Capítulo 113: Julgamento
Um verdadeiro rei não precisa de uma coroa.
Victorios Anthrópinos
— Absurdo!
— Ultrajante!
— Um completo descaso!
Enquanto Kali sentava em meio a uma estrutura circular, ela era bombardeada por diversas críticas diretas a sua gerência.
— Em noventa e nove anos que organizamos esse torneio, esse tipo de coisa jamais aconteceu! — Disse um homem barbado. — No centenário, um evento que deveria ser o mais importante da história, essa vergonha caí sobre nossos ombros!
— Lastimante…
— Vergonhoso…
A mulher ouvia de cabeça levantada, sem piscar ou expressar qualquer descontentamento.
— Anpýrgio deveria ser o bastião da humanidade… o lugar mais seguro em todo o império… — disse uma mulher velha. — Além disso, é de costume que todos os convidados diminuam sua presença e limitem sua força, deixando todo o cuidado com a segurança nas mãos dos anfitriões.
— Bem, a gerência deve assumir a culpa…
— O que esperar da filha de…
— Silêncio.
A voz do homem que sentava um pouco mais alto que todos os outros soou calma e baixa, mas imponente e respeitável. No mesmo instante, todas as outras pessoas pararam de falar.
— É fato que o que aconteceu no dia de hoje foi lamentável… meu pai, o imperador, confiou Anpýrgio nas mãos de Arcádia por julgar ser a decisão mais sabia… — disse ele pausada e elegantemente. — Jamais julgaria sua decisão como equivocada… mas talvez, até mesmo os grandes homens tenham escolhas… precipitadas…
— Vossa majestade, as investigações sobre o que se passou ainda estão sob andamento, talvez fosse melhor deixar o veredito para depois… — disse um outro homem mais jovem.
— Como aconteceu não é o que está sendo julgado, o ponto é que jamais sob nenhuma circunstancia deveria ter acontecido — uma mulher, também um pouco mais jovem que a média. — Alguma penalidade deve ser imposta, se não, como explicaremos para as outras raças…
— Silêncio! — disse o nobre, dessa vez em um tom de voz mais alto e ameaçador. — Eu decido o que deve ser feito.
Todos os presentes imediatamente se calaram.
— Talvez… — continuou — a julgada teria algo a dizer para se defender.
Os olhos se viraram para o centro, onde estava Kali, sem dizer uma palavra desde que chegou. Finalmente, levantando a cabeça, ela disse:
— É minha falha ter permitido que tais profanidades acontecessem em um evento tão importante — falou solenemente.
— Então você admite?
— Sim.
Os outros presentes se entreolharam, tentando entender o porquê Kali havia simplesmente se submetido.
— Alguma coisa a mais?
— Após cuidadoso interrogatório, descobrimos algumas coisas que suponho seriam do interesse de todos os presentes.
— Achei que o demônio havia morrido…
— Não tenho como confirmar a morte do Avicci, mas não estava falando dele, vossa majestade — respondeu. — O cérebro de Otávio não estava muito danificado.
— Então, prossiga…
Kali se virou para uma das pessoas presentes, acenando com a cabeça. O homem possuía cabelos verdes lisos e sedosos, alcançando seus ombros; sua estatura era um pouco acima da média e sua aparência era similar a um modelo de produtos para cuidado de pele.
— Obrigado por me deixar falar, vossa majestade.
— E você é? — perguntou.
— Meu nome é Lucas, Lucas Nieman, sou um dos atuais Lordes da facção de Arcádia e responsável pela inteligência.
— O que tem para nós dizer, Lucas?
Apesar de se referir ao príncipe da mesma forma que Kali, ele claramente falava com muito mais respeito, afinal, o homem não era um deus.
— Primeiramente, por mais que a relação entre nossas duas facções seja publicamente ruim, fico feliz em dizer que Otávio agiu por conta própria, Babylon não teve qualquer atitude direta nesse incidente.
— Está me dizendo que essa confusão inteira foi causada por apenas uma pessoa? — perguntou subindo o tom de voz. — Você não poderia estar dizendo isso, certo?
— De forma alguma, senhor. Honestamente, como todos sabemos, o Avicci em questão possui o poder de manipulação, foi dessa forma que ele conseguiu influenciar em tantos lugares da cidade ao mesmo tempo.
— Então fale com mais clareza, jovem.
O tom de voz nobre do homem despencou momentaneamente para um de comando. O filho do imperador não era um adolescente, mas definitivamente não era mais velho do que Lucas, porem, por mais que não tivesse chegado nem mesmo aos 30, ele ainda era o príncipe primogênito do império.
— Sim, senhor — continuou — Após vasculharmos as memórias de Otávio, não conseguimos identificar exatamente de quem veio a maça, mas pela voz e energia, supomos que tenha vindo diretamente de Triboulet. A arma em questão não era qualquer objeto de metal e sim um fragmento de algo maior.
— Que seria?
Lucas olhou para Kali, buscando algum sinal, mas como não recebeu nenhum, prosseguiu com suas palavras.
— Um fragmento de uma calamidade… a fome, vossa alteza…
— Uma calamidade?
— Ridículo!
— Sem sentido!
— Seis das sete calamidades não aparecem há mais de 90 anos!
— Silêncio!
E novamente, todos os presentes se calaram.
— Tem certeza de que era uma calamidade? — Perguntou o filho do imperador. — Não somente um demônio qualquer, talvez um Tártaros, ou outro Avicci?
— Não senhor… um fragmento de Tártaros não conseguiria exercer tamanho poder e controle… já Aviccis são seres especiais entre os demônios, eles não se fragmentam.
O homem levou uma das mãos ao rosto.
— Eu sei… eu sei… — disse, respirando fundo e olhando para os profundos olhos esmeralda de Kali. De todos os presentes, talvez apenas os dois e mais um sabiam o que isso verdadeiramente significava. — Discutirei esse assunto com meu pai, até lá, essa sessão fica suspensa. — Concluiu, se levantando.
— Senhor, precisamos de uma resposta as facções convidadas…
— Bem, diga a eles que a facção responsável será devidamente punida na questão territorial — respondeu. — Não se preocupe com a revelia, em breve eles entenderão.
— Minha senhora, o que foi aquilo? — Perguntou Lucas.
Já fora da corte, ambos caminhavam em direção ao coliseu, onde aconteceriam as últimas lutas do torneio.
— Aquilo?
— Sabe muito bem do que estou falando senhorita, sou o chefe de inteligência de Arcádia, se a senhorita está guardando alguma informação…
— Lucas.
— Sim?
— O que você sabe sobre a “Guerra do Milênio”?
— Senhorita?
— Responda…
Mesmo receoso, ele ainda respondeu.
— A guerra de expansão humana… liderada por seu pai… Muhali, o deus da sobrevivência…
— Sim… é o que dizem os livros de história…
— Minha senhora?
— Se eu te dissesse que é tudo mentira… se eu dissesse que tudo que você ouviu a sua vida inteira estava errado, você confiaria em mim?
Lucas se segurou por um segundo, mas sem pensar muito respondeu:
— Com todo meu coração.
— Bom… no momento é impossível para mim te contar sobre, mas em breve não será… pode esperar até lá?
— Sim senhora…
— Ótimo, então apressemos o passo, a luta de hoje vai decidir mais do que você imagina.
— Senhoras e senhores! — Téo, o narrador, na tentativa de animar a plateia, gritava com todo o seu folego. Seus cabelos pretos e lisos já haviam se tornado grisalhos e brancos com todo o estresse que passará na semana.
“É um inferno… estou no inferno…” pensava, mas como um bom profissional, fora as rugas de expressão e as olheiras, não deixava transparecer.
Téo havia acordado na expectativa de que seria um bom dia, o último dia de sua carreira, quem imaginaria que logo na primeira final, a de nível 1, um dos participantes se renderia sem lutar.
“Bem, não é como se a reputação de Hans fosse ficar pior, ele já nem deve se importar com esse tipo de coisa…” pensou. “Mas… essa próxima batalha será a luta do seculo, a minha redenção… meu pote de ouro no fim do arco iris…”
Presentes no coliseu, todas as figuras de maior importância se sentavam nos melhores lugares. Chefes de famílias, nobres, até mesmo o filho do imperador agraciava o público com sua presença. Na sala de espera, os nervos estavam a flor da pele; todo o grupo se fazia presente ao redor de Li. Além disso, Irmin também se fazia presente para desejar boa sorte.
— Desculpa… não consegui me recuperar a tempo da luta ontem… — disse Fynn.
Após o incidente durante a luta de Jihan. O torneio ficou suspenso pelo restante do dia até que pudessem assegurar que estaria tudo bem. Portanto, a luta de Fynn e dos tenentes havia sido remanejada para o dia seguinte, que em teoria seria o dia de descanso. Entretanto, mesmo com o dia a mais, Fynn não havia conseguido se recuperar, afinal, seus poderes afetavam a estrutura interna do seu corpo, a parte que mais demoraria a se curar e duelar contra Xu Wang no estado em que estava era um atestado de derrota.
— Não se preocupe — reafirmou Li. — Fico feliz que tenha se recuperado… e você — apontou para Hans. — Porque desistiu, achei que você e Selene dariam um show para a plateia.
O homem deu de ombros.
— Não estava muito no clima para isso, uma vitória de Selene é uma vitória para a equipe.
A conjuradora baixinha estava com um sorriso de canto a canto da boca, quando Li se virou em sua direção, ela fez um V com a mão e disse:
— Agora é a sua vez, Li.
— Você deve tomar cuidado, Jihan — disse Irmin. — Aquele homem é diferente, até agora ele não foi forçado a usar sua verdadeira força em momento algum… tenho certeza de que ele está escondendo algo… você pelo contrário…
— Ei, não precisa ser tão negativa, ainda tenho uma carta na manga!
— Lembre-se de por que estamos aqui… acredito que ele também estará presente no dia de hoje… — comentou Glória.
— Gregórios… acha que ela também estará presente? — questionou Li.
— Não sei… digo, já faz tanto tempo… me pergunto como Lisa está… — disse ela.
Matheus o fitava com os olhos, alguma coisa estava presa em sua garganta, mas antes dele conseguir falar algo, ouviu os passos de uma pessoa se aproximando.
— Você…
— Oi… — Uma tímida elfa se aproximava de cabeça baixa. — Eu só vim desejar boa sorte…
— Obrigado — respondeu Li, carinhosamente.
— Não ouse perder para aquele canalha — avisou Akemi.
— Não vou…
— Participante Li Jihan, está na hora — um dos funcionários o chamou.
— Então, estou indo!
Virando-se de costas, Matheus o acertou com um tapa.
— É melhor não perder!
Logo em seguida, Fynn também fez o mesmo.
— Vingue a minha derrota!
E um por um, cada um dos presentes deu um leve tapa nas costas de Jihan, empurrando-o em direção ao corredor.
Ele estava pronto.
Tenham um feliz natal!
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