Capítulo 117: Transbordando
Esconder o que sente não te torna forte, demonstrar seus sentimentos não te torna fraco. Um homem deve saber quando não confiar na mesma proporção que sabe quando confiar. Afinal, um copo cheio uma hora transborda, mas um copo vazio não tem valor.
Sócrates
— Porque… bem, meu senhor trabalha de maneiras misteriosas, nem mesmo nos, os seus servos sabemos o que se passa em sua mente muitas vezes.
— Desembuche antes que eu perca minha paciência, elfo — disse Kali. — Se não é esse o motivo pelo que está aqui, por que então?
— Meu senhor tem uma mensagem para você.
— Ele odeia sua sobrinha tanto a ponto de mandar alguém em seu lugar?
— Ele tem seus motivos.
— Diga.
— Só um segundo… — retirando uma espécie de dispositivo e o colocando em seus ouvidos, o meio elfo tocou uma pequena esfera em sua mão.
A esfera então liberou cerca de 10 segundos de áudio e logo em seguida se desfez em centenas de pedaços. Por fim, o meio elfo retirou o dispositivo dos ouvidos.
— Por que você não podia ouvir? — perguntou.
— Como eu disse, meu senhor tem seus motivos. — Assim que terminou de falar, o homem curvou-se. — Até mais, minha senhora. — E desapareceu nas sombras como se ele nunca tivesse estado ali.
“Tio…” Pensou Kali, olhando a vastidão da vista que sua janela proporcionava. “O que você esta escondendo?”
— AH!
COF COF COF
No meio da noite, em uma das camas das instalações medicas emergenciais, Li levantou-se bruscamente, tossindo enquanto tentava recuperar o folego.
— Meu corpo está inteiro dolorido… o que aconteceu…
— Você ficou inconsciente no final da batalha… os outros estavam aqui mais cedo, mas só permitem um acompanhante na parte da noite e eu fui a única que não participei do torneio, então pedi para ficar.
Glória, que estava sentada ao lado da cama, respondeu calmamente.
— Qual a última coisa que se lembra? — perguntou.
Li abaixou a cabeça, olhando para as próprias mãos. Elas estavam roxas e vermelhas, cheias de ferimentos internos e cortes.
— Eu… perdi…
Mesmo com a dor intensa, ele juntou suas pernas a seu corpo, abraçando-as enquanto sentava na cama.
— Me desculpe.
Glória não o corrigiu de imediato.
— Por que esta se desculpando?
— Eu sinto que decepcionei vocês…
— Matheus e Fynn também perderam, você se sente decepcionado? — Ela o cortou imediatamente.
— É diferente.
Glória o fitou com os olhos.
— Como é diferente? Você se sente mais especial do que eles?
Li virou-se no mesmo instante para ela.
— Não é…
Mas a mulher manteve-se firme. Seus olhos não levavam nenhum sentimento de desprezo, tristeza ou mesmo um pingo de raiva. Apenas genuína preocupação.
— Não é isso — disse, desviando o olhar novamente.
— Então o que é, Li? — continuou. — Por que você se cobra tanto? Por que acha que não tem o direito de falhar enquanto os outros sim?
Diversos pensamentos passaram pela cabeça do homem enquanto ele a ouvia falar, mas todos que tentavam sair ficavam presos em sua garganta. Percebendo isso, Glória mudou a abordagem.
— Por que você se esforça tanto por pessoas que você nem mesmo confia?
Ouvir aquela frase fez com que Li arregalasse os seus olhos escondidos.
— Eu confio em vocês — sussurrou.
— Não, não confia. Se interessa por nos, se preocupa, se esforça, se doa. Mas toda vez que perguntamos sobre você, é sempre a mesma coisa. Você sempre esta bem, mesmo quando não esta e nunca fala sobre você… isso não é confiança.
— Eu… — virando-se para Glória, Li percebeu que ela havia se aproximado a centímetros de distância. Seus olhos verde-esmeralda reluziam até mesmo no escuro.
— Jihan, como você realmente esta?
PLING
— Eh…
PLING PLING PLING
Lagrimas começaram a rolar pelos olhos de Li. Suas mãos subiram ao seu rosto na tentativa de fazer com que elas parassem, mas ele falhou.
— Esta tudo bem… — Glória o abraçou, afundando sua cabeça em seu peito. — Esta tudo bem…
— Eu… estou cansado… com medo… eu… treinei todos os dias, lutei todos os dias! — sussurrou em quanto a enxurrada de lagrimas aumentava. — Não parei, eu continuei, continuei, continuei… por que se eu parasse… se eu parasse…
A mulher ouviu atentamente, segurando-se para não chorar junto.
— Eu não sei se conseguiria voltar a andar…
— Oh, Li…
— Eu tenho tanto medo de dormir… medo de abrir os olhos e tudo isso ser um sonho… medo de vocês desaparecerem!
Glória mordeu os próprios lábios.
“Glória, qué tonta tú eres… como pôde esquecer que ele é só um garoto…” Pensou.
A realidade é que apesar da diferença de idade entre os dois ser pouco mais de 7 anos, a criação dela foi muito diferente. Na verdade, esse período de mais de meia década foi onde a maior parte de sua vida aconteceu. Ela amadureceu a saltos largos por todas as situações que foi obrigada a passar, mesmo assim, o jovem na sua frente havia por vezes se demostrado a melhor pessoa do mundo para se ter ao lado em momentos difíceis.
Quando as coisas se acalmaram, Li resolveu contar para ela sobre sua vida antes de ir para Erebus, desde que era criança até quando recebeu a ligação de Michael. Por mais que confiasse nos seus amigos, ele ainda não teve forças para falar sobre o Avicci, Zilá, que possuía a imagem de seu pai biológico e sobre Nasháh, que havia parado de responder desde a luta contra Otávio.
— Eh… não me admira você ser tão lerdo para algumas coisas… mesmo tendo a capacidade de absorver conhecimento tão rápido — disse Glória.
— Que palavras cruéis…
— Não é uma ofensa, quer dizer que você só não teve a oportunidade de aprender sobre, é melhor do que ter tido e ainda não saber — explicou. — De qualquer forma, esse Jhin, ele deve ser um grande homem.
— Ele é… eu sinto saudade dele…
— Você deveria visitá-lo em algum momento, falo serio quanto a isso.
— Visitá-lo?
— Sim, da mesma forma que esse tal de Michael foi te achar no nosso mundo, você também pode fazer um bate volta se tiver os recursos, não é fácil, mas não é exatamente muito difícil.
— Falando nisso… como você veio parar aqui?
— Eu? Minha mãe me trouxe quando eu tinha uns cinco anos de idade… me desculpe, mas não vou saber te falar exatamente como foi, minha memória não é tão boa quanto a sua.
Era compreensível, não era razoável pedir para uma pessoa lembrar de uma memória de infância que aconteceu há duas décadas. Li pensou por alguns segundos, mas subitamente uma memória veio a sua mente.
— Glória, é possível um humano utilizar magia na terra?
— Por que a pergunta?
— Eu tenho uma memória, digo… acho que tenho.
— Como assim?
— Na luta contra o Otávio… ou o que parecia ser ele, eu ouvi uma voz de uma mulher falando comigo… parecia minha mãe, mas eu não consigo dizer… mas ela fez uma esfera de luz com a mão, tenho certeza de que era Lux!
— Estranho…
— O quê?
— Bem, é minha área de expertise, mas humanos normalmente não tem mana própria, eles a absorvem do mundo. Diferente de elfos, por exemplo, que são seres basicamente compostos por ela — explicou. — Então, a não ser que você absorva mana de uma fonte, um humano não consegue utilizar magia num mundo sem mana como a terra. Além disso, objetos que possuem essa carga na terra são extremamente raros e valiosos.
— Entendi…
— Bem, depois de ouvir sua história, consigo entender por que quer tanto ajudar a Lisa… você se vê nela, certo?
Li não confirmou e nem negou.
— Não estou te julgando, na verdade, acho admirável… você recebeu algo e quer passar adiante, é assim que as boas ações se propagam…
Abaixando a cabeça, ele se lembrou que havia falhado.
— Por que está ficando triste? Você deveria ir descansar, a cerimônia do pedido é amanhã!
Jihan imediatamente virou-se para a mulher, estranhando a sua fala.
— O quê? Eu nunca disse que você havia perdido, mas você também não ganhou.
Seu rosto ficou ainda mais confuso.
— Agradeça a nossa Deusa quando tiver a oportunidade, o duelo foi declarado um empate, Wang caiu ao mesmo tempo que você.
Seus olhos se iluminaram e novamente se voltaram as inúmeras feridas em seus braços.
— Parabéns, Li… você deu tudo de si…
E levou as mãos ao rosto, como se agradecesse ao seu corpo por não ter caído.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.