando com Isha.

    — Tome cuidado! Os lagartos tem a seu próprio jeito de fazer as coisas, mas acho que você vai se sair bem… Boa sorte e boa viagem!

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