Capítulo 118: Acalento
Não existe um ser vivo em toda a história do mundo que conseguiu sozinho mais do que um grupo inteiro.
Kali ~ Arte da Batalha
Por mais que houvesse tentado dormir, era muito mais fácil falar do que fazer de fato. Ansioso pela manhã seguinte, Li mal conseguiu pregar os olhos, dormindo apenas duas horas.
“Estranho… não consegui me conectar ao plano mental de novo…” pensou.
Desde a luta contra Otávio, ele não havia conseguido falar com Nasháh. O homem havia desaparecido tanto do seu plano mental quanto do seu dia a dia.
“Bem, quando ele havia me prometido contar um pouco sobre si… bem, não posso pensar sobre o que não consigo mudar.” Concluiu.
— Agora…
— Já terminou? — gritou uma voz ranzinza e grossa do outro lado da cortina
— Só um momento… — respondeu Li, que estava se trocando.
“Por que é ele está aqui?” questionou. Por algum motivo, quando acordou, Ya Shen estava de pé ao lado de sua cama.
— Eu não estou aqui por que quero!
“Ele consegue ler minha mente!?”
— É uma punição.
— Punição?
O homem suspirou.
— Eu fui ordenado a ir diretamente para o Coliseu no dia que o Avicci apareceu… mas não consegui ignorar as pessoas se machucando nos conflitos que ocorreram simultaneamente — explicou. — Devido à minha decisão, diversos cidadãos da cidade e do império foram afligidos pela magia do bufão. Felizmente não houve mortes com exceção de Otávio.
— Mas como isso pode ser sua culpa? Não acho que você tenha tomado uma atitude errada…
— Ignorar ordens diretas da maior autoridade da facção tem uma sentença miníma de expulsão, as únicas razões pelas quais eu ainda estou aqui é a baixa casualidade e a boa intenção… Kali sabe disso, por esse motivo eu ainda mantenho a minha posição.
— O senhor conhece ela há muito tempo?
— Desde que eu era criança.
— Entendi, sendo assim…
— Chega de perguntas, ande logo com isso!
— Sim, senhor!
— Eh…
— O quê?
— Essas roupas…
Shen havia o entregue um conjunto de roupas pretas e vinho. Mais especificamente, o seu conjunto era similar ao do próprio Lorde. Um sobretudo preto militar com detalhes vinho, um chapéu também militar preto com o símbolo de Arcádia exposto na frente. Por baixo do casaco, um colete preto e roupas sociais brancas, somada a calça de alfaiataria, Li concluiu que nunca havia vestido roupas tão chiques em toda a sua vida.
— Esse é o traje oficial de Arcádia — explicou. — Logico, para alguém de nível novato como você parece coisa de outro mundo, afinal, apenas Tenentes para cima costumam comparecer a eventos que necessitam de vestimenta adequada.
— Elas são bonitas, não vou negar…
— Aqui.
— O que é isso?
— É um presente, minha senhora disse que lhe devia um favor.
Buscando em suas memórias, Li lembrou-se que quando apareceu na arena no fatídico dia da semifinal, Kali havia dito que iria recompensá-lo.
“Qualquer recompensa vindo de uma deusa deve ser incrível!
Estendendo a mão, Ya Shen lhe entregou o objeto.
— Um livro? — perguntou, um pouco decepcionado.
— Não subestime, garoto — avisou Shen. — Isso não é um livro, é uma relíquia que ira mudar não somente a forma como o mundo funciona, mas influenciar em todas as gerações que estão por vir. Adoraríamos poder manter esse conhecimento apenas para nós mesmos, mas a escritora se recusou. O único motivo de termos recebido antecipadamente foi a relação da nossa senhora com a autora.
— Isso ira mudar o mundo… — questionou-se. — Parece só um livro normal… Teoria da Intenção, Brigida — Li reconheceu o nome da autora de imediato, porém, no momento em que ia abrir, Shen o parou.
— Você terá tempo suficiente para lê-lo quando estivermos indo para o palácio, mas no momento você tem outras prioridades.
BAM
— Li!
Um grupo de pessoas abriu bruscamente a porta, batendo-a contra parede. Matheus, Fynn, e Selene lideraram o primeiro grupo que tentou entrar ao mesmo tempo, Hans e Glória vieram calmamente logo atrás.
— Ah, galera!
Antes que Li pudesse falar mais alguma coisa, Fynn e Matheus colocaram respectivamente um braço de cada atrás do pescoço do homem.
— Quando você ia falar pra gente, seu canalha!
— Seu desgraçado, você sabia um monte de truques bacanas e não contou para gente! — disse Fynn socando levemente o estomago de seu amigo.
ARGH
— Ei, eu ainda tô machucado.
— Dê um crédito a eles, guardamos essas perguntas por bastante tempo — explicou Glória. — Achamos que seria melhor deixar para depois que o torneio acabasse, afinal, você estava extremamente focado.
— Me desculpa não ter contado antes… queria que fosse uma surpresa, mas acabei tendo que usar todos os meus truques no meio do torneio… ainda assim não terminou do jeito que eu queria.
— Terminou do único jeito que poderia ter terminado — disse Hans. — Estamos orgulhosos de você, Li.
A maioria das pessoas que falasse daquela forma trariam, sim, verdade em suas palavras, mas, diferente de todas as outras, Hans nunca falava por falar, todas às vezes que abria a boca era por um motivo direto e reto.
— Você ficou bem mais legal, Hans! — sorriu.
O homem cuja pele era avermelhada de tão branca ficou ainda mais vermelho. Fingindo coçar a cabeça, ele desviou o olhar.
— Ei, Li, gostou das nossas roupas? — perguntou Selene.
Todos estavam vestidos com trajes parecidos, no entanto, tanto ele quanto Selene pareciam um pouco mais lustrosos. Provavelmente por serem algumas das estrelas do evento.
— Eu queria ter colocado um vestido, mas disseram que esses eram os trajes oficiais — reclamou a conjuradora. — Estou parecendo uma militar…
— Deixa disso, você está muito bem — disse Glória.
— Aliás… tem alguém ali fora? — perguntou Li. Por algum motivo ele sentia 4 presenças do lado de fora da ala hospitalar.
— AH! — exclamou Fynn. — É mesmo, vem cá.
Puxando Li para fora da ala hospitalar, o grupo o levou até as quatro presenças. Do lado de fora, dois grandes seres se posicionavam um a frente do outro e dois menores lado a lado.
“Então esse é o garoto… ele parecia maior.” Pensou o gigante.
— Muito prazer, jovem, meu nome é Gnibry — disse o grande homem de mais de 4 metros estendendo sua mão para Li. Porém, enquanto estendia seu braço, sua altura diminui pouco a pouco rapidamente até chegar aos dois metros e pouco.
— Incrível, isso é possível!? — exclamou Fynn.
Irmin, que estava atrás do gigante, coçou a cabeça e tomou a atitude de responder.
— Para pessoas do nível do meu mestre é muito tranquilo, mas acho que ainda vou demorar um pouco para conseguir fazer o mesmo…
Estendendo seu braço, Li cumprimentou Gnibry.
— Muito prazer, senhor. Obrigado por tomar conta da minha amiga.
— Hahahaha, por muitas vezes é ela que toma conta de mim. — Cumprimentando Jihan, o velho percebeu que seu aperto de mão era firme, digno de alguém que calejou ao máximo seus punhos, resultado de muito trabalho e esforço. — Me deixe lhe fazer uma pergunta, garoto, você tem algum mestre?
— Mestre?
— Ei, Gnibry, sei muito bem suas intenções, mas a resposta é não — Disse Ya Shen, que estava acompanhando-os.
— Tudo bem, não me importo de responder — falou Jihan, sem entender o real significado da pergunta. — Eu tive ótimos professores, a senhorita Amélie me ensinou bastante, o Senhor Prado também, e de certa forma, Dédalos… mas o mestre que realmente me acompanhou durante bastante tempo foi um homem chamado Jhin, na minha cidade natal.
— Hm… Jhin. — Gnibry puxou sua longa barba como se tentasse lembrar de algo, mas desistiu. — Me parece um nome familiar, mas duvido que seja a mesma pessoa, já que presumo que ele, seja da terra.
— Sim, ele é.
— Sendo assim…
— Ei, velho, deixe isso para depois — Uma mulher alta e forte o interrompeu.
— Senhorita Miriem e…
Do lado da mulher alta, uma menor se posicionava.
— Ei, diga alguma coisa — repreendeu a Elfa.
— Tudo bem… Akemi — com uma expressão genuinamente agradecida, Li disse: — Obrigado, eu consegui entender o que você me disse no túnel.
Os olhos de Akemi se arregalaram e ela se aproximou, agindo da única forma que ela sabia, a Meio Elfa o socou diretamente na boca do estômago, surpreendendo a todos. Logo em seguida ela o agarrou abraçando-o com toda a força.
— Se você morrer, eu mesma te mato — sussurrou no ouvido de Jihan e logo depois o empurrou de volta, virando-se e saindo andando rapidamente na direção da própria carruagem.
— Me desculpe — Miriem imediatamente falou levando a mão ao rosto. — Aquela garota… ela não deve ter ideia de como te pedir um abraço…
— Tudo… tudo bem — respondeu, com a mão ainda cobrindo o estomago. — Fico feliz que ela está bem, agradeço por estar tomando conta dela.
— Ela… gosta realmente de você, sabia?
Li acenou com a cabeça, mas não respondeu. Suspirando, Miriem despediu-se do restante do grupo, logo em seguida Gnibry e Irmin fizeram o mesmo; a gigante em especial abraçou calorosamente Selene. Por mais que eles estivessem indo para o mesmo evento, teriam dificilmente o tempo para fazer o mesmo após o fim dele.
— Então, vamos? — disse Matheus.
— Vocês podem ir na primeira carruagem, eu e Jihan iremos na segunda — disse Ya Shen.
— Eh? — Li estranhou.
— O presente — sussurrou.
— Ah! Encontro vocês lá!
— Okay. — O grupo estranhou, mas visto que era um lorde falando, eles não tinham muito como contestar.
A primeira carruagem chegou rapidamente e a segunda logo após.
— Deve demorar cerca de trinta minutos para chegar ao palácio, especialmente pelas ruas estarem engarrafadas devido à data comemorativa — falou Ya Shen. — Deve ser o suficiente para que você leia por cima.
Abrindo o livro, Li calmamente leu o manuscrito.

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