Capítulo 123: Homem
Reis e rainhas, príncipes e princesas, generais e comandantes… o povo não precisa de outro mandante, eles precisam de alguém que sangre por eles.
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Em frente a Jihan, dois portões de meia duzia de metros se erguiam imponentemente. Seus detalhes de ouro, bordados como um lindo quadro, faziam parecer com que fosse um. Nas laterais, diversas criaturas foram esculpidas, algumas que Li já conhecia de seu mundo; um dragão, uma serpente, algo parecido com um lobo e outro parecido com um tigre, o restante, pareciam monstros irreconhecíveis.
No topo do portão, jazia uma frase inscrita em esmeraldas. Testando o que havia lido, Li canalizou o prana em seus olhos, forçando a sua intensio ao máximo em decifrar aquelas palavras, mas mesmo depois de um tempo ele falhou.
— Está curioso com o que está escrito? — perguntou Victorios.
Acenando com a cabeça, ele confirmou.
— Esse portão é chamado de “Os caminhos do mundo”, ele é mais antigo até mesmo do que o império — disse Nina.
— Está certíssima, minha irmãzinha — concordou o primogênito. — A frase acima do portão diz “Tudo que está quebrado, pode ser reforjado”.
— É lindo — comentou Jihan.
— Espere só até entrar lá dentro! — falou Nina.
Caminhando em direção à porta, dois homens que estavam guardando o portão os pararam. Com um simples olhar, Li conseguiu dizer que eles não somente eram adversários formidáveis, como provavelmente ganhariam dele facilmente em uma luta justa.
“Faz sentido, estão guardando o cofre real” concluiu.
— Vossa majestade, sabe que mesmo sendo o senhor, não podemos deixá-lo entrar sem a devida permissão — falou um dos guardas.
— Sim, claro.
Estendendo a mão, ele entregou na mão do sujeito uma pequena esfera azul. Assim que a esfera tocou a mão do guarda ela se desfez. Virando na direção do outro, ele acenou com a cabeça.
Logo em seguida, ambos se direcionaram ao portão e posicionaram suas mãos nas portas. Imediatamente elas brilharam e lentamente foram empurradas até que se abrissem. Atravessando-o Li se deparou com uma visão esplendida, mas não eram dos tesouros e sim do teto do cofre. Victórios olhou para Nina, que estava com um sorriso malicioso em seu rosto.
“Parece que ela estava ansiosa para ver a reação dele…” pensou. “Acertou em cheio quando disse que os tesouros não seriam os primeiros a chamar sua atenção.”
No teto do cofre, uma sequência de artes se estendia do início ao fim do salão gigantesco, imagens que se moviam levemente, contando uma história.
— O que é isso?
— O que mais seria — disse o príncipe. — É a história do Império.
Artes de guerras, coroações, casamentos e alianças decoravam o teto. Nelas, a humanidade caiu, se levantou e apontou suas armas para os céus. Homens de cabelo dourado e olhos brilhantes lideravam exércitos massivos contra criaturas demoníacas. Avançando, até o último homem.
Em uma delas, no entanto, um homem que não possuía nem cabelos de ouro, nem olhos cativantes se destacava em meio a um banquete pela sua falta de semelhança com os outros.
— Quem é aquele?
— Aquele? — Victórios cerrou os olhos. — Ele te chamou atenção?
— Ele é diferente de todos, não parece ser nobre e nem carrega um ar de realeza.
— Porque não é.
— Então?
— Me diga, Li, você sabe como Deuses nascem?
— Nascem? — estranhou. — Achei que eles se tornassem.
— Sim, foi o que eu quis dizer… mais ou menos… quando o ser se torna um Deus, ele renasce como uma nova entidade.
— Bem, não é só ser forte suficiente para isso?
— Você pode ir por esse caminho, ser forte o suficiente para fazer com que o universo te reconheça… mas existe outra forma.
— Outra forma?
— Sim… essa outra forma é… — Victórios apontou o dedo para cima. — Fé.
— Fé…?
— Parece besteira?
— Não… só diferente.
— É diferente porque é raro, existem poucas entidades que se tornaram Deuses a partir da fé. Podiam não ser tão fortes quanto os que fazem o universo os reconhecer, mas eles tinham um caráter especial, podiam movimentar massas com uma frase. — Apontando para o homem na figura, ele continuou. — Esse homem foi um deles, por alguns foi chamado de Deus da sobrevivência, por outros Deus da Luta… mas quando surgiu ele era mais famoso por trazer esperança.
O homem de cabelos vermelhos espetados e olhos verdes vestia roupas simples e era facilmente destacado entre os nobres na imagem; diferente de todos, ele não parecia exalar grandeza ou perigo, apenas simplicidade.
— Onde ele está agora?
— Ele caiu.
— Caiu?
— Essa é a fraqueza de Deuses criados por fé… quando ela acaba, ele também desaparece… pelo menos é o que dizem, já faz um seculo que não se ouve falar dele… apenas essa imagem e aquela frase restam — falou, apontando para a parede no final do cofre.
Diversas estátuas grandes de homens com coroas em suas cabeças e espadas em suas mãos estavam esculpidas na parede. Apenas uma frase estava escrita no topo. Li novamente tentou ler, mas, por algum motivo, dessa vez ele conseguiu.
— “Os céus não me temem porque eu sou um deus, eles me temem porque sou um homem.”
— Incrível, você sabe rúnico, Senhor Li? — perguntou Nina.
— Ah… só um pouquinho — mentiu.
— Enfim, já estamos aqui há muito tempo, por que não escolhemos algo? — disse Victórios, mudando de assunto.
Só aí que Li parou de olhar para as decorações e começou a notar as preciosidades que o cercava. Diversas armas e relíquias estavam expostas, visivelmente protegidas por runas que criavam barreiras ao redor.
— Vocês têm uma manopla? — perguntou.
O primogênito pensou por um instante, mas negou.
— Acredito que a única manopla disponível se encontra no segundo andar…
Olhando ao seu redor, nada parecia verdadeiramente chamar a sua atenção, afinal, seus olhos eram de alguém inexperiente com relíquias de verdade.
“Queria que Matheus estivesse aqui, ele provavelmente saberia melhor…”
— Vocês têm alguma recomendação?
Ambos os herdeiros pensaram.
— Lanças, espadas e outras armas não te interessam?
— Bem, se possível não. Preciso melhorar meu arsenal, mas gostaria de algo que utilizasse de maneira principal já que as manoplas que eu tinha quebraram… — respondeu, lembrando-se com dor da última Járngreipr se partindo com o golpe final.
— Temos alguns artefatos… como, por exemplo, a Bússola de Odisseu que te permite enxergar por ilusões de nível alto, ou a Caravana de Arquimedes que é puxada por mana e funciona como um barco… ou…
Enquanto Nina falava, um sussurro surgiu no ouvido de Li. Palavras que ele conhecia, mas não entendia. O que inicialmente pareciam pequenas letras, se tornaram palavras, cada vez mais altas em sua cabeça. No entanto, por mais que se esforçasse, não conseguia entender.
— Senhor Li, você está bem? — perguntou Nina.
— Perdão… é só uma dor de cabeça…
Porém, um grito ecoou em sua mente e o fez virar na direção de um dos objetos. No instante em que seus olhos se encontraram com o objeto, as palavras que antes eram sussurros se tornaram palpáveis, como se percorressem o ar.
— O que é aquilo?

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