Índice de Capítulo
    1. Tratado sobre a Intenção, ou por que toda magia antiga estava errada

    Eu não vim para esse mundo com a intenção de ser uma deusa do conhecimento, mas me deram esse posto, pois eu sempre estudo acerca dos mistérios desse mundo. Tenho meus motivos e tenho minhas vontades, mas é fato de que minha aceitação e posição me dão responsabilidades pelas quais por mais que não solicitei, ainda devo respeitar e cumprir, afinal, recebo muitos benefícios para completar minhas pesquisas e dessa forma devo recompensar a sociedade como tal.

    Durante dezenas de anos, fui chamada de deusa da ciência, mas essa palavra, em sua forma vulgar, jamais foi pela qual referi a mim mesma. De forma alguma sou deusa, e muito menos a da ciência, meus dons são apenas frutos dos incontáveis anos que dediquei minha vida a pesquisar e estudar. Ciência, em sua etimologia, tem como base o significado de conhecimento, porém eu não sou digna de ser chamada aquela que conhece tudo, se algum tipo de nome me cabe é a de Deusa do Studium. A deusa que pergunta porque quando todos aceitam o porquê sim.

    E foi observando o uso daquilo que vocês chamaram de mana que compreendi:

    O sistema antigo não estava apenas incompleto, ele era conceitualmente falho.

    A. O Erro Fundamental da Mana

    Chamaram-na de mana, como se um nome antigo fosse suficiente para legitimar um conceito frágil e volátil. Trataram-na como um fluido, um reservatório, um combustível. Algo que se gasta, se recarrega, se consome como lenha em uma fogueira. Mas essa analogia, embora útil para iniciantes, sempre foi uma mentira confortável. A mana, tal como era ensinada, pressupunha três erros graves:

    1. Rigidez estrutural
    2. Hierarquia artificial de poder
    1. Desconexão entre vontade e efeito

    A rigidez estrutural manifestava-se nos chamados círculos, níveis ou graus. A magia era compartimentalizada como se o universo obedecesse a gavetas. Quarto círculo. Sexto círculo. Oitavo círculo. Como se o poder obedecesse a escadas fixas, e não a vetores. Isso funcionava, admito, para aprendizes. Para aqueles que ainda precisam visualizar o mundo em blocos simples. Mas conforme os praticantes avançavam, o sistema começava a se contradizer. Uma habilidade de quarto círculo, executada com foco absoluto, podia superar uma de sexto círculo lançada de maneira descuidada. E então surgia a pergunta que ninguém queria responder:

    Se o círculo define o poder, por que a execução a súpera?

    A resposta sempre esteve ali, ignorada: O que importa não é a forma da magia, mas a intenção por trás dela.

    B.  A Ilusão do Recurso

    Mana foi tratada como um recurso externo. Algo que se possui, não algo que se exerce. Algo que se mede em números, não em domínio. Isso criou uma geração inteira de conjuradores que acreditavam que poder era quantidade, não qualidade (O que explica o motivo dos primeiros usuários serem muito mais poderosos do que os atuais, afinal, eles não seguiam padrões estúpidos de controle)

    Mas observem com honestidade: quantos magos possuíam vastas reservas e, ainda assim, eram incapazes de realizar feitos verdadeiramente refinados? Quantos guerreiros tocados pela magia jamais lançaram um feitiço sequer, mas alteraram a realidade com a simples força de sua presença?

    Mana nunca explicou isso. Porque mana nunca foi a resposta.

    C. A Redescoberta do Princípio Esquecido

    Aquilo que permeia o ar, a terra, os corpos e os pensamentos nunca foi mana. Ela foi apenas um nome conveniente para algo maior. Algo mais antigo. Algo mais simples. Alguns povos a chamaram de Asha, outros de Anima, outros de Numa. Eu a chamo pelo nome que melhor descreve sua natureza observável:

    Prana.

    Prana não é poder.

    Prana é potencial.

    Ela habita todas as coisas, indiscriminadamente. O assassino e o santo respiram o mesmo Prana. A montanha e o inseto compartilham da mesma presença invisível. O Prana não escolhe. Ele não julga. Ele responde.

    E a única coisa à qual o Prana responde é a Intenção.

    D. Intenção: A Verdadeira Fonte

    Intenção não é desejo.

    Intenção não é emoção.

    Intenção não é fé cega.

    Intenção é o ato consciente de direcionar a vontade.

    Quando um indivíduo decide, com clareza suficiente, que algo deve acontecer, e sustenta essa decisão, o Prana se organiza em torno dessa escolha. Não porque o indivíduo é especial, mas porque o Prana é obediente à estrutura da mente.

    É aqui que nasce o conceito que destrói completamente o sistema antigo:

    Intensio.

    Intensio é a quantidade de intenção aplicada sobre algo.

    Não em termos poéticos, mas mensuráveis.

    Quanto mais Intensio, mais o Prana se curva.

    Quanto mais refino, mais precisa é essa curvatura.

    Quanto mais controle, menor o desperdício.

    Isso explica, finalmente, por que uma técnica “inferior” pode superar uma “superior”. Não existe superioridade intrínseca em formas, existe apenas intenção aplicada com maior Intensio.

    E. A Escala Natural do Poder

    O erro da mana foi tentar classificar o poder pela forma.

    O novo sistema o classifica pela consciência.

    Assim nasce a Escala da Intenção.

    Ela não mede o que você faz.

    Ela mede o quanto você entende o que está fazendo.

    Centelha é o início. O momento em que o indivíduo sente o Prana pela primeira vez, sem o compreender.

    Sopro é o uso instintivo, irregular, quase reflexo.

    Ressonância surge quando Intenção e Prana começam a dialogar.

    Caminho marca a escolha consciente.

    Propósito dá identidade ao uso.

    E então chegamos ao ponto central:

    Intensio.

    Aqui, a intenção deixa de ser abstrata. Ela se torna mensurável. Comparável. Refinável. O praticante passa a compreender quanto de si está colocando em cada ação. Após isso, o crescimento não é mais explosivo, mas estável: Harmonia, Forja, Convergência, Transcendência, Apoteose… até que, em raríssimos casos, ocorre a União, quando intenção e Prana deixam de ser entidades separadas.

    Nesse estágio, a vontade não precede o efeito.

    Ela é o efeito.

    Dessa forma, eu proponho que o antigo método de círculos seja substituído pela forma que o sujeito consegue afetar a Prana.

    1. Centelha

    O primeiro despertar da intenção.

    O indivíduo sente o Prana, mas não o compreende.

    2. Sopro

    A intenção começa a mover o Prana instintivamente.

    Fluxo irregular, uso inconsciente.

    3. Ressonância

    Intenção e Prana começam a responder um ao outro.

    O uso gera ecos e reações previsíveis.

    4. Caminho

    A intenção deixa de ser reação e se torna escolha.

    O usuário começa a direcionar o Prana.

    5. Propósito

    A intenção ganha significado.

    Aqui nasce o estilo pessoal de uso do Prana.

    6. Intensio

    Marco central da escala.

    Quantidade, força e foco da intenção tornam-se mensuráveis.

    7. Harmonia

    Intenção, Prana e corpo entram em equilíbrio.

    Redução de custo, maior estabilidade.

    8. Forja

    A intenção é refinada ativamente.

    O usuário molda efeitos com consciência técnica.

    9. Convergência

    Múltiplas intenções podem coexistir.

    Início de combinações avançadas.

    10. Transcendência

    A intenção supera limitações comuns.

    Interação com Eixos avançados torna-se possível.

    11. Apoteose

    A intenção atinge um estado quase absoluto.

    Aqui nasce a ideia da “Expansão de Controle” Onde a Prana corresponde e se transforma a sua vontade.

    A presença do usuário altera o ambiente prânico.

    12. União

    Intenção e Prana tornam-se um só.

    A distinção entre vontade e efeito desaparece.

    Nenhum exemplo conhecido.

    Por mais que rótulos me deem enjoo, precisamos de um mínimo organizacional para não perdemos nosso norte. 

    F. O Fim dos Elementos

    O antigo sistema acreditava que o mundo era dividido em elementos. Água, fogo, terra, vento. Luz, sombra, escuridão e Almôs, possuindo diversas variações a partir desses pontos centrais. Como se a realidade fosse um conjunto de substâncias, e não de processos. O novo sistema abandona essa simplificação infantil.

    Não existem elementos.

    Existem Eixos de Manifestação da Intenção.

    Fluxo não é água, é movimento contínuo.

    Forma não é terra, é estrutura.

    Ímpeto não é fogo, é liberação de pressão.

    Vetor não é vento, é direção aplicada.

    Clareza não é luz, é ordem cognitiva.

    Véu não é sombra, é ocultação intencional.

    Vazio não é escuridão, é negação ativa.

    Ritmo não é tempo, é cadência.

    E quando a intenção se torna complexa demais, surgem os eixos avançados:

    Convergência, Âncora, Eco, Limiar.

    Cada eixo é uma maneira diferente de a intenção interagir com o Prana, não uma afinidade mística arbitrária.

    De vez em nunca, exceções nascem, aberrações da natureza abençoadas com um físico que manifesta Prana de forma avançada inconscientemente. Vamos ser sinceros, o mundo não é igualitário, mas ele é equilibrado, então tais físicos são acompanhados de deficiências que os acompanham.

    Em meus estudos, tive a oportunidade concedida pela facção de Arcádia de estudar um homem que nasceu com um físico que lhe permitia Convergência. No entanto, tal físico feria não só a mulher que o carregou em seu ventre a ponto de matá-la, mas também fere o seu corpo brutalmente toda vez que o utiliza.

    G. As Ramificações e o Preço do Poder

    Nenhum poder existe sem custo. O sistema antigo mascarava isso com números. O novo o expõe com consequências.

    Quem manipula Ânima arrisca sua própria existência.

    Quem domina Dissímulo pode perder a identidade.

    Quem força Colapso flerta com a aniquilação.

    Esses não são castigos divinos.

    São falhas estruturais previsíveis.

    A ciência não pune. Ela descreve.

    H. As Classes Não São Profissões, São Métodos

    No sistema antigo, classes definiam o que você fazia.

    No novo, elas definem como você pensa.

    O Condutor aplica a intenção sobre si.

    O Moldador canaliza externamente.

    O Vinculador delega a intenção a entidades.

    O Regente governa múltiplas intenções.

    O Tecelão manipula a intenção de outras coisas.

    Nenhuma é superior. Todas são limitações escolhidas.

    Conclusão: A Inevitabilidade da Mudança

    O sistema antigo não estava errado porque era fraco. 

    Ele estava errado porque além de incompleto, ele era conceitualmente falho, logo incompatível com esse mundo.

    Ele ensinava formas antes de compreensão.

    Resultados antes de causa.

    Poder antes de responsabilidade.

    O novo sistema não é mais poderoso.

    Ele é mais honesto.

    E tudo o que é honesto, eventualmente, substitui o que é conveniente.

    Eu observei essa transição em todos os mundos onde a razão venceu o mito.

    Este não será diferente.

    A intenção sempre foi a fonte.

    O resto foi apenas linguagem mal escolhida.

    Brigida

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