Índice de Capítulo

    Venerados serão aqueles que não deixam encostarem em seus pés, pois jamais rebaixaria outro para abaixo de seus joelhos. 

    Demetrios Anthrópinos I 

    — Isso… 

    Li fechou os rascunhos depois de passar as últimas meia hora lendo. 

    — Você não estava brincando quando disse que mudaria o mundo… é real? 

    — Que tipo de pergunta é essa, é claro que é real — retrucou Shen. — Bem, é o que eu queria dizer, mas, sinceramente, é realmente difícil de acreditar. 

    — Sim… — concordou. — Estou em Erebus a poucos meses, mas eu li muito sobre a mana. Sempre questionei por que existiam tantas interpretações diferentes, mas esse manuscrito… parece que tudo se encaixa. 

    — Brigida não é a Deusa do Conhecimento à toa — complementou o Lorde. — É bizarro de imaginar o quanto o mundo progrediria se ela focasse nisso. 

    — Não foca?  

    — Ela tem planos, pessoas, mas não vem ao caso. De qualquer forma, não espalhe nada disso até que seja liberado para o público, minha senhora lhe deu uma recompensa muito maior do que o normal, afinal, apenas ela e os lordes da facção tiveram acesso a esse conhecimento.  

    — Sim, senhor. 

    — Enfim, chegamos. 

    Após um bom tempo andando, a carruagem finalmente parou. Durante o tempo que Li havia se concentrado totalmente na leitura, o veículo havia passado por um portão cercado por um grande muro no centro da cidade. 

    — Esse lugar é enorme, como eu não havia visto, deve ser impossível de não perceber vendo de longe. 

    — Claro, a realeza não seria tola de permitir qualquer pessoa ver tudo que acontece dentro do terreno de seu Palácio — explicou Shen. — Existe uma barreira circunscrita nos muros que cercam o território. 

    — Uma barreira… de acordo com o novo sistema, teria sido feita por um tecelão?  

    — Correto, aquele que imbui a Prana em outros dispositivos como armas, pergaminhos e construções são Tecelões. 

    — Me parece bem poderoso e útil… 

    — Sim, mas como dito no manuscrito, tudo sempre tende a um certo equilíbrio, no caso, enquanto como Tecelão você possui a capacidade de criar efeitos complexos através de outros objetos, você precisa de uma longa preparação, amplo conhecimento, controle excepcional e, é claro, o objeto.  

    — Entendi, digo, tem seus pontos negativos, mas com as condições certas, como em uma facção, alguém talentoso teria muito espaço para brilhar, certo? 

    — Na mosca, por esse mesmo motivo que a ordem de procurar pessoas talentosas em imbuir foi emitida silenciosamente dentro de Arcádia — confirmou Shen. — Enfim, vamos logo… 

    — Espere um segundo — interrompeu Li. — Uma última pergunta. 

    — Seja rápido.  

    — Em diversas obras que li sobre a mana… a igreja é citada fortemente… essa nova leitura da energia que cerca permeia o universo não entraria em conflito com os ideias considerados divinos? 

    O lorde sorriu ligeiramente preocupado. 

    — Você tocou num ponto delicado… com certeza a igreja de Yan, especialmente a filial aqui em Anpýrgio criara problemas em relação a isso, mas não há nada que eles possam fazer, afinal, como disse Brigida, tudo o que é honesto, eventualmente, substitui o que é conveniente. Vamos logo. 

    Li respirou fundo, pois ele estava prestes a criar problemas com a igreja antes mesmo do manuscrito ser liberado para o público geral. Descendo da carruagem, ele pôde ver de perto a magnitude da construção. Um palácio completamente dourado; a cor era característica da família real de Anthrópinos, visto que seus descendentes nasceram com a marca do governante, cabelos e olhos dourados. 

    A entrada, um portão de mais de cinco metros de altura, estava recheada de guardas posicionados alinhados de um lado e do outro. O comandante, bem disciplinado, reconhecia de imediato cada um dos convidados que chegavam. Sua armadura dourada e capa branca destacavam-se em qualquer lugar onde o sol reluzisse.  

    — Não os subestime apenas por serem guardas, cada soldado aqui tem nível de líder de equipe e o homem tem capacidade de enfrentar um vice-lorde — sussurrou Shen. — Muitos fazem piada com o exército, mas por meio de formações e táticas de grupo eles têm total capacidade de bater de frente com facções grandes. 

    — Lorde Shen — o homem a frente dos guardas o cumprimentou.  

    — Comandante Thomas. 

    — Os outros membros de Arcádia já entraram. 

    — Muito obrigado. 

    Enquanto as portas abriam, Jihan, ainda do lado de fora, já conseguia ouvir centenas de vozes conversando. Entrando, o salão conseguia ser ainda mais impressionante do que o lado de fora, seu tamanho já era surpreendente, se estendendo por milhares de metros quadrados. Vendo de longe, havia uma clara divisão entre as pessoas presentes que era facilmente identificado pelos trajes que cada um usava; alguns grupos mais elegantes, outros formais, militares, alguns até extravagantes; cada facção presente utilizava roupas ou cores diferentes.  

    — Vamos — disse Shen, caminhando em direção ao grupo com trajes militares escuros. 

    Li seguiu logo atrás. Por onde passava as pessoas o encaravam e cochichavam uns para os outros. 

    — Não se importe com eles, devem estar surpresos com o fato de que você está no mais baixo escalão da facção. 

    Antes não havia percebido, mas depois de acompanhar os olhares, notou que em seu ombro havia uma estrela, já no ombro de Shen havia uma coroa. Se aproximando do grupo, notou diversas figuras familiares. A sua equipe conversava livremente entre os outros integrantes de Arcádia. O primeiro a se aproximar foi um que Li devia bastante. 

    — Ei, garoto! — Prado o chamou, enrolando o braço em torno de seu pescoço. — Seu pivete, ouvi dizer que utilizou meu estilo na final do torneio, foi mal não estar lá para poder te assistir! 

    Li, antes nervoso pela pressão dos olhares, pouco a pouco foi se acostumando com o ambiente familiar. 

    — Sim, muito obrigado, Sr. Prado — respondeu. — Por sua causa pude durar um pouco mais na arena. 

    — Não precisa agradecer, fico feliz que meus anos de treinamento foram passados adiante, espero que continue o aperfeiçoando junto comigo. 

    — Claro, espero poder continuar contando contigo também. Em breve volto ao campo de treinamento. 

    — Não precisa ter pressa. Ei, venha cá, deixa eu te apresentar uma pessoa — puxando-o. O homem se aproximou de uma mulher de estatura semelhante que segurava uma pequena criança em seu colo. Diferente dela, ela estava utilizando um vestido branco, possuía cabelos encaracolados longos e olhos castanhos. — Ei, amor, esse é o menino que te falei! 

    “Amor?”  

    — Li, essa é a minha esposa, Petra. 

    — Muito prazer, Li, espero que meu marido não esteja sendo difícil com você — disse a mulher, com uma voz suave.  

    — O senhor é casado!? — surpreendeu-se. 

    — Por que não seria?  

    — Digo… você é tão jovem. 

    — Eu tenho quase trinta… de qualquer forma, esse molequinho aqui é o Riluk — continuou. Pegando o bebe no colo. — Bem, Rilulu, diga ‘oi’ para seu tio Li. 

    Dada. 

    — Você é tão fofo, meu filho! — Prado abraçou o bebe de perto, passando sua barba no rosto liso do bebê, claramente insatisfeito com o pelo pinicando seu rosto. 

    “Ele realmente parece um pai de família olhando desse jeito.” 

    — Jihan, venha, tenho uma pessoa para te apresentar — Shen o chamou. 

    — Certo — virando-se para Prado, ele se despediu. — Nos vemos mais tarde, um prazer te conhecer Sra. Petra e Riluk.  

    Aaan 

    — Ele disse tchau — traduziu a mulher.  

    Seguindo Shen, ele o levou até uma mulher de cabelos e olhos azuis como o céu ao final da tarde. Ao lado dela, uma pessoa que Li reconheceu de imediato falava como se uma fã houvesse encontrado sua ídola, mal conseguindo completar uma frase sem gaguejar. 

    — Lorena — O lorde a chamou. 

    — Oh, esse deve ser Siriús. 

    — Siriús? — Li estranhou a forma que a mulher se referiu a ele. 

    — Ainda não te contaram? — questionou. — Esse apelido está se espalhando desde a sua luta na semifinal. Queria ter estado lá para ver, mas eu estava bem ferrada da minha luta. 

    “Ela é bem extrovertida” Pensou, olhando para a mulher que exalava energia. 

    — Eu cheguei a assistir a um de seus confrontos, foi magnifico, honestamente não acho que duraria mais de 5 minutos contra… 

    — Você vai ter muito tempo para fazer esse teste quando eu estiver lhe ensinado. 

    — Desculpe, não entendi… 

    — Ah, Shen, você não contou para ele?  

    — Deixaremos isso para outra hora… a cerimônia está para começar. 

    Durante a curta conversa, Selene não havia tirado os olhos da mulher. No final do salão, cinco tronos se erguiam um ao lado do outro. O do meio era o maior, seguido do ao lado, um pouco menor e outros três ainda menores do mesmo tamanho. 

    De uma grande porta à esquerda do salão, um grupo de pessoas exuberante saiu, entre eles estava Kali e Veritas, além de Victórios II. Outra duzia de seres extraordinários também estavam juntos. 

    — Incrível, a energia que emana de cada um dos Deuses é aterrorizante — comentou Lorena. 

    “São todos Deuses?” Pensou Li, observando-os. Cada ser era mais excêntrico que o anterior, dentre eles havia um que Jihan se lembrava bem. “Aquele é Daiko?” 

    O outrora lindo homem estava com uma expressão sombria. 

    “Bem, não é de se espantar, a facção dele deve ter tomado um golpe fortíssimo com um dos representantes entrando em conluio com um demônio…”  

    Apenas alguns dos deuses estavam presentes. Kali, Daiko, Veritas, Nitocris, Risis, Yomu, Juiz, Dolion e Fenrir. 

    Nitocris, a Deusa da colheita e da fertilidade, líder da facção do Nilo, possuía a pele morena e o cabelo verde, lembrando folhas recém-nascidas em primavera. A energia exalada ao redor dela era cheia de vida e ela misteriosamente exalava um cheiro de terra molhada. 

    Risis, a Deusa do Sol, líder da facção de Solaris, era brilhante, cabelos loiros e pele levemente tonalizada pelo sol era relativamente baixa comparada aos outros. 

    Yomu, líder da facção de Nixis era o contrário da sua contra parte, Deus da Lua, sua pele era branca como cal e seus olhos pretos como a escuridão. Sua única similaridade com a outra era sua altura também baixa. 

    Juiz, Deus da justiça, diferente dos anteriores, era um homem velho, mesmo em ocasião festiva, ele trajava uma armadura pesada com o símbolo do martelo, da facção de Ordem, cravado em seu peito. Sua barba branca era longa e lembrava Li de um certo bibliotecário.  

    Dolion era magro, porém alto, sua face era quase uma careta, olhos esbugalhados e lábios longos. Seu título de Deus da Trapaça e líder da facção de Loki fazia jus a si mesmo. 

    Por fim, um demi-humano, possuindo mais de dois metros e meio, o lobo humanoide, era aterrorizante para qualquer um. Seus dentes eram vermelhos e sua pelagem preta com manchas de cor de sangue. Não somente alto, sua largura também era invejável, porém, o que mais chamava atenção eram suas garras, não precisando nem mesmo que fossem encostadas para presumir que sua durabilidade era quase infinita e seu corte era mil vezes mais afiado do que uma espada feita pelo melhor ferreiro. Seu nome, Fenrir, Deus das Bestas e líder da facção de Bestialia. Diferente dos outros ali, ele não representava somente sua facção, mas também sua raça, sua presença possuía o mesmo grau de importância que os humanos em frente aos tronos de ouro. 

    Em frente a cada grupo de facção, uma cadeira formosa estava disposta para os Deuses se sentarem. Além disso, diversos lordes de outras facções também estavam presentes, representando seus respectivos deuses, entre eles, Miriem, representando Calen Zoe, Deusa dos Espíritos e líder da facção de YggDrasil, e Gnibry, representando Atlas, Deus dos Gigantes e Líder da facção única da raça, Magdala.  

    A frente deles, dois homens jovens, um homem mais velho, uma menina ainda de menor idade e uma mulher mais velha estavam dispostos. Todos, com exceção da mulher, possuíam o traço da família real; olhos e cabelos dourados. 

    — Comecemos — anunciou Demetrios Anthrópinos I, O Imperador. 

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