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    Kallion puxou Kenji para uma conversa, eles largaram as coisas no porão do jeito que estavam e subiram para conversar.

    — O que o senhor queria me contar? — perguntou Kenji.

    — Antes de você chegar aqui, eu tive um aluno. Ele era determinado e ambicioso, por conta disso discordamos de várias coisas, mas era o tipo de companhia interessante. Ele chegou aqui com sede de aprender, entender mais sobre a vida de devoção. Mas ele não se contentou apenas com isso, sempre que tinha um vislumbre do que eu podia fazer ficava encantado, ele buscou aprender de técnicas e habilidades que ele pudesse usar para sobreviver e se defender de qualquer perigo. Esse foi o meu pecado, ele buscou poder demais, se tornou arrogante e com senso próprio de justiça, algo que vai contra meus ensinamentos. — Kallion diz abaixando a cabeça. — Mas eu não consegui pará-lo. Pelo menos não fui capaz… com uma técnica de separação eu removi o seu espírito de seu corpo e o aprisionei no orbe que você quebrou. Agora ele está a solta e se ele virar um espírito vingativo, vai fazer um estrago tão grande que você nem imagina.

    — E-eu não sabia, me perdoe! — disse Kenji se curvando, demonstrando seu grande arrependimento.

    — Não precisa disso, eu deveria ter parado-o  quando tive a chance.

    — E então, o que faremos? — perguntou Kenji ficando com as costas ereta novamente.

    — O que faremos? Humpf… O que você vai fazer?! Você assumiu a responsabilidade e mesmo que não fizesse isso ainda seria culpa sua, e como foi que eu te ensinei?

    — “Um monge não foge de suas responsabilidades.”

    — Ótimo! Esse será como um último teste para você Kenji, como eu não conseguir matar o meu ex aluno, eu deixo em suas mãos essa responsabilidade.

    Kenji engoliu seco.

    — Como eu vou matar aquela coisa? Isso é possível? — indagou Kenji.

    — Claro que sim! Mas não se preocupe, eu irei te ensinar tudo, você passará por uma outra bateria de treinamentos até estar pronto.

    Kenji parou um segundo e observou toda aquela situação, percebeu a besteira que fez, como muitas outras que fez antes mesmo de chegar até aqui. Ele pensou que poderia ser sua chance de abraçar uma nova vida e se redimir do que fez.

    Do que fez com o seu mestre, do que faz em Banehaven e principalmente do que fez com sua família.

    Todos os dias que treinava com Kallion sentia falta de seu lar, e como os ensinamentos de Kallion abriram sua mente, lhe deu uma margem de possibilidades de assumir a responsabilidade pelos seus atos e voltar para onde tudo começou.

    “Essa é a minha chance.” Pensou Kenji.
    “Tenho que me provar capaz de assumir responsabilidade e finalmente lidar com tudo que eu tenho fugido esse tempo todo.”

    — Merda! Isso não pode estar acontecendo de verdade. — balbuciou Kallion consigo mesmo. — Preciso te ensinar o básico.

    — Talvez não seja tão necessário. — disse Kenji se lembrando de quando foi treinado por Ajak e viu de perto lutas tão violentas que nem Kallion acreditaria. — Antes de vir pra cá, de certa forma tive um professor que me ensinou a lutar.

    — Sério? Me mostre o que ele te ensinou então!

    — Não sei se consigo mostrar isso agora, eu vou precisar de uma ar..

    — Esquece isso, venha comigo. — interrompeu Kallion chamando Kenji para o lado de fora do templo.

    Kallion desceu as escadas e se aproximou de uma árvore na parte externa de toda aquela estrutura do templo. Kenji o seguiu confuso, mas não o questionou em nenhum momento.

    — Quero que você dê um soco nessa árvore.

    Kenji hesitou mas obedeceu o pedido do monge, dando um leve soco no tronco da árvore.

    — Mais forte!

    Kenji dá outro soco.

    — Mais forte!

    Kenji dá outro soco.

    — Mais forte!

    Kenji enfim dá o terceiro soco sua mão estava doendo mas para se manter firme tentou não demonstrar nem expressar sua dor.

    — Quando socar tem que ter em mente como e onde você está socando. Nesse momento você está socando a árvore, a árvore não sentiu o impacto dos seus socos, agora me diz porquê?

    Kenji ficou sem resposta.

    — Porque você é fraco! — Bradou Kallion.

    Aquilo bateu forte quando Kenji escutou tais palavras.

    — Quando se bate em uma coisa com tamanha resistência, seu golpe tende a falhar, porque não foi forte o suficiente, não tem técnica o suficiente. Socar sem saber o que está fazendo também não faz diferença nenhuma. Concentração não é apenas para meditar, mas também para lutar, uma luta não se define com uma quantidade desordenada de golpes, mas em o quão equilibrado mentalmente você está. Agora eu quero que você continue socando a árvore, nesse mesmo ponto até você fazer um arranhão nela!

    — Isso vai demorar séculos! É impossível eu fazer isso rápido o suficiente!

    — É por isso que se chama treinamento, você vai treinar até não precisar mais treinar. Então comece!

    Kenji começou com uma onda de treinamento intenso, continuou socando a árvore naquele ponto e todas as vezes que seu braço fraquejava Kallion pessoalmente e o forçava a continuar.

    — Está errado! Seu braço precisa estar bem estendido, não se soca de qualquer jeito! Faça de novo!

    Com o braço totalmente estendido e aplicando força no momento certo, Kenji continuou socando aquela bendita árvore.

    Suas mãos já estavam vermelhas, a dor só aumentava e o tronco não tinha sinais de que iria arranhar tão cedo.

    O suor percorria pelo corpo de Kenji, quanto mais ele socava mais ele se fatigava. As únicas pausas que Kallion permitiu foram pra respirar uns segundos e beber água.

    Com outros ensinos Kallion era mais flexível e comunicativo. Dessa vez ele tinha uma seriedade jamais vista por Kenji, ele pensou que por se tratar do espírito de um ex aluno seus ânimos ficaram elevados.

    Uma brisa suave percorria o ambiente, o vento soprava sobre os cabelos de Kenji e a barba de Kallion.

    O vento não era forte naquela época do ano, então sempre que soprava era numa brisa calma e suave, como se a natureza conversasse diretamente com eles.

    — Se concentre Kenji, lembre-se do que te ensinei sobre meditação. — disse Kallion.

    A respiração de Kenji estava ofegante, seus socos constantes no tronco da árvore se tornaram extremamente dolorosos, suas mãos tremiam e sua visão estava ficando fraca.

    Antes de socar ele respirava, focando na meditação que tinha aprendido, ajudava a resistir um pouco aquela dor constante e angustiante. Ele não ousou em parar pois sua mente tinha apenas um pensamento.

    “ASSUMA RESPONSABILIDADE!”

    Depois de várias conversas com Kallion, Kenji entendeu que para ser um homem e monge de respeito ele precisaria ser equilibrado e assumir responsabilidades.

    Responsabilidade nesse momento da qual ele poderia não assumir, mas encarou como um desafio, sendo apenas o começo de sua jornada para não mais fugir de seus problemas.

    Enquanto socava a árvore essas questões e a fala de Kallion invadiram sua mente, com isso ele se manteve firme e cheio de determinação.

    Seus socos tornaram-se mais precisos, cada um carregando um peso e uma fúria ainda maiores. A pele de sua mão, já em carne viva, começou a se abrir, deixando o sangue escorrer contra a casca áspera do tronco.

    “Eu tenho que conseguir! Eu preciso me provar, me superar e provar pro Kallion e… para todos que eu não vou mais fugir!”

    No golpe final, o que antes era apenas madeira esturricada tingiu-se de um vermelho profundo. A natureza, antes pura e intocada, fora marcada por um carmesim tão vívido que parecia pulsar.

    Era como a presença de uma higanbana: intensa, bela e assustadora, um símbolo de fascínio e perigo entrelaçados.

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