Capítulo 53: Prova
Kallion puxou Kenji para uma conversa, eles largaram as coisas no porão do jeito que estavam e subiram para conversar.
— O que o senhor queria me contar? — perguntou Kenji.
— Antes de você chegar aqui, eu tive um aluno. Ele era determinado e ambicioso, por conta disso discordamos de várias coisas, mas era o tipo de companhia interessante. Ele chegou aqui com sede de aprender, entender mais sobre a vida de devoção. Mas ele não se contentou apenas com isso, sempre que tinha um vislumbre do que eu podia fazer ficava encantado, ele buscou aprender de técnicas e habilidades que ele pudesse usar para sobreviver e se defender de qualquer perigo. Esse foi o meu pecado, ele buscou poder demais, se tornou arrogante e com senso próprio de justiça, algo que vai contra meus ensinamentos. — Kallion diz abaixando a cabeça. — Mas eu não consegui pará-lo. Pelo menos não fui capaz… com uma técnica de separação eu removi o seu espírito de seu corpo e o aprisionei no orbe que você quebrou. Agora ele está a solta e se ele virar um espírito vingativo, vai fazer um estrago tão grande que você nem imagina.
— E-eu não sabia, me perdoe! — disse Kenji se curvando, demonstrando seu grande arrependimento.
— Não precisa disso, eu deveria ter parado-o quando tive a chance.
— E então, o que faremos? — perguntou Kenji ficando com as costas ereta novamente.
— O que faremos? Humpf… O que você vai fazer?! Você assumiu a responsabilidade e mesmo que não fizesse isso ainda seria culpa sua, e como foi que eu te ensinei?
— “Um monge não foge de suas responsabilidades.”
— Ótimo! Esse será como um último teste para você Kenji, como eu não conseguir matar o meu ex aluno, eu deixo em suas mãos essa responsabilidade.
Kenji engoliu seco.
— Como eu vou matar aquela coisa? Isso é possível? — indagou Kenji.
— Claro que sim! Mas não se preocupe, eu irei te ensinar tudo, você passará por uma outra bateria de treinamentos até estar pronto.
Kenji parou um segundo e observou toda aquela situação, percebeu a besteira que fez, como muitas outras que fez antes mesmo de chegar até aqui. Ele pensou que poderia ser sua chance de abraçar uma nova vida e se redimir do que fez.
Do que fez com o seu mestre, do que faz em Banehaven e principalmente do que fez com sua família.
Todos os dias que treinava com Kallion sentia falta de seu lar, e como os ensinamentos de Kallion abriram sua mente, lhe deu uma margem de possibilidades de assumir a responsabilidade pelos seus atos e voltar para onde tudo começou.
“Essa é a minha chance.” Pensou Kenji.
“Tenho que me provar capaz de assumir responsabilidade e finalmente lidar com tudo que eu tenho fugido esse tempo todo.”
— Merda! Isso não pode estar acontecendo de verdade. — balbuciou Kallion consigo mesmo. — Preciso te ensinar o básico.
— Talvez não seja tão necessário. — disse Kenji se lembrando de quando foi treinado por Ajak e viu de perto lutas tão violentas que nem Kallion acreditaria. — Antes de vir pra cá, de certa forma tive um professor que me ensinou a lutar.
— Sério? Me mostre o que ele te ensinou então!
— Não sei se consigo mostrar isso agora, eu vou precisar de uma ar..
— Esquece isso, venha comigo. — interrompeu Kallion chamando Kenji para o lado de fora do templo.
Kallion desceu as escadas e se aproximou de uma árvore na parte externa de toda aquela estrutura do templo. Kenji o seguiu confuso, mas não o questionou em nenhum momento.
— Quero que você dê um soco nessa árvore.
Kenji hesitou mas obedeceu o pedido do monge, dando um leve soco no tronco da árvore.
— Mais forte!
Kenji dá outro soco.
— Mais forte!
Kenji dá outro soco.
— Mais forte!
Kenji enfim dá o terceiro soco sua mão estava doendo mas para se manter firme tentou não demonstrar nem expressar sua dor.
— Quando socar tem que ter em mente como e onde você está socando. Nesse momento você está socando a árvore, a árvore não sentiu o impacto dos seus socos, agora me diz porquê?
Kenji ficou sem resposta.
— Porque você é fraco! — Bradou Kallion.
Aquilo bateu forte quando Kenji escutou tais palavras.
— Quando se bate em uma coisa com tamanha resistência, seu golpe tende a falhar, porque não foi forte o suficiente, não tem técnica o suficiente. Socar sem saber o que está fazendo também não faz diferença nenhuma. Concentração não é apenas para meditar, mas também para lutar, uma luta não se define com uma quantidade desordenada de golpes, mas em o quão equilibrado mentalmente você está. Agora eu quero que você continue socando a árvore, nesse mesmo ponto até você fazer um arranhão nela!
— Isso vai demorar séculos! É impossível eu fazer isso rápido o suficiente!
— É por isso que se chama treinamento, você vai treinar até não precisar mais treinar. Então comece!
Kenji começou com uma onda de treinamento intenso, continuou socando a árvore naquele ponto e todas as vezes que seu braço fraquejava Kallion pessoalmente e o forçava a continuar.
— Está errado! Seu braço precisa estar bem estendido, não se soca de qualquer jeito! Faça de novo!
Com o braço totalmente estendido e aplicando força no momento certo, Kenji continuou socando aquela bendita árvore.
Suas mãos já estavam vermelhas, a dor só aumentava e o tronco não tinha sinais de que iria arranhar tão cedo.
O suor percorria pelo corpo de Kenji, quanto mais ele socava mais ele se fatigava. As únicas pausas que Kallion permitiu foram pra respirar uns segundos e beber água.
Com outros ensinos Kallion era mais flexível e comunicativo. Dessa vez ele tinha uma seriedade jamais vista por Kenji, ele pensou que por se tratar do espírito de um ex aluno seus ânimos ficaram elevados.
Uma brisa suave percorria o ambiente, o vento soprava sobre os cabelos de Kenji e a barba de Kallion.
O vento não era forte naquela época do ano, então sempre que soprava era numa brisa calma e suave, como se a natureza conversasse diretamente com eles.
— Se concentre Kenji, lembre-se do que te ensinei sobre meditação. — disse Kallion.
A respiração de Kenji estava ofegante, seus socos constantes no tronco da árvore se tornaram extremamente dolorosos, suas mãos tremiam e sua visão estava ficando fraca.
Antes de socar ele respirava, focando na meditação que tinha aprendido, ajudava a resistir um pouco aquela dor constante e angustiante. Ele não ousou em parar pois sua mente tinha apenas um pensamento.
“ASSUMA RESPONSABILIDADE!”
Depois de várias conversas com Kallion, Kenji entendeu que para ser um homem e monge de respeito ele precisaria ser equilibrado e assumir responsabilidades.
Responsabilidade nesse momento da qual ele poderia não assumir, mas encarou como um desafio, sendo apenas o começo de sua jornada para não mais fugir de seus problemas.
Enquanto socava a árvore essas questões e a fala de Kallion invadiram sua mente, com isso ele se manteve firme e cheio de determinação.
Seus socos tornaram-se mais precisos, cada um carregando um peso e uma fúria ainda maiores. A pele de sua mão, já em carne viva, começou a se abrir, deixando o sangue escorrer contra a casca áspera do tronco.
“Eu tenho que conseguir! Eu preciso me provar, me superar e provar pro Kallion e… para todos que eu não vou mais fugir!”
No golpe final, o que antes era apenas madeira esturricada tingiu-se de um vermelho profundo. A natureza, antes pura e intocada, fora marcada por um carmesim tão vívido que parecia pulsar.
Era como a presença de uma higanbana: intensa, bela e assustadora, um símbolo de fascínio e perigo entrelaçados.

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